Caymmi completaria 100 anos hoje

Conheça ou relembre 10 músicas do saudoso mestre baiano

“Contra fel, moléstia, crime/ use Dorival Caymmi”, cantou certeiro Chico Buarque, o mestre baiano ainda vivo, à época. Alguns poderão dizer apressadamente que é dono de obra pequena, se levarmos em consideração os mais de 70 anos de produção musical e as pouco mais de 100 músicas que deixou.

Discordo: Dorival Caymmi (30/4/1914-16/8/2008) é dono de grande obra. Se não quantita, qualitativamente. Fora a prole musical, que nos tem legado a herança musical que corria nas veias do patriarca. Nana, Danilo e Dori não me deixam mentir.

Suas canções praieiras merecem destaque quando o assunto é música brasileira, como o merecem, guardadas as devidas proporções, os afrossambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes, os choros e estudos de Villa-Lobos, a obra (instrumental) para violão de Paulinho da Viola e tantos outros “pedaços” de obras que só poderiam ser criações de verdadeiros gênios.

Exatamente hoje (30), Dorival Caymmi completaria 100 anos, data que o blogue celebra lembrando 10 peças suas. Não é uma lista que se pretende definitiva de nada, não necessariamente são suas músicas mais bonitas e/ou importantes: são simplesmente músicas que me vêm à cabeça quando penso no saudoso compositor, em gravações que gosto.

Suíte dos pescadores, por Nara Leão:

É doce morrer no mar, parceria com Jorge Amado, por Cesária Évora e Marisa Monte:

Doralice, por João Gilberto (com Stan Getz)

O samba da minha terra, por Novos Baianos

Marina, por Maria Bethânia

Oração da Mãe Menininha, por Gal Costa e Maria Bethânia

O bem do mar, por Gal Costa

Modinha para Gabriela, por Gal Costa

Só louco, por Gal Costa

O que é que a baiana tem?, por Carmen Miranda

Tinha um caminhão de pedras no meio do caminho

Parafraseio Drummond para comentar mais um fato vergonhoso que leva o Maranhão ao noticiário nacional: em paralelo à crise em Pedrinhas, desta vez um caminhão de pedras chocou-se com um pau de arara que transportava estudantes. Dói essa pedra no calo da oligarquia?

Não é para menos a comoção causada pela morte de oito crianças e adolescentes em um acidente que deixou ainda um saldo de quatro feridos, na estrada MA-303, entre Bacuri e Apicum-Açu, no litoral norte maranhense, ontem (29).

É a fatura do descaso com que são tratadas a educação e diversas outras políticas públicas pelos governantes de plantão. É preciso que sejam apuradas as responsabilidades dos condutores envolvidos no acidente – a caminhonete pau de arara que fazia o papel de transporte escolar chocou-se com um caminhão que transportava pedras e caiu numa ribanceira –, mas é preciso ir além: é necessário punir exemplarmente também gestores e autoridades responsáveis pela fiscalização.

O interior do Maranhão é tido como uma terra sem lei, onde usar capacete, tripular motocicletas aos pares ou usar cinto de segurança pode dar multa. O “folclore” também ocorre em determinados bairros da capital.

30 estudantes estavam na caminhonete no momento do acidente, ocupando apertadamente um lugar que deve ser destinado ao transporte de carga. A nota da governadora Roseana Sarney lamentando o fato e entristecendo-se com o mesmo é cinismo puro: suas gestões e as de seus aliados – e até mesmo por opositores – pouquíssimo ou nada têm feito para modificar a trágica realidade dos que arriscam a vida ao pendurar-se em tais veículos em busca de um futuro melhor.

Um futuro que parece só existir na propaganda governamental, onde as estradas são asfaltadas e os estudantes têm, além de educação, até mesmo internet pública e gratuita.

Ernesto Cardenal apelida de “monstruosidade” a canonização de João Paulo II

DO PÚBLICO/ EFE
TRADUÇÃO: ZEMA RIBEIRO

O poeta de 89 acusou o papa polonês de “proteger” Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo e acusado de pederastia

Ernesto Cardenal lê um discurso após receber o Prêmio Internacional de Pedro Henríquez Ureña, concedido pelo Governo da República Dominicana (EFE)

O poeta nicaraguense Ernesto Cardenal considerou a canonização de João Paulo II “uma monstruosidade”, mas valorizou a de João XXIII, a quem qualificou de “tremendo papa” que “veio a revitalizar a igreja”.

Cardenal deu estas opiniões numa entrevista publicada hoje [ontem, 29] no periódico Micultura feriero, editado pelo Ministério da Cultura dominicano por ocasião da Feira Internacional de Literatura local.

O poeta de 89 anos acusou João Paulo II de “proteger” a “um monstro”, como qualifica a Marcial Maciel (1920-2008), fundador dos Legionários de Cristo e afastado do sacerdócio por Bento XVI por acusações de pederastia. Sobre João XXIII, disse, no entanto, que foi “um tremendo papa, que veio a revitalizar a igreja”.

Cardenal acusou João Paulo II e Bento XVI de dedicarem-se “a desmantelar toda a renovação da igreja de João XXIII, até que agora, felizmente, veio um papa nosso (Francisco), de nossa América, do fim do mundo, como ele disse, que tem demonstrado ser um novo João XXIII, um novo milagre, como foi aquele”.

Para o poeta nicaraguense, que em 1983 foi admoestado publicamente por João Paulo II por ser ministro sandinista e simpatizar com a Teologia da Libertação, o atual papa “está fazendo, mais que com palavras, com feitos. É uma revolução o que está fazendo no Vaticano, o que significará, em parte, uma revolução no mundo”.

Sua atividade literária – Perguntado sobre se deseja receber o Prêmio Nobel de Literatura, para o qual foi indicado em 2005, Cardenal disse que gostaria “para poder presentear o que recebe”.

Sobre a atividade literária, disse que “o desafio é que os poetas escrevam uma poesia que se entenda, que signifique algo para os demais, por que muitos escrevem algo que é enigmático, hermético, sem sentido, com uma linguagem absurda ou irracional, que em alguns casos o autor não entende nem ele mesmo”.

“A minha é uma reação contra isso, o que também tem sido próprio de outros escritores da América Latina que escrevem esta poesia, como a minha. Tratamos de fazer poesia comunicável”, acrescentou.

Cardenal, Prêmio Rainha Sofia 2012 de Poesia Iberoamericana, disse que segue ensinando poesia “ocasionalmente” em seu país, onde tem uma oficina para crianças com câncer.

Isto, afirmou, por que, segundo lhe explicaram os médicos, “o câncer e a leucemia produzem nas crianças um especial talento expressivo, próprio da poesia”, e lhe pediram que fizesse um “experimento com elas, que tem dado por resultado uma poesia em geral, muito boa”.

Show Elas cantam Vieira celebrará 94 anos que compositor faria 9 de maio

Falecido em 7 de abril de 2009, obra de Antonio Vieira será lembrada na data em que compositor completaria 94 anos

O compositor em ação no também saudoso Clube do Choro Recebe. Foto: Pedro Araújo

No próximo 9 de maio, o compositor Antonio Vieira completaria 94 anos. “Se vivo fosse não cabe dizer, pois ele está vivo entre nós, através de sua lembrança e principalmente de sua obra”, afirma o percussionista Arlindo Carvalho, músico que privou da amizade do “velho moleque”, um dos organizadores do tributo que celebrará a data em São Luís.

Elas cantam Vieira: conosco não tem mosquito! é o nome do show que será apresentado sexta-feira, 9, às 20h, em frente ao Memorial Maria Aragão, na praça homônima (Av. Beira Mar, Centro). Subirão ao palco Alexandra Nicolas, Anna Cláudia, Camila Reis, Cecília Leite, Célia Maria, Lena Machado, Rosa Reis e Tássia Campos para festejar a obra do autor de clássicos do quilate de Cocada, Banho cheiroso e Tem quem queira, entre mais de 300 outras.

A banda que as acompanhará é formada pelos músicos Arlindo Carvalho (percussão), Caio Carvalho (percussão), Celson Mendes (violão), Danilo Miranda (sax alto e clarinete), Fleming (bateria), Mauro Travincas (contrabaixo), Osmar do Trombone e Paulo Trabulsi (cavaquinho). O espetáculo contará ainda com as participações especiais de Adelino Valente (piano) e Zezé Alves (flauta)

Com apoio da Fundação Municipal de Cultura (Func) e Museu da Memória Audiovisual do Maranhão/ Fundação Nagib Haickel (Mavam), o espetáculo é gratuito, mas recomenda-se a quem for, doar um quilo de alimento não perecível: a arrecadação será destinada a uma instituição de caridade da capital maranhense.

“Celebrar o legado de Vieira é também celebrar suas convicções, ele cuja obra e posturas traduziam diversas preocupações sociais”, finalizou Arlindo Carvalho.

[Este post sofreu correções às 9h15min de 6/5/2014]

Sebo no Chão, som na caixa!

Acervo Sebo no Chão. Divulgação
Acervo Sebo no Chão. Divulgação

Estive uns poucos domingos no Movimento Sebo no Chão, capitaneado pelo estudante Diego Pires, que fim de semana após fim de semana, tem ocupado a praça defronte à Igreja Católica do Cohatrac.

Louvo a iniciativa principalmente por duas características suas: a gratuidade e a descentralização, já que quase tudo em São Luís acontece na região central da capital.

Mais que moda passageira, como tanto vemos por aqui, o Sebo no Chão caracterizou-se como um importante espaço de vivência cultural. O nome do evento remonta ao início, quando simplesmente Diego começou a vender livros na calçada, ao que depois agregou shows musicais, teatro, cinema, gastronomia, brechó, literatura etc.

Muitos artistas já passaram pelo espaço, que agora quer melhorar a estrutura que oferece ao público presente, parte dele já cativo, outra formada de frequentadores ocasionais – caso deste blogueiro.

O Sebo no Chão está com uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse, visando adquirir o equipamento de som necessário para a realização dos shows. Mais detalhes no link.

Há algum tempo, no Vias de Fato, o perro borracho Igor de Sousa, publicou um texto sobre o acontecimento dominical. Continue Lendo “Sebo no Chão, som na caixa!”

Entre o riso e a desgraça, A cabeça do santo tem inspiração fantástica

Foto: Márcio Vasconcelos
Foto: Márcio Vasconcelos

Livro da cearense Socorro Acioli começou a ser moldado quando autora participou de oficina de contos com Gabriel García Márquez.

A publicidade do novo livro de Socorro Acioli – vencedora do Jabuti de literatura infantil ano passado, com Ela tem olhos de céu – tem sido feita toda sobre a oficina de contos ministrada pelo recém-falecido Gabriel García Márquez, de que ela participou. Faz sentido. Certamente sua participação no concorridíssimo evento do colombiano, ganhador do prêmio Nobel de Literatura, ajudou a cearense a moldar seu romance A cabeça do santo [Companhia das Letras, 168 p., 2014; leia um trecho], cujas ideias iniciais foram concebidas ali.

O livro conta a história de Samuel, ateu que parte em direção à fictícia Candeia, no real Ceará, para atender ao pedido de sua mãe moribunda: encontrar seu pai e sua avó, que o rapaz não conhecia. Samuel torna-se o típico romeiro, perdendo tudo pelo caminho, até chegar à cidade, ser mal recebido pela mulher recomendada e ir parar na cabeça oca de um Santo Antônio largada no chão.

Esta a senha para o leitor adentrar uma série de acontecimentos entre o trágico e o cômico, que poderá leva-lo a relacionar a obra a, por exemplo, O auto da compadecida, de Ariano Suassuna.

A cabeça do santo. Capa. Reprodução

Não pensem os apressados, no entanto, que A cabeça do santo é mais do mesmo, cópia do que quer que seja, ou para iniciados – embora este blogueiro acredite que fará bastante sucesso entre os romeiros de Canindé (que batiza um capítulo do livro) e arredores. Socorro Acioli é hábil na construção de diálogos, na condução da trama, recheada de acontecimentos extraordinários em uma cidade de ar fantasmagórico, e em fazer rir da desgraça sem soar politicamente incorreta. Tampouco cabe tentar rotulá-la regionalista ou coisa que o valha.

À cabeça de Santo Antônio chegam vozes de mulheres que rezam em busca de maridos, casamentos, amores. É lá que Samuel encontra Francisco, seu primeiro amigo na cidade. À custa de uma chantagem, se utiliza do moleque que conhece todas as almas viventes daquele pedacinho de Nordeste para tirar alguma vantagem do que escuta.

Os “milagres” casamenteiros de Samuel logo chamam a atenção de romeiros de cidades vizinhas, meios de comunicação e políticos inescrupulosos, cujos planos são atrapalhados quando Candeia, de cidade quase abandonada, transforma-se em destino de turismo religioso.

Antes de tudo uma história de amor, A cabeça do santo deve alçar o nome de Socorro Acioli ao círculo dos grandes das letras nacionais.

Foto – A foto que abre este post compõe capa, lombada e contracapa de A cabeça do santo. É do fotógrafo maranhense Márcio Vasconcelos, de seu ensaio Na trilha do Cangaço – O sertão que Lampião pisou, vencedor do prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia.

O testamento de Judas – 2014

A "santa" ceia de Nuna Neto. O Imparcial, 18/4/2014
A “santa” ceia de Nuna Neto. O Imparcial, 18/4/2014

CESAR TEIXEIRA

Estou de volta do Exílio
pra onde fui despachado,
na sucursal do Inferno
até doido é torturado.
Roseana, a Sinhazinha,
me botou lá em Pedrinhas.
Saí de lá degolado.

Um crânio vazio eu deixo
para a Justiça falida,
depois que for exumado
e abrir novas feridas.
Mas como ser enforcado,
se o pescoço foi cortado
a cabeça não tem vida?

Não posso colar no corpo
esta memória com grude,
mas o sangue derramado
deixo ao Plano de Saúde
que roubou o meu dinheiro.
UNIMED é o Coveiro
que aprontou meu ataúde.

Na fila do SUS deixei
uma vela de despacho
para Ricardo Murad
que jurou erguer, por baixo,
setenta e dois hospitais,
não era menos nem mais
– procuro um e não acho.

Deixarei também a ele
o número sorteado,
que não é da Maracap
mas do Cofre do Estado
Na Saúde é um alvoroço,
e já está roendo o osso
da Segurança, o danado.

Ó cidade miserável,
de tanta dor e tormento.
Só de anos de mentira
já tem mais de quatrocentos.
Neste conto do Vigário,
o Palácio é um Calvário,
e a Zona é um Convento.

Por causa da Oligarquia,
que vive fora da lei,
jornalista já não dorme.
No Testamento eu botei
o jornal Vias de Fato
feito um grande carrapato
no cangote de Sarney.

A governadora disse
que o Maranhão é rico.
Tem manga, petróleo e gás,
rombo fiscal e penico.
Essa crise carcerária
é doença hereditária,
e o povo é quem paga o Mico.

Deixarei um funil velho
para a Refinaria
representar seu papel
no Reino da Fantasia.
Coitada de Bacabeira,
vai refinar a sujeira
e a merda da Oligarquia.

No carro da Petrobrás
tá faltando óleo de freio,
com tanta superfatura
o negócio ficou feio.
Divisas nem se discute,
se fraude é Cláusula Put,
tem putaria no meio.

Vou deixar um Lava-Jato
pra ver quem ganha a aposta.
Será Nélson Cerveró,
ou Paulo Roberto Costa?
Na quitanda, a Globo filma,
com todo o aval da Dilma,
qual dos dois lava mais bosta.

Um Jatinho da PF
no Congresso vou deixar
pro golpista André Vargas
com Youssef voar.
Lavagem com Mensalão,
Labogen, corrupção:
que remédio isso vai dar?

Antes que acabe a tinta
deixo armas e brasões
para o Edinho Trinta
(candidato dos vilões)
e o forno da Titia,
pra inaugurar padaria
no Palácio dos Leões.

Também deixo pro Lobinho
os túneis da madrugada
que cavei lá em Pedrinhas.
Vai fugir em disparada
num cavalo puro sangue,
depois de cruzar o mangue,
rumo à Serra Pelada.

Entrego pro Flávio Dino,
que é amigo do peito,
uma estrela sem destino
para quando for eleito.
O PC do B tem grife,
filiou até xerife
para garantir o Pleito.

A Foundation São Luís
em inglês não é à toa,
é pra carregar turista
pro Arraial de canoa.
O Bureau do Eleotério
para o pobre é um cemitério,
para o rico é uma Lagoa.

E para os bobos da Corte
que alugam sua voz
eu vou deixar puxa-puxas,
quebra-queixos, derressóis.
Nessa corrida de saco,
coça menos quem é fraco,
puxa mais quem é Veloz.

Já repassei ao Prefeito
um invento de fariseu
chamado VLT,
que Castelo prometeu,
mas nasceu morto, sem laudo,
e entregou pro Edivaldo:
– Toma, que o filho é teu!

Espero que não se zanguem
com as heranças sovinas,
que botei no Testamento
retirado da latrina.
Mas, se não for do agrado,
Deus é quem é o culpado,
pois sou invenção Divina.

Pra escapar da sua língua
no Beco do Gavião,
deixo um bar para Rosana
e um quilo de camarão.
Capiroto, que é bandido,
já botou o apelido:
Bar do Afeganistão.

Patativa anda sorrindo,
já botou água de cheiro
no sovaco e na chorina
dizendo pro mundo inteiro
que vai tirar o atraso,
pois agora virou caso
do cantor Zeca Baleiro.

Corinthiano é o culpado
por tudo o que aconteceu,
inventou essa cachaça
que Patativa bebeu.
Depois da tal “Fogozada”
ela não muda a toada,
e só canta Xiri Meu.

Se a múmia do Executivo,
não fosse tão paralítica,
mereceria uma Faixa
de Gaza na Zona Crítica.
Se fosse como Faustina
haveria disciplina,
sem corrupção política.

Um caminhão de lagosta,
camarão e caviar
ainda não decidi
para quem eu vou deixar.
Eu peço então à plateia
que me dê uma ideia:
que nome devo botar?

Para Wellington Reis
a receita vou deixar
pra fazer outro CD
na Arte de Cozinhar.
É uma língua alugada
ao molho de marmelada,
eu não sei se vai gostar.

Para tomar mais cuidado
na calçada em que trafega,
vou deixar Desinfetante
e uma vassoura brega
para a Secretária Olga,
que, quanto mais se empolga,
mais na Cultura escorrega.

Judas também é cultura,
mesmo subfaturada.
Por isso peço aos herdeiros:
não gastem toda a mesada
da minha miséria cômica,
que está na Caixa Econômica
com a fome embalsamada.

Para a História do Brasil
ficam marcas de tortura,
corpos desaparecidos
nos quintais da Ditadura.
Desde o Golpe Militar
já cansei de procurar
minha própria sepultura.

De almas sem Anistia
cinquenta anos se vão.
Para Herzog, Marighella,
Lamarca e Ruy Frazão
deixo as lágrimas do rosto
e o coração exposto,
por falta de vinho e pão.

(Lavrado ontem, 19, Sábado de Aleluia, na Praça da Faustina, Praia Grande)

Pra ouvir a dois (de preferência)

Muito se tem falado atualmente em Bárbara Eugenia, sobretudo por ela ter resgatado a cantora Diana de um suposto limbo, através da regravação de Porque brigamos, sucesso na voz da ex-mulher de Odair José, a versão brasileira de I am… I said, de Neil Diamond, feita por Rossini Pinto.

É o que temos. Capa. Reprodução
É o que temos. Capa. Reprodução

Mas É o que temos (2013) – título de seu segundo disco, sucessor do inspirado Journal de Bad (2010) – tem muito mais. Tem um pé no brega, rótulo rejeitado por Diana, mas dá frescor à influência da jovem guarda, atualizando guitarras (pilotadas por Edgard Scandurra) e órgãos setentistas (por Astronauta Pinguim).

Se no primeiro disco destacava-se o frevo Sinta o gole quente do café que eu fiz pra ti tomar, com participação de Otto, em É o que temos ela acerca-se de nomes como Pélico (Roupa Suja, parceria de ambos), Mustache e os Apaches (I wonder, dela) e Tatá Aeroplano (Eu não tenho medo da chuva e não fico só, parceria de ambos).

A coletividade sempre foi seu um de seus pontos fortes: Bárbara Eugenia começou a carreira na trilha sonora de O cheiro do ralo (filme de de Heitor Dahlia, baseado no romance homônimo de Lourenço Mutarelli), a convite do produtor Apollo 9; depois dividiu o espetáculo Les provocateurs, homenagem ao mago Serge Gainsbourg, com Edgard Scandurra, cheio de participações especiais, entre as quais Arnaldo Antunes. A marca se mantém em seus discos.

Neste É o que temos a carioca radicada em São Paulo desnuda ainda mais sua porção compositora: sozinha ou em parceria assina todo o disco, as exceções justamente Porque brigamos e Sozinha (Me siento solo, de Adanowsky, traduzida livremente por ela). Canta em português, inglês (I wonder, You wish, you get it e Out to the sun) e francês (Jusqu’a la mort).

Bárbara Eugenia brinda-nos com um disco romântico, em muito explicado – como se o amor carecesse de explicações – pelas inspirações confessas, reveladas em seu encarte, colorido como sua música: “Adanowsky, Diana, Air, Devendra Banhart e Bealtes, sempre!! Muito amor!! iéié”. É o que temos não é pouco. E o que vocês queriam mais?

Grande atraso em pagamento de cachê revolta violonista

Turíbio Santos tocou em São Luís em setembro do ano passado, por ocasião das comemorações de aniversário da cidade

Durante as comemorações de 401 anos de São Luís vi dois belíssimos concertos na Praça Maria Aragão: o da pianista Eudóxia de Barros e o dos violonistas João Pedro Borges e Turíbio Santos, maranhenses que se configuram em dois dos maiores nomes do instrumento não apenas no Brasil.

As apresentações aconteceram 7 de setembro de 2013, ocasião em que cometi a fotosca que ilustra este post. O prefeito Edvaldo Holanda Jr. esteve na plateia. Seis meses depois o internacionalmente reconhecido Turíbio Santos ainda não recebeu o cachê devido. O músico afirma ter trocado outros compromissos por uma visita à Ilha, para rever os amigos e outra vez tocar na cidade em que tudo começou. A equipe da Chorografia do Maranhão, os irmãos Almeida Santos, Ricarte e Rivanio, e este que vos perturba, aproveitou a ocasião e entrevistou-o para a série, na casa de João Pedro Borges, em que ele se hospedou.

O atraso no pagamento é “a maior falta de respeito que já fizeram comigo em 50 anos de profissão”, afirma Turíbio Santos em e-mail enviado ao blogue. “No aniversário de São Luís e no ano em que comemoro 70 anos o desgosto só faz se multiplicar”, continua.

Também por e-mail, João Pedro Borges, o Sinhô, que dividiu discos importantes com Turíbio Santos, declarou-se “completamente indignado diante desta negligência inaceitável com este artista maranhense, dos principais do Brasil e do mundo, de quem tenho a sorte de ser discípulo e amigo”.

Procurada pelo blogue a Fundação Municipal de Cultura (Func) informou que o pagamento será autorizado hoje (16) para a Fundação Sousândrade, e que a dívida com Turíbio Santos será quitada na próxima semana.

*

Update (às 12h24min de 17/4/2014):

Fundação Municipal de Cultura – Comunicado
 
A Fundação Municipal de Cultura (Func), órgão vinculado à Prefeitura de São Luís, comunica a todos que, até o dia 23 de abril, todos os artistas que prestaram serviços para o evento Aniversário da Cidade, em setembro de 2013, terão o pagamento efetuado por meio da Fundação Sousândrade.

Avisamos ainda que o repasse do pagamento foi autorizado no dia 15 de abril, após a sinalização da Secretaria Municipal da Fazenda (SEMFAZ), e que cada artista será notificado pessoalmente sobre a confirmação do pagamento.

São Luís, 17 de abril de 2014.

Universo cineclubista de São Luís é abordado em filme

Lançamento acontece hoje (15) no Cine Praia Grande

Ciné. Capa. Reprodução
Ciné. Capa. Reprodução

No final do ano passado Élida Aragão defendeu na Faculdade São Luís (hoje Estácio) o Trabalho de Conclusão de Curso Ciné – o pulsar coletivo dos cineclubes em São Luís, orientada pelos professores Márcio James Soares Guimarães e Carlos Erick Brito de Sousa.

O trabalho incluía o filme homônimo que será lançado hoje (15), às 19h, no Cine Praia Grande, em sessão gratuita.

Ciné remonta aos princípios da atividade cineclubista em São Luís, na década de 1970 e traça um panorama dos cineclubes em atividade na Ilha, hoje. Com 42 minutos tem direção e roteiro de Élida Aragão, produção de Élida Aragão e Rosana Pinheiro, câmera de Rafael Pinheiro, montagem de Joan Santos e música original de Beto Ehongue e Élida Aragão.

Os cineclubes ainda se configuram alternativas ao padrão hollywoodiano ditado pelos cinemas de shopping. O cinema que abriga a exibição do doc de Élida Aragão, hoje, é uma das duas salas-exceções, em São Luís.

Obituário: Laurentino Sacramento

Foto: Fran Gomes
Foto: Frame de vídeo/ Fran Gomes no Facebook/ Reprodução

Fundador do Lelê de São Simão – povoado de Rosário/MA –, Laurentino Sacramento faleceu por volta de meio dia de ontem (10), aos 81 anos, e foi sepultado na manhã de hoje (11). Sofria de Mal de Parkinson e estava com os órgãos vitais bastante comprometidos, inclusive há muito andava encurvado, em decorrência de problemas na coluna vertebral.

Discípulo do mestre, o violonista Fran Gomes, que ao longo dos últimos 14 anos acompanhou-o nas apresentações da dança, lamentou a perda em uma rede social: “A cultura de Rosário/MA acaba de perder um grande baluarte. [Laurentino] Era uma figura simples, como tinha que ser, amante da cultura popular. Descanse em paz, mestre, cantador, paizão”.

Sua subida é uma perda irreparável para a cultura popular do Maranhão. Mestre de uma dança singular, Louro, como era conhecido entre os mais íntimos, tinha a mesma estatura artística de uma Elza (da dança do Caroço de Tutóia), de uma Teté (do Cacuriá a que deu nome), de um Felipe (do Tambor de Crioula a que deu nome), de um Donato Alves (do bumba meu boi de Axixá), para ficarmos em uns poucos exemplos de mestres saudosos e fundamentais.

*

Em tempo: lamentável a cobertura zero dispensada à perda pelos meios de comunicação maranhense. Fui alcançado pela notícia ruim ontem à noite, no aeroporto de Brasília/DF, via tuiter. Obrigado, Raydenisson Sá e Fran Gomes!

Saudade de Pixixita (Ou: Um abraço em Nelsinho)

Contrariando o compositor baiano, Pixixita subiu há algum tempo para uma estrela colorida, brilhante. De lá, certamente continua cumprindo a missão que tinha cá na terra: legar às pessoas o amor pela música.

O saudoso José Carlos Martins, dono do apelido, com sua cara e jeito “de índio”, deixou uma legião de fãs e amigos. Seguidores, nestes tempos de redes sociais.

O homem é uma lenda. Quase todo mundo que tem algo a ver com música em São Luís conta alguma história envolvendo Pixixita. Ou foi seu aluno. Ou tomou uma com ele. Ou tirou um retrato, bonito como o preto e branco em que ele aparece com o também já saudoso Nelson Brito.

Durante muito tempo, aliás, pensei que meu amigo Nelsinho, muito provavelmente pelo sobrenome, fosse filho de Nelson Brito. Entre tantos afazeres, este herdeiro do espírito agregador de Pixixita tem por missão manter vivo o legado do pai: sua memória, o amor pela música, simpatia e o “um milhão de amigos pra bem mais forte poder cantar”, para citarmos outro compositor. Graças a estes, a missão de Nelsinho torna-se até fácil.

Seu pai não cheguei a conhecer, mas admiro-o já há algum tempo. Com o filho, este simpático professor de capoeira, já tomei umas tantas cervejas nesta vida e tanto mais pretendo fazê-lo.

Como sábado agora, quando os companheiros de tribo do saudoso pajé reúnem-se para mais uma festa ao redor das fogueiras acesas nos corações em nome do amor à música e à vida.

Pitomba, hoje, domingo e sempre!

Um lançamento de uma nova edição da revista Pitomba é sempre algo que merece ser noticiado. Seja para saudar os que a fazem, seja para festejar sua insistência, permanência, teimosia, longevidade. Ou os poucos mas fiéis leitores pensam que é fácil fazer uma revista independente no Maranhão, sem os costumeiros apadrinhamentos políticos (o que tiraria a independência da revista) ou o apoio da iniciativa privada, ainda tão tímida para este tipo de empreitada? No fundo, cega, de moralismo, conservadorismo e, às vezes, reacionarismo.

Pitomba, a revista, tem vitaminas contra tudo isso, incluindo as energias e inventividades artísticas e contestadoras de Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha, os editores, que têm seguido a máxima que eles mesmos gritaram no editorial do número inicial da revista: “quer fazer, faz!”

Pitomba rima com bomba e não à toa esta é sua logomarca. Cada número é uma explosão de alegria, como o é cada festa de lançamento. Hoje no Chico Discos, domingo no Sebo no Chão.

O novo Delito de André Morais

Demorei a descobrir o trabalho do ator, cantor e compositor André Morais. Somente recentemente ouvi Bruta flor (2010, disponível para download no site do artista), seu disco de estreia, cuja epígrafe são os versos “cada manhã que nasce/ me nasce/ uma rosa na face”, de Paulo Leminski.

É um álbum bonito, cheio de parcerias e participações especiais: Âmago, faixa que novamente cita Leminski e tem violão e arranjo de Nonato Luiz, é parceria dele com Marco Antonio Guimarães (inventor do Uakti); Lua-me, parceria com Carlos Lyra, tem piano de André Mermahri; Pequenas epifanias, parceria dele com Ceumar tem participação da mineira (voz e kalimba); Leve, parceria com Milton Dornellas, cita Emily Dickinson e também tem violão e arranjo de Nonato Luiz; Canção meretriz, em parceria com Ná Ozzetti, conta com participação dela; as vozes de Tetê Espíndola cantam a Ave Maria de Bach e Gonnoud; Seio é parceria dele com Chico César; Mônica Salmaso canta O canto do cisne negro, que mistura Villa-Lobos e Baudelaire; De corpo aberto, parceria com Sueli Costa, tem seu piano; e Toninho Ferragutti assina sanfona e arranjo em Desprimavera, parceria com Edu Krieger.

Em resumo, qualquer ouvinte de música brasileira tem aí seus motivos para querer ouvir e ter o disco. Uma boa notícia é que ele já está preparando o segundo e soltou aperitivo: Delito, parceria dele com Lucina.

*

Agradeço a dica ao amigo Glauco Barreto, ávido fã número zero de Ceumar (com quem fui ao mais recente show da mineira em Brasília).

O lirismo de Paulo Mendes Campos revisitado

O amor acaba. Capa. Reprodução

O título O amor acaba [Companhia das Letras, 280 p., 2013] pode soar pessimista, mas ao leitor menos avisado, que não conhece o autor, ou dele não lembra, será quase certeza do contrário: amor à primeira leitura, o amor começa.

Um dos “quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”, como classificou o amigo Otto Lara Resende – um deles – sobre grupo completado por Hélio Pelegrino e Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos é desde sempre um dos maiores cronistas do Brasil.

Talvez dizer isso hoje soe fácil, a crônica, este brasileiríssimo gênero, caindo em desuso; mas não o era quando o mineiro ocupou redações cariocas, tempos de Antonio Maria, Rubem Braga, de Drummond e dos próprios colegas citados, para ficarmos em poucos – e grandes – exemplos.

As “crônicas líricas e existenciais” – o subtítulo – do volume (leia três textos, incluindo a crônica-título) revisitam um Paulo Mendes Campos entre o amor, o cotidiano, a boemia, o futebol, a poesia. Poesia, aqui, deixemos claro, tanto o escrever em verso responsável pela estreia literária do autor, quanto seu texto em prosa – as crônicas deste volume carregadas de… poesia!

Selecionadas por Flávio Pinheiro – que assina a apresentação do volume. Ivan Marques assina o posfácio –, as crônicas deste O amor acaba foram publicadas originalmente em jornais e revistas entre 1951 e 1990, a maioria em Manchete, mas também no Correio Paulistano, Diário Carioca e Jornal do Brasil, além dos livros Homenzinho na ventania (1962), Os bares morrem numa quarta-feira (1980) e Diário da Tarde (1981) – recentemente relançado pelo Instituto Moreira Sales, no formato pensado pelo autor, assunto para outra resenha. Como também merece outra resenha O mais estranho dos países – Crônicas e perfis (2013), também publicado pela Companhia das Letras.

Com sua leveza e lirismo, Paulo Mendes Campos permanece atual e sua leitura tem muito a nos ensinar, de estudantes do ensino fundamental – onde o conheci em livros de gramática e paradidáticos – a jornalistas, mas não só. A quem se interessa pela vida e pelo que de mais prosaico esta tem. Ou a quem precisa, vez por outra, dar um tempo no corre corre para observar o que realmente importa: o canto de um passarinho, o sorriso de uma criança, um boteco com os amigos, um beijo em quem se ama, uma crônica de Paulo Mendes Campos.