Das redes sociais às portas dos palácios

No Ministério Público e Tribunal de Justiça o expediente foi uma quarta-feira de cinzas às avessas. Roseana Sarney desde cedo mandou fechar o acesso ao Palácio dos Leões

Boto na conta do PT a queima da bandeira do PSTU, ainda no início da manifestação, ontem (19), na Praça Deodoro, em São Luís. O PT, tido como um partido diferente, terminou com as esperanças de muita gente em nome da governabilidade e da aliança com Sarney. Não descobriu nem inventou a corrupção, como insistem alguns, em geral por má-fé, mas acabou com a esperança, depois que esta venceu o medo.

Por causa do PT grande parte da população já não acredita mais em partidos políticos. Mas convenhamos: queimar uma bandeira de uma agremiação partidária é um retrocesso (a ditadura militar também fez isso), seja lá de que partido for. Acreditar que não permitir bandeiras em um ato irá torná-lo apartidário – ou pior: apolítico – é ilusão (pra não dizer outra coisa): tiraram as bandeiras do PSTU, mas mantiveram os carros de som do PMDB.

Tal gesto autoritário serve tão somente à velha direita, tanto é que a principal coluna política do jornal O Estado do Maranhão, o Estado Maior (link para assinantes com senha), de hoje (20), tira onda com o episódio: “Luiz Noleto, um dos chefes do partido, não respeitou a proibição e foi para a Praça Deodoro fantasiado de PSTU, com camiseta e bandeira. Tomaram-lhe a bandeira e a queimaram, e por pouco não arrancaram-lhe a camiseta vermelha”, escreveu o colunista. Só neste trecho caberiam vários “sic” (nem vou perder tempo em comentar a blogosfera suja).

Não faltam motivos para protestar, o que, no Maranhão, justificaria um protesto por dia. O povo saiu do facebook e foi às ruas, como mais ou menos apregoava um cartaz, ontem. Foi um momento bonito de ver: o movimento provou ter corpo – as estatísticas falam de entre 10 e 20 mil pessoas nas ruas, cada propósito tem sua medida. Infelizmente faltou cabeça.

Nosso provincianismo esperou que São Paulo – e outras capitais Brasil afora, em seguida – se mexesse para que a copiássemos – nossos meios de comunicação não se fizeram de rogados e também copiaram os de lá, filtrando do protesto apenas aquilo que lhes interessava. Em um quesito foram além, mas isto já é costume pras bandas de cá: se valeram da “pressa” para justificar erros grosseiros, sobretudo na internet.

O #vempraruaslz é um movimento importante que mostra a força e utilidade que podem ter as redes sociais – embora houvesse gente ali apenas para garantir alguns registros justamente para alimentá-las. Não é um movimento de vândalos como quer fazer crer parte da mídia. Sou contra qualquer ato de vandalismo e não bato palmas para pichações no muro do La Ravardiere nem para vidraças quebradas no dos Leões, os palácios sedes dos executivos municipal e estadual, como também não acho bacana quebrar o carro do Sistema Mirante, mesmo o grupo representando e sendo o porta-voz de muitos dos motivos pelo quais se protestava ontem.

Sobram motivos para Sarney virar alvo de qualquer protesto no Maranhão

A mobilização popular é necessária. “Governo e feijão só vai na pressão”, diz o dito popular. Mas toda mobilização deve ter objetivos claros, mesmo que sejam muitos, no caso ludovicense. A de ontem, pautada principalmente na questão da mobilidade urbana na capital maranhense, incluía ainda temas como protestos contra a PEC 37 (que tira o poder de investigação do Ministério Público), o deputado racista e homofóbico Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, e seu medieval projeto de “cura gay”, e o eterno “fora Sarney”, entre muitos outros.

De acordo com informações de Márcio Jerry, secretário municipal de Comunicação, publicadas em seu perfil no tuiter, o prefeito Edivaldo Holanda Jr. dispôs-se a conversar ainda ontem com lideranças do movimento, que não foram identificadas (hoje começou a circular no facebook uma lista de reivindicações endereçadas aos governos municipal, estadual e federal).

Esta desorganização, em certa medida, demonstra que o movimento não tem dono. Ou mesmo que não há um movimento único. A grande maioria era de jovens estudantes, muitos pela primeira vez em uma manifestação do tipo, o que não a torna menos legítima, como também não o fato de serem, em geral, cidadãos bem nutridos, que “de carrão chegam mais rápido à revolução”, como bem cantou o compositor cearense. Ali cabia de tudo, de quem não sabia bem o porquê de estar participando do protesto à “apartidários” filiados a partidos políticos, além, é claro, de gente que dava algum sentido à data histórica. A porção que “precisa estar atenta e forte”, como cantaram os baianos, para que uns poucos não lhe reservem o velho papel de massa de manobra, de que supostamente tentaram escapar ao queimar a bandeira do PSTU.

É bastante difícil dizer qualquer coisa sobre o que aconteceu ontem em São Luís, seja pela pluralidade da manifestação (com tudo o que isso tem de bom e ruim), seja por tudo de novo que traz em si (protagonistas, forma de mobilização etc.). Este blogue esperará e acompanhará os próximos episódios, tentando garantir uma cobertura com alguma lucidez e equilíbrio, além do apoio ao que o movimento combinar com nossa postura de esquerda, já que aqui não vendemos pseudo-imparcialidade.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

2 comentários em “Das redes sociais às portas dos palácios”

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