Cortázar em ritmo de jazz

Um primor a edição em que a Cosac Naify brinda os leitores brasileiros com uma pequena obra prima do galã Julio Cortázar. O perseguidor [2012] é escrito como se o autor tocasse jazz. Como se fosse possível traduzir solos de saxofone – em um improviso interminável, puro êxtase – pelo batuque frenético da máquina de escrever do argentino nascido na Bélgica.

Em 94 páginas são narrados alguns episódios da vida de Charlie Parker, o Bird, um dos maiores nomes do sax alto no jazz em todos os tempos. O talento grandioso, ainda hoje venerado, a vida curta, consumido por altas doses de álcool e heroína, é retratado pela pena precisa de Cortázar e o traço elegante de José Muñoz.

O conto é narrado por um crítico de jazz, autor de uma biografia de Bird – cujo nome é modificado, embora outros personagens reais compareçam ao livro, caso de Miles Davis –, a quem visita, logo no início. Humanamente decadente, o músico não tem sequer um instrumento para iniciar uma temporada dali a dois dias.

A narrativa que mescla a biografia de Parker e ficção entremeia histórias folclóricas (para não dizer engraçadas) e tristes. Neste campo a morte de uma filha e a ruína do músico; naquele, o dia em que chamuscou um colchão em um hotel em que se hospedava, onde desfilou nu pelos corredores.

Originalmente publicado em 1959 – em Las armas secretas, que trazia Las babas del diablo, que inspirou Michelangelo Antonioni em Blow up – e reeditado na Espanha 50 anos depois, o conto ganhou nova tradução, do poeta Sebastião Uchoa Leite. Recomendável não apenas para jazzófilos iniciados.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

3 comentários em “Cortázar em ritmo de jazz”

  1. tenho “As armas secretas” que comprei no Sebinho ou em outro sebo, mas emprestei a uma amiga antes de passar para o segundo conto. Ótimo essa resenha agora porque lembrei que preciso cobrar (uns 3 anos e nem lembrava mais)… rsrs

  2. rojão, tenho uma edição tosca de “as armas secretas”, de bolso: a capa traz um frame do filme de antonioni, mostrando vanessa redgrave e o livro foi simplesmente “rebatizado” “blow-up e outras histórias”; “blow-up”, como foi também “rebatizado”, na citada edição “las babas del diablo” abre o pequeno volume de 174 p. em papel jornal. post útil, hein? risos. abração!

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