Obituário: Dona Teté

Quando chegou ao céu, Dona Teté tirou onda. Puxou a caixa a tira colo, pegou as baquetas e saudou São Pedro e os demais: “Boa noite, minha gente/ foi agora que eu cheguei/ fui chegando, fui cantando/ se é do seu gosto, eu não sei”. O porteiro da morada do altíssimo aprovou e logo um monte de velhinhos de barbas brancas e anjos imberbes caíram na dança: o primeiro Papa da Igreja Católica já era um velho conhecido de Almeirice da Silva Santos, que cá na terra, tanto já o havia saudado em ladainhas e nos festejos do divino espírito santo e nos juninos, a que se junta a Antonio, João e Marçal no Maranhão.

Carregava o apelido de Teté desde criança: o padre que a batizou achava o nome Almeirice muito grande para uma menina tão pequena. O apelido virou nome artístico pelas mãos de Lauro, amo do boi homônimo, o inventor da dança que ela não só ajudou a popularizar como era a maior representante.

Dona Teté faleceu na madrugada de hoje, aos 87 anos, após cerca de um mês de internação na UTI do Hospital Carlos Macieira, em decorrência de um acidente vascular cerebral. Não era o primeiro. No período junino deste ano vi aquela amável senhora pela última vez. Já parecia ir aos arraiais apenas para garantir a autenticidade de seu grupo: sem Teté não se tratava do Cacuriá de Dona Teté. Ela já não cantava nem dizia suas tiradas bem humoradas e cheias de duplo sentido. Na ocasião troquei algumas palavras com uma mulher que lhe acompanhava, não sei se filha ou alguém do grupo Laborarte. Eu desejava entrevistá-la. A mulher alegou que sua memória já estava bastante prejudicada e que sua fala, de tão enrolada, era de difícil compreensão até mesmo para os que conviviam com ela diariamente.

O corpo de Dona Teté – a alma certamente já está botando um grupo para dançar no céu – está sendo velado em sua residência, na Rua dos Guaranis, nº. 34, Barés, João Paulo, próximo à sede do Centro de Cultura Negra do Maranhão. O sepultamento acontecerá às 16h no cemitério da Pax União, em Paço do Lumiar.

“Mariquinha morreu ontem/ ontem mesmo se enterrou/ na cova de Mariquinha/ nasceu um pé de fulô”, cantava em um dos grandes sucessos de seu grupo. Vários pés de fulô certamente brotarão para saudar Teté, coloridos como as vestes dos dançarinos e dançarinas de cacuriá.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

21 comentários em “Obituário: Dona Teté”

  1. Zema um os teus mais belos textos deste ano. Teté disse que não queria chororô no dia de sua ida, mas com certeza ela se emocionaria com tão linda homenagem, simples e autentica como ela.

  2. Salve,.Zema!
    Belo texto, bela homenagem… objetiva, “pero sin perder la ternura”!
    Grande mulher, guerreira…
    a essa hora está ao lado de Jah
    tocando caixa e fazendo tudo que é anjinho dançar
    é festa no céu, meu povo!
    Abração,

  3. As Escrituras dizem que no céu haverá surpresas. Pessoas que jamais imaginamos, encontraremos por lá (se formos). Acredito que, nesse contexto, será o entoar de canções nunca antes reveladas, porque a certeza de que Teté subiu direto, não é surpresa pra ninguém…

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