Samba de protesto

Os “excluídos” em ação em Diverdade, show de 14/12/2013

Não sou contra a vinda de artistas de outros estados para o que quer que seja no Maranhão. Ser contra seria bairrismo, embora a vinda de artistas de fora para eventos como o carnaval e os festejos juninos por aqui não cumpra o papel que deveria, de intercâmbio cultural. Tampouco artistas nossos são enviados a outros estados com essa intenção (Barrica e Bicho Terra pra gringo ver não contam).

Para o carnaval deste ano o Governo do Maranhão anunciou uma vasta programação com nomes pagos a peso de ouro. Gente do quilate de Daniela Mercury, Diogo Nogueira, Elba Ramalho, Monobloco e o onipresente (local) Bicho Terra, entre outros – confesso que senti falta da Alcione no Bloco dos Apaniguados.

O compositor Cesar Teixeira está fora da programação carnavalesca, sob responsabilidade da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), pasta comandada por Olga Simão. Não é a primeira vez que o artista é excluído de programações do tipo, sem justificativas, num gesto de retaliação política – o autor de Oração Latina é reconhecidamente uma histórica voz de resistência à oligarquia Sarney.

Notem os poucos mas fiéis leitores: o problema não é ele estar fora da programação carnavalesca. É saber que critério o excluiu. “É inadmissível que um órgão cultural do governo, na ausência de editais, se aproprie do erário público para decidir quem deve ou não participar de programações culturais públicas, exercendo uma espécie de censura institucional àqueles artistas que não rezam na cartilha do governo Roseana Sarney”, declarou em uma rede social Irinete Chaves, esposa e produtora do compositor.

No Maranhão há muitos artistas frutas de estação, isto é, aqueles que se adequam aos períodos carnavalesco e junino – muitas vezes utilizando-se inclusive do vasto repertório de Cesar Teixeira, autor de clássicos tocados à exaustão em ambos os períodos, mas não só – e depois somem, para reaparecer na próxima… estação.

Não é o caso de Cesar Teixeira, cuja obra, reconhecida nacionalmente nas mais diversas vozes, tem importância, riqueza e variedade, e deveria ser valorizada pelos gestores de cultura de nosso estado, provavelmente o último da nação que ainda não adota o princípio republicano dos editais para a convocação de artistas para compor suas programações oficiais, na contramão do que indica, por exemplo, o Ministério da Cultura.

Festival – Sábado passado (15), em um festival de música carnavalesca organizado pelo Sistema Mirante de Comunicação – de propriedade da família da governadora Roseana Sarney –, uma música de Cesar Teixeira, Dias felizes, defendida pelo grupo Lamparina, sagrou-se vice-campeã, surpreendendo a muita gente, este blogueiro inclusive. Isto é, em terreno hostil, a marcha-rancho conseguiu comprovar o talento de seu autor.

Silêncio constrangedor – Através da assessoria de comunicação, este blogue indagou à secretária Olga Simão que critérios haviam norteado a exclusão de Cesar Teixeira da programação do carnaval maranhense. Até o fechamento da matéria, a Secma não se pronunciou – como o fez também quando o compositor foi deixado de fora da temporada junina do ano passado.

Maranhão, outro excluído – Pouco antes do fechamento deste texto, através do blogue da jornalista Vanessa Serra, ficamos sabendo que Chico Maranhão, outro importante artista maranhense de reconhecimento nacional, também foi excluído da programação carnavalesca oficial.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

10 comentários em “Samba de protesto”

  1. Ces@r Teixeir@ é m@ior e melhor que olig@rqui@s.Ele c@nto cor@ç@õ e @ vid@. Que Deus o livre destes p@lcos.

  2. Carissimo Zema,vivemos um momento cultural no Maranhão muito tosco como ouço minha filha Lara falar todos os dias quando discorda de algo.Há aproximadamente 10 anos acompanho as programações dos periodos carnavalescos e juninos e confesso que me vejo perdido com elas sem entender exatamente onde querem chegar e pra quê.Os artistas e músicos os esperam ansiosamente para mostrarem a sua arte, e defenderem o seu pão de todos os dias, afinal esses são os momentos.Acontece que isso não contribui em nada para se fazer as coisas caminharem no campo profissional,pois o que se viu foi um nivelamento por baixo mas muito baixo de artistas como Cesar Teixeira e tantos outros, que foram comparados com todo respeito que tenho a todos a muitos que nunca compuseram uma unica linha, e nunca fizeram uma unica melodia, mas entraram nessas programações.Não entendo o porque e nem quero polemizar com ninguêm esses fatos,entendam o meu ponto de vista musical artístico.Agora quanto a globalização da programação carnavalesca com a vinda de cantores de renomes isso é natural acontecer aqui em Salvador,Recife, São Paulo em todo o mundo é fato, tem gente que gosta e gente que odeia,agora é necessario uma mescla com a comunidade artistica local,o problema é agradar São Luis e desagradar São José de Ribamar,é missão dificil.Outrossim informo que quem comanda hoje essa programação é o (MARAFOLIA) então o carnaval virou um grande negocio ao invés do entretenimento dos Maranhenses que bancam a conta extremamente alta,mas os caras podem e fazem o que der na telha, não são culpados por isso, pois se virmos um jabuti em cima de uma arvore ele não subiu sozinho, alguem o colocou por lá.Ficamos na esperança de que tudo possa mudar algum dia, não os carnavais e suas programações, mas as mentalidades e as ações,que elas possam haver somente no campo da arte e não da perseguição politica e da falta de conhecimento e de bom senso.

  3. Tudo que não existe na SECMA é transparência e respeito com os artistas locais. nem sequer eles abrem suas portas pra escutar o que a classe artística pensa. Tudo paternalismo… quem é parente ganha, e pronto.

    Dessa maneira o Maranhão segue sempre atrás… todos tem editais, nós não. Há uma semana atrás nenhum artista sabia se realmente haveria programação e se estaria ele dentro desta… uma ou duas semanas pra preparar tudo, e sai feito com pressa e nas coxas.

  4. Caro Zema,

    A ausência de editais é um problema grave. Mas penso que César Teixeira e outros artistas poderiam contribuir mais com o carnaval se fomentassem brincadeiras de rua. Sonho com um bloco de sujo comandado por César saindo de manhã cedo, dando voltas numa pequena e única quadra do Centro. A festa momesca de São Luís precisa resgatar o espírito espontâneo que existia e que há muito tempo foi ofuscado pela organização oficial.

    Nas ruas está faltando criatividade, irreverência, fantasia e entusiasmo. Nem fofões são mais vistos. O carnaval ficou uniformizado e refém da programação oficial. Cantar em palco montado pelo governo para “meia dúzia de gatos pingados” (no Rio existe um bloco com este nome) não vai acrescentar nada nem transformar a situação. O carnaval de São Luís só vai resgatar a emoção quando artistas tomarem novamente as ruas de forma independente.

    O Carnaval de Segunda, no Laborarte, e a tradicional saída do Akomabu aos domingos – que se reveza entre a Casa das Minas e a de Nagô – são exemplos. Este desfile do Akomabu não faz parte da programação oficial mas todos respeitam. Aliás, na minha humilde opinião, a festa praticamente se resumiu a estes eventos.

    Durante o pré-carnaval, o desfile dos Fuzileiros da Fuzarca aos domingos, no Largo do Caroçudo, e o encontro e cortejo da Turma do Vandico, aos sábados, na Praia Grande, também acredito que sejam exemplos de independência.

    No mais, a organização em rede poderia resolver o problema econômico. Com cem brincantes, “sócios-contribuintes”, seria possível pagar um cachê para o artista fomentador.

    Abs,

    1. Muito interessante essa ideia do carnaval de rua, do Eduardo Júlio. Mas é injusta. Neste caso o César Teixeira faz o carnaval bonito nas ruas de São Luís e os apadrinhados recebem os cachês. Qual é a lógica? E quem teria aconselhado a governadra a deixar de fora da programação César Teixeira e Chico Maranhão? Isso parece mais coisa de operário do mesmo ofício como dizia João Bogea. Sim, porque eu não consigo imaginar a governadora durante uma reunião dizendo: “– Chico Maranhão não, gente. Esse rapaz é muito complicado”. Ou então: “– César Teixeira está fora. É muito polêmico”. É bom investigar de que cabeças andam saindo tais pérolas.
      Quer queiram, quer não, são os dois maiores e melhores compositores do Maranhão. Já ouvi isso de vários músicos. E músicos que entendem do ofício.

      1. Muito interessante essa sua ideia do carnaval de rua, Eduardo Júlio. Mas é injusta. Nesse caso o Cesar Teixeira faz o carnaval bonito nas ruas de São Luís e os apadrinhados recebem os cachês. ´Qual é a lógica? E quem aconselhou Dona Roseana deixar de fora da programação César Teixeira e Chico Maranhão? Isso parece mais coisa de operário do mesmo ofício como dizia João Bogea. Sim, porque eu não consigo imaginar a governadora durante uma reunião dizendo: “– Chico Maranhão não, gente. Esse rapaz é muito complicado”. Ou então: “– César Teixeira está fora. É muito polêmico”. É bom investigar de que cabeças andam saindo tais pérolas.

  5. A ausência de editais é um pingo d’agua, uma vez que não existe politica cultural que abrace as tradições (para que não morram) e dê condições aos artistas para um dia quem sabe cada vez menos precisem esperar o carnaval e o São João chegar. Política cultural deve andar de braços dados com a educacional.

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