Onde o reggae é a lei

Conheci São Luís e o Maranhão por causa do reggae, em 1988. Era uma reportagem pra revista Trip, mas acabei participando de um seminário sobre o tema e vivendo situações que bem dariam um filme. Eu era fã há algum tempo, visitara a Jamaica, escrevia sempre a respeito, mantinha uma coluna com novidades da música negra nas páginas da Somtrês. Acho que, assim como a maioria dos poucos que cultuavam o gênero no Brasil, eu sabia direitinho quem era Gregory Isaacs, I Jah Man, John Holt e Augustus Pablo, mas nunca tinha ouvido falar de Clancy Eccles, Jackie Brown, Keith Poppin e Jimmy London. E eram artistas excelentes, música de primeiríssima qualidade!

Durante alguns dias, zanzei nas festas das grandes radiolas e também nas das mais toscas. Estive com radialistas e djs, dançarinos e colecionadores, entre outros personagens de um fenômeno cultural tão rico e inverossímil quanto o original. Lembrava o esquema jamaicano do meio dos 1970, mas com um toque brasileiro, nordestino e nortista, caboclo. Não era uma cópia. Nos táxis, nas ruas, no som das lojas de eletrodomésticos, no rádio da cozinheira e até no vento, vindo de um não sei onde e ecoando apenas os supergraves, tudo era reggae. Os ônibus tinham rádio e os motoristas subiam o volume quando os programas começavam. Nos salões havia casais naquela estica – os homens de calça social, sapato e camisa de manga comprida, as mulheres de vestido no joelho.

Até então, eu não sabia que São Luís também era uma ilha – apenas uma de várias coincidências com sua prima caribenha. Como não observar, por exemplo, a cumplicidade rítmica do tambor de crioula com o nyahbinghi, batuque dos rastas? Ou que a Casa Fanti-Ashanti, terreiro histórico e influente, trazia essa peculiar referência à nação Ashanti, uma das principais provedoras da alma caribenha? Enfim, na minha cabeça as esculturas do Palácio dos Leões deslizavam sobre as cores do Sampaio Correia, compondo um diorama da bandeira da Etiópia.

Carles Solís fotografou o casal dançando agarradinho da capa

Trecho de Onde o reggae era a lei, prefácio que Otávio Rodrigues, não por acaso apelidado Doctor Reggae, escreveu para Onde o reggae é a lei (cuja capa acima este blogue dá em primeiríssima mão), livro que a Karla Freire lança ainda este ano pela Edufma, com produção editorial da Pitomba! Livros e Discos, do marido Bruno Azevêdo, que ano que vem lança Em ritmo de seresta: narrativas e espaços sociais da música brega e choperias em São Luís do Maranhão (este o título acadêmico, que deve mudar, para efeitos editoriais). Ambos os livros são frutos de suas dissertações de mestrado em Ciências Sociais (UFMA).

Não tenho culpa se deixo aqui os poucos mas fieis leitores deste blogue com água na boca (o livro tá mais perto do que longe, eu esperei mais, com ansiedade e aflição maiores, podem acreditar!).

O livro de Karla Freire venceu há algum tempo alguma categoria do Concurso Artístico e Literário Cidade de São Luís, promovido anualmente pela Fundação Municipal de Cultura (Func). Demorou a sair por que seu editor (e marido) não queria engessar os livros como em geral acontece em edições “oficiais”. A espera valeu a pena: fora o texto da autora, há um tratamento caprichadíssimo para quase 70 páginas de fotos, muitas delas de antigos reggaes de São Luís, fruto de uma pesquisa posterior à defesa do trabalho em banca acadêmica.

Em breve este blogue avisa do reggae de lançamento, pra gente curtir umas pedras e as letras da mãe da Isabel.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

8 comentários em “Onde o reggae é a lei”

  1. Importante: a Func fez caralho nenhum para a existência do livro. O Prêmio previa a edição, mas nunca houve sequer um email sobre isso, e os que mandamos resvalaram na chorumela. Para efeitos práticos, é um livro independente, que saiu do nosso bolso. Viva!

  2. Pode crer, Bruno, bom deixar claro a irregularidade da administração dos editais da func.
    Parabenizo o livro, ainda mais por ser independente e vir da pesquisa acadêmica de Karla.
    beijos a autora, editora e blogueiro!

  3. Isso é o que se pode chamar de excelente notícia.
    Salve, Karla!!! Parabéns por registrar a fenomenal e intrigante história doi reggae no Maranhão.
    Um detalhezinho, Zema: eu que trouxe Otávio Rodrigues pra cá. O seminário a que ele se referiu foi organizado por mim no auditório da Biblioteca. Esse seminário, “Reggae – O Som da Negadinha” merece texto à parte. Imagina, 24 anos atrás, uma radiola de reggae subindo as escadas da biblioteca e as velhinhas que lá trabalhavam se escandalizando com a rapaziada que lotou o ambiente…
    rsssss…

  4. ademar, o trecho que copiei é de otávio, trecho do prefácio do livro da karla. tu tem muita história na música por aqui, precisa contar isso, vamos conversar sobre? sobre este episódio, em particular, escreve que a gente publica. e vamos lá no reggae do lançamento do livro da karla… abraço forte!

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