Um reencontro histórico e imperdível

Confesso: enquanto a banda durou, não acompanhei o trabalho.

Sua provavelmente mais recente “aparição” se deu justo quando os conheci: em uma faixa de Música, livro-disco de Celso Borges, um entusiasta desse ato de fênix. O poeta havia tentado remontar (remendar?) a banda para um show na 7ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS), o que acabou não acontecendo.

Se a sétima não conseguiu, a oitava consegue. E os fãs, novos e/ou órfãos, nem precisarão esperar a feira do ano que vem. O reencontro acontece é na aldeia deste 2013 mesmo: a 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes orgulhosamente apresenta T. A. Calibre 1!

Groove Balaio, o show, será apresentado hoje, às 22h, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), de graça.

Balaio, o disco, saquem só a importância!, figurou na lista dos 12 discos mais lembrados da música produzida no Maranhão nos últimos 40 anos, em que diversos jornalistas, radialistas, DJs, produtores, críticos etc. votaram para o jornal Vias de Fato.

Contrastes da Ilha sem lentes e sem filtro

Contraste: a cidade velha…

São Luís é uma cidade de contrastes. O singular é justamente o título da exposição das irmãs Dinalva e Denise dos Anjos, estudantes de Educação Artística (UFMA), que fotografaram as cidades nova e velha fazendo uso do pinhole, técnica artesanal de fotografia.

Contraste, a exposição, é composta de 15 fotos, oito retratando a cidade velha – o centro histórico – e sete a cidade nova – a Av. dos Holandeses, na altura da Ponta d’Areia. Há várias técnicas para captar imagens através do pinhole – também conhecido como fotografia estenopéica. As irmãs usaram caixas de fósforo e filme fotográfico.

Sob qualquer aspecto São Luís é a capital dos contrastes. As irmãs dos Anjos concentraram-se na arquitetura. “De um lado a arquitetura colonial, de outro os prédios luxuosos e a arquitetura moderna. Buscamos com isso ir além da apreciação visual, proporcionando ao espectador uma reflexão crítica sobre a cidade e nossa história”, afirma Dinalva.

A exposição integra a programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes e fica em cartaz de amanhã (29) a domingo (3/11), das 9h às 17h, com entrada gratuita, no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho (Rua do Giz, 221, Praia Grande).

… e a cidade nova

Arte tem cemitério como cenário

Wilka Sales no túmulo mais antigo do Cemitério do Gavião. “Tem mais nem data, o tempo apagou”

A exposição Ex-Vivos – Série 2 também integra a programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes. O título traduz a relação entre o expressionismo alemão e os ex-votos – diversos objetos doados a divindades como forma de agradecimento por um pedido.

O número do título dá a ideia de que uma primeira série já foi exposta: está inscrita no IV Salão de Artes de São Luís, ainda não realizado este ano. “Como eu já tinha apresentado o projeto lá, coloquei esse do Sesc como sendo o segundo mesmo”, conta Wilka Sales ao blogue, justificando a inversão da ordem.

São oito fotografias, realizadas por Bigorna Trompete e Nara Oliveira, que eternizam a performance de Wilka, que utiliza o corpo como canal d/e comunicação e assina ainda direção, produção e concepção fotográfica. A locação escolhida foi o Cemitério do Gavião, na Madre Deus.

“Percebi a conexão entre elementos visuais e artísticos que pesquisei, daí relacionar os mortos, os ex-votos e o expressionismo alemão neste trabalho”, explica a autora de Ex-vivos. Ela transgrede e provoca: um corpo vivo feminino no cemitério soou mal aos olhos de uma senhora: “Como é que você tira fotos desse jeito em cima de nossos entes queridos, minha filha?”, perguntou-lhe, indignada com um top less da moça entre as lápides.

“É a leitura dela, eu não fiquei chateada, pelo contrário: adorei a reação”, revela. A estudante de artes plásticas da UFMA, envolvida em interessantes produções culturais por São Luís, está ciente de que não agradará a todos. “Acredito que alguns vão se identificar com o trabalho. Outros não. Mas um ponto fundamental é, por exemplo, perceber as particularidades artísticas e históricas do Cemitério do Gavião, com a consequente valorização desse espaço urbano, em geral visitado apenas em dias de finados ou quando alguém morre”, aponta.

Ex-vivos – Série 2 fica em cartaz de amanhã (29) até domingo (3/11), no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho (Rua do Giz, 221, Praia Grande). O horário de visitação é das 9h às 17h.

Sylvio Fraga Trio: de rosto e alma expostos

[O Imparcial, 24 de outubro de 2013]

Jazz, blues e rock dão o tom em letras sobre o cotidiano e o amor na estreia do trio carioca

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

Rosto [Bolacha Discos, 2013] é o disco de estreia do Sylvio Fraga Trio, formado pelo próprio (voz, violão e guitarra), Marcio Loureiro (contrabaixo elétrico) e Mac Willian Caetano (bateria). A formação dá a pista: as 12 faixas ficam entre jazz, blues e rock, influências confessas dos integrantes.

Mas o álbum soa brasileiro. Carioca, para ser mais preciso. Embora o grupo tenha se formado lá fora, quando o band leader fazia mestrado em poesia em Nova York. A maioria do repertório de Rosto foi concebida lá e amadurecida aqui.

O cotidiano está retratado nas letras, mas tratado com outras lentes. Embalo, por exemplo, é um convite para um happy hour: “Vem correndo meu amor/ estou aqui, no nosso bar!”. Cada rastro será gesso, dos versos “Já está muito quente/ em Niterói a barca sente”, faz lembrar os Novos Baianos e Jards Macalé, que já homenagearam a barca-personagem musical. Em Barata voa algumas indagações românticas: “mas o que posso fazer?/ e você já dormiu à luz/ dessa televisão/ mas o que posso saber?/ um beijo na testa/ que sonha e sai de manhã”.

Balé é poesia pura: “O universo apenas olha/ olha as saias cortando o escuro/ Planetas rodando e caindo de maduros”. Maduro este disco de estreia, a qualidade um elemento comum a suas faixas, todas assinadas por Sylvio Fraga – sozinho ou em parceria.

Uma curiosidade, em tempo: no coro da última faixa, Circus, é possível ouvir a voz de Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique Cardoso. O economista é pai do líder do grupo, também graduado na área. Sua voz une-se a outras para cantar versos como “ai ai o amor/ se não arde, não há/ se não for/ só quem arde provou/ só quem sabe o que arde/ ai o amor!”.

O disco está disponível para download gratuito no site do trio.

Exercício de raiva e traição*

CELSO BORGES**

Por que escrever apenas dos 16 aos 20 anos? Virar pelo avesso a poesia ocidental e depois abandonar a literatura e rumar para a Abissínia em busca de algumas moedas de ouro? Assim fez o poeta Jean Nicolas Arthur Rimbaud, que ao lado de Charles Baudelaire forma a dupla mais importante da poesia moderna, nascida na França na segunda metade do século 19. “Não penso mais nisso”, diria mais tarde Rimbaud ao amigo Delahaye quando questionado sobre literatura.

O enigma da renúncia do bardo francês atravessa gerações e permanece sem resposta. No caso de Rimbaud, essa deserção tem um caráter mais agudo, pelo curto espaço de tempo que escreveu e pela importância de sua obra para a poesia de seu tempo e além. Para poetas como eu, que carregam a palavra por todo o corpo e nunca pensaram em abandoná-la, a atitude de Rimbaud traz desconforto e alguma angústia. Um lado meu procura compreendê-lo. O outro, chora a perda de um cúmplice e sente o golpe. Como uma traição.

Rimbaudemônio é um grito e um exercício de imaginação contra os fugitivos da literatura, além de uma afirmação da poesia. É um texto de raiva e revolta contra Rimbaud, ainda que dê a ele chances de se defender. Narra um encontro imaginário entre o poeta e o demônio. Depois de beber inspiração no cálice satânico para escrever alguns dos versos mais belos de sua época, Rimbaud abandona a poesia. Antes, porém, sente-se no dever de comunicar isso ao seu grande mestre e para isso vai visitar o diabo no inferno, que se revolta contra ele. 

O inferno, aqui eleito como fonte de desregramento, delírio e rebeldia, é resultado de uma idealização romântica, ou mesmo de uma falsa idealização. Na educação cristã que recebi na infância, a presença de um Deus punitivo e de um juízo final implacável sempre foram mais presentes do que a figura do diabo e do fogo do inferno. Mais tarde, revoltei-me contra essa simbologia do medo. Rimbaudemônio é também, por isso, uma reação, mas sobretudo uma provocação contra esse universo. Para isso, investi num conceito de transgressão que tivesse origem na figura do demônio e no cenário de fogo regido por ele. É dentro dessa concepção que nascem a beleza e a rebeldia de Rimbaud.

Cinco tradutores do poeta francês alimentaram a construção deste texto: Augusto de Campos [Rimbaud Livre], Ivo Barroso [Arthur Rimbaud – Poesia Completa], Lêdo Ivo [Uma Temporada no Inferno & Iluminações], Maurício Arruda Mendonça e Rodrigo Garcia Lopes [Iluminuras – Gravuras Coloridas], além dos ensaios Rimbaud e Jim Morrison – Os Poetas Rebeldes [Wallace Fowlie]; A Hora dos Assassinos [Henry Miller]; O Castelo de Axel [Edmund Wilson]; Diabo – Uma Biografia [Peter Stanford]; e inspirações libertárias do Gênesis, de Roberto Piva, dos Pequenos Poemas em Prosa e da obra completa de Charles Baudelaire, e do clássico Simpathy for the Devil (Jagger/Richards), do Rolling Stones, relido pela lente do cineasta Jean Luc Godard.

Sem Lêdo Ivo, o primeiro tradutor de Rimbaud no Brasil, não haveria Rimbaudemônio. Devo muito deste trabalho à sua tradução de Uma Temporada no Inferno & Iluminações, que me trouxe de volta a rebeldia do poeta. Li esse livro há mais de 20 anos e confesso que somente na releitura, no início de 2008, percebi com mais lucidez o impacto de seus versos sobre a poesia moderna.

Lêdo Ivo está fora de minha lista de poetas/tradutores preferidos, talvez por ser um ícone da Geração 45, com a qual não me identifico em razão de sua excessiva e equivocada rejeição ao modernismo de 22 e aos seus desdobramentos. Mas devo reconhecer que bebi do seu entusiasmo no pequeno ensaio que assina no prefácio do livro. Durante a leitura dos versos de Uma Temporada no inferno & Iluminações, esse entusiasmo cutucou minha inspiração e estimulou alguma raiva contra a renúncia do poeta francês. Daí nasceu a ideia de construir um diálogo entre Rimbaud e o demônio.

Outra tradução mais recente, Iluminuras – Gravuras Coloridas, de Rodrigo Garcia Lopes e Mauricio Arruda Mendonça, foi essencial como diálogo com a tradução de Lêdo Ivo. Sobretudo pelos ensaios curtos e luminosos do posfácio, que me ajudaram a compreender um pouco mais o alcance da obra de Rimbaud e mudaram meu olhar, de certa forma ainda ordinário, sobre os truques e trovões rítmicos do poeta de Ardennes.

É importante destacar, no entanto, que Rimbaudemônio está longe dos primeiros experimentos com a técnica cut-up do norte-americano William Burroughs, quando usou trechos das Iluminações (ou Iluminuras, como preferem os tradutores Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça). Aproxima-se muito mais do método detournement (desvio, descaminho, roubo ou rapto, em francês) criado por Lautreamont, cujo objetivo é modificar frases existentes pela troca de algumas palavras ou pela adição de outras cuidadosamente escolhidas. “O plágio é necessário. O progresso exige” (Lautreamont).

A partir de hoje a peça será encenada todas as sextas-feiras, até dezembro, sempre às 21h

*Este texto foi originalmente distribuído aos meios de comunicação junto do release da peça. ** Celso Borges é poeta e jornalista.

Encontros e reencontros musicais na 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes

Noite dedicada ao choro promoverá reedição de recital com João Pedro Borges e Célia Maria, além do encontro inédito, no mesmo palco, dos grupos Regional Tira-Teima e Instrumental Pixinguinha

Realizado há cerca de 10 anos, o Recital de Música Brasileira protagonizou o encontro de um dos mais respeitados violonistas brasileiros em todos os tempos, João Pedro Borges, também conhecido pela alcunha de Sinhô, com uma das mais belas vozes já ouvidas na música popular brasileira, Célia Maria.

Na ocasião, o palco do Teatro Arthur Azevedo foi o escolhido para o espetáculo, em que ao par somava-se ainda um regional. A apresentação deixou saudades em quem esteve na plateia e/ou viu trechos pela internet ou pelas tevês Câmara e Senado, que reprisaram-na, colaborando para a aura mítica de que hoje goza o Recital.

Ainda que em menor escala, uma reedição do show será apresentada na Noite do Choro, domingo que vem (27), às 19h, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), dentro da programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes.

A Noite do Choro promete também ser um acontecimento inesquecível: além do Recital de Música Brasileira, o espaço destinado ao mais brasileiro dos gêneros musicais no evento promoverá o encontro inédito, no mesmo palco, tocando simultaneamente, dos mais tradicionais grupamentos de choro do Maranhão: o Regional Tira-Teima e o Instrumental Pixinguinha.

Certamente será também a noite dos encontros, dos reencontros. Nela o verso do poeta centenário ficará incompleto: só não haverá desencontros. Marque com seu amor, marque com seus amigos, e vá prestigiar este bom punhado de talentos do choro e da música brasileira produzidos no Maranhão. Como apregoa um radialista especializado no assunto: “pra gente de qualidade”.

Histórias – João Pedro Borges, também conhecido como Sinhô, é um dos mais importantes nomes do violão brasileiro. Foi professor de, entre outros, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Guinga e Raphael Rabello. Integrou a Camerata Carioca, liderada pelo gaúcho Radamés Gnattali, grupo definitivo para a renovação do choro no Brasil, entre o final da década de 1970 e início da de 1980. Participou de discos fundamentais do gênero, como Tributo a Jacob do Bandolim [Camerata Carioca, 1979], Valsas e Choros [Turíbio Santos, 1979], Vivaldi e Pixinguinha [Camerata Carioca, 1980], Mistura e manda [Paulo Moura, 1983] e Noites Cariocas [vários, 1989]. Sua discografia inclui ainda A obra para violão de Paulinho da Viola [1985], em que executa repertório do autor de Sinal Fechado acompanhado do próprio e César Faria.

Conhecida como “a voz de ouro do Maranhão”, Célia Maria ainda é menos conhecida do que merece, seja no Maranhão ou fora dele, dado seu inegável talento. Nascida em São Luís, Cecília Bruce dos Reis, adotou o nome artístico para poder, então adolescente, cantar escondida dos pais. Sua carreira artística iniciou-se ainda na infância em concursos de calouros promovidos por emissoras de rádio em sua cidade natal. Morou no Rio de Janeiro onde respirou a efervescência cultural do famoso restaurante Zicartola, com cujos proprietários conviveu, Dona Zica e Cartola, além de nomes como Zé Keti e Nelson Cavaquinho, entre outros da fina flor do samba brasileiro. Em seu disco de estreia, de 2001, intitulado simplesmente Célia Maria, registrou obras de nomes como Chico Maranhão [Meu Samba Choro], Cesar Teixeira [Lápis de Cor], Antonio Vieira [Ingredientes do Samba], Bibi Silva [Lágrimas], João do Vale [Na asa do vento], Edu Lobo e Chico Buarque [Beatriz] e, entre outros, Joãozinho Ribeiro, que naquele ano levou o troféu do Prêmio Universidade FM de melhor compositor, por Milhões de Uns. A produção e os arranjos de Célia Maria ficaram a cargo de Ubiratan Sousa. Seu segundo disco está finalizado, tendo sido produzido e arranjado pelo violonista Luiz Jr., e deve chegar às lojas em 2014.

O Regional Tira-Teima é o mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão. Suas origens remontam ao final da década de 1970, quando participaram do antológico Lances de Agora [Discos Marcus Pereira, 1978], de Chico Maranhão, gravado em quatro dias na sacristia da secular Igreja do Desterro, no bairro homônimo do centro histórico da capital maranhense. O único remanescente daquela formação é Paulo Trabulsi (cavaquinho). A atual completa-se com Francisco Solano (violão sete cordas), Zeca do Cavaco (cavaquinho), Serra de Almeida (flauta) e Zé Carlos (percussão). O Tira-Teima está em estúdio, gravando seu disco de estreia.

O Instrumental Pixinguinha foi pioneiro ao lançar, em 2005, Choros Maranhenses. O disco de estreia do grupo era o primeiro trabalho inteiramente dedicado ao choro gravado no Maranhão. E foi além: todo o repertório é de autoria de chorões locais, de membros do grupo e chorões fundamentais para a consolidação do gênero por estas plagas, a exemplo de Zé Hemetério e Nuna Gomes, entre outros. Formado nos corredores da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM), por professores da instituição, o grupo toma emprestado o apelido-nome artístico de Alfredo da Rocha Viana Filho, um dos mais importantes do choro em todos os tempos. Domingo sobem ao palco Raimundo Luiz (bandolim), Juca do Cavaco (cavaquinho), Domingos Santos (violão sete cordas), Nonato Oliveira (percussão) e Paulo Oliveira (flauta).

O compositor, cujo sesquicentenário de nascimento é comemorado em 2013, será homenageado em ambos os repertórios da noite

RepertóriosRecital de Música Brasileira – Choros e Canções, o primeiro espetáculo da Noite do Choro na 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, foi pensado para mostrar ao público um momento de formação e afirmação da música brasileira, sendo dividido em duas partes. Na primeira, João Pedro Borges executa sozinho, choros de autoria de Heitor Villa-Lobos, Ernesto Nazareth, João Pernambuco e Garoto.

“Não são nomes escolhidos à toa, as peças destes compositores dialogam entre si: Villa-Lobos homenageou Nazareth, que homenageou João Pernambuco e Garoto acaba sendo meio que o resultado daquilo tudo que o choro se tornou”, explica Sinhô, também professor da EMEM.

Na segunda parte do espetáculo, Célia Maria, acompanhada pelo violão dele, desfila um repertório que vai de Azulão (parceria de Jayme Ovalle e Manuel Bandeira) a Piano na Mangueira (de Chico Buarque e Tom Jobim), passando por, entre outras, canções como Senhorinha (parceria de Guinga e Paulo César Pinheiro), O Velho Francisco (Chico Buarque) e Sinhá (parceria de Chico e João Bosco), além de um tema inédito de autoria de João Pedro Borges (Porto Errante).

O segundo show, a reunião inédita de Tira-Teima e Pixinguinha no mesmo palco, fará um passeio por clássicos do gênero. Serão 10 de nossos melhores instrumentistas executando uma espécie de “o melhor do choro”, aquelas que não podem faltar em qualquer roda – e discografia – que se preze.

“Faremos um repertório conhecido e popular, pra cima”, promete Juca do Cavaco. Raimundo Luiz antecipa alguns títulos: Vibrações (Jacob do Bandolim), Brejeiro (Ernesto Nazareth), Pedacinhos do Céu (Waldir Azevedo), Delicado (Waldir Azevedo), Naquele Tempo (Pixinguinha) e Doce de Coco (Jacob do Bandolim). “Isso é só para terem uma ideia”, afirma, em parte agradando antecipadamente aos chorões de carteirinha, em parte deixando algum mistério no ar.

Pelos momentos mágicos que certamente proporcionará, a noite de domingo que vem já está na história.

Serviço

O quê/ quem: Noite do Choro. Dois espetáculos musicais: o primeiro, o Recital de Música Brasileira – Choros e Canções, com João Pedro Borges (violão) e Célia Maria (voz); o segundo, o encontro inédito dos grupos Regional Tira-Teima e Instrumental Pixinguinha.
Quando: 27 de outubro (domingo), às 19h.
Onde: Praça Nauro Machado (Praia Grande).
Quanto: grátis.
Classificação livre. O espetáculo integra a programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes.

Vísceras sociais vomitadas a uma caixa preta

Com capítulos e páginas numerados de trás pra frente, Sobrevivente [Leya, 2012, 353 p., tradução de Tatiana Leão], segundo romance de Chuck Palahniuk, conta a história de Tender Branson, fanático religioso que sequestra um avião – para irmos direto ao ponto. A contagem regressiva é o tempo de os motores pifarem e a aeronave cair, o tempo em que ele aproveita para registrar sua própria história de vida, que narra à caixa preta.

Branson é o único sobrevivente – daí o título – de uma seita religiosa fanática e o autor se utiliza disso para construir uma obra satírica, criticando costumes e valores da sociedade ocidental. O protagonista, por exemplo, alimenta seu peixinho de estimação com valium, usa ele mesmo um sem número de drogas para manter as aparências, afinal de contas, é um líder religioso que precisa conquistar e convencer, principalmente pelo que expõe em cadeia nacional de tevê.

É também ele um incentivador de potenciais suicidas a consumarem o ato, por telefone. É mais um elemento irônico do texto: qualquer um pode ser promovido a qualquer coisa, tudo depende da intensidade da cobertura da mídia, para citarmos uma passagem em que ele questiona mesmo o martírio de Jesus Cristo. Como convém, a obra é recheada de passagens bíblicas.

Também recheiam as páginas de Sobrevivente dicas domésticas, os afazeres do lar outra das funções do personagem principal, antes de sua vida virar. Com uma narrativa frenética, o livro, que também diverte, talvez seu objetivo primeiro, acaba revelando bastidores de um circo em cuja plateia só se veem palhaços: eu, você, seus leitores e todos aqueles de quem bancos, governos, igrejas e instituições em geral riem da cara a cada quebra de recorde nos lucros.

Chorografia do Maranhão: Luiz Jr.

[O Imparcial, 4 de agosto de 2013]

12º. entrevistado da série, Luiz Jr. recebeu os chororrepórteres nas instalações do estúdio Sonora, de sua propriedade, que está registrando momentos importantes do atual momento da música do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

A vida de José Luiz Carvalho dos Santos Júnior começa na música: além de ter nascido em berço musical, a pérola de João do Vale pode lhe servir de trilha sonora para a infância: aos quatro anos de idade ele veio De Teresina à São Luís, onde faria história.

Filho do músico e escritor José Luiz Carvalho dos Santos e de Auzair Leite Carvalho dos Santos, ele ainda formou trio com os irmãos Carlinhos Carvalho e Virna Lisi, ele tecladista, ela cantora. Nascido em 1º. de janeiro de 1974, o músico é casado com a jornalista Valquiria Santana, pai de Dandara Liz, 16, e Jean Lucas, 13. Recentemente instalou em sua casa o estúdio Sonora, em que recebeu a equipe da Chorografia do Maranhão para a 12ª. entrevista da série publicada em O Imparcial.

Em seu estúdio também estão acontecendo momentos importantes da música do Maranhão: o Sonora abrigou os ensaios para Milhões de Uns, show em que se registrou ao vivo no Teatro Arthur Azevedo, a estreia do compositor Joãozinho Ribeiro em disco; lá também, atualmente, estão em processo de produção os discos de Célia Maria, Cláudio Leite e Patativa, todos a serem lançados em breve.

Luiz Jr. tem um disco gravado, Instrumental (2009), e já participou de inúmeros trabalhos, entre os quais se destacam Shopping Brazil (2004), de Cesar Teixeira, Canção de Vida (2006) e Samba de Minha Aldeia (2010), ambos de Lena Machado, Emaranhado (2007), de Chico Saldanha, Balançou no Congá (2008, póstumo), de Lopes Bogéa, e Made in Brazil (2009), de Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013]. É o violonista que detém o maior número de troféus no anual Prêmio Universidade FM em sua categoria.

O ambiente em tua casa sempre foi muito musical? Muito, muito. Tenho boas recordações. Inclusive da [cantora] Alcione lá na casa do meu avô. Meu avô era muito amigo do João Carlos [Nazaré, pai de Alcione]. Por que João Carlos fazia parte da banda de música, que ele [seu avô] era o maestro da banda da polícia militar. Então, eles trocavam informações, fizeram até músicas juntos. Meu avô vinha pra cá, ficava na casa dele. Ele também ia lá pra Teresina ficava na casa do meu avô. E quando Alcione foi embora daqui, o primeiro lugar que ela foi, foi prá lá, Teresina e ficou hospedada na casa do meu avô. Lá em casa qualquer motivo era motivo de festa, da gente tocar. Meu avô batia muito nessa tecla: “toca pra mim aí uma música, um choro, não sei o quê”. Ele gostava muito de choro, tem choro inclusive no seu repertório de composição. Então, ouvia muito isso.

Tua infância então foi vivida entre Teresina e São Luis. Você ia e vinha? Como é que era isso? Quando eu vim pra cá, não tocava nada, mas sempre tinha essa influência de ouvir meu pai. E aqui eu comecei, meu pai me levando nos bares da vida com ele, passeando em São Luis, vendo a cultura popular também, eu comecei a pegar violão. Em duas semanas eu tava tocando um monte de música, papai levou um espanto. Nem sabia que eu tava tocando violão. Aí pronto, me colocou debaixo do braço e começou a me levar sempre nas rodas de choro lá do Bateau-Mouche, lá no Monte Castelo, vendo lá o [músico] Zé Hemetério, a turma, o Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], o Gordo Elinaldo, Neres no Trombone.

Bateau-Mouche era o nome do bar? Era. Na feira do Monte Castelo. É por que alagava tudo lá, quando tava rolando choro, caía aquela chuva, alagava tudo que ninguém conseguia sair [risos].

Teu pai dava aulas de música em casa. Como era tua vivência com os alunos? Fale desses dois aspectos: da tua casa enquanto escola de música e da vivência em família. Aconteciam saraus com a família tocando? Eu sempre via meu pai tocando algum instrumento. Quando não era violão, era teclado, numa época em que ele estudou muito piano. Tinha uma época em que ele estudava clarinete direto, depois passou pro sax. Então, sempre a gente teve essa interação, de ouvir algum instrumento em casa tocando. Depois meu irmão começou a tocar, a minha irmã cantava. Eu era o único que cantava lá em casa, aí minha irmã começou a cantar e eu dancei [risos]. Aí eu passei pro violão, depois a gente começou a fazer uma dupla e o Carlinhos começou também a tocar, aí pronto, formou o trio.

Com tantas possibilidades que te eram oferecidas por conta dessa família musical e de teu pai transitar entre tantos instrumentos, por que a tua escolha pelo violão? Como é que se deu essa escolha? Acredito que foi por que era o instrumento mais próximo que tava ali. E também por que eu tinha alguns eventos lá na escola em que estudava. Tinha uns eventos lá e sempre, “ah, o cantor daqui da escola”, me botavam pra cantar no evento lá do Dia dos Pais. Aí eu sempre pedia, “papai, me acompanha lá”, “tá bom, eu vou meu filho”. No outro ano: “papai…”, “meu filho, vai aprender a tocar violão”. Aí, eu peguei essa música que é a música, na verdade foi Dia das Mães [cantarola]: “Ela é a dona de tudo, ela é a rainha do lar…”, aí depois, pronto. Só que o choro foi muito tempo depois já.

Você já teve outra profissão que não a música? Já pensou em fazer outra coisa? Se você não fosse músico, o que você seria? Ninguém. Eu não existiria, com certeza. A música, pra mim, ela tá fincada.

Você está cursando música na UFMA? Sim, terceiro período, licenciatura.

Como é que está? O que você está achando? É um curso novo, tem seus problemas, mas eu tou adorando, por que pra mim tá sendo a realização de um sonho, na verdade. Quando eu morei em São Paulo eu tentei fazer pela Unicamp. Não consegui, porque também não tive muita base em escola, porque quando comecei a tocar, pronto, aí a escola começou a ficar difícil. Então, eu terminei o estudo na marra mesmo, minha mãe empurrando: “vai terminar o segundo grau”, aí eu fui terminar.

Na família todos te apoiaram na escolha de fazer de músico a tua profissão? Ou houve alguém que disse “não, Júnior, vá fazer outra coisa porque ser músico não é o grande barato”? Todos apoiaram assim com relação a essa minha decisão. Eu sempre tive isso na cabeça, mesmo estando ainda na escola, eu já pensava “eu nunca quero ser outra coisa, a não ser um instrumentista, tocar”. E sempre enveredando por uma música de qualidade. Eu curto essa minha vida de músico como a melhor coisa que aconteceu na minha vida.

Você é mais conhecido como violonista, mas tu toca outros instrumentos: o violão sete cordas, guitarra, cavaquinho, viola. O violão é teu instrumento preferido ou hoje você já prefere o sete cordas ao de seis? Por conta de ter montado este estúdio, isso me forçou a tocar outros instrumentos, por conta de produções. Eu tenho pego muitas coisas, muitos discos para produzir, fazer arranjos, então eu tive que realmente cair na guitarra, tocar um pouco de teclado, cavaco também. Mas, o meu violão mesmo, o instrumento que eu gosto mesmo de tocar é o violão sete cordas, o que me dá mais prazer. Principalmente tocando choro, música instrumental.

Você está produzindo vários discos. Pode anunciar alguns? O primeiro disco que eu produzi foi o da OAB [a seccional maranhense da Ordem dos Advogados do Brasil], do aniversário da OAB, com vários intérpretes advogados. Foi o primeiro projeto do estúdio. Aí depois veio o DVD do Roberto Brandão, que ainda vai ser lançado. Aí Patativa, Célia Maria, Joãozinho Ribeiro agora, Cláudio Leite, que a gente tá finalizando aqui, o cd da minha irmã, Virna Lisi.

Estes discos têm um prazo para serem finalizados? Quando é que vão chegar ao mercado? O primeiro da Patativa e o da Célia são dois discos do edital promovido pelo Governo do Estado. No caso da Célia foi pago a parte de gravação, arranjos e músicos; não está previsto prensagem, projeto gráfico e lançamento. Já o de Patativa estão previstas gravação e prensagem. Como eu pensei assim: “vou finalizar o disco da Patativa, entregar pra ela e aí, e o disco da Célia?” São dois projetos que saíram juntos lá da Secma, né? Então eu pensei em juntar esses dois projetos e vou captar pra esses dois projetos e isso vai ajudar, inclusive,  pra prensar o da dona Célia e pro lançamento das duas. Me veio à cabeça essa ideia e eu finalizei o projeto agora pra captação através da Lei de Incentivo, e fazer um grande lançamento. A minha ideia é fazer um lançamento em São Paulo e depois trazer pra cá; e tudo isso requer um pouco de tempo. Fugiu do cronograma de prensagem. O disco, no caso da Patativa, tá pronto. Inclusive, ela colocou a voz aqui, foi numa manhã e de tarde; foi impressionante a forma, eu até perguntava pra ela: “Dona Patativa, a senhora não tá cansada não, a senhora não quer parar? De repente amanhã a gente volta?”. “Não, eu quero é gravar”. Foi ótimo assim, a forma que ela cantou foi espetacular. E pra mim, foi até surpreendente, porque palco é uma coisa e estúdio é outra. A forma que você aplica a voz. Eu não falei praticamente nada, ela cantou da forma que realmente ela canta, foi ótimo. O que eu quero é terminar logo esse trabalho, mas que eu faça uma coisa bem feita, faça um grande lançamento compatível ao nível artístico das duas, que eu acho que são as duas maiores cantoras aqui do Maranhão.

Você é um dos instrumentistas mais requisitados aqui no Nordeste, dirige vários trabalhos, hoje tem um estúdio. Dá pra viver de música com dignidade? Essa é uma pergunta complicada, mas assim, eu acima de tudo amo muito o que eu faço. Nada veio de graça também pra mim. Ralei muito pra ter as coisas, já fiz milhões de estilos de trabalhos; não fiquei só no choro, fiquei também em outros estilos, inclusive até tocando música que não é do meu gosto musical, mais popular, vamos dizer assim, axé, sertanejo… a gente ia tocar. Isso também me deu muita bagagem. Aparece muita coisa [trabalho] pra mim, graças a Deus. E hoje eu tou me dando ao luxo de fazer só show, de produzir discos e tocar. Fazer shows. Saí de bar, toquei 10 anos em bar. Ou seja, dá pra se viver de música.

Dos muitos discos que você produziu, que você participou, qual aquele ou quais aqueles que você teve mais satisfação em fazê-los? Rapaz, é difícil porque todos eles eu encaro como uma aprendizagem, que eu possa crescer como músico instrumentista, até pra entender o que o produtor quer. Se eu estiver dirigindo, buscar entender o que o artista quer, entrar nesse universo de cada artista. E eu me envolvo 100%. Por isso é que acredito que eu tenha conseguido dar um direcionamento mais fiel a cada trabalho. Os trabalhos que me marcaram bastante, foram dois na verdade; um foi o da Cáritas, com a Lena Machado [Canção de Vida, 2006, disco de estreia da cantora, celebrava os 50 anos de atuação da Cáritas no Brasil], que foi depois; o primeiro foi o do Cesar Teixeira [Shopping Brazil, 2004], foi o trabalho que pra mim, eu me lembro assim, eu fico super emocionado, tenho uma admiração muito grande pela obra do Cesar; acho que partiu dali pra que eu tivesse uma visão muito mais ampla.

Acontece de ouvir o trabalho depois de pronto e não gostar? De pensar que não ficou como você queria? Não, porque eu me envolvo tanto com a coisa. Não sei nem como eu posso explicar isso, eu me apego duma forma como se fosse meu. Não me recordo de nenhum trabalho em que isso tenha acontecido. Claro que a gente sempre busca fazer melhor a coisa, mas eu não penso nisso.

Mas você faz autocrítica? Sempre faço. Em primeiro lugar eu procuro escutar as críticas. Inclusive eu busco mais as críticas mais pesadas, eu encaro tudo como uma crítica construtiva, eu busco isso.

Você produz, arranja, dirige e executa. Qual dessas porções musicais que te deixa mais realizado, mais satisfeito? O que te deixa mais feliz dentre essas habilidades todas? É a pergunta mais difícil [risos]. Antigamente que eu só tocava, eu achava que faltava alguma coisa por que eu via meus amigos todos produzindo; eu sou da época do [guitarrista] Edinho Bastos produzindo, [os pianistas] Henrique Duailibe, Marcelo Carvalho. São figuras que pra mim são referências, fizeram uma história muito bonita com relação à nossa música. Mas eu pensava “poxa, porque é que eu não produzo assim?”. Mas, claro que eu era muito novo. Inclusive, Marcelo Carvalho produziu o primeiro disco da minha irmã Virna Lisi e eu fui lá no estúdio, assim, olhar  os caras gravando; os caras eram os tops, a turma que mais gravava, mais tocava aqui em São Luis: o Leônidas no violão, e eu vendo Marcelo Carvalho ali no piano, chamava Eliézio do Acordeom, Jeca na percussão, Fleming na bateria, eu ficava “puxa, será que um dia eu vou tocar com esses caras?” Aí, eu doido pra gravar e os caras “não”, mas deixaram eu gravar uma faixa, graças a Deus! Depois que eu comecei a produzir eu sinto o mesmo amor: de estar no palco tocando, no estúdio gravando, numa mesa de bar tocando, é o mesmo prazer, é impressionante, basta eu ter o instrumento na mão.

Você anda bastante ocupado, estudando, produzindo, tocando em shows. Certamente está recusando trabalhos. Que critério você utiliza para isso? O critério que eu uso hoje é dar um novo direcionamento à música produzida no Maranhão. Dar uma nova cara da música brasileira. É essa a minha busca, de buscar novos elementos, de usar a nossa cultura popular como base, como influência. Dar uma nova cara pra nossa música. Eu não encaro a coisa com relação a ganhar dinheiro, senão eu tava tocando sertanejo, tava com os artistas mais populares, com mais público.

Quando você fala de transformar o Maranhão num novo polo da música brasileira é no sentido de São Luis ser a próxima Recife, por exemplo, de ter um manguebit aqui? No sentido de ter um movimento organizado, que os artistas tenham essa repercussão nacional? Com certeza. De preparar esses artistas, esses talentos que nós temos pra que se crie um mercado em nível nacional, que eu acho que a nossa música já é uma música de muita qualidade, o que a gente produz aqui. Então, é transformar isso como um produto que chegue como uma nova referência, como um novo momento da nossa música.

Quem você pode citar entre esses artistas que precisam ser trabalhados para cumprir essa vocação, essa transformação? Ah, tem muita gente. Tem muita gente. Tem compositores, que são também intérpretes de suas músicas, grandes artistas como o Cesar Teixeira, uma referência; deixa eu ver, aí da nova geração tem a Milla Camões, a Lena Machado, que pra mim tem uma voz maravilhosa.

Dá pra lembrar os grupos musicais de que você já fez parte? O primeiro grupo que eu fiz parte foi um grupo chamado Choque. Era formado, eu, minha irmã cantando e o Carlinhos, meu irmão, no teclado. A gente tocava em tudo que é lugar a gente possa imaginar, Vila Embratel, tocava nos inferninhos ali do João Paulo, toquei muito no Juvêncio. A gente sempre trilhava alguma coisa assim de mais qualidade, Luiz Gonzaga, seresta, Perfídia, Orlando Silva, essa galera, por conta da influência do meu pai. Depois veio a primeira banda de baile, Os Incas, juntamente com Marcos Lussaray. Depois, grupos de samba: Futuro do Samba, Sindicato do Samba, Sambaceuma, Sem Dimensão, que foi o primeiro grupo de samba raiz. Depois entrei no Sindicato do Samba, lá com Gordo Elinaldo. Aí parti pras bandas, Sambauê, Bicho Terra, aí entrei no Barrica. Grupo instrumental fiz parte do Choro Pungado, tinha o grupo chamado Made In Brazil também, que era eu, [o percussionista] Carlos Pial, meu irmão, o Bumba Jazz, o Toque Brasileiro.

O que significou o Choro Pungado para você? Foi uma experiência interessante, a gente poder trabalhar usando os elementos da cultura popular. Isso refletiu muito no meu pensamento de produtor de uma nova música, de uma nova marca, isso me influenciou.

Para você o que é o choro? Qual a importância dessa música, desse gênero para a musica brasileira? O choro é nossa base! Praticamente tudo saiu do choro, tudo teve um pouco de influência do choro.

Você se considera um chorão? Que pergunta! [risos] Eu, no fundo, no fundo, me considero. Por que quando me lembro do ser músico, desse universo todo, eu me lembro das influências que tive, participei muito dessas rodas de choro quando era criança lá no Monte Castelo, meu avó lá também em Teresina, tocando Espinha de Bacalhau [de Severino Araújo] no trompete e eu tentando acompanhar tudo.

Quem é a maior referência no violão no país? Penezzi!  Alessandro Penezzi. Tive uma experiência agora com ele, de tocar com ele, dele improvisar aqui. Também tive uma experiência com Yamandu Costa, uma pessoa genial, um ser humano fantástico. Mas o Penezzi me tocou mais por tudo o que já ouvi dele. Tem o Zé Barbeiro, que tive a honra de tocar com ele lá em São Paulo, é uma pessoa interessante, que além de ser tradicional, é contemporâneo pra caramba, a forma que ele toca, a forma harmônica, e eu me identifiquei com ele assim.

Como foi a experiência de trabalhar com Zeca Baleiro? Foi uma das surpresas mais incríveis que tive na vida. O Zeca é uma pessoa tão maravilhosa, deixa a gente tão à vontade, que a gente conseguiu alinhar os pensamentos e construir muita informação no projeto do Lopes Bogéa e depois do Chico Saldanha. É fantástico, uma experiência única.

Homenagem a João do Vale encerra temporada 2013 do BR-135

O projeto BR-135 encerrou em grande estilo sua temporada 2013. Ontem (17), o Teatro Arthur Azevedo completamente lotado foi palco de uma justa e merecida homenagem ao compositor João do Vale, o maranhense do século XX, que teria completado 80 anos no último 11 de outubro.

A casa certamente registrou um dos melhores públicos desta temporada, esta uma das marcas do projeto pilotado por Alê Muniz e Luciana Simões: por onde passa, o BR-135 leva um bom público.

Outra marca é justamente o diálogo permanente entre gerações, basta ver qualquer lista de convidados para cada edição do projeto, cujo saldo até aqui é positivo.

Nascido em Cururupu e radicado há mais de 30 anos em São Paulo, o cantor, compositor, instrumentista, ator e dançarino Tião Carvalho encarnou o homenageado: seguiu o emocionado roteiro de Andréa Oliveira – biógrafa de João do Vale – e cantou Minha história, Peba na pimenta, O canto da ema e A voz do povo.

O mestre de cerimônias tinha convidados. O roteiro musical fechou-se com Pé do lajeiro e De Teresina a São Luís, interpretadas por Djalma Chaves, Uricuri e Estrela miúda, por Milla Camões, Pisa na fulô e Na asa do vento, por Santacruz, e Carcará e Coroné Antonio Bento, pela banda Vinil do Avesso. Este texto talvez pareça burocrático. O show não o foi, fluindo espontaneamente, o entrosamento dos músicos, os convidados à vontade no palco, Tião Carvalho entre cantor e contador de causos, lembrando diversas passagens da vida e obra de João do Vale.

Se parece óbvia a seleção do repertório, privilegiando músicas por demais conhecidas do pedreirense, não o foram os arranjos, transformando xotes em reggaes – caso das interpretações de Santacruz – e rockificando o voo do Carcará.

Em geral não houve estranhamentos. Milla Camões, por exemplo, botou a plateia para cantar junto em Estrela miúda. A banda, um espetáculo à parte: Alisson Rodrigues (saxofone), Daniel Miranda (trombone), Hugo Carafunim (trompete), João Paulo (contrabaixo), João Simas (guitarra), Nataniel Assumpção (bateria) e Rui Mário (sanfona e teclado). Da plateia às galerias era possível ver, aqui e ali, entre sentados e em pé, muita gente arriscando uns passos, acompanhando a energia irradiada do palco.

O final apoteótico reuniu a todos – mais os anfitriões Alê Muniz (que havia subido ao palco para uma participação especial ao violão em Carcará) e Luciana Simões, além de membros da equipe de produção. Foram aproximadamente 1h30min de um show que deixa saudades – inclusive uma saudade temporária do projeto, que volta ano que vem, nos trazendo coisa boa, sabem Deus, Alê e Lu o quê.

Ademir Assunção leva o Jabuti de Poesia

UM QUILO MENOS DISSO

Há uma canção melancólica de Tom Waits que narra a história de uma garota interiorana que vai para Nova York e cai nas mãos de pessoas erradas. No fim, restam apenas alguns litros de sangue na calçada e uma bolsa de pele de crocodilo vazia, jogada no bueiro por um vigarista. Há uma canção de Bob Dylan que narra o desterro de uma garota de nariz empinado que acaba na sarjeta, tendo que filar o rango de um maltrapilho que ela olhava do alto do pedestal. How does it fell/ To be on your own/ With no direction home/ Like a complete unknow/ Like a rolling stone? Há dias de calmaria e há dias de tormenta. Há um disco de Carmen McRae rolando na vitrola. Há céus azuis e há céus cinzentos. Há anjos e há demônios em quase todas as mitologias. Há pessoas que julgam e há pessoas que não se importam mais. It could be right or it could be wrong. Não há erros. Há fluxos, rajadas de vida. E muitas vezes o vento muda de direção. Há pessoas que às vezes estão tristes. Há muito desacerto. Há certezas demais. Há um vazio gigante entre os dois extremos da conexão. Há coisas que acontecem somente para que os antigos laços sejam reatados e novos sejam rompidos. Há drogas pra dormir. Há um avião B-52 caindo, há o rugido pesado de uma guitarra e há o choro de um recém-nascido. Há bombas que foram lançadas em 1944 e ainda não pararam de cair. Há um muro bem ali na frente. Ainda não consigo distinguir sua cor. Não sei nada sobre sua textura. Nem sobre sua densidade. Mas sei que estou indo em direção a ele. A 180 por hora. E não vou tirar o pé do acelerador.

Este poema em prosa abre a sétima noite do diário do ventríloquo – A voz do ventríloquo [Edith, 2012], de Ademir Assunção, é dividido em noites, cada noite uma seção de poemas.

O trecho com que abro este post, batizado por um verso de Sérgio Sampaio, traduz um pouco do que é o poeta, mostra algumas de suas influências e a forma como ele lida com as coisas – principalmente a poesia.

Ademir Assunção esteve em São Luís no final de setembro. Participou de três momentos da Feira do Livro de São Luís. Entrevistei-o por e-mail antes de sua chegada e provavelmente deixei sua indicação ao prêmio Jabuti na categoria poesia de fora do papo por ainda não ter à época a lista dos 10 finalistas – em que figurava também, entre outros, o maranhense Josoaldo Lima Rêgo, meu colega de equipe de curadoria, por Variações ao mar [7Letras, 2012]. Minha conversa com ele foi publicada pela metade nO Estado do Maranhão e inteira cá neste blogue.

No fundo, talvez, se eu já tivesse conhecimento da lista, a pergunta entraria na roda apenas por critérios jornalísticos (acho que a entrevista vai além), justamente por saber que Ademir não escreve poesia – ou prosa, ou jornalismo ou o que quer que seja – para ganhar prêmios. A prova disso são os quatro livros inéditos que ele tem na gaveta – uma coletânea de reportagens, outros de poesia.

Ademir Assunção já era um papo de longa data, ele desde sempre bastante atencioso ao responder e-mails, e conhecemo-nos pessoalmente durante a 7ª. FeliS, um grande acontecimento: nomes importantes como Fernando Moraes e Walnice Nogueira Galvão, por exemplo, preferiram-na à Feira de Frankfurt. As críticas existentes devem deixar a FeliS ainda melhor – e maior – ano que vem.

Mas voltando: como eu disse na mediação de uma das mesas de que ele participou no evento literário, um cara fundamental na minha formação. Conheci sua poesia meio que por acaso: Xico Santos, editor proprietário da Altana, mandou-me de presente seu Zona Branca [2001], publicado por aquela editora. Desde então tenho acompanhado com avidez e alegria sua trajetória, lançamento após lançamento – vem um disco novo aí em novembro! –, suas dicas e suas reações a essa sociedade e seus problemas.

Este post, pois, é para anunciar a vitória de Ademir Assunção na categoria Poesia do prêmio Jabuti 2013, com seu A voz do ventríloquo. Ele, que gostou do que viu e viveu em seus dias de ilha, quem sabe não torna a ela ano que vem? De minha parte será um enorme prazer. Ademir: ligando ou não para prêmios, parabéns!

Alexandra Nicolas encerra Jornada de Fonoaudiologia do Uniceuma

[release]

A cantora, ex-coordenadora do curso de Fonoaudiologia da instituição, falará a estudantes e interessados sobre a profissão no encerramento da jornada

Fonoaudióloga de formação, a cantora Alexandra Nicolas falará de seus ofícios a estudantes do Uniceuma

“A voz do dono e o dono da voz”. Até a próxima sexta-feira (18), o curso de Fonoaudiologia do Uniceuma toma emprestado o título da canção de Chico Buarque – gravada por ele em Almanaque, seu disco de 1981 – para dar nome à sua XII Jornada Acadêmica de Fonoaudiologia, evento realizado anualmente pela instituição.

Diversos profissionais participarão do evento, cuja programação inclui palestras, mesas redondas, debates e minicursos. O encerramento terá a participação da cantora Alexandra Nicolas, fonoaudióloga de formação, que coordenou o curso de Fonoaudiologia do Uniceuma por quatro anos.

“A ideia é conversar com os estudantes abordando minha carreira como fonoaudióloga e a nova carreira que abracei, de cantora”, explica Alexandra sobre sua participação na jornada. “É interessante voltar à universidade depois de cinco anos. Cinco anos após ter deixado uma carreira para investir em outra”, emociona-se.

História – Era Alexandra Nicolas quem estava à frente do curso de Fonoaudiologia do Uniceuma quando o mesmo obteve o reconhecimento do Ministério da Educação (MEC), necessário ao funcionamento, o que ela revela considerar uma das grandes vitórias que teve na vida.

Ela falará aos estudantes e demais interessados dia 18 (sexta-feira), às 11h, no Auditório Expedito Bacelar, no Uniceuma Renascença. Sobre a participação, a profissional da voz – antes como fonoaudióloga, agora como cantora – imagina que será um momento de grande responsabilidade e descontração: “Será como voltar no tempo, bem emocionante”, acredita. “Embora eu não descarte o lado polêmico da participação: terei que explicar diante de todos os estudantes o porquê de ter deixado a profissão, ao mesmo tempo em que devo motivá-los a permanecer, o que farei, com uma única ressalva: que eles não estejam em conflito com a arte”, afirma, de certo modo já antecipando explicações.

Ofícios – Alexandra Nicolas trocou de profissão, mas a voz continua sendo seu principal instrumento de trabalho. Ela comenta em que medida uma ajuda a outra: “A fonoaudióloga só a ajuda a cantora, em absolutamente tudo. É um domínio geral do aparelho vocal. Você canta e consegue visualizar e entender todo o processo, excelente pra ter medidas fáceis e suporte para facilitar o canto”. Já a se todo/a fonoaudiólogo/a daria um/a bom/boa cantor/a, ela é taxativa: “Não! É preciso dom, musicalidade e principalmente ser devoto da música de verdade”.

Perguntamos-lhe ainda se havia o risco de uma canja surpresa, presente ao público presente – redundância intencional: “Tudo é possível, quem sabe”, finalizou sorrindo. (Por Zema Ribeiro)

O peso das escolhas

[O Imparcial, ontem]

Michel Laub lança segundo volume de trilogia em que analisa o peso individual de grandes catástrofes. A maçã envenenada relaciona o genocídio étnico em Ruanda e o suicídio de Kurt Cobain para contar uma história de amor

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O gaúcho Michel Laub é um dos mais talentosos escritores em atividade no Brasil – e um dos 70 que está representando o país na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha. A maçã envenenada [Companhia das Letras, 2013, 119 p., leia um trecho] segue um modo particular de escrever: capítulos curtos e certeiros, espécies de notas numeradas, daquelas que facilitariam ao leitor interromper a leitura, um marca páginas, e continuar logo em sequência – isso se se conseguisse parar.

O título retirado de um verso do Nirvana – de Drain you, do mítico Nevermind, de 1993 – une temas aparentemente sem relação alguma: o suicídio de Kurt Cobain e o martírio de Immaculée Ilibagiza, escritora ruandesa que sobreviveu ao confinamento por 91 dias em um banheiro enquanto sua família era dizimada por um genocídio étnico, ambos em 1994 – a relação entre os dois acontecimentos se dá pelo jornalismo, outro ofício de Laub, e o tom autobiográfico não está aí à toa ou por ego. O título, que caberia a um conto de fadas, deve ser levado a sério.

O que o autor conta é uma dolorosa história de amor, iniciada e terminada nos verdes anos juvenis: uma história de perda. Ou de perdas. A maçã envenenada é o segundo volume de uma trilogia iniciada por Diário da queda [Companhia das Letras, 2011, 151 p.], em que Laub analisa o peso de catástrofes de repercussão global a partir de um olhar particular, mesclando memória, autobiografia e ficção.

O dilema entre ir ou não ao show do Nirvana no Brasil – que o próprio Kurt Cobain classificaria como o pior show da banda em todos os tempos – por um estudante que cumpre o serviço militar obrigatório – uma aberração que sobrevive aos quase 30 anos do fim do regime militar brasileiro – é o ponto de partida para uma trama bem construída, em que cenários e personagens se alternam para contar uma história acima de tudo humana, o início de uma biografia cujos capítulos juvenis morarão na saudade quando um adulto olhar para trás e se perguntar o que poderia ter acontecido se tivesse feito outras escolhas – ir a um show de rock e desertar ou ficar e não ser punido?

BR-135 canta João

Alê Muniz e Luciana Simões, o casal Criolina, foram bastante aplaudidos, sobretudo nas redes sociais – o que inclui este blogueiro –, pela aparição, competente e emocionante, sábado passado (12), no Som Brasil dedicado ao público infantil na Rede Globo.

Mas esta dupla merece aplausos por muito mais. Já há algum tempo eles capitaneiam, por exemplo, o projeto BR-135, iniciativa louvável, entre outras, por duas razões: primeiro, o fomento a uma cena autoral e de qualidade, a organização de artistas e o botar pra fazer, acabando com aquele chororô de “falta palco”, “ninguém me apoia”, “não tem plateia” etc., que por vezes acomete parte de nossa dita classe artística, sobretudo no campo musical – que contraditoriamente é o mais apoiado, se compararmos, por exemplo, com o povo do teatro ou das artes plásticas, para ficarmos em poucos exemplos, mas esta é outra discussão e este post não tem este objetivo; segundo, pela reverência ao que vem antes desta cena que o BR-135 – e o Criolina – ajuda(m) a consolidar.

Acertadíssimos os tributos já realizados aos 35 anos do disco Bandeira de Aço, o primeiro em maio passado no Teatro Arthur Azevedo, o segundo no último 6 de outubro, na Praça Nauro Machado, no encerramento da 7ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS). E agora me vêm com essa: uma merecidíssima – perdoem aí os superlativos – homenagem ao nada menos que genial João do Vale, que teria completado 80 anos – e eu achando que seriam 79, gracias Andréa Oliveira, Benedita Freire e Wilson Marques! – no último 11 de outubro.

João do Vale 80 anos será o último show do BR-135 em 2013. O espetáculo acontecerá nesta quinta-feira (17), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo, com a seguinte seleção escalada para atacar com o repertório do autor de Carcará e tantas outras pérolas: Tião Carvalho, Djalma Chaves, Milla Camões, Santacruz e a banda Vinil do Avesso. O primeiro, que em 2006 dedicou o álbum Tião Canta João [Por do Som] ao repertório do pedreirense, será o mestre de cerimônias. Os ingressos poderão ser trocados na bilheteria do teatro, na data do show, a partir das 14h, por um quilo de alimento não perecível.

Painel na Vila Palmeira batiza de João do Vale Tião Carvalho

Louvo a iniciativa. Eleito o maranhense do século XX entre o fim daquele e o início deste, João merece a lembrança e certamente aprovaria a homenagem. Ajuda a reparar erros como o do muro do Parque Folclórico da Vila Palmeira, órgão vinculado à Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), onde se vê uma foto de Tião Carvalho e lê-se João do Vale logo abaixo. Ambos são artistas negros, nascidos no interior do Maranhão – Tião é de Cururupu – e inegavelmente talentosos. As semelhanças são muitas, mas nada que justifique o vacilo da oficialidade.

Original desde o batismo, o BR-135 pega emprestado o nome de nossa única via de entrada e saída por terra da Ilha. Que o casal Criolina continue trilhando-a e ajudando a construir outras pontes musicais.

Como é que se diz eu te amo

[O Estado do Maranhão, Alternativo, ontem]

10 coisas que eu podia dizer no lugar de eu te amo, um disco sobre o amor que foge da pieguice

Kléber Albuquerque escreve e canta o amor sem soar cafona

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO

As 10 coisas que eu podia dizer no lugar de eu te amo [Sete Sóis, 2012] são, na verdade, 14, este o número de faixas do novo disco de Kléber Albuquerque, um de nossos mais interessantes compositores da atualidade.

O repertório, inteiramente autoral, é quase todo inédito – Kléber recria Tevê, parceria com Zeca Baleiro, gravada por ele em O coração do homem bomba, e Devoluto, parceria com Sérgio Natureza, homenagem a Celso Borges, gravada em Música, livro-disco do poeta, de que ambos participam – aqui o reencontro de Kléber e Baleiro, que canta nas duas regravações. Outros parceiros que comparecem são Sérgio Lima (Brincadeira de amor), Lúcia Santos (All Star e Terra do Nunca) e Gabriel de Almeida Prado (Sujeito objeto). Elaine Guimarães divide com ele os vocais em Vazante – momento sublime, de versos como “lágrima/ água com navalha/ migalha de mar/ mágoa é água parada”. Entre os músicos André Bedurê (contrabaixo), Michelle Abu (percussão), Ricardo Prado (teclados) e Rovilson Pascoal (guitarras).

É um disco sobre o amor, o que entrega o título e o colorido florido da chita (maranhense?) da capa – o próprio Kléber assina produção musical e projeto gráfico, este com Vivi Correa –, mas fugindo do piegas. “Essa tal de poesia/ é coisa que vicia/ e maltrata o coração/ faz rimar fel e folia/ faz amar quem não devia/ dá rasante na razão/ mas em comparação/ com outras profissões/ vê mais sol/ vê mais lá/ vê mais dó”, canta em Maquinário, sobre o próprio ofício.

Nem só de amor vive o artista, que brinca com gramáticos e dicionaristas em Sujeito objeto: “Ei, Pasquale/ por que o andar dessa menina/ sempre rouba palavras da minha boca?/ Ei, Aurélio/ por que o olhar dessa garota/ planta versos na minha cabeça oca?/ Michaelis/ então me diga o motivo/ de tantos adjetivos”. Quer dizer, é sobre o amor, sim. Tevê é sarro com a sociedade consumista: “comercial de xampu/ cerveja e celular/ mentiras para crer/ e credicard”. No fundo, é também sobre o amor, aquele amor-preguiçoso esparramado no sofá da sala.

São 15 anos de carreira, inaugurada em 1997 com 17.777.700. 10 coisas é o sexto disco de um dos compositores preferidos de nomes como Ceumar e Rubi, para ficarmos em duas das melhores vozes que já o interpretaram. São mais de 15 anos dedicados à música, que o amor ao ofício não começa no disco. A continuar nestas trilhas, o número de apaixonados por Kléber Albuquerque e sua obra só tende a aumentar.

O futuro da censura

Entre lançamentos e reedições, outras obras podem ter o mesmo infeliz destino desta

Muito já se falou no assunto e eu só não vi mesmo a opinião do Lobão, que agora engrossa o coro de colunistas reaça da Veja. Em pauta as biografias e a censura prévia. Talvez o velho lobo esteja quieto por já ter escrito – com o grande Cláudio Tognolli – sua autobiografia.

Até aqui, de tudo o que foi dito, fico com Alceu Valença e Benjamin Moser. O grupo formado por Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Paula Lavigne e Roberto Carlos – perdoem se esqueço alguém – é simplesmente ridículo, a começar pelo nome: Procure saber é um exemplo de pura arrogância.

A meu ver, quem já foi vítima de censura não tem o direito de se tornar censor.

Existem biografias boas e biografias ruins, como tudo na vida. Mas não será a censura que fará este filtro de qualidade. Num momento em que está muito em voga a pauta memória, justiça e verdade, por conta da Comissão Nacional que, apesar dos limites, procura esclarecer crimes de lesa-humanidade cometidos pela ditadura militar brasileira, é no mínimo triste o comportamento da dita elite da emepebê.

Para além do interesse público, pra mim o buraco é bem mais embaixo. Agora censuram biografias. Já imaginou se num futuro próximo tentam censurar a literatura? Deliro? De jeito nenhum. Um ótimo exemplo é a clássica página 73 do Bregajeno Blues – Novela Trezoitão, de Bruno Azevêdo. Leiam-na e tirem suas próprias conclusões.

Este post vai com um abraço ao Paulo César de Araújo!

O maior segredo do Brasil é a tal da perna de pau do Roberto Carlos. Não pode comentar isso. É feio. É errado.

Podem reparar. Já viram isso em alguma revista? Programa de tv? Nada, não sai nada! É a informação mais subversiva do país. Entra governo, sai governo, aparece a nova promessa da música brasileira, morre a nova promessa da música brasileira, fulano chifra cicrano, Nelson Gonçalves abre o jogo, mas ninguém fala da perna de pau do Rei.