Ademir Assunção leva o Jabuti de Poesia

UM QUILO MENOS DISSO

Há uma canção melancólica de Tom Waits que narra a história de uma garota interiorana que vai para Nova York e cai nas mãos de pessoas erradas. No fim, restam apenas alguns litros de sangue na calçada e uma bolsa de pele de crocodilo vazia, jogada no bueiro por um vigarista. Há uma canção de Bob Dylan que narra o desterro de uma garota de nariz empinado que acaba na sarjeta, tendo que filar o rango de um maltrapilho que ela olhava do alto do pedestal. How does it fell/ To be on your own/ With no direction home/ Like a complete unknow/ Like a rolling stone? Há dias de calmaria e há dias de tormenta. Há um disco de Carmen McRae rolando na vitrola. Há céus azuis e há céus cinzentos. Há anjos e há demônios em quase todas as mitologias. Há pessoas que julgam e há pessoas que não se importam mais. It could be right or it could be wrong. Não há erros. Há fluxos, rajadas de vida. E muitas vezes o vento muda de direção. Há pessoas que às vezes estão tristes. Há muito desacerto. Há certezas demais. Há um vazio gigante entre os dois extremos da conexão. Há coisas que acontecem somente para que os antigos laços sejam reatados e novos sejam rompidos. Há drogas pra dormir. Há um avião B-52 caindo, há o rugido pesado de uma guitarra e há o choro de um recém-nascido. Há bombas que foram lançadas em 1944 e ainda não pararam de cair. Há um muro bem ali na frente. Ainda não consigo distinguir sua cor. Não sei nada sobre sua textura. Nem sobre sua densidade. Mas sei que estou indo em direção a ele. A 180 por hora. E não vou tirar o pé do acelerador.

Este poema em prosa abre a sétima noite do diário do ventríloquo – A voz do ventríloquo [Edith, 2012], de Ademir Assunção, é dividido em noites, cada noite uma seção de poemas.

O trecho com que abro este post, batizado por um verso de Sérgio Sampaio, traduz um pouco do que é o poeta, mostra algumas de suas influências e a forma como ele lida com as coisas – principalmente a poesia.

Ademir Assunção esteve em São Luís no final de setembro. Participou de três momentos da Feira do Livro de São Luís. Entrevistei-o por e-mail antes de sua chegada e provavelmente deixei sua indicação ao prêmio Jabuti na categoria poesia de fora do papo por ainda não ter à época a lista dos 10 finalistas – em que figurava também, entre outros, o maranhense Josoaldo Lima Rêgo, meu colega de equipe de curadoria, por Variações ao mar [7Letras, 2012]. Minha conversa com ele foi publicada pela metade nO Estado do Maranhão e inteira cá neste blogue.

No fundo, talvez, se eu já tivesse conhecimento da lista, a pergunta entraria na roda apenas por critérios jornalísticos (acho que a entrevista vai além), justamente por saber que Ademir não escreve poesia – ou prosa, ou jornalismo ou o que quer que seja – para ganhar prêmios. A prova disso são os quatro livros inéditos que ele tem na gaveta – uma coletânea de reportagens, outros de poesia.

Ademir Assunção já era um papo de longa data, ele desde sempre bastante atencioso ao responder e-mails, e conhecemo-nos pessoalmente durante a 7ª. FeliS, um grande acontecimento: nomes importantes como Fernando Moraes e Walnice Nogueira Galvão, por exemplo, preferiram-na à Feira de Frankfurt. As críticas existentes devem deixar a FeliS ainda melhor – e maior – ano que vem.

Mas voltando: como eu disse na mediação de uma das mesas de que ele participou no evento literário, um cara fundamental na minha formação. Conheci sua poesia meio que por acaso: Xico Santos, editor proprietário da Altana, mandou-me de presente seu Zona Branca [2001], publicado por aquela editora. Desde então tenho acompanhado com avidez e alegria sua trajetória, lançamento após lançamento – vem um disco novo aí em novembro! –, suas dicas e suas reações a essa sociedade e seus problemas.

Este post, pois, é para anunciar a vitória de Ademir Assunção na categoria Poesia do prêmio Jabuti 2013, com seu A voz do ventríloquo. Ele, que gostou do que viu e viveu em seus dias de ilha, quem sabe não torna a ela ano que vem? De minha parte será um enorme prazer. Ademir: ligando ou não para prêmios, parabéns!

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

2 comentários em “Ademir Assunção leva o Jabuti de Poesia”

  1. Oi Zema ,boa tarde!  preciso falar contigo, teu número está dando fora de área Abrs Irinete

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