Tocantes, terceiro disco de Gildomar Marinho, faz jus ao título

[O Imparcial, 9 de setembro de 2013]

Obra aborda temas como liberdade, trabalho, viagens, amores desfeitos, saudades, direitos humanos, meio ambiente e música

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O autorretrato de Gildomar Marinho na capa do encarte de Tocantes

Gildomar Marinho desenhou seu autorretrato e as aquarelas todas do encarte e capas de Tocantes (2013), seu terceiro disco, sucessor de Pedra de Cantaria (2010) e Olho de Boi (2009). Maranhense radicado em Fortaleza/CE, por conta do ofício de bancário, que divide com o da música, o cantor, compositor e instrumentista fala de liberdade, saudades, chegadas e partidas, encontros e despedidas.

Inteiramente gravado na capital cearense, tem um pé aqui, outro lá. As belas aquarelas revelam o som. Estão lá o próprio artista, empunhando sua viola, a alegria de um pulo para saudar um lugar de que se gosta (o equivalente “reles mortal” ao beijo no chão de um papa de outrora), o farol para guiar as aventuras, o bumba meu boi, o tambor de crioula, um pescador, o horizonte. E o violão que ele não toca (no disco), escoltado por competentíssimo time de músicos, para concentrar-se apenas na criação e no canto: Carlinhos Patriolino (bandolim), Diego Farias (gaita), Eduardo Holanda (violões, viola e arranjos), Herlon Robson (sintetizadores, teclados, escaleta e sanfona), Hoto Jr. (percussão, direção musical e arranjos), Marcus Vinnie (piano, sintetizador e teclados), Miquéias dos Santos (contrabaixo), Pantico Rocha (bateria e percussão) e Rafael Magoo (guitarras).

As músicas, como entrega o título do disco, tocam sem qualquer maior esforço do ouvinte, espécie de muzak da vida, nunca a trilha sonora tendo menos importância neste cinema em que desempenhamos nosso papel; tanto que Gildomar fala de si e de nós mesmos, com a sabedoria oriunda da experiência de viajante que leva consigo – e com sua música – pedaços dos lugares que visita.

Faixa a faixa – O artista brinca com uma porção de coisas com que se faz música – inclusive instrumentos musicais – em Canto Oco, faixa de abertura. Piolho de cobra é uma homenagem ao trabalhador brasileiro, dos versos: “Canteiro, peão se dobra/ feito piolho de cobra/ vida sem muita sobra/ e o mesmo trem que leva, traz/ sempre para o mesmo lugar”.

Mata Paralela (parceria com Jorge Cardoso, seu colega de banco) é uma canção de cunho ambiental que não soa eco-chata: é inspirada na derrubada da Mata Atlântica para a construção de condomínios de luxo na Avenida Paralela, em Salvador/BA, terra natal do parceiro. Ensejo de blues, cujo título também poderia ser “Livre”, já que esta é a palavra de ordem: “Mas acontece que você/ e esse amor não representa/ exatamente o que desejo/ além de um beijo, e este ensejo de blues/ é pra dizer que o amor é bom/ mas por ser bom me deixe livre/ e Deus me livre desse falso amor”.

O Mano é outra música que, dado o tema, poderia soar panfletária: “O mano quer ser ser humano/ e é do ser humano merecer ser humano/ e ser humano é poder ter nome, lar, sobrenome/ e com os seus conseguir/ matar a sede e a fome”. Sim, é sobre direitos humanos, e foi composta em 2005, após o show de aniversário de 26 anos da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), ocasião em que Gildomar dividiu o palco com Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro, Lena Machado e o Bloco Afro Akomabu. A música integrou Regar a Terra, disco comemorativo dos 20 anos do MST no Maranhão.

A metade que manda é uma homenagem às mulheres. O mote do galope é “a mulher que, na verdade,/ é a metade que manda, meu irmão”. O autor vai de Eva às milhões de mulheres que fazem as Marchas das Margaridas, passando por Maria da Penha. A faixa título, parceria com este jornalista, é uma balada romântica, quase uma continuação do reggae Lembra?, parceria de ambos, gravada por Gildomar em sua estreia. Estão lá o amor desfeito, os velhos discos de vinil e uma vontade de recomeçar.

Navegante é a regravação de Gildomar para a música de Erasmo Dibell, de quem diz ser amigo desde antes da barriga: “Antes da gente, nossas mães já eram amigas, entre Carolina e Imperatriz”, conta. Por falar em mães, Pé na estrada é uma homenagem a elas. A música foi composta para um festival em que o autor não chegou a se inscrever e fala dessa vontade que os filhos têm de desafiar, de ganhar o mundo, talvez por ter a certeza de que se tudo der errado, as mães saberão recebê-los sempre bem. “Mamãe, me dê sua bênção/ e prepare o meu pão/ com o sal de tuas lágrimas/ e o calor de tuas mãos”, pede o filho-músico.

Pistas falsas é balada radiofônica pontuada por gaita que parece fazer ainda maior a solidão, palavra-chave da canção: “No fim de nossas noites tão ardentes/ sei que em sua vida sou mais um/ porque você é só, é só ilusão/ e o que me dá é só solidão”. Perdão de cônjuge é um sambossa de título autoexplicativo, parceria com a cantora Lena Machado e com este que vos escreve. É de Reis é um tambor de crioula dedicado a uma coreira que enfeitiçou o autor com o esvoaçar de sua saia e seu rebolado rítmico, a quem devolve a rítmica homenagem.

A exemplo dos trabalhos anteriores, Tocantes tem patrocínio do Programa Cultura da Gente, do Banco do Nordeste, e apoio da Elétrica Milênio.

Show – Gildomar Marinho faz show de pré-lançamento de Tocantes, no próximo dia 13 de agosto (sexta-feira), às 22h, na Barraca L’Apero (Av. Litorânea, Praia de São Marcos). A apresentação terá participações especiais de Tutuca e Betto Pereira. O couvert artístico individual custa R$ 10,00.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

6 comentários em “Tocantes, terceiro disco de Gildomar Marinho, faz jus ao título”

    1. júlia, querida, no caso de gildomar é por uma causa nobre: minimizar a concorrência com o show de josias e saldanha, às 21h, no teatro arthur azevedo. vá em ambos! abração!

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