Mundo, mundo, vasto mundo/ se eu me chamasse Raimundo…

O blogue dedica este post a Bruno Azevêdo (brega é tu!) e Ricarte Almeida Santos, que outro dia, em meio ao expediente, cantou o trecho da música que vocês lerão na prosa abaixo.

TUDO É RAIMUNDO

Ventania, agitador cultural, botou um bar. No dia sete de setembro, depois do desfile dos colégios, Roberto Baresi sentou-se e pediu uma cerveja. Outros estudantes, vendo que a cerveja estava véu de noiva, super-gelada, imediatamente lotaram o ambiente. Eram vários pedidos ao mesmo tempo:

“Ventania, traz uma cerveja… Ventania, um refrigerante… Ventania, uma água mineral…”

Neste intervalo, alguém gritava…

“Ventania, bota Raimundo Fagner.”

A correria continuava e os estudantes pedindo cervejas, refrigerantes, água mineral e o rapaz cada vez mais alto gritava:

“Ventania, bota Raimundo Fagner.”

Depois de muita insistência do rapaz, Ventania entra no bar e grita:

“Lá vai a música.”

De repente se ouve uma introdução com ritmo brega e uma voz rouca brada nas caixas de som:

“Minha Santa Inês, minha terra querida…”

Raivoso, o rapaz rebate:

“Porra, Ventania, esse aí não é o Raimundo Fagner não, é o Raimundo Soldado!”

E cansado, Ventania finaliza:

“Tudo é Raimundo… e esse aqui é melhor ainda porque ele é soldado e além de tudo é maranhense.”

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Zé Lopes, Bacabal – Cenas de um capítulo passado. São Luís: Edições Secma, 2009

Baleiro, ímpar, íntegro

“Adoraria fazer algo aí, especialmente pra essa ocasião [os 400 anos de São Luís], mas diante do contexto político da cidade e do estado, não posso tomar parte. Confesso que às vezes sinto uma certa vergonha da situação social e politica do Maranhão. Temos vocação para a riqueza e somos miseráveis. Temos uma cultura exuberante e nossos artistas morrem à míngua. Temos um patrimônio arquitetônico único e a cidade de São Luís é só ruínas. Triste!”

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Afiado e certeiro, Zeca Baleiro em entrevista a Samartony Martins nO Imparcial de hoje (28) [Impar, p. 1]. Com participações especiais de Nosly e Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões) o cantor e compositor faz show acústico no Teatro Arthur Azevedo na próxima terça-feira (31), às 20h30min. O espetáculo, beneficente, se dá em prol da finalização da construção da Casa da Acolhida Nossa Senhora da Graça (Rua Touro, nº. 10, Recanto dos Signos, Cidade Operária), em São Luís.

Rua da Misericórdia (Rua Lucano dos Reis)

Começa na Rua de São João II, para terminar no largo da Misericórdia, que já se chamou largo da Caridade. Em 1931, a municipalidade deu-lhe o nome de Lucano dos Reis.

O de mais importante nesta curta rua, de apenas três quadras, é que na esquina da rua de São Pantaleão (sen. Costa Rodrigues) existiu por muitos anos a Padaria Macieira, do comerciante Raimundo Antônio Macieira, mais célebre pelos pães que fabricava do que por sua atuação na Câmara Municipal. Todavia, obteve o calçamento da Rua da Misericórdia, merecendo de Tancredo Cordeiro a quadrinha:

“Por que se fez o calçamento
Na rua da Misericórdia?
Só porque o Macieira
É camarista da Concórdia”*

Lucano Duarte dos Reis, nascido em São Luís em 10 de dezembro de 1903, e aqui falecido em 5 de janeiro de 1931, foi poeta e jornalista e deixou o livro de versos Escombros. [*Concórdia: pacificação da família maranhense conseguida após a dualidade do governo – Artur Quadros Colares Moreira x Mariano Martins Lisboa Neto, e obtida depois de muitas demarches junto ao presidente da República Nilo Peçanha. N. do A.]

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Do saudoso Carlos de Lima em Caminhos de São Luís (ruas, logradouros e prédios históricos) (São Paulo: Siciliano, 2002), p. 114-115.

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Hoje chamada Canto da Comunicação, onde não mais há padaria, mas restaurante, funerária, sindicato e praça, é lá na esquina de Misericórdia e São Pantaleão (Centro) que se dará, amanhã (29), o primeiro ensaio aberto (“concentra mas não sai”) do bloco Outros 400, iniciativa de Arlindo Pipiu (morador da segunda) e Joãozinho Ribeiro. Uma pá de músicos e foliões se reunirá para tocar, cantar e beber. Começa às 14h e é grátis (você só paga o que consumir, tirando a música).

Docs lançam olhares sobre cultura popular do Maranhão

Serão lançados hoje, na Casa de Nhozinho, os documentários Mané Rabo, de Beto Matuck, e Reisado Careta Encanto da Terra, de Paloma Sá

Com 25 minutos de duração, o documentário Mané Rabo, do produtor e cineasta Beto Matuck, mostra passagens da vida do mestre de Boi de Costa de Mão, já falecido, que viveu em Cururupu, no litoral norte do Maranhão. O trabalho tem o patrocínio de Microprojetos da Amazônia Legal (Fundação Nacional de Arte – Funarte) e da Secretaria de Estado de Cultura (Secma).

Matuck viveu parte da sua carreira profissional em São Paulo e atualmente mora em São Luís desenvolvendo projetos de documentários artísticos e educacionais. Lá, fez trabalhos como produtor e diretor na área educacional, juntamente com o cineasta Joel Yamaji, e criou os Núcleos de Produção Cinematográfica do SENAC-SP e as Oficinas Culturais do Governo de São Paulo.

Dirigido por Paloma Sá, Reisado Careta Encanto da Terra registra saberes tradicionais de uma comunidade localizada no bairro Campos de Belém, em Caxias/MA, em especial o Reisado Careta. O documentário tem apoio da Secretaria de Cultura e Turismo de Caxias.

A diretora é mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), professora da rede pública estadual e pesquisadora das culturas populares brasileiras.

Durante o lançamento dos docs, que tem início às 19h30min, haverá uma apresentação do Grupo Reisado Encanto da Terra, de Caxias. A entrada é gratuita.

As informações são da assessoria do evento.

O massacre de Pinheirinho

O vídeo fala por si só: atualíssimo, bem feito e corajoso. E além de tudo: verdadeiro. Essas coisas que não vemos na tevê. Mostra as relações (podres) (entre os poderosos) por trás de todo o “problema”, a ação truculenta da polícia militar e guarda municipal tucanas em São José dos Campos/SP.

Agradeço o envio/dica ao amigo Djalma Costa.

Divulguem! Mais aqui.

Pra não dizer que não falei de big brother

[Textinho nosso pro Vias de Fato de janeiro, já nas bancas]

CIRCO DOS HORRORES

POR ZEMA RIBEIRO

São Luís, capital do Maranhão. Local e data a escolha dos leitores e leitoras. Engarrafamento. Um motorista joga uma embalagem plástica pela janela. Em outro horário e local, outro motorista para no meio da pista, mesmo havendo acostamento. Pouco se importa com a fila de carros que se forma atrás de seu veículo. Em frente a uma escola, um grupo de crianças deseja atravessar a avenida. Parecem contentes com o fim de mais um dia de aulas, o sol a pino, a fome ao voltarem para casa. Uma delas resolve por o pé na faixa, como a sinalizar aos motoristas o desejo de chegar ao outro lado da via. Quase tem o pé esmagado por vários carros.

Chove e os condutores não reduzem a velocidade. Pedestres, espremem-se sob a proteção insuficiente do que deveria ser um abrigo no ponto de ônibus. A água suja lhes molha as roupas. Ouvem-se alguns gritos, palavrões, mas xingar, dá em nada, os motoristas estão “protegidos” por seus vidros fumês e ares-condicionados.

Um(a) motorista aciona rápido o botão do vidro elétrico de seu veículo (novo), que acabou de parar em um semáforo. Prefere isolar-se do contato com a criança ou o adolescente – um ser humano, enfim – que lhe pede para limpar os vidros em troca de uma moeda. Apesar do barulho infernal proporcionado pelo ronco dos motores – embreagens cerradas mesmo em terrenos planos –, o trânsito, enfim, àquela hora, mesmo com o vidro fechado, é possível ouvir o comentário de condutor e carona acerca de “comprar droga”. “Tou com fome, é para eu comer”, tenta argumentar o “de menor” – como os do interior do veículo e os dos interiores dos veículos de comunicação tratam os filhos de “gente pobre” –, embora a música (ruim) e o barulhinho (bom) do ar-condicionado lhes impeçam de ouvi-lo.

Uma “autoridade” (branca) destrata um vigilante (negro) na entrada de uma repartição. Ele engole em seco, nada diz. Mesmo tendo razão na advertência que fizera à primeira.

Uma música de qualidade duvidosa é emitida por caixas de som em um estabelecimento comercial. É uma loja de confecções. Além da péssima música, em volume ensurdecedor, vendedores batem palmas rente aos ouvidos dos passantes. Adiante, outra loja toca música tão ruim quanto. Na verdade, um restaurante. Um homem na porta anuncia pratos baratíssimos. Aos gritos. A depender do estabelecimento, podem estar vestidos de palhaços ou ter bundas postiças – desprovidos de qualquer graça. A música ruim é ubíqua, tanto faz venderem roupas, comidas, eletrodomésticos, utilidades do lar ou qualquer outra coisa. Se a loja vende aparelhos de som, várias músicas ruins saem de vários equipamentos (escapamentos?). De unanimidade só a “qualidade” da “obra” (sinônimo de excremento) veiculada.

A mesma música exalada por porta-malas a céu aberto, ensurdecendo antes a vizinhança e os “malas” que depois sairão cantando pneus anunciando seus dirigires embriagados. Mesmo que leis proíbam coisa e outra. Adiante, na base do “sabe com quem está falando” e algum trocado, o herdeiro, ainda que de terceiro grau (de parentesco, não de formação) de alguma autoridade (política, policial, jurisdicional ou outra) é liberado pela blitz, obviamente sem ter sido submetido ao teste do bafômetro.

Mais adiante, próximo a outro bar, outro motorista, sem qualquer gota de álcool no sangue, atropela um gato. É noite e o felino morre imediatamente. O condutor ouve algum barulho, mas não se importa. Talvez não se importasse mesmo em se tratando de um ser humano.

Um homem que bebe nesse bar, munido de um saco plástico, segura pelo rabo o gato morto e deposita-o no canteiro central. Lava as mãos e torna a entornar seus goles, despreocupado. Noutra mesa, um grupo comenta a rebelião no presídio, o que a tevê do recinto havia acabado de exibir. “Bandido tem mais é que morrer. Um bando de come-e-dorme, vivendo confortavelmente à custa do Estado”, bradou um mais eufórico, batendo o copo recém-esvaziado na mesa de plástico. Sua risada cínica e sádica fez mais barulho.

A maior obra da prefeitura é uma árvore de natal, metáfora perfeita para a dilapidação dos recursos públicos: passado o período, a árvore foi ao chão. A grande marca do governo é a propaganda: anuncia mesmo o que sua gestão não fará e/ou continuará adiando indefinidamente.

Num dia, dois jornais diferentes trazem o mesmo texto sobre o mesmo assunto. Noutro, estes mesmos jornais contam duas versões completamente diferentes acerca do mesmo acontecimento.

No trabalho, colegas comentam mais um capítulo da novela, do reality show, da minissérie. Reclamam da corrupção, do trânsito, dos preços, da vida, do trabalho. Comentam qualquer coisa acerca das eleições que se aproximam. Terminam o cafezinho e voltam a seus afazeres.

Vocês, leitores, leitoras, certamente já presenciaram e/ou ouviram falar de uma ou mais das situações descritas ao longo deste texto, cujo título tomo emprestado da música homônima de Josias Sobrinho. Quem carece da realidade fabricada e ensaiada de um Big Brother Brasil quando já se vive na realidade dura, nua e crua deste circo de horrores?

Rompimento de cabos de fibra ótica deixa usuários da Oi sem serviços de telefonia e internet

Problema prejudicou milhares de usuários da empresa no estado; também houve suspensão de serviços bancários e do atendimento pelo 116 da Cemar

RUBENITA CARVALHO
DA EDITORIA DE CONSUMIDOR

Mais uma vez os usuários maranhenses da empresa Oi, sejam de serviços de internet, de telefonia celular e de telefonia fixa, foram prejudicados na manhã e tarde de ontem por uma pane no sistema da operadora. Sem sinal para receber e efetuar ligações, nem para acessar a internet, os consumidores enfrentaram o “apagão” da operadora desde as primeiras horas da manhã. O problema afetou o sistema da Oi integrado aos bancos, prejudicando muitos clientes que precisaram realizar operações bancárias.

A Oi informou no meio da tarde que um duplo rompimento de fibra ótica, causado por obras civis sob a responsabilidade de terceiros, entre os municípios de São Luís, Santa Inês e Parnaíba (PI), ocorrido na manhã de ontem, afetou parcialmente os serviços de telefonia fixa, móvel e dados no Maranhão. Segundo a operadora, equipes técnicas foram acionadas e o serviço foi normalizado ainda na tarde de ontem.

Entre os bancos afetados em todo o Maranhão durante todo o horário bancário estão o Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Bradesco. Na porta de agências do Banco do Brasil e Caixa, era grande o número de pessoas que aguardavam o retorno do sistema. No Banco do Brasil no São Francisco a situação de quem esperava na porta da agência era semelhante à dos demais bancos. “Eu estou aqui desde as 10h, mas até o momento o sistema está fora do ar e preciso descontar um cheque de R$ 440,00. Estou precisando muito desse dinheiro e não posso nem voltar para casa”, afirmou Evanildo Lima Campos.

Em busca de sacar dinheiro para pagar algumas contas, o engenheiro Sadoc Fonseca Sodré contou que foi ao banco já preocupado em retirar dinheiro para cumprir compromissos financeiros cujo vencimento era ontem. “Lá em casa é celular que não tem sinal, é internet que não funciona e, agora, chego ao banco e também nada funciona. Isso é um descaso muito grande com a população”, queixou-se Sadoc Fonseca.

Em situação semelhante, o jornalista Anderson Corrêa contou que ontem pela manhã foi a uma das agências do Banco do Brasil, por duas vezes, mas não conseguiu sacar o dinheiro para quitar uma conta com vencimento ontem. “Eu quero saber quem vai arcar com os juros. Tentei pagar o débito, mas o sistema estava fora do ar”, reclamou.

As queixas de consumidores contra as operadores de telefonia móvel lideram o ranking de reclamações no Procon.

A Companhia Energética do Maranhão (Cemar) também foi afetada pela pane na Oi. A empresa informou que, por causa de problemas técnicos nos serviços de telefonia de responsabilidade da operadora OI/Telemar, a Central de Atendimento ao Cliente 116 não recebeu ligações desde as 10h30 de ontem. A companhia orientou os clientes a se dirigirem a alguma agência de atendimento mais próxima ou acessar o www.cemar116.com.br.

[O Estado do Maranhão, 25 de janeiro de 2012, Consumidor, p. 7, acesso exclusivo para assinantes com senha]

Vale da morte

(…) Não é preciso ser médico ou entendido em questões ambientais para perceber a situação em que vivem os moradores de Piquiá, literalmente cercados pelo polo siderúrgico: a poluição do ar é visível, e as más condições de saúde estão estampadas nos rostos das pessoas.

Em outubro, uma semana antes da visita da reportagem da Caros Amigos à comunidade, Antonia Avelino Gomes Souza, de 47 anos, faleceu de insufiência respiratória aguda, decorrentel de câncer de pulmão. Em 2007, seu marido Francisco da Silva Santos morreu vítima da mesma doença. Há inúmeros casos de queimaduras, a maioria delas por conta do contato com a munha, resíduo do carvão, altamente inflamável.

O pernambucano Anísio Pereira, de 70 anos de idade e há 20 morando em Açailândia, nos leva até o local onde fica a munha, do outro lado da BR-222, que divide o bairro. É uma enorme pilha de pó preto, a céu aberto, que tem em volta apenas um “muro” cheio de sacos de areia e onde há uma placa indicando: “perigo, afaste-se, risco de morte”.

Porém, como animais e crianças pequenas não sabem ler, há muitos casos de queimaduras. O filho de um vizinho de Luzinete, por exemplo, teve as duas pernas queimadas. Há também o caso de Gilcivaldo Oliveira de Souza, de sete anos, que, ao procurar pedaços de carvão, subiu no monte de munha, que amoleceu e o queimou até a cintura. O menino morreu após 20 dias de sofrimento, em novembro de 1999.

(…) A comunidade existe desde a década de 1970, e, em 1980, com a implantação do Projeto Grande Carajás, construiu-se o polo siderúrgico. Em 1985, foi inaugurada a EFC. Hoje, cerca de 1.100 pessoas vivem no local, e há vários anos a Associação de Moradores de Piquiá de Baixo tem encaminhado denúncias dos impactos da siderurgia a distintos órgãos.

Como resposta, na maioria das vezes obteve o silêncio. O apoio tem vindo da Paróquia São João Batista de Açailândia, da organização Justiça nos Trilhos e do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia. A população reivindica a saída das famílias do bairro e o reassentamento em uma nova área. Embora os problemas de saúde da população sejam visíveis, as Secretarias Municipais e Estaduais de Saúde e Meio Ambiente nunca foram à região para medir o grau de poluição da água, do solo e do ar.

(…) No levantamento [relatório da Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH), feito em conjunto com as organizações Justiça Global e Justiça nos Trilhos e divulgado em maio de 2011], avalia-se que “o município de Açailândia se beneficia pouco da existência das gusarias. Em particular, o bairro do Piquiá de Baixo constitui uma ‘Zona de Sacrifício’ [nome que se dá a áreas escolhidas para a instalação de grandes empreendimentos causadores de impactos socioambientais, quase sempre localizadas nas periferias urbanas]. Na frente das casas dos moradores de Açailândia, o trem transporta, todos os dias, o correspondente bruto, em minério de ferro, a cerca de R$ 50 milhões [observação do blogue: em mais ou menos 67 dias a Vale transporta o equivalente a seu valor de venda: a então Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) foi privat(ar)izada por aproximadamente R$ 3,3 bilhões no governo tucano de Fernando Henrique Cardoso num dos maiores crimes de lesa-pátria de que este blogueiro recorda]. O trem da Vale pode ser considerado o maior trem do mundo, com 330 vagões, cerca de 3.500 metros de extensão e a capacidade para transportar 40 mil toneladas, mas as condições de vida dos habitantes não refletem essa riqueza”.

(…) “Depois de tantos anos de luta, nossa nova terra e nosso futuro estão nas mãos de três juízes de São Luís. Um julgamento está por acontecer e decidirá se a terra fica para 50 vacas, cujos donos têm muitas outras terras, ou se fica para nós, que somos mais de 1.100 pessoas e não temos opção. Há sete anos nossos 21 processos de indenização aguardam julgamento do Poder Judiciário. Por que os pobres têm sempre que esperar tanto? As siderúrgicas continuam poluindo nosso ar, nossa água e solo. O barulho não nos deixa dormir. Nossos processos se bloqueiam pela burocracia e os recursos. Mas nem o Ministério Público nem os órgãos ambientais nunca mandaram parar um forno por respeito à nossa vida. A mineradora Vale fica observando tudo isso e se acha limpa. Mas foi ela que trouxe essas siderúrgicas pra cá e é ela que as alimenta de ferro e escoa sua produção. Se ela tivesse realmente interessada em uma solução, já teria exigido isso das siderúrgicas. Mas não: ela quer duplicar, construir um novo Carajás, passando por aqui”, diz um trecho da carta [entregue por moradores de Piquiá à governadora Roseana Sarney em dezembro passado, quando ela inaugurava 14km de asfalto no município].

O desembargador Paulo Velten, que acatou o pedido de liminar em 27 de setembro, está de férias, e quem assume suas funções até o retorno do colega é o desembargador Raimundo Nonato de Souza. Ele recebeu um pedido de revogação da liminar por parte do advogado da Associação de Moradores de Piquiá, Danilo Chammas. “A situação é gravíssima e demanda uma solução urgente”. Procurado pela reportagem, o desembargador Raimundo Nonato disse, por meio de sua assessoria, que não poderia atender, “pois estava muito ocupado”.

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Acima, trechos da ótima reportagem Os invisíveis da cadeia de ferro, assinada em cinco páginas pela jornalista Tatiana Merlino, na edição 178 da revista Caros Amigos (janeiro de 2012), cuja capa anuncia: Polo siderúrgico, o inferno de Piquiá – Onde o povo respira fuligem de ferro. Os problemas aí expostos não são os únicos causados pela mineradora, transformada em um problema mundial com a privat(ar)ização FHCista. A matéria de Merlino aponta ainda problemas com Os meninos clandestinos do trem da Vale, que dá conta, inclusive, de ameaças de morte recebidas por crianças e adolescentes que embarcam clandestinamente nas composições da empresa.

Não é a primeira vez que a jornalista da Caros Amigos, aponta problemas da mineradora: em dezembro passado (nº. 177) ela assinou a matéria Vale duplica ferrovia e multiplica violações no Maranhão e Pará, em seis páginas. Na ocasião percorreu municípios paraenses e maranhenses ameaçados pelo novo empreendimento minerador da Vale, identificando ocorrências de prostituição, exploração sexual infantil, trabalho infantil e em condições análogas a de escravo, atropelamento de animais e pessoas (uma por mês, em média), entre outros problemas. Trecho da reportagem aponta também que “a empresa prevê a remoção, ao longo da via férrea, de 1.168 “pontos de interferência”: cercas, casas, quintais, plantações e povoados inteiros”.

“Pontos de interferência”: assim a Vale vê o que ou quem ousa impedir ou atrasar o aumento de seus já estratosféricos lucros. A Rede Justiça nos Trilhos vem fazendo sistematicamente denúncias sobre os impactos da mineradora, e estes não se restingem a Maranhão e Pará. Para citar apenas os mais recentes, o bloqueio de um trem em Moçambique e a interdição das obras de duplicação da ferrovia em Açailândia.

Maior corporação de minério do mundo, a brasileira Vale está presente hoje em 38 países. Tamanha grandeza a coloca entre as “seis finalistas do prêmio Public Eye Award, que todos os anos escolhe a pior empresa do planeta por voto popular e anuncia a vencedora durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. É a primeira vez que uma empresa brasileira concorre ao prêmio”, de acordo com informações do site da Justiça nos Trilhos. Clique aqui para votar na Vale.

Comunidades da zona rural de Açailândia interditam obra de duplicação de trilhos da Vale

Desde o começo da manhã cerca de 700 funcionários da empresa estão cercados impedidos de circular pela região

AÇAILÂNDIA – Aproximadamente dois mil moradores da zona rural de Açailândia/MA, de Novo Oriente, Francisco Romão, Planalto I e II e acampamento João do Vale, ocupam desde a madrugada de hoje (19), a vicinal que dá acesso às obras de duplicação da Estrada de Ferro Carajás, sob concessão da mineradora Vale.

O motivo da interdição da via, onde cerca de 700 funcionários da empresa estão cercados pelos manifestantes, se dá pelo não cumprimento da mineradora às contrapartidas na região que foram acordadas com os moradores das comunidades, há dois meses junto à Prefeitura Municipal de Açailândia.

“Só encerraremos o protesto se representantes da empresa vierem negociar com a população, pois estamos solicitando à Vale várias compensações diante de seus projetos nas comunidades há muito tempo e agora foi o estopim, pois ela descumpriu prazos e o povo não aguenta mais e quer uma resposta”, esbraveja Ricardo Amaro de Sousa, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Açailândia, que habita na região.

Segundo documento entregue ao Ministério do Meio Ambiente e IBAMA pela Rede Justiça nos Trilhos, que monitora os problemas provocados pela Vale nas comunidades que margeiam a ferrovia no Maranhão, os impactos na zona rural de Açailândia são muitos.

“Atropelamento de pessoas e animais, trepidação e rachadura das casas, além do aterro de poços com a passagem do trem, poluição sonora, aumento do tráfego de carros, o envenenamento das terras da comunidade pelo veneno jogado nas plantações dos eucaliptos que cerceiam os assentamentos, devastação ambiental e constantes incêndios provocados pela locomotiva”, são alguns dos problemas que constam do documento.

Diante desse quadro, as contrapartidas requeridas pela comunidade e não cumpridas pela mineradora são: “melhorias na escola, construção de túneis para passagens de carros e passarelas para travessia de pedestres sob a estrada de ferro, valor justo de indenização para remoção das casas, recuperação dos reservatórios de água, trabalho de prevenção a incêndio, apoio às experiências ambientais, pesquisas para avaliar impacto dos agrotóxicos vindo do eucalipto na plantação dos assentamentos e um posto de saúde” (Márcio Zonta, da Rede Justiça nos Trilhos).

Via Expressa não vai atingir igreja do Vinhais Velho, diz secretário

Max Barros garante que obra não causará dano à Igreja de São Batista, que é tombada

 

Via Expressa não atingirá a igreja. E as pessoas?

 

O secretário de Estado de Infraestrutura, Max Barros, informou ontem que a obra da Via Expressa não acarretará qualquer dano à Igreja de São João Batista, no Vinhais Velho, que é tombada pelo Patrimônio Histórico Estadual. “Estamos tomando todos os cuidados necessários. Contratamos um escritório de arqueologia, que está acompanhando todos os passos do processo”, declarou.

De acordo com o secretário, a avenida passará a uma distância de 100m da igreja. Além disso, o prédio será beneficiado com um largo que será edificado na área existente em frente ao templo, para uso e diversão da comunidade.

Max Barros informou ainda que apenas oito imóveis estão no traçado da Via Expressa. Destes, dois já estão desocupados e os outros seis estão em processo de negociação com o Governo do Estado.

Obra – Com investimentos de mais de R$ 100 milhões, a Via Expressa é uma das obras construídas pelo governo para marcar a celebração dos 400 anos de São Luís e beneficiará 300 mil habitantes em diversos bairros de São Luís. O projeto prevê a ligação da Avenida Colares Moreira – passando pela Carlos Cunha – à Daniel de La Touche, na altura do Ipase.

A nova avenida terá cerca de 9 km de extensão, passando por mais de 20 bairros. De acordo com estudos da Sinfra, a via deve atrair pelo menos 30% do total de veículos que hoje trafegam pela Jerônimo de Albuquerque, entre os Elevados da Cohama e o do Trabalhador, o que vai contribuir para desafogar o trânsito na área.

Mais – A nova avenida interligará os Bairros Cohafuma, Vinhais e Maranhão Novo, por meio de alças acopladas às vias já existentes, que serão especialmente restauradas para a garantia de melhor fluxo de tráfego.

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Com uma obra e um sutiã a mais aqui e um mais a menos acolá, o texto acima foi publicado, quase sem tirar nem por vírgula, nas edições de hoje (18) dos jornais O Estado do Maranhão (Geral, p. 5) e Pequeno (Cidade, p. 13).

No primeiro, não é de se estranhar, já que trata-se de um veículo de comunicação do Sistema Mirante, de propriedade da família da governadora, quase um “diário oficial” de seu governo (não há Via Expressa que o coloque nos trilhos, nos eixos).

No segundo, dito de oposição à família Sarney (mesmo que isso, às vezes, signifique defender intransigentemente e/ou legitimar a péssima gestão tucana de João Castelo à frente da prefeitura ludovicense), o estranhamento é atenuado por ter se tornado comum, infelizmente, a prática nada saudável do control c control v em releases.

Em sua última página (Polícia, p. 16), o JP anunciou o Almoço da Resistência, ato organizado por moradores do Vinhais Velho, que acontece logo mais ao meio-dia. Ontem, a comunidade recebeu a visita do arcebispo de São Luís Dom José Belisário.

Vinhais Velho organiza Almoço da Resistência

Ato acontece quarta-feira (18), ao meio-dia, buscando novamente chamar a atenção para problemas trazidos pela Via Expressa

DO TRIBUNAL POPULAR DO JUDICIÁRIO

Moradores da comunidade Vinhais Velho realizarão na próxima quarta-feira (18), um “Almoço da Resistência”, para o qual estão sendo convidados profissionais dos meios de comunicação, militantes de organizações de direitos humanos, parlamentares estaduais e federais, além dos moradores da região.

O Vinhais Velho é uma das áreas que serão atingidas com a construção da Via Expressa. Desde o anúncio e a ostensiva propaganda em relação à obra do governo do estado seus moradores vêm se organizando para resistir. Já foram realizados cafés da manhã, reuniões e celebrações ecumênicas.

De acordo com diversos moradores, após a repercussão destes atos de resistência, a única preocupação dos responsáveis pela obra é com a manutenção de uma igreja local, com quase 400 anos de edificada. As indenizações propostas estão bastante aquém do valor de mercado.

O Almoço da Resistência acontecerá ao meio-dia, na Granja do Japonês, localizada na Rua Grande, nº. 90, no Vinhais Velho.

Morre, aos 91 anos, Seu Teodoro, um dos mestres da cultura popular do DF

DO CORREIO BRAZILIENSE

Seu Teodoro Freire (foto), mestre da cultura popular e o principal idealizador do bumba meu boi no Distrito Federal, morreu na madrugada deste domingo (15) no Hospital Santa Helena, em Brasília/DF. Ele estava com 91 anos e sofria de enfisema pulmonar e há alguns dias resistia aos revezes das saúde debilitada. Ele conseguiu, ainda em vida, a honra e o merecido reconhecimento de receber das mãos do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do também então Ministro da Cultura Gilberto Gil, a Ordem do Mérito Cultural tornando-se uma grande referência de cultura popular na cidade e sendo reconhecido o trabalho dele como patrimônio imaterial do Distrito Federal.

O velório acontece hoje, a partir das 12h, no Centro de Tradições Populares, em Sobradinho, e está sendo organizado pela família, afirmou Guarapiranga Freire, um dos filhos do artista e que nos últimos anos tem assumido a responsabilidade em continuar com o trabalho cultural do bumba meu boi e do tambor de crioula de Seu Teodoro.

No último dia 10 foi aberto o período de festejos de São Sebastião, que iria até o próximo dia 20. “Com o falecimento de meu pai, teremos que cancelar toda nossa programação deste mês. Não há o menor clima de continuarmos com as festividades agora. Ficou um vazio muito grande”, explicou Guarapiranga Freire no site oficial de seu pai.

Seu Teodoro Freire – O maranhense Teodoro Feire, conhecido como Seu Teodoro, nasceu na pequena cidade de São Vicente Ferrer, localizada a 280 km de São Luís/MA, em 1920. Desde os oito anos era apaixonado pelo cultura popular e dedica-se à tradição de sua região: o bumba meu boi e outras paixões como o time de futebol Flamengo e sua escola de Samba, a Mangueira.

Seu Teodoro chegou à cidade em 1962, trabalhou na UnB e criou o Centro de Tradições Populares, em Sobradinho, onde seguiu mantendo viva a cultura do bumba meu boi na cidade.

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O blogue agradece a gentileza do link a @AgostinhoMPB e reproduz o  texto com pequeníssimas correções ao longo do mesmo, inclusive a localização de São Luís, dada como se no Mato Grosso do Sul no texto original.

Criança indígena assassinada: mais um crime que ficará impune?

O blogue volta ao retrato, sinal de que nada mudou...
Em agosto do ano passado publiquei a foto acima em um post intitulado De como Roseana Sarney gosta de preto e de índio.

Lembrei da foto por ocasião da vinda à tona do caso da morte de uma criança indígena, sobre o que tem-se poucas informações dado o isolamento do povo Awa-Guajá, etnia do assassinado – consta que tinha oito anos e foi queimada viva por madeireiros na terra indígena Araribóia, em Arame/MA.

O caso não teve a devida repercussão à época do ocorrido por uma série de fatores, inclusive as mui prováveis ligações de madeireiros com as autoridades “competentes”.

O jornal Vias de Fato publicou algo a respeito no apagar das luzes de 2011. E recentemente o jornalista Rogério Tomaz Jr. reacendeu as discussões sobre o caso com este post, seguido do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que se manifestou em texto devidamente reproduzido pelo blogueiro. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) também publicou este texto. E enquanto eu finalizava este post, o site do Vias de Fato voltou ao ar, trazendo novas informações sobre o caso.

Independentemente de há quanto tempo aconteceu o caso, o mesmo deve ser investigado, com as devidas punições aos responsáveis.

Uns, numa caixa de comentários do blogue de Rogério Tomaz Jr., cobram-lhe fontes, provas, o escambau. Ora, o jornalista bloga de Brasília/DF, onde vive, e ainda que vivesse aqui teria dificuldades em apurar o caso, principalmente por conta do isolamento em que vivem os Awá (ainda assim, à distância, supera enorme parte dos colegas e veículos sediados acá). Mais um motivo para cobrarmos das autoridades que cumpram seu papel: têm poder e recursos para fazê-lo, basta querer. O que não pode é a impunidade continuar reinante por estas plagas.

O jornal O Estado do Maranhão publicou hoje (6) matéria sobre o assunto [Polícia, p. 8]. O acesso é exclusivo para assinantes com senha. A quem interessar possa.

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