Machismo e assistência não as/os representam

Para não perder a velha mania de meter o bedelho onde não sou chamado: sobre o material de divulgação da Calourada de Serviço Social da UFMA

Sou casado com uma assistente social. Tenho várias amigas assistentes sociais. Trabalho com mais algumas assistentes sociais. Tenho uma prima que largou o curso e outra no terceiro período; o pai delas, meu tio, acaba de ir para o segundo período. Outra tia iniciou recentemente o curso na modalidade à distância. Posso dizer que estou rodeado de assistentes sociais, em casa, no trabalho e em momentos de lazer, sem contar uma passagem pela assessoria de comunicação do Conselho Regional de Serviço Social – 2ª. Região/ Maranhão (CRESS/MA).

Quando conheci minha esposa, colega de trabalho, demorei a entender uma porrada de coisas sobre essa profissão quase sempre vinculada a processos de resistência, à esquerda, ao marxismo, ao combate à violência, opressão, machismo, racismo, homofobia. É claro que há profissionais do Serviço Social que fazem o serviço sujo, como por exemplo, o convencimento de uma população que deve ser relocada (à força) em nome da implantação de um grande projeto de grande interesse do capital transnacional, mas essa é outra discussão.

Quando, começo de namoro, eu confundia Serviço Social com Assistência Social, imediatamente eu recebia uma micro-aula, estivéssemos até mesmo na mesa de um bar.

Não nego algumas dificuldades que tive em trabalhar com este povo “cri cri”, que quer tudo nos mínimos detalhes, e que nos obriga a apreender um monte de categorias e terminologias, às vezes um tanto difíceis para, no meu caso, um jornalista. Ter sido assessor de comunicação do CRESS/MA foi uma experiência de grande valia.

Mais que divulgar a calourada de Serviço Social, abrir este post com a imagem acima tem mais o objetivo de problematizá-la. Num tempo em que temos Marco Feliciano (PSC/SP), um pastor racista e homofóbico, na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, disparando impropérios diários, num surreal politik freak show; num tempo em que um entrevistado “corre a mão” entre as coxas de uma apresentadora de televisão, a “estudante fashion e moderninha” que convida “vem que eu dou assistência” presta um desserviço aos avanços que a categoria das/os assistentes sociais vem tendo ao longo dos anos, vide a lei das 30h para ficar num exemplo recente e importante.

O cartaz é machista e este é apenas um problema (agudo em vez de crase, vou nem comentar). Além dele, reduz as possibilidades de intervenção da categoria à “assistência”, cujo nome já parece trazer em si mesmo a característica de transitoriedade desta política pública. Ou o anúncio da próxima calourada trará uma velhinha em trajes de freira lembrando o tempo em que o Serviço Social, vinculado à Igreja Católica, buscava quase catequizar os atendidos por aquela profissão que nascia?

A maioria absoluta dos profissionais do Serviço Social ainda é de mulheres. Motivo mais do que suficiente para as estudantes do 1º. período, as calouras, dizerem que “este cartaz não nos representa”. Nem a elas, nem às veteranas, nem às professoras, nem às assistentes sociais. Nem ao ainda pequeno percentual masculino de calouros, veteranos, professores e assistentes sociais.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

20 comentários em “Machismo e assistência não as/os representam”

  1. Meteu bedelho mesmo e sem nem saber do que está falando…
    Informe-se quanto à proposta do evento.
    Grato.

  2. “Tenho uma prima que largou o curso e outra no terceiro período; o pai delas, meu tio, acaba de ir para o segundo período. Outra tia iniciou recentemente o curso na modalidade à distância. Posso dizer que estou rodeado de assistentes sociais…”

    Nooossa! Quanta gente entendida.
    Muito legal essa postagem que sua mulher mandou você fazer, hein champz?

  3. leonel: eu comentei o material de divulgação, não o evento. um deveria falar pelo outro. ademais, este é um texto de opinião e opino sobre o que vi (no caso, o material de divulgação, não a proposta do evento).

    alina: particularmente não sou a favor do ensino à distância, ao menos não para uma graduação, no que quer que seja.

    daniel: você daria um ótimo jornalista para atuar na blogosfera suja do maranhão: recortou apenas o trecho que interessava para me criticar; e as linhas anteriores? minha mulher está viajando, provavelmente não leu o post e sequer deve ter visto o material de divulgação da calourada. se minha mulher mandou fazer essa postagem, quem te mandou fazer esse comentário?

    turma, um dos objetivos deste blogue é propor um debate de ideias. legal quando isso acontece. só é chato quando as pessoas não se propõem a refletir, por exemplo, sobre o que uma mensagem como o material de divulgação em questão pode trazer. mas talvez analisar isso seja tarefa para jornalistas, publicitários, gente do marketing.

    suponho que vocês sejam calouros do curso e se sentiram ofendidos com minha postagem. ou veteranos, membros do ca, quiçá a instância representativa de estudantes mais politizada da universidade. sejam lá quem forem, mantenho minhas opiniões (sobre o material de divulgação, certo? não sobre a proposta do evento).

    sucesso na jornada! abraços!

  4. Não cheguei a estranhar o material de divulgação do evento por já estar acostumada com tais folders e frases apelativas típicas destes eventos universitários. E super normal e bastante comum esse tipo de “chamada” para calouradas e outras festas organizadas pelos estudantes, seja qual for o curso. “Vem que eu dou assistência”, ou “Vem que eu faço direito” e outras coisas do tipo são apenas trocadilhos com o único intuito de atrair o público-alvo. :)

  5. É machista, sem criatividade e descolada de qualquer atuação docente e discente que mereça o aposto de “acadêmico”. Parabéns, Zema, bedelho bem metido de forma respeitosa. Respeito que não deve significar tolerância. Daí porque espero que esta seja uma das muitas manifestações contrárias a esse tipo de reafirmações da mulher que precisa se justificar perante o mundo sendo bonita e dada. Acorda mulherada! Da Vinci, Botero, Diogo Riviera, Neruda tinham musas mais modernas e inteligentes que vocês em pleno século XXI! Mas, talvez os homens aos quais esperam dar assistência sejam aquelas de polo apertadinha, piadas prontas, sexo apressado e poesia copiada do face. aff!

  6. Eu que fui do tempo em que o Centro (à época Diretório) Acadêmico de Serviço Social/UFMA chamava a calourada pra debater os rumos do Curso, não gostei do apelos machista e desrespeitoso da propaganda. Assino embaixo, caro Zema: o material de divulgação é ruim! Tomara que o evento seja melhor!

  7. pois é, érika: deveriam ser mais que apenas trocadilhos, se não caímos na esparrela da propaganda, cujo objetivo é apenas vender, mesmo que para isso seja preciso enganar os clientes ou ser machista e dizer que o machismo não existe, já que tudo não passa de “brincadeira”.

    renata, bem lembradas sejam as musas, certamente alvo de poesia, música e outras artes mais belas que as que ouvimos sair hoje dos porta malas dos carros.

    rita: tomara. um dos motivos que me levou a escrever sobre isso foi justamente conhecer um pouco a trajetória evolutiva do serviço social.

    abraços a todas!

  8. E hoje em dia, em tempos de redes sociais, existe assunto pra não se meter o bedelho? Tu colocaste tua opinião sobre o evento, deste ao trabalho de escrever sobre o que muita gente comentou no Facebook. Trabalho que quem fez a proposta “que a gente não entendeu” não teve. Aliás, somente aqui vi gente se dignando a defender uma festa de Serviço Social com um tema machista, oportunidade que poderiam aproveitar para contribuir para que a Universidade não reproduza a mesmice do gosto médio. Se a proposta viesse de qualquer curso eu não gostaria, mas entenderia. Porém, acho que que tá chegando tem que respeitar a história do Curso, as pessoas, assistentes sociais que ilustremente abraçam as causas de direitos humanos de crianças e mulheres, que representam bem melhor a categoria e que construíram todo o respeito que esse curso tem na UFMA e na sociedade. Calouros, respeitem, fica a dica!

  9. o bedelho é ironia. eu opinei sobre o material de divulgação, não fui preconceituoso. mas, talvez sendo agora, posso até imaginar que vão tocar música ruim, de cunho machista, e justificar dizendo que “tem que tocar isso pra galera dançar”. acho que faltam respeito e humildade. abração!

  10. de cara, quando vi o folder, eu estranhei. achei bem colocadas as ponderações acerca do material de divulgação do evento, zema, e até acho que “entendo” a proposta da comissão organizadora ao escolher de modo “descontraído” este tema (a meu ver, infeliz). talvez no próximo evento divulguem “vem que eu dou auxílio” ou “vem que a festa é básica”, rs. vai saber… como eu disse, tempos difíceis… quanto ao “serviço sujo” a que tu te referes no texto, espero também por esta discussão. um dia pretendo entender de que modo tu vê este tipo de atuação. abraços.

  11. antes do próximo evento espero que a ficha caia. o serviço sujo (que não é feito apenas por assistentes sociais) é tipo propaganda enganosa, o exemplo que trago no texto, do remanejamento/ relocação de comunidades, já dá uma ideia. abração!

  12. Quem dera pudessemos ter atenção no que escrevemos! O tema da calourada de serviço social é machista, rotula as mulheres e ainda banaliza a política de assistência, o que a categoria e a formação profissional lutam tanto p desmitificar. Fui do CASS e fico indignada quando deixamos passar aspectos importantes, tão debatidos e enfretados na nossa profissão. Gostei da crítica! Parabéns!

  13. Caro Zema,

    Calouradas sempre serviram para fins muito básicos e claros: beber, paquerar, dançar e namorar. Não cabe exigir postura política e eticamente “correta” na mensagem de um cartaz de uma festinha juvenil. É somente uma brincadeira. Não é uma atividade de conteúdo acadêmico. Não representa a imagem de um curso, como um seminário ou um simpósio.

    No meu tempo de universidade, há 20 anos, lembro de um cartaz artesanal, de uma calourada de Filosofia, no qual foi desenhada a figura de um rasta com um baseadão na boca e a frase: “presença de Peter Tóxico”. Isso era tão comum e divertido, que ninguém questionava a associação de estudantes de Filosofia (futuros educadores) à maconha, por conta de uma simples calourada. Naqueles longínquos anos, não existia espaço para nenhum tipo de patrulhamento, nem de direita nem de esquerda.

    Associo a divulgação desta festinha muito mais a um convite ao prazer do que a uma postura machista.

    Abs,

  14. Zema, não opinaria aqui sobre o post, porém, vou tentar corrigir um eqívoco no comentário da Déborah Ferreira, a calourada não é necessariamente organizada pelos calouros, (por isso falo em defesa dos mesmos), mas sim por veteranos e pelas alunas já saindo da UFMA. Quanto ao material de divulgação vou me reservar o direito de não polemizar aqui no blog. Abçs

  15. Estou nessa com meu amigo Eduardo Julio. De cara, já acho uma piada se gastar energia discutindo “proposta” de calourada. É nenhuma, nem tem que ser alguma, daí que a frase é engraçada dentro do espírito anárquico da festa, e me soa mais como auto-tiração-de-sarro do que como desrespeito aos cânones da profissão. Já pensou se a circunspecta OAB resolvesse baixar uma portaria estabelecendo critérios para as calouradas do curso de Direito? Rapaz, nem quero dar ideia. Abraço, Zema!

  16. meus caros eduardo, susalvino e fabreu: a ideia aqui não é ser provinciano, moralista, patrulheiro, careta ou caga-regras. a festa está dentro de um evento acadêmico, de caráter também político. em nenhum momento eu discuti a festa, ou sua proposta, mas seu material de divulgação, que continuo dizendo: é machista. brincadeira ou não, é machista. anárquico ou não, é machista. tiração de onda e/ou de sarro ou não, é machista (como o gesto de gerald thomas o foi). a festa pode cumprir suas finalidades de diversão sem que o material de divulgação precise ser de tão mau gosto, seja feito por quem for. espero que a discussão tenha sido mais que uma piada ou perda de tempo e servido para alguma reflexão, ao menos por parte dos estudantes, e que os próximos materiais de divulgação (ao menos para festas dentro de eventos acadêmicos) sejam melhorezinhos. ah, e que a festa tenha sido boa, pra quem dela tiver participado. abraços a todos!

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