Serra Pelada: uma amizade que vale mais que ouro

Ficção usa elementos de documentário, entre o bang bang e o filme de gangster, com grandes interpretações

Juliano Cazarré interpreta um personagem com seu próprio nome (Juliano) em Serra Pelada [Brasil, 2013, drama]. E é com um big close em seu rosto, durante um depoimento, que tem início o retorno do cinema nacional ao maior garimpo a céu aberto do mundo: em 1982, no auge de suas atividades, Os Trapalhões na Serra Pelada foi rodado lá.

Encravado no sul do Pará, o garimpo de Serra Pelada foi a maior concentração de trabalho braçal humano desde as pirâmides do Egito, dado a que cheguei ao ver o filme. No caso da paisagem brasileira, foi construída uma enorme pirâmide de cabeça pra baixo, informação que o roteiro também nos traz, embora essa seja mais fácil deduzir. Algo como parece querer fazer a ganância da Vale, por exemplo, com as minas de Carajás, não por acaso no mesmo cenário: o Pará.

O capitalismo é, aliás, apresentado como metáfora para entendermos a hierarquia do garimpo. Muitos homens embarcaram para Serra Pelada no início da década de 1980, ainda durante o regime militar – a ditadura brasileira chegou a intervir no local e a Caixa Econômica Federal a fazer o câmbio oficial do ouro extraído.

Os que tomaram o rumo daquelas bandas tinham o sonho de enricar ou ao menos fazer um pé de meia. Era mais ou menos como ganhar na loteria. Inclusive com o jogo virando vício: uma vez os números sorteados em um globo, a vontade de ganhar mais. A única diferença é que no garimpo, além da sorte necessária para o triunfo lotérico, é necessário o uso da força. E de outras artimanhas, por vezes.

Sérgio Chapelin e Cid Moreira, ainda de cabelos pretos nas bancadas do Jornal Nacional e Globo Repórter, embora na tela em preto e branco, dão ao filme um ar de documentário – o que Serra Pelada é, em parte, embora seja obra de ficção, algo entre um bang bang e um filme de gangster. O recorte de Heitor Dhalia (também diretor de Nina e O Cheiro do Ralo) para nos (re)contar essa história é a amizade de Juliano e Joaquim (Júlio Andrade), um professor que deixa a mulher grávida para ir garimpar uns trocados.

É em nome de sua amizade com o professor que Juliano inaugura seu currículo de homicida, adaptando-se rapidamente à lei da selva – literalmente. Porém a ambição desmedida e a paixão pela prostituta Teresa (Sophie Charlotte), mulher de Carvalho (Matheus Nachtergaele), um dos coronéis locais, levam-no a ir cada vez mais fundo, sem trocadilhos com o garimpo ou o cabaré. Todos têm atuações memoráveis e ela surpreende os que, qual este blogueiro, conheciam-na apenas de papéis em novelas e séries da Globo.

A atuação do coprodutor Wagner Moura também merece destaque. Com um bigodinho sem vergonha e uma careca a la São Francisco, ele interpreta o bandido Lindo Rico, um dos mais temidos da trama, responsável por cenas entre trágicas e hilariantes.

É um filme com final feliz, desculpem-me os pessimistas. Costurado por uma bela trilha sonora – que nos mostra o que era o Pará, musicalmente falando, antes de Joelmas, Chimbinhas e seus inúmeros covers –, Serra Pelada recria o ambiente violento e romântico do garimpo, entre ganâncias, traições, brigas, assassinatos por armas brancas e de fogo, prostituição, farras, sonhos e amores. Mais que uma miniatura do garimpo, um resumo desta selva chamada vida.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

3 comentários em “Serra Pelada: uma amizade que vale mais que ouro”

  1. Zema, achei Serra Pelada fabuloso, ainda mais para quem, assim como eu, viveu um pouquinho no ambiente fascinante de quem foi atraído por essa “lenda” e teve notícia de muitos quem foram em busca dessa montanha de ouro. Os carimbós da trilha sonora também são um destaque, assim como a rápida mas notável atuação/transformação de Wagner Moura – impressionante e de longe o melhor da trama. Desde da minha adolescência, nos divertidos anos 1980, com títulos como Conan e Tubarão, não sentia o forte desejo de assistir novamente um filme. E acho que vou…

  2. eden, confesso que entrei no cinema desconfiado: de um lado heitor dhalia (que admiro muito) e ótimo elenco (idem!); do outro a globo. é claro que a balança do meu preconceito pesou para o “vai sem medo” pelos primeiros. não deu outra e é isso aí mesmo que tu dizes: dá vontade de ver de novo. pra mim serra pelada era um mistério, a maior lembrança, nem tão nítida assim, o filme dos trapalhões, visto em tantas sessões da tarde na infância. digo: não vivi o ambiente nem mesmo conheci ninguém que tenha passado pela experiência do garimpo, e o filme não tem a pretensão de constituir-se documentário sobre, mas é feliz ao nos recontar a história daquela miniatura de mundo, miniatura da vida, essas selvas em que vivemos. abração!

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