De obituários

São ridículos os obituários do apresentador Jairzinho da Silva, morto na última sexta-feira (4), vítima de um ataque cardíaco. Das três, uma: ou o homem não tinha qualidades que merecessem registro e/ou destaque ou ninguém o conhecia e/ou admirava tanto a ponto de realizar um belo texto. Ou simplesmente a incompetência para a redação de um obituário decente reflete o atual cenário jornalístico do Maranhão.

Como sempre por aqui, optou-se pela santificação que faria corar o próprio defunto, se isto fosse possível. Na Sarneylândia a morte apaga quaisquer defeitos, basta lembrar do recente caso Décio Sá. Ou, antes, de Walter Rodrigues, para nos determos a jornalistas.

De uma hora para outra, baboseiras como “excelente vereador por três mandatos” e “referência na Comunicação do Maranhão” surgiram em textos paupérrimos, incluindo notas de pesar da Câmara Municipal e do Governo do Maranhão. Uns ainda lembraram sua condição de vice-prefeito quando a municipalidade foi comandada por Gardênia Gonçalves, esposa de João Castelo, recém-destituído. O tucano fez de tudo para superá-la em má-gestão, andando perto de conseguir, mas o título permanece com ela. Esse mês de atraso no salário dos barnabés é fichinha perto do que aprontou a ex-primeira dama quando prefeita. É claro que há aí, não neguemos, um quê de elegância e dignidade, de não dar conotação política à morte, muito embora o próprio Jairzinho, em vida, não tenha se preocupado muito com isso.

O apresentador era engraçado (para quem gostava), dizia alguns bordões, criou um boneco e a gíria “migué”, o nome do boneco, sinônimo de enrolação, golpe, hoje incorporada no “maranhês” que se fala por aqui. E só.

Imparcialidade jornalística não existe. Uma notícia sempre será a interpretação de um fato, um ponto de vista sobre determinado fato, nunca o fato em si. O problema é quando a “opinião” emitida por um jornalista não se resume às suas convicções e à interpretação do mesmo sobre determinado fato. Quando entram outros interesses, em geral escusos, no jogo, o que, infelizmente, movimenta a maior parte de nossa mídia, da tevê à blogosfera, passando por rádios e jornais, não sem um grau de irresponsabilidade.

Para ilustrar, lembro um recente episódio “dois em um”: o nome do cantor e compositor Zeca Baleiro foi proposto pela classe artística para assumir a presidência da Fundação Municipal de Cultura de São Luís na gestão de Edivaldo Holanda Jr., antes, é claro, deste assumir a prefeitura. Sabedor da repercussão da campanha sobretudo em redes sociais e do endosso de diversos artistas, Jairzinho não poupou preconceito ao supostamente alertar o então futuro prefeito de que se o mesmo fosse atrás de artistas, “a turma do fumacê”, estes iriam “queimar” o dinheiro do povo, numa clara alusão à tão maranhense diamba (maconha, traduzindo para os poucos mas fieis leitores de fora).

Depois, por isso chamo de episódio dois em um, Jairzinho chegou a afirmar em seu O povo com a palavra, programa que apresentou na TV Guará até falecer, que a gravação de Milhões de uns, disco de estreia de Joãozinho Ribeiro, em show ao vivo no Teatro Arthur Azevedo em novembro passado, seria um ato pró-Zeca Baleiro na Fundação Municipal de Cultura. E mais: que eles e Chico César integravam uma “esquadrilha da fumaça”, que tinham no repertório uma música chamada Mato verde (na verdade é Erva santa, de Joãozinho Ribeiro, já gravada por nomes como Papete e Fauzy Beidoun), e que os três estariam se juntando para exportar a boa maconha do Maranhão.

Este é apenas um pequeno exemplo do jornalismo cometido por Jairzinho, mas infelizmente não apenas por ele, para tentar esclarecer um pouco as coisas num ambiente de falsas lágrimas e elogios baratos.

Jairzinho, requiescat in pace.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

13 comentários em “De obituários”

  1. Jairzinho foi tosco até o fim. Não é tb verdade que ele foi padrinho de diversas invasões com objetivos eleitoreiros?

  2. Nao sei por qual motivo ainda me surpreendo lendo seus textos! Talvez porque estão cada vez melhores! Parabéns Zema!

  3. Esse texto é muito lúcido. A imprensa maranhense se nutre da própria gosma que vomita. Assistia ao programa do Jairzinho com minha tia, era um programa de humor, não jornalístico. Qualquer pessoa que tivesse dinheiro para comprar aquele espaço e quisesse faturar poderia emitir opiniões melhores, ele preferia alimentar seu ego. Ontem, nos intermináveis discursos do Bloco da Imprensa, percebi o quanto é tosca a opinião de nossos opinadores. Ainda bem que eles apenas transcrevem o que ditam os patrões. Fica mais engraçadinho…

  4. Jairzinho era expoente de um tipo de jornalismo que vai embora ( pelo menos no seu caso, por morte) sem deixar saudades. Figura tosca, carregada de preconceitos e interesses avessos a qualquer administração que preze pelo compromisso com o público. Tinha certo apelo popular, e era isso que o mantinha, por reproduzir práticas imemoriais e jargões de apelo. Parabéns, Zema. Cada dia o negócio fica mais peso.

  5. Jairzinho sempre teve a língua solta e vivia ofendendo aos colegas. Depois de morto virou santo? Também não concordo. “Dá a César o que é de César”. Belo texto, parabéns!

  6. Jairzinho, Décio… Figuras de proa do jornalismo canalha que chafurda esta terra. Racista, homofóbico, idiota! Tão comum nas falas diárias de outros tantos racistas, idiotas e homofóbicos que ocupam o espaço público do rádio e da TV para propagar que os bandidos devem ser mortos, que sem terra é vagabundo, que quilombola que tomar terra de proprietário! Excelente artigo Zema!! Excelente.

    Com a licença da escrita, Vade retro Jairzinho!

    Diogo Cabral

  7. celso: os telespectadores têm dificuldades de sacar os bastidores, caindo no conto da independência, da imparcialidade. ainda bem que a coisa está mudando. nossa mídia é mesmo triste. pensar é perigoso e poucos querem correr esse risco.

    amanda: este blogue respeita a dor de amigos e parentes. nossa questão aqui é só (tentar) colocar os pingos nos is.

    igor: pena que a morte não gere uma reflexão, seja por problemas de saúde, no caso dele, ou pela brutalidade em que vivemos, num estado de violência e impunidade, no caso de décio sá. ao contrário, preferem apenas jogar flores, literalmente ou não.

    eliene: este blogue nunca compactuará com a mediocridade. há coisas que não nos permitem calar.

    diogo: essa é a lógica. os caras posam de independentes em espaços comprados (alguém por trás banca a conta, aparecendo ou não) e dão o tom da opinião pública, que no fundo é a opinião da mídia. daí a sua idiotice, racismo e homofobia virar verdade, é um pulo, na lógica de que o que não sai na mídia não existe e o que sai é verdade. por exemplo: “direitos humanos é defesa de bandido”, repete o telespectador, pois jairzinho (e/ou outros) o disse.

    joisiane: como eu desejei-lhe: “descanse em paz”.

    agradeço a leitura, o carinho e os comentários. abraços a todos/as!

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