Salão São Tiago

Há quase 10 anos Djalma cuida de barba, cabelo e bigode deste que vos perturba. Comecei a frequentar a minúscula barbearia – o Salão São Tiago – assim que mudamos para a Rua de Santiago, onde o mesmo fica encravado, na quadra entre as ruas do Norte e Passeio, por onde Yara Botelho passeia com Marquês ou Duque, nunca sei o título de nobreza de seu cachorro.

Um barbeiro, uma cadeira, um espelho na parede e outro menor para apreciarmos o corte na parte de trás da cabeça, um ventilador e um rádio sempre ligado. Os habitués do lugar, que nem sempre vão ali para cortar o cabelo ou fazer a barba, condição quase óbvia de quem frequenta uma barbearia: alguns se sentam ali por horas apenas para ouvir as histórias contadas pelo próprio Djalma ou por algum passante. A maioria inacreditáveis bravatas sexuais de velhinhos e lorotas idem.

Histórias engraçadas e impublicáveis, muitas delas politicamente incorretas. Também se comenta política, sobretudo com base em informações lidas no Jornal Pequeno, que o barbeiro adquire diariamente. Confesso que às vezes torço para que a fila de espera esteja grande para ouvir mais e mais histórias – às vezes a mesma história pode ser requentada por um ou outro contador.

Djalma é filho de Zé Gonçalo, finado quitandeiro da Rosário em que morei até perto dos sete anos de idade, onde ia comprar cigarros para vovó e alguns itens da mercearia, por exemplo a farinha que acabou justo na hora do almoço. Vovô faleceu em 2007 e até pouco antes disso, era onde vez por outra eu pegava uns cascos – ou mandava algum primo mais novo – e ia enchê-los de cerveja para enxugá-los à mesa de dominó. Com o velho. Mas essas são outras lembranças.

“Tem ido no Rosáro?”, pergunta-me toda vez que adentro o recinto, num “sotaque” todo particular. A pergunta podia variar para “cadê o japonês?”, quando ele lembrava de Vinicius Moriichi, um primo neto de japoneses que uma vez levei lá para cortar o cabelo, ou “cadê o cantor?”, ele lembrando do parceiro Gildomar Marinho, que também por ali já aparou as madeixas, levado por mim.

Não sei há quantos dias as placas estão ali – alguns A4 digitados em letras garrafais. Da última vez em que fui aparar o pelo, Djalma se reclamou de algo nos olhos e disse que ia “fazer uma cirurgia das vistas”, que não adiantava adiar, “tem que fazer mesmo, né?”.

Órfão temporário de sua navalha, este blogue torce pela pronta recuperação do rosariense. Que se cumpra o que diz o aviso!

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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