Sebo no Chão, som na caixa!

Acervo Sebo no Chão. Divulgação
Acervo Sebo no Chão. Divulgação

Estive uns poucos domingos no Movimento Sebo no Chão, capitaneado pelo estudante Diego Pires, que fim de semana após fim de semana, tem ocupado a praça defronte à Igreja Católica do Cohatrac.

Louvo a iniciativa principalmente por duas características suas: a gratuidade e a descentralização, já que quase tudo em São Luís acontece na região central da capital.

Mais que moda passageira, como tanto vemos por aqui, o Sebo no Chão caracterizou-se como um importante espaço de vivência cultural. O nome do evento remonta ao início, quando simplesmente Diego começou a vender livros na calçada, ao que depois agregou shows musicais, teatro, cinema, gastronomia, brechó, literatura etc.

Muitos artistas já passaram pelo espaço, que agora quer melhorar a estrutura que oferece ao público presente, parte dele já cativo, outra formada de frequentadores ocasionais – caso deste blogueiro.

O Sebo no Chão está com uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse, visando adquirir o equipamento de som necessário para a realização dos shows. Mais detalhes no link.

Há algum tempo, no Vias de Fato, o perro borracho Igor de Sousa, publicou um texto sobre o acontecimento dominical.

SEBO NO CHÃO É PESO!

Reuben da Cunha Rocha: "o conceito de centro serve para ser invertido, parodiado, pervertido, sendo uma oportunidade para dar nó em cabeças"
Desenho de Torres Gárcias

POR IGOR DE SOUSA

Era final de 2013, creio que outubro ou novembro, num desses domingos sem muita coisa para fazer, provavelmente iria ficar em casa, pois não tinha grandes opções de diversão. Porém, uma semana antes, fiquei sabendo através do facebook que Margos Magah iria tocar lá pelo Cohatrac. Pergunto-me por que diabos Magah, que mora no centro da cidade, irá fazer pelas bandas dali, uma vez que não sei ou não sabia de nenhuma atração naquela região.

Dou meu jeito de chegar à Praça do Cohatrac. Vejo-me num tal Sebo no Chão e fico surpreendido com o cenário: de um lado, gente jovem, em meio a praça pública, conversando, se conhecendo, tomando cerveja, vinho barato, olhando livros, cds e vinis estendidos num tapete,  provando comidas, sacando camisetas. Noto que o ambiente não é a habitual São Luís para gringo ver, com os boizinhos, versos de louvação à cidade, tambor de crioula a todo canto e hora, que contrastam com a pobreza dos mendigos, engraxates e usuários de crack que passam, encostam nas mesas querendo uns trocados e que ninguém vê ou finge não ver. São os tornados invisíveis pelo discreto. A cena é outra e o pessoal também: vejo punks, skatistas, anarquistas, feministas, gente fazendo uns malabares, coisa que habitualmente pouco se vê. Fico pensativo, estou meio deslocado por que não conheço absolutamente ninguém. É gente que nunca tinha visto na vida, ou se vi, pouco prestei atenção.

O show começa, é provavelmente num local cedido pela Igreja em frente à praça e entre um gole e outro de cerveja, canto, converso, sorrio, me divirto. Esse é o Movimento Sebo no Chão. Trata-se de uma realização simples, tendo em vista a produção de pequenos espaços de liberdade e descontração, numa cidade em que há muito tempo deixou de realizar iniciativas acessíveis para seus jovens e adultos, que abandonou suas praças e deixou-se levar pelos shoppings e condomínios como sinônimo de conforto, segurança e modernidade. A ideia é essa: reunir-se, estar com os amigos, tomar alguma coisa, comer, sentir-se bem, viver mais um dia, discutir, ouvir um som massa. Por ali, fazendo shows, apresentações e debates, já passou gente como: Acsa Serafim,  Nonnato Masson, Celso Borges, a galera do Luíses – Solrealismo maranhense, gente do Movimento Passe Livre, Bruno Azevêdo, Reuben da Cunha Rocha, Ramusyo Brasil, Sergio Muniz, Wagner Cabral, Rafael Silva, Marcos Magah, entre outros.

Assim, tem-se ido meus domingos, como o de várias outras pessoas. Inverte-se o mapa da cidade, dando o lugar de centro ao que habitualmente se chama de periferia. Mudam-se os ares e as discussões. Em seu facebook, num post recente, Diego Pires, um dos idealizadores do Movimento, diz o seguinte: “respondo muitas reportagens por conta do Sebo no Chão, às vezes, pessoas me ajudam a responder (como Davi Galhardo) e me lembro em que uma disse que o Cohatrac não é periferia, porque é meu centro, onde construo minhas relações sociais, compro meu rango, vou a dentista, descolo meu troco, jogo bola, tomo um cerveja, namoro, e me divirto na praça, ando de bike… Temos que desconstruir esse conceito antigo/didático/asséptico de centro-periferia, isso é uma classificação que não existe pra mim e pra muitas pessoas, enfim, espero ter me feito entender”.

E é isso mesmo, numa cidade que sempre se pensa completa, plena, sem divisões e contrastes, o Movimento Sebo no Chão expõe o que há muito não cala: existem cidades e não uma cidade, existem rachaduras  expostas no prédio da “ilha bela”. Em meio a uma São Luís orgulhosa e pomposa do suposto convívio harmonioso entre o “moderno e o antigo”, de suas ladeiras e toda a balela de tombamento, há jovens que querem mais. Querem espaços de diversão, querem espaços acessíveis, querem discutir, se informar, querem mais do que a Mirante e o Jornal Nacional têm para oferecer com o noticiário, querem contra-informação, querem de um jeito ou de outro uma nova cidade. E é aí que vão além, não esperam o poder público ou a vanguarda iluminada da revolução, eles inventam esse espaço, tomam de assalto a praça, estendem o tapete, colocam os livros e cds em cima, chegam as bikes com cervejas e os deliciosos spacecakes, chega a banquinha de rango vegetariano, pedem emprestado o prédio da Igreja para os show, chega  a caixa de som, com os amigos, está-se em casa. Por esses dias, comprei do mesmo Diego Pires, uma rifa para a arrecadação de grana e compra da equipamentos de som, como forma de agilizar as apresentações e debates. É assim que as coisas seguem, levando a vida na arte, com desenvoltura e criatividade.

Deve ser isso que John Holloway (2013), ao falar de microfissuras, percebeu como  atitudes que mudam a vida, pequenos gestos e escolhas que dão outras dimensões ao cotidiano, que o libertam por seu potencial criativo e desalienante. São iniciativas que produzem espaços de rebeldia, de vivência, reflexão, de doideira e diversão que também mudam o mundo, que fazem uma vida melhor, mais cheia de si, carregam os sujeitos de responsabilidade e autonomia em contraposição à alienação do trabalho, da diversão emburrecedora refém do consumo, do fast food de shopping,  do ticket de estacionamento e da felicidade de vitrine.

Assim, como diria Lou Reed, “take a walk on the wide side” (“dê uma volta pelo lado selvagem”, em tradução livre), dê um rolezinho no Sebo no Chão, conheça outro lado do nosso caos urbano, inverta o seu mapa. Chame os amigos, leve o/a gato/a ou amante. Lá é peso!

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

3 comentários em “Sebo no Chão, som na caixa!”

  1. Perro, obrigado pela divulgação da parada. Valeu mesmo. Esse desenho não é é de Reuben, é do Torres Gárcias. Na época da feitura da matéria tivemos uma discussão sobre a descentralidade das coisas e a pintura me foi apresentada por ele. Daí introduzi no artigo para dar um tom na conversa com o público. Creio que possa ter havido algum erro na divulgação impressa no jornal, mas é sempre bom dar créditos a quem é devido. Abraços.

    1. no arquivo que recebi de ti, pra revisão, em que me baseei para postar (estou sem o jornal em mãos aqui), o crédito estava dado a reuben. acho que no fim a frase é de reuben. vou corrigir. gracias!

      1. Então, a jogada toda da discussão e frase é dele mesmo. Foi ele inclusive que me mostrou o desenho, que por desconhecimento achei que era obra dele, por isso enviei para ti como sendo. Numa outra conversa tudo foi esclarecido e enviado para o jornal com os devidos créditos. Saca? De qualquer forma, valeu mesmo!

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