A cultura brasileira em debate e a liberdade de expressão

(OU: METENDO O BEDELHO ONDE NÃO FUI CHAMADO)

Enxerido que sou, não poderia deixar de meter minha colher nesse angu. O debate iniciado por Mino Carta em sua CartaCapital e Cynara Menezes em seu Socialista Morena. Sobre a cultura brasileira. O primeiro, sob o título A imbecilização do Brasil, falando em “deserto cultural”, a segunda apontando frutos prontos a serem colhidos, sob o título Em que tipo de arte você acredita? Ou: a imbecilização da elite. Fico com a segunda, fosse apenas para tomar partido.

O problema de todo saudosista, nostálgico, passadista ou coisa que o valha – como parece ser o caso de Mino – é achar que tudo só era bom no seu tempo. E aí os olhos fecham-se para o que de bom lhes passa bem debaixo do nariz. Quem acha que bom era no tempo de Bethânia, Caetano, Chico, Edu Lobo, Gal, Gil, Milton etc., todos gênios, cada qual a seu modo, jamais perceberá o talento de nomes como Bruno Batista, Junio Barreto, Karina Buhr, Kléber Albuquerque, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes, Siba, Tulipa Ruiz etc., e é proposital que a segunda lista tenha mais nomes que a primeira. Isso para ficarmos apenas na música. Era bom naquele tempo? Sem dúvidas! É bom agora? Também!

Cynara pontua bem a apropriação pelas elites de gêneros hoje populares(cos) – e na grande maioria das vezes de péssima qualidade – e a imposição das mesmas ao povo pela via midiática. Mostra-se otimista em relação a tevê, coisa que não sou tanto: temos tevê pública, temos tevê paga – embora nem todo mundo possa pagar ou fazer gambiarra – e mudar de canal é muito fácil. Eu diria que nem tanto: conheço gente que passou a vida inteira se contentando com as novelas da Globo e as “verdades” do Jornal Nacional e, hoje, com 200 canais pagos, num combo que inclui ainda a internet, continua vendo também o Faustão aos domingos.

Muita coisa mudou no Brasil dos últimos 10 anos. Falo de inclusão social e econômica. De as pessoas poderem escolher queijos e iogurtes e não apenas contentar-se ao pão com manteiga – quando havia – e café preto. Produzir música nunca foi tão fácil e barato. As coisas, porém, não são automáticas e a ofensiva midiática é pesada, violenta. Muita porcaria ainda é lida, vista, ouvida no Brasil. Mas daí a negar que existam talentos e esperança é pessimismo demais para meu gosto.

Lembro-me de um colega de turma, devíamos ter uns 14, 15 anos, que dizia, na escola, não curtir Cartola e Chico Maranhão, nomes que eu então já admirava. Depois de algum tempo ele me aparece com um cd do primeiro, o que invejei, já que eu mesmo não tinha um. Ele me confessou não admitir admirar o compositor em público pois tinha vergonha de ser ou parecer estranho. Talvez isso aconteça ainda hoje ao menos com uma pequena parcela de carinhas que inviabilizam, do ponto de vista de sua finalidade original, o porta-malas do carro, com caixas de som que vão tocar em sabem Deus e a polícia quantos decibéis, músicas que desvalorizam a figura feminina, este apenas um exemplo dentre os temas preferidos dos compositores do forró de plástico, para ficarmos em um gênero musical que não aprecio – e poderia me fazer pessimista.

A discussão é complexa, até por que passa também por aquilo a que chamamos “questão de gosto”: cada um tem o seu e há os que acham que isso não se discute.

Algumas coisas, no conjunto, merecem aplausos. Capas, em geral, em jornais ou revistas, são dedicadas a notícias ruins, tragédias e coisas do tipo. A CartaCapital desta semana botou a cultura na capa, sem a pretensão de um consenso nos vários textos do “dossiê”. Se Mino parece pessimista, Alfredo Bosi, um dos entrevistados da edição, é otimista. Digo parece por que ele fundou a Veja e a IstoÉ e ao ver as crias tornarem-se outras coisas não cruzou os braços, fundando a CartaCapital (de que sou assinante, única semanal que leio com regularidade), este senhor será um eterno otimista.

Cynara Menezes cobriu outra pauta para a edição, mas deu seu pitaco em seu blogue: a discussão é saudável e abre portas para outras. Os poucos mas fieis leitores deste blogue imaginam profissionais (ou como queiram chamar: jornalistas, empregados etc.) da Folha, da Veja, da Globo, “respondendo” ao patrão em público? Se imaginam são casos raríssimos e em geral o “rebelde” é demitido em sequência – às vezes nem precisa a reação ser em público, basta ser numa reunião.

Incluindo a blogosfera suja, há quem não possa ouvir falar em “conselho de comunicação” e coisas do tipo que se treme todo e começa a falar besteiras como “a volta da censura” e/ou “a volta da ditadura” – que defendem quando lhes convêm. Um bom exemplo de liberdade de expressão é o saudável debate que me instigou a este texto. E que me faz admirar ainda mais seus protagonistas.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

4 comentários em “A cultura brasileira em debate e a liberdade de expressão”

  1. Olá,
    Eu abri o twitter e alguém ventilou essa polêmica sobre os artigos da Carta Capital desta semana. Digitei “Mino Carta” na busca e surgiram diversos posicionamentos, inclusive o seu. Fui lendo. Em um ponto, você diz algo como Karina Buhr é tão boa, musicalmente, quanto a Gal. Eu pergunto: como? Será que as pessoas não passam, hoje, pelo mesmo constrangimento de seu amigo, só que ao contrário, e aplaudem fervorosamente o que mereceria não mais que um tampinha nas costas? Imagine você em um deserto (cultural). Qualquer lamazinha é um oásis.
    Concordo com a Carta Capital desta semana e acho que a galera, antes de discordar, deveria pensar. Sempre estou tentando buscar o que se faz na cultura, nos dias de hoje. Mas, a sensação que tenho é que nada me soa tão inventivo, inovador e sensível como o que foi produzido há, no mínimo, 30 anos… E eu tenho recém 33 anos. A não ser que se dê um pulinho fora dos EUA. E esse é o ponto que a revista, o editorial do Mino Carta. A cultura brasileira, massificada ou não, é tão colonizada que só reflete o pior dos EUA. O que chega de outros continentes, o Kuduro, por exemplo, ganha o rótulo de “exótico”. E, ainda, as pessoas querem quebrar antes de construir, entende? É um tão de se desfazer de ídolos que sequer conheceram que a impressão que dá é que se está de frente a bebês que não sabem o que fazer com os brinquedos novos.
    Quero dizer, é verdade que sempre houve influências externas na cultura brasileira. Mas, sumiu a antropofagia (o que eu, artista brasileiro, sinto e faço quando vejo o que você, artista estrangeiro, sente e faz), por não são artistas que se chocam, mas o colonizado e o colono. Um exemplo telegráfico, ao estilo twitter: Beyoncé/Beth Ditto–>Gaby Amarantos/Karina Buhr. É mimético. Para mim, ao menos, mera apreciadora de arte, que não quer ser nem consumidora e nem sou adepta de todo o que é hype.

  2. olá, lucila! pra começo de conversa não comparo gal e karina: são informações diferentes em tempos diferentes. acho que ambas têm seu valor. se maior ou menor, não estou aqui para medir, tampouco quero fazê-lo. karina é sopro de frescor e vigor na música brasileira de hoje, como gal o foi há mais de 40 anos. o que quero dizer com isso é que há sim vozes interessantes (e dou exemplos na música mas não me restrinjo a ela) produzindo cultura brasileira atualmente (com influências, óbvio, como desde sempre, mas sem meramente bater continência ao importado, ao colonizador). um bom exemplo é o que teria dito gal costa em meados dos anos 1990: cansada de gravar e regravar caetano, gil, chico, ben e os de sempre, o lançamento de discos novos foi ficando cada vez mais espaçado, diante da falta de uma nova safra de compositores de talento, o que não era verdade, faltava era seu apuro para perceber nomes então novos como itamar assumpção, lenine, chico césar, edvaldo santana, entre outros, que ela viria a gravar ou não depois. prova disso é que a discografia recente de maria bethânia, que o fez, é bem mais interessante que a da gal, isso para ficarmos novamente em exemplos talvez pequenos e no campo da música. não se trata de ser adepto de tudo o que é hype, ao contrário: o lance é ir atrás, pesquisar, comprar discos apostando na sorte, já que você nunca ouviu falar nem nunca ouviu tocar no rádio o deste ou daquele artista. consumir arte de qualidade é hoje, também, risco. e o bom é que o debate segue. abração!

  3. Gostaria de saber quem é o “Siba” a quem você se refere. É que eu tenho um amigo cantor e compositor codoense que também se chama Siba, o mesmo tem algumas parcerias com o Gerude.

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