Carnaval de passarela: uma decisão que pode apontar novos rumos para a Cultura de São Luís

A certamente difícil decisão de não realizar o carnaval de passarela em São Luís é a primeira prova de fogo do presidente da Fundação Municipal de Cultura (Func) Chico Gonçalves e sua equipe. O órgão publicou hoje uma nota comunicando-a.

As opiniões certamente se dividirão, uns poucos apoiando a decisão, outros, a grande maioria, acreditamos, contrários a ela.

A Func não tomou a decisão sozinha: antes, as associações de blocos e união de escolas de samba resolveram que seus grupos filiados não participarão do desfile após o anúncio do não pagamento de cachês pelo poder público municipal, diante da terra arrasada deixada pela gestão de João Castelo (PSDB).

Ainda que não propositalmente, a suspensão do carnaval de passarela pode ser o primeiro passo para que se rediscuta o modelo de financiamento das manifestações culturais destas plagas, não só no carnaval, desejo expresso na nota hodierna.

Alguns exemplos e questionamentos. As cervejarias estão entre as empresas que mais lucram com a festa de momo, inclusive com bastante participação deste blogueiro, mas investem pouco ou quase nada. Que escola de samba ou bloco carnavalesco, em qualquer grupo e/ou categoria, tem se preocupado com a sustentabilidade para além dos cachês recebidos anualmente no período? O fomento à cultura é dever do Estado, mas deve ser promovido de acordo com os princípios da administração pública.

O fato é que há muito, grupos políticos têm se apropriado de manifestações culturais, inclusive inventando-as, em prol da legitimação deste ou daquele político, quando esta avaliação cabe às urnas, de preferência sem a maquiagem de “amigo da cultura (popular)” que tão bem lhes cai nas caras de pau (esta não é uma metáfora para as máscaras comumente usadas pelos fofões em nosso carnaval).

Seria precipitado dizer que a não realização do carnaval de passarela é uma decisão acertada ou um engano. Ela é fruto da atual conjuntura e certamente pega a todos de surpresa: gestores públicos, agremiações carnavalescas e principalmente a população. O cancelamento da passarela em cima da hora mostra também que aquele pedaço do carnaval é feito no improviso, a grande maioria dos grupos esperando pingar o troco do poder público para adquirir fantasias e preparar os carros alegóricos, alguns ficando prontos apenas na concentração. Vejamos quantos blocos e escolas de samba realizarão desfiles, bailes, festas em suas próprias comunidades, frutos dos esforços de seus dirigentes, brincantes e simpatizantes.

A decisão pode parecer radical, mas havia a possibilidade real de, mesmo com cachês garantidos, blocos e escolas não irem à avenida, ao menos alguns: com vistas à reeleição, o ex-prefeito João Castelo inflacionou cachês de agremiações em 2012. O resultado nocivo percebemos agora. Superá-lo pode deflagar outra política cultural.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

6 comentários em “Carnaval de passarela: uma decisão que pode apontar novos rumos para a Cultura de São Luís”

  1. Como era esperado, o secretário Chico Gonçalves não está hesitando em metera mão nas casa de marimbondos da cultura local. Está desagradando e vai desagradar muitos interesses parasitários. Não estou certo de quem convocou tinha plena consciência do que vinha pela frente, mas esse é o caminho se queremos limar o limar o clientelismo das relações com o poder público. Chico vai precisar de todo o suporte e clareza de propósitos do prefeito e seu grupo. É preciso também comunicar muito bem as ações para que a população, entendendo, também o apóie.

    1. é, meu caro fabreu. acho que no primeiro round chico saiu-se bem. conhecendo-o e confiando em seu trabalho, creio que outros virão, para os quais espero sensatez, coragem e transparência. a participação da população é fundamental, afinal de contas ela é, ou deveria ser, a maior interessada na gestão como um todo, não só na cultura, esta nunca devendo se limitar aos interesses de artistas, produtores e outros membros de sua cadeia produtiva. abração!

  2. Ótima reflexão , Zema.Acredito que essa decisão tenha sido fruto de uma avaliação muito criteriosa, apoiada em fatos bem realistas(e que realidade, heim?). Boa capacidade de análise crítica da realidade aliada a competência técnica e compromisso com a população , é um bom começo. Bom trabalho ao Chico Gonçalves.

  3. a decisão em si nem é tão difícil: se as associações de blocos e união de escolas de samba decidem que seus filiados não desfilarão, montar passarela do samba seria desperdício de dinheiro público, para não dizer simplesmente burrice. o que virá com a decisão é que é. mas tou contigo nos votos de bom trabalho à chico gonçalves e equipe. abração!

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