“Só espero poder morrer sentindo o cheiro dos meus livros…”

A frase acima foi dita pelo jornalista (cultural) Daniel Piza, em março de 2008, em entrevista ao colunista da Folha João Pereira Coutinho. O primeiro comentava seu “otimismo” em relação aos livros: que eles não acabariam etc. Mais à frente, na mesma entrevista, o autor de Jornalismo Cultural [Editora Contexto, 2003] afirmaria: “Quando olho para meus livros, CDs e DVDs, penso: quanta coisa boa para (re)viver!”.

Aos apenas 41 anos, Daniel Piza faleceu ontem, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC). O sepultamento acontece amanhã (1º.) de manhã. Leia o obituário na Folha.

Guerrilhas, novo livro de Flávio Reis

Este blogue dá em primeira mão. Antes, o prefácio:

OUTRA HISTÓRIA
Celso Borges*

Cada um luta com a arma que pode, com a arma que tem. A de Flávio Reis está na cabeça, no pensamento, na palavra. Afiada e lúcida, perpassa vários campos nesses 20 textos de Guerrilhas, em sua maioria publicada em jornais de São Luís nos últimos anos. Um pequeno livro que nos ajuda a pensar o Maranhão, a entender por que chegamos até aqui do jeito que chegamos. No cerne de cada questão abordada está a luta contra o modo de pensar da classe dominante, que impõe a sua história, ora idealizada, ora subjugando o pensamento discordante.

O livro abre com a polêmica sobre a fundação de São Luís. Cinco artigos desconstruindo o discurso oficial, que prefere idealizar a fundação da cidade pelos franceses, em lugar dos portugueses “bárbaros”. Um discurso que privilegia a filiação distinta de Daniel de La Touche, o fidalgo francês, Senhor de La Ravardière, em substituição a Jerônimo de Albuquerque, que nem português era, um mestiço do sertão. Analisando o debate em torno do nosso “mito fundador”, o autor afirma que a argumentação da maioria dos intelectuais e historiadores, sedimentada a partir do início do século 20, é resultado de uma visão narcísica que busca esconder uma história de violência e miséria em nome de um passado glorioso.

Guerrilhas ressuscita também assuntos fadados ao silêncio, como o momento obscuro da política maranhense, nos anos 20 do século passado. Com base no livro Neurose do Medo (Nascimento de Moraes, 1923), resgata uma história com direito a governador neurótico, juiz arruaceiro, assassinato e suicídio. Um verdadeiro circo de horrores, retrato da república em terra tupiniquim.

Quase 100 anos depois, mais um capítulo da barbárie política do Maranhão é revisto, agora sobre a troca de governadores do estado, decidida pelo TSE em 2009 (“O Nó-Cego da Política Maranhense”). Aqui ele aponta o dedo aos que sempre estão posando para a foto no baile dos vencedores. Mais adiante, no artigo em que saúda o primeiro aniversário do jornal Vias de Fato, (“Vias de Fato: um ano memorável”), retrata onde estamos metidos, imersos num jornalismo distante da comunidade, ressonando uma estrutura apodrecida.

Os primeiros nove textos de Guerrilhas são, portanto, uma radiografia de como a estrutura política dos últimos 100 anos nos obrigou a ler o Maranhão à sua maneira. Em seguida, o autor escreve sobre a violência urbana. E o Maranhão está ali também, como um “estado onde a moldura do poder oligárquico conseguiu atravessar o século sem grandes alterações, as polícias militar e civil sempre estiveram perpassadas por interesses políticos e prontas a se submeterem às vinganças privadas que passam ao largo do sistema judiciário.” (“Crime e Cinismo”).

Mais à frente, em artigo sobre “Litania da Vela”, poema de Arlete Nogueira da Cruz, toma por referência o filósofo Walter Benjamin e encara o poema como “ladainha do fim dos tempos modernos”. Poema do grotesco, prenúncio da nova barbárie, faz a descrição crua da miséria de uma velha na ‘cidade que se desfaz em salitre’. É a deixa para a retomada do primeiro assunto do livro. Como um boi triste e furioso, o autor continua ruminando o mito da fundação da cidade, tema que perpassa todo o livro. Nasce aí, talvez, o mais importante texto da coletânea: “A Saga do Monstro Souza”, sobre a obra de Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos.

Nesta análise, consolida algo que me parece fundamental em Guerrilhas, um desejo de recontar a história numa busca obsessiva pela cidade real, não a de azulejinhos e boizinhos de butique, embalagem ideal para os turistas de pacote e o desenvolvimento de campanhas publicitárias, que alimentam a insossa cultura do elogio. Um Não à “Ó minha cidade, deixa-me viver…”, de Bandeira Tribuzi ou à Ilha Magnética de César Nascimento, mas um viva a São Luís de “Eh, Ponta D’areia, há muito tempo que eu não te vejo”, de Chico Maranhão. Flávio acompanha a trajetória do personagem principal, um cachorro-quente serial killer, inserindo colagens e notícias de jornais retiradas do próprio livro de Bruno e Gabriel.

A discussão sobre identidade reaparece através da música. O assunto trazido à tona é o debate sobre o que vem a ser realmente música popular maranhense, o termo MPM, ou a invenção dele. O texto é apenas a ponta de iceberg de um debate complexo e extenso. O autor sabe que esta “é uma questão complicada, que não comporta respostas fáceis”. Talvez tenha esquecido de destacar no bolo de influências de alguns compositores da tal MPM o reggae, que divide com o bumba-boi, o prato preferido desses artistas, de 1978 a 1998. Afinal, aquilo que se fez com o boi, tirando-o do terreiro para dentro dos estúdios (leia-se Papete e compositores do Bandeira de Aço), aconteceu também com o reggae, retirado dos salões para o sucesso das rádios (leia-se Beto Pereira, Mano Borges, César Nascimento, etc).

Da música para o cinema. Dos três artigos destaco “Marginal Sim, e por que não? Babaloo, Babilônia, Brasil”. Defesa enfática do cinema marginal, produzido no Brasil nos primeiros anos da década de 70, enaltecendo a postura dessa geração, que continuou com a câmera livre do cinema novo, mas sem as amarras deste: “de certa forma radicalizavam o mergulho no subdesenvolvimento preconizado anos antes por Gláuber Rocha, faziam a escancaração da barbárie sem a carapaça política e o sentido de missão”.

Os textos sobre cinema mostram uma opção clara pela radicalidade, com exceção da análise que faz sobre a filmografia do maranhense Frederico Machado, em que é mais ponderado. No olhar sobre “Nietzsche em Turim”, de Júlio Bressane, acompanha os passos-imagens do filósofo alemão enquanto a loucura toma sua alma. Um texto que vê o nascimento da loucura de um dos pensadores mais radicais do ocidente.

De Nietzsche para Lacan, Freud e companhia: recalque, desejo, angústia e pulsão. Dois artigos, dois peixes fora d’água, dois peixes dentro do mar da existência, o doloroso mundo da psicanálise. Talvez Flávio pudesse deixá-los de fora, mas como evitar a vida fora da arte?

*Celso Borges é autor de oito livros de poesia, entre eles “Pelo Avesso”, “Persona Non Grata”, “NRA”, “Música” e “Belle Époque”.

&

Baixe agora!

2011 foi o ano em que conheci pessoalmente o desde antes e sempre admirado Flávio Reis. Entre as muitas lacunas em minha formação, uma delas certamente é não ter sido seu aluno. No entanto, tenho aprendido um bocado com seu convívio, nas reuniões do conselho editorial do jornal Vias de Fato, do qual “nosso mestre”, como o chamamos eu e Emílio Azevedo, é grande entusiasta.

Autor de Cenas Marginais (2005) e Grupos Políticos e Estrutura Oligárquica no Maranhão (2007), ambos editados às próprias custas s/a, o professor da UFMA agora bota na rua o bloco de Guerrilhas, “reunião de artigos escritos na última década, quase todos publicados na imprensa local, reeditados com pequenas correções”, cujo prefácio acima bem resume.

O livro “ainda não foi impresso, mas será” e o lançamento acontecerá em janeiro, detalhes o blogue dará em momento oportuno, antecipando que trata-se de uma publicação que envolve esforços do próprio Flávio Reis (às próprias custas s/a, ibidem), da editora Pitomba! e do jornal Vias de Fato, cujos selos comparecem à obra. Antes do lançamento os poucos mas fieis leitores deste blogue já podem baixar o pdf: Guerrilhas.

A Guerra dos Mundos em revista

Ou melhor: na revista.

Já está disponível para leitura e download (comum e/ou para ipad) a edição número 4 da revista Overmundo (novembro/dezembro/2011). Nela, entre outras matérias interessantes, assino uma acerca do lançamento de Outubro de 71 – Memórias fantásticas da Guerra dos Mundos, organizado pelo professoramigo Francisco Gonçalves, sobre o que também já escrevi acá en el blogue; em breve publico aqui as entrevistas que fiz com o time de pesquisadores de Chico, a dele, ao fim da matéria na revista.

Aos poucos mas fieis leitores deste blogue desejo uma fantástica leitura.

Mercadoença

Mais uma da máquina de moer gente que é o mundo cada vez mais capitalista (apesar das crises, cujos mais fodidos é que sempre pagam a conta) e cada vez mais selvagem: um interessante artigo de Martha Rosenberg traduzido por Daniela Frabasile revela os bastidores da indústria farmacêutica para fabricar e vender remédios. Ou, melhor dizendo: fabricar doenças e vender remédios.

Sou o tipo do cara que só consulta médicos em última instância e, não fosse a insistência de minha esposa, provavelmente sequer teria plano de saúde. Ignorância? Não sei. O ideal era termos um sistema de saúde público que funcionasse e garantisse atendimento rápido a qualquer um que dele precisasse. Como estamos bem longe disso, melhor garantir, apesar do SUS ser, do ponto de vista da garantia do direito à saúde, um dos sistemas mais avançados do mundo (não do ponto de vista técnico, obviamente).

O que quero dizer com isso? Duas coisas: que pago plano de saúde para não usar, por falta de necessidade ou de vontade: resolvo não frequentes dores de cabeça com dorflex ou neosaldina, compradas em qualquer farmácia ou boteco, embora não recomende aos poucos mas fieis leitores tentarem repetir isso em casa; e que acredito muito que a grande maioria dos problemas de saúde, digamos, mais simples, tem origem psicológica: você está doente, mas acredita que está mais doente do que realmente está e a tendência é piorar; como se parte da cura se devesse à crença de que você é mais forte que o mal que te aflige ou que você acha que te aflige. Placebo?

Sei que meto o bedelho bem fora da minha seara, mas fiquei perturbado com o artigo citado no início deste blá blá blá. Imaginemos uma conversa entre amigos: “o quê? Você não sofre disso? Que demodê!”. “Ah, mas eu sofro daquilo, que me causa isso, isso e isso”. Doença enquanto sinônimo de moda, sacam? Preocupante? Demais! Há gente para sucumbir à mídia farmacêutica, como há quem compre carros, roupas, comida e mesmo livros, discos e jornais apenas por que a propaganda lhes ordena.

“Como a indústria farmacêutica conseguiu que um terço da população dos Estados Unidos tome antidepressivos, estatinas, e estimulantes? Vendendo doenças como depressão, colesterol alto e refluxo gastrointestinal. Marketing impulsionado pela oferta, também conhecido como “existe um medicamento – precisa-se de uma doença e de pacientes”. Não apenas povoa a sociedade de hipocondríacos viciados em remédios, mas desvia os laboratórios do que deveria ser seu pepel essencial: desenvolver remédios reais para problemas médicos reais”, diz o primeiro parágrafo do artigo, cuja íntegra pode ser lida no Outras Palavras.

Cultura em 2011

Aos 45 do segundo tempo, às vésperas do fechamento da edição de dezembro do Vias de Fato (nº. 27, capa acima, ora nas melhores bancas da Ilha), inventei de fazer uma retrospectiva cultural. No último dia 12 encaminhei a uma pá de agentes culturais um e-mail com a seguinte pergunta: “Para o bem ou para o mal, no campo cultural, o que você destacaria numa retrospectiva particular do ano que se encerra?”.

Alguns responderam, outros não; outros ainda o fizeram depois do fechamento do jornal. O blogue traz abaixo um mix do que saiu na edição impressa do mensal com respostas que chegaram depois à caixa de e-mails do blogueiro (os depoimentos em itálico só aparecem acá).

RETROSPECTIVA CULTURAL

O jornal Vias de Fato traz aos leitores uma retrospectiva construída a muitas mãos – a coletividade uma característica da publicação. Veja o que diversos agentes culturais destacaram entre os acontecimentos do ano que se encerra

ZEMA RIBEIRO

Ano em que o mensal Vias de Fato completou dois de circulação ininterrupta – apesar de todas as dificuldades – e véspera do quarto centenário da capital maranhense – há controvérsias – 2011 foi marcado por diversos acontecimentos na área cultural.

Em vez de fazer uma retrospectiva certamente incompleta, resolvemos ouvir gente da área, que entende do assunto. Maranhenses ligados ao setor, residentes ou não aqui ou mesmo nem nascidos, mas com alguma ligação com o estado, destacaram o que de bom e ruim aconteceu no ano que se encerra.

“Para o bem ou para o mal, no campo cultural, o que você destacaria numa retrospectiva particular do ano que se encerra?” foi a pergunta feita pelo Vias de Fato. Leia abaixo as respostas.

O crítico Alberto Jr.: otimismo

“A primeira coisa que me vem à cabeça ao pensar em cultura neste ano de 2011 é a palavra ‘otimismo’, sobretudo em relação ao trabalho que muitos artistas vêm desenvolvendo de forma independente na busca de uma cena cultural cada vez mais urbana e ‘conectada’ com as experiências desenvolvidas em outros estados.

Um exemplo disso é o pessoal do gênero pop/rock, que, neste ano, conseguiu produzir shows e eventos fazendo circular pela ilha bandas alternativas com trabalho autoral e promovendo esse diálogo musical dentro dos circuitos nacionais de festivais de música independente. Cito aqui o Coletivo Velga, Garibaldo e o Resto do Mundo, Gallo Azzuu, Megazines, Nova Bossa, entre outros.

Beto Ehongue, Dicy Rocha, Tássia Campos, Milla Camões, Bruno Batista e Djalma Lúcio me fizeram bater muitas palmas em todos os projetos que estiveram envolvidos.

Algumas casas noturnas também me ofereceram bons encontros e boas experiências sonoras. Salve o Odeon Sabor e Arte que voltou com boas energias e a novidade regueira que é o Porto da Gabi. Experiências transcendentais.

No difícil campo das artes cênicas, a Pequena Companhia de Teatro, a Santa Ignorância Cia. de Teatro e o talento do dramaturgo Igor Nascimento não deixaram eu me acomodar na confortável resignação de fruir de espetáculos simples. Foram geniais!

Tivemos quatro festivais de cinema com programação de qualidade e algumas com caráter popular que me fizeram chorar com a vida e arte de grandes artistas e inclusive com alguns filmes que serviram bem mais do que ter pago qualquer valor para um analista ou psicólogo. Quando a ficção ajuda até a tua subjetividade.

Enfim, pelos exemplos que citei, percebe-se a pouca referência a instituições ou órgãos públicos como apoiadores desses projetos. O otimismo está aí: essa sensação de testemunhar experiências culturais contemporâneas que nos afastam de qualquer saudosismo ou nostalgia com outras décadas e colocam nossos sentidos para viver o presente, sem vícios, sem dependências e com a coragem de quem confia na autoestima de nossa produção cultural contemporânea.

E o próximo ano será bem melhor!”

Alberto Júnior, radialista e crítico musical

“O fato mais marcante foi a grande quantidade de shows em São Luís no início do ano. Foi uma verdadeira explosão de bons shows e shows inéditos ou quase inéditos em São Luís. Infelizmente o ano de 2011 não prosseguiu com a grande “leva” de shows, talvez por acanhamento de muitos produtores, mas os primeiros meses do ano foram realmente surpreendentes. Só para lembrar, tivemos apenas em abril, Pitty, Marcelo D2, Lobão, Richie Spice, Doro Pesch e outros. O primeiro semestre de 2011 também nos agraciou com shows de Jason Mraz, Adriana Calcanhotto, Marcelo Camelo, Blues Etílicos, Arnaldo Antunes e muitos outros. O segundo semestre também pode ser lembrado com shows do Teatro Mágico e os internacionais Blind Guardian e Flo Rida. Dezembro será fechado com chave de ouro com show de Paulinho Moska, em mais uma edição do Prêmio da Rádio Universidade. Com certeza esqueci de mencionar vários outros shows, mas todos esses shows provaram que São Luís pode sim receber grandes nomes da música brasileira e exportações da música pop”.

Andréa Barros, jornalista, ex-assessora de comunicação da Lima Dias Turismo, agência responsável pela vinda de muitos dos shows citados à capital maranhense

Ehongue lembra a dinheirama despejada no carnaval carioca em detrimento dos artistas que produzem no Maranhão

“Queria tanto estar agora escrevendo algo de bom sobre os rumos culturais de nossa cidade/estado em 2011, sério mesmo. Queria poder dizer que grandes eventos aconteceram e melhor ainda acreditar que o ano seguinte mostra uma luz clara no fim do túnel, mas não dá. Ficamos carentes de políticas culturais onde ainda prevalecem as decadentes e assistencialistas programações de São João e Carnaval.

Os milhões dedicados à escola de samba Beija Flor, a Praia Grande abandonada e outros milhões dispersados em uma árvore de natal são só algumas das aberrações que indicam que nossa terra anda completamente na contramão das necessidades. Isso tudo merece um DELETE.

Fora da esfera oficial aconteceram coisas boas, como por exemplo o Prêmio Nacional de Música recebido pela dupla Alê Muniz e Luciana Simões. Isso serve de inspiração para toda uma geração de músicos maranhenses que mesmo sem o apoio ou a lembrança dos órgãos que trabalham com cultura continuam teimando com talento e criatividade.

Em 2012 desejo a todos um ano mais sincero e promissor.”

“Beto Ehongue, compositor e produtor musical, homem à frente das bandas Negoka’apor e Canelas Preta

“Destacaríamos, em 2011, o Papoético como uma ideia que germinou e está criando raízes no panorama cultural da cidade. Apesar de ainda não ter a visibilidade necessária na mídia, está se expandindo entre as pessoas que pensam e se preocupam com a cultura em São Luís e no Maranhão. Como evento, São Luís, Outros 400 [temporada de nove shows apresentada pelo compositor Joãozinho Ribeiro e convidados no Novo Armazém] foi um acontecimento que reuniu a nata da música e da cultura maranhenses nos últimos meses do ano.

Também citaríamos o Café Literário, promovido no [Centro de Criatividade] Odylo Costa, filho, organizado pela professora Ceres Fernandes e, finalmente lembramos, para lamentar, o pouco caso que a Prefeitura de São Luís dedicou à Feira do Livro, um evento agregador e com grande potencial econômico, turístico e cultural, mas que está sendo continuamente esvaziado devido à miopia dos atuais administradores da cidade”.

Beto Nicácio, arte-educador, publicitário e quadrinhista, e Iramir Araújo, historiador, publicitário e quadrinhista, a Dupla Criação

Para Mesito, Feira do Livro foi decepcionante

“A decepcionante 5ª. Feira do Livro de São Luís (Felis). Para mim foi a maior decepção cultural nos últimos tempos”.

Bioque Mesito, poeta

Para o editor da Pitomba!: "De mal (...) quase tudo que tenha (...) alguma oficialidade"

“O Papoético é um lance massa! É o que vejo de mais interessante, por ser um lance coletivo e agregador, sem falar na pinga. De mal houve quase tudo que tenha as mãos de alguma oficialidade: tombamento do boi, feira do livro, essas coisas”.

Bruno Azevêdo, escritor, autor de Breganejo Blues e O Monstro Souza, editor da revista Pitomba! e, a partir deste número, colunista do Vias de Fato

“Na música eu destacaria a trajetória de sucesso de Cine Tropical, que deu o Prêmio da Música Brasileira ao Criolina. Na literatura, o lançamento de aliado involuntário, novo livro de poemas de Fernando Abreu”

Celso Borges, poeta e jornalista, parceiro da Alê Muniz e Luciana Simões em São Luís-Havana, faixa que levou o troféu de melhor música no Prêmio Universidade FM 2010

Prêmio do Criolina e livro de Fabreu foram os destaques para CB, aqui visto em uma de suas elogiadas performances

“Vamos logo para o bem.
Mesmo não sendo lá essas coisas, difícil não destacar no ano de 2011, no campo cultural e longe dos afagos oficiais, os lançamentos primorosos dos CDs de Bruno Batista e de Nosly, o amadurecimento  da dupla Criolina, a garra e a beleza das performances de Celso Borges, o Papoético do Paulão [o poeta e jornalista Paulo Melo Sousa], o Café Literário, o livro do Fernando Abreu, os Outros 400, projeto de Joãozinho [Ribeiro] etc . Saldo positivo.

De tristeza: a continuada  favelização da Praia Grande e a perda de D. Teté.”

Chico Saldanha, compositor, lançou Emaranhado em 2007 e, ao lado de Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, levou o troféu de melhor show do ano no prêmio Universidade FM 2011

Memória cinemetográfica

“Como a minha área de atuação é o cinema, acho que é importante destacar que em 2011 tivemos várias mostras e festivais. Isso é uma importante conquista para o público, que certamente teve acesso a produções destacadas no cenário nacional e no internacional.

Não podemos esquecer também esse maravilhoso trabalho do cineasta Murilo Santos de devolver às comunidades aquilo que a sua câmera registrou com o passar dos anos, tanto na forma de sessões como na de belos painéis fotográficos, além dos novos vídeos gerados nesses encontros.”

Francisco Colombo, cineasta e professor universitário, curador das mostras de Cinema Infantil e Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, realizadas em São Luís em 2011

Gildomar Marinho entra em estúdio em janeiro para gravar sucessor de Olho de Boi (2009) e Pedra de Cantaria (2010)

“O destaque é o próprio jornal, com sua linha editorial que se configura um contraponto à cultura vivenciada no Maranhão atualmente, eivada de vícios, paternalismos e extremamente violenta contra qualquer perspectiva de emancipação cultural. Vias vai às veias, às tripas, aos fatos. Um soco no estômago de uma elite autocrática. Um sopro de vida à verdadeira imprensa livre”.

Gildomar Marinho, compositor

Para Lena Machado, destaque foi o show de Cesar Teixeira

“O show Bandeira de Aço de Cesar Teixeira em julho, no Circo da Cidade. Ver o nosso querido poeta feliz e à vontade no palco, cantando clássicos, além de apresentar inéditas como Cubanita e Boi de Medonho foi maravilhoso. Tão bom que não canso de perguntar: e aí, Cesar, quando seremos presenteados com o segundo?!!”

Lena Machado, cantora

Descaso com artistas entre as lembranças de Milla Camões, que estreia em disco ano que vem

“O que me marcou de forma positiva foi o Lençóis Jazz e Blues Festival. Claro, houve a minha participação, mas muito mais pelo fato de São Luís ter entrado, definitivamente, na rota comercial deste tipo de música, no Brasil. Além de, por falar em rota, termos tido também, bons shows (apesar de, às vezes, a preços exorbitantes, por conta da falta de espaço adequado para as apresentações ou mesmo falta de compromisso dos contratantes), boas peças de teatro, enfim. Vi um suspiro de qualidade entrando nas veias da cidade e isso me deixa feliz. Dois fatos me deixam extremamente triste: a falta de responsabilidade e compromisso de donos de bares, casas noturnas e governantes com a música em geral (não pensem que calotes, prejuízos etc., acontecem só com uma fatia: inclua aí TODOS os estilos), e, embora redundante, a pergunta anual, que continua sem resposta: “Até quando?”; e a perda de figuras importantes de nossa cultura, a exemplo de Dona Teté. Seu cacuriá continuará vivo, por que existem pessoas dispostas a se comprometer com seu legado. Mas quantos mestres morreram, esquecidos em interiores deste Estado, quantas culturas, quantas danças estão entrando em extinção, por não haver interessados em repassar ao próximo seu conhecimento? Aulas de cultura popular, de arte em geral, nas escolas; a aprovação e inclusão definitivamente dessa Lei [que torna obrigatório o ensino de música nas escolas], seria de grande valia. E que 2012 nos traga felicidade, poesia, música e arte ao cubo!”

Milla Camões, cantora

Falecimentos de Carlos de Lima e Dona Teté entre os maus momentos lembrados por Moema

“Tivemos bons e maus momentos, alegres e tristes. Com certeza a morte de D. Teté e a do Sr. Carlos Lima foram nossas grandes perdas. Alegres foram os outros momentos, incluindo (para quem gosta): o carnaval, as festas juninas, as feiras, principalmente a de livros e a de artigos de vários paises. O lançamento do livro de Aymoré Alvim, meu irmão, foi um dos melhores momentos da nossa Academia. Lamentáveis os fatos que envolveram o Prof. Saraiva [acusado de racismo por estudantes da UFMA], manchando uma reputação construida com muito sacrifício, ao longo de muitos anos”

Moema de Castro Alvim, sebista, proprietária do Papiros do Egito

Papoético de Paulão entre os mais lembrados na retrospectiva

“Acompanhei pouco as agitações culturais este ano. Só estive mesmo ligado no Papoético, mas, acho que a revista Pitomba! fez a diferença. Fazer literatura, no Maranhão, hoje em dia, é ato de heroísmo e publicar é altruísmo puro. A Pitomba! deu uma importante contribuição, aliando agitação literária com um material de qualidade, gerando, inclusive, polêmica, o que serviu para oxigenar o cenário da cultura local”.

Paulo Melo Sousa, jornalista e poeta, coordenador do Papoético, tertúlia semanal realizada no Chico Discos (Rua 13 de Maio, Centro)

“Eu destacaria o filme A alegria, de Felipe Bragança e Marina Meliande, bem como a Trilogia Coração no Fogo, da qual o filme faz parte, pelas razões que já expus aqui. É um cinema que produz, com suas imagens oxigenadas, outras maneiras de ver. Munição pesada para a imaginação, o sonho e a coragem”.

Reuben da Cunha Rocha, jornalista e poeta

Ricarte Almeida Santos lembra bons momentos, apesar da ausência de política cultural, objeto de seu estudo no mestrado em Cultura e Sociedade (UFMA)

“Para o bem: o projeto Outros 400 [temporada capitaneada pelo compositor Joãozinho Ribeiro, no Novo Armazém]; o show Rosa Secular II [com Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho e convidados, Bar Daquele Jeito, 10/12]; o lançamento do cd Eu não sei sofrer em inglês, o segundo de Bruno Batista;  o show Bandeira de Aço, de Cesar Teixeira [Circo da Cidade, junho]; a Mostra de Cinema Infantil [Cine Praia Grande, 12 e 13/10]; o Festival Guarnicê de Cinema; as várias rodas de choro em vários locais da Ilha (de shoppings a botequins); o lançamento do cd A Canção de Cartola na voz de Léo Spirro. Para o mal: nem um passo dado no sentido de uma política cultural para o Maranhão; o governo de Roseana Sarney financiando o carnaval da Beija Flor carioca; a morte de Dona Teté; a cultura de eventos que ainda prevalece; e o abandono da Praia Grande”.

Ricarte Almeida Santos, sociólogo e radialista, apresentador do dominical Chorinhos & Chorões, às 9h, na Rádio Universidade FM (106,9MHz)

Urias critica parte da classe artística

“São Luís, 400.000 lamentos. Um povo é o reflexo de seu governo ou o governo é reflexo do seu povo? Estamos no ápice da mediocridade no nosso fazer cultural (talvez com exceção para as “brincadeiras” populares). Uma secretaria medíocre, cercada de nós, artistas ainda mais medíocres, que sempre pensamos que nosso trabalho é a maravilha. A miséria que vem nos cercando, sem dúvida, vai sendo refletida na qualidade de nossos produtinhos “inventados” e não criados com um debruçar sobre si mesmo para por em prática um processo que venha alterar e complementar a consciência de quem somos nós. Ouvi outro dia de um amigo “artista”: “Ah!, esse negócio de processo (!!!!), de treino e ensaio pesado me enche o saco. Agora tudo é processo! Eu quero mais é fazer!”. Acho que todos nós realmente temos o direito de fazer o que nos dá na telha e nos desejos, mas na minha liberdade de pensar, penso também que esse papo é de “artista” que não tem que batalhar para viver da arte que faz e tem casa, comida e roupa lavada, além de não dar a mínima pro seu crescimento pessoal, o que por si só justifica a busca de um processo de trabalho..”

Urias Oliveira, ator premiado internacionalmente, botando o dedo na ferida

Wilson Marques é outro que destaca o cinema em 2011

“Destaco o primeiro Festival Internacional de Cinema, da Lume, evento de alto nível que infelizmente foi pouquíssimo prestigiado pelo público de São Luís”.

Wilson Marques, escritor, lançou em 2011 A Lenda do Rei Sebastião e o Touro Encantado em Cordel

ZéMaria Medeiros destaca evento próprio e descaso com artistas pelo poder público

“Os 9,7 anos de A Vida é uma Festa, os lançamentos dos cds Onde tá o coro, de ZéMaria Medeiros & A Casca de Banana, e Arriba Saia, de Omar Cutrim, os falecimentos de Mundica e Dona Teté, os atrasos entre seis meses e um ano para pagamento de cachês de artistas, um absurdo!, o carnaval 400 anos da Beija Flor, ridículo!, o desprezo da produção musical do Maranhão pelos maranhenses, em valorização do axé, breganejo, pornoforró e tchans!”

ZéMaria Medeiros, poeta e músico, comanda há mais de nove anos o happening A Vida é uma Festa, que acontece semanalmente às quintas-feiras na Praia Grande

Rosas, Tetés e Joanas

JOÃOZINHO RIBEIRO*

Encantamento de D. Teté, premiação do Rosa Secular como melhor show do ano, posse de Joana Bittencourt no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão… qual assunto tomar como tema desta coluna? A tarefa não parece das mais simples, porém não pode ser excludente, afinal de contas existe uma relação de causa e efeito recíprocos em todos eles, que não nos permite optar deliberadamente por um só, excetuando os demais.

D. Teté virou azulejo na madrugada do último sábado, após uma vida inteira de encantamentos e magias, dedicada ao reforço e valorização das nossas ancestralidades, deixando para todos um legado imenso de cantorias e atitudes que servirão de exemplo para as presentes e futuras gerações. Como mulher, negra, mãe, avó, artista, companheira e pessoa humana, nem física ou jurídica, da maior dignidade.

Da simplicidade de mestra da cultura popular do Maranhão a postura de sacerdotisa africana, quando puxava as ladainhas no Laborarte ou em qualquer outro espaço que exigisse a sua altiva intervenção. Ultimamente, em suas raras aparições públicas, sentada num troninho, armado exclusivamente para a altura da sua majestosa presença, que tanto encantou o mundo, extrapolando as fronteiras do país, sob os auspícios e incentivo do guerrilheiro Nélson Brito.

De sua criativa cantoria ficarão para sempre em minha memória uns versos cantados pelo seu Cacuriá, que parecem ter sido feitos sob encomenda para Amália, minha mãe inesquecível, cujo apelido carinhoso de infância era Mariquinha:

“Mariquinha morreu ontem,
ontem mesmo se enterrou
na cova de Mariquinha
nasceu um pé de fulô”.

Almerice era o seu nome de batismo, que muitos poucos conheciam. Teté, este sim, ganhou o mundo e penetrou os terrenos das nossas imaginações através das danças sensuais do Cacuriá e das inúmeras e insinuantes letras e melodias, que até hoje nos incitam e excitam quando são executadas. Uma delas mereceu o coro das vozes minha, de Josias Sobrinho, Chico Saldanha e de todos os presentes na última edição do show Rosa Secular II, realizada no dia 10/12, no Bar Daquele Jeito, com a plateia de pé, cantando comovida em uníssono:

“Lera chorou, Lera chorou
eu te disse, Lera,
vão te tomar teu amor”.

De Teté para Noel: deu a Rosa Secular na cabeça, como costumam dizer os apontadores do jogo do bicho. Só que a coisa não foi obra de nenhum “palpite infeliz” de alguma pessoa amiga ou das pessoas que detesto, conforme atestam os versos do poeta da vila; porém, o reconhecimento de mais de trezentos jurados que resolveram agraciar o Rosa Secular com o prêmio Universidade FM 2011, na categoria “Melhor Show do Ano”.

Da esquerda para a direita: Joãozinho Ribeiro, Chico Saldanha, Cesar Teixeira e Josias Sobrinho, protagonistas do melhor show do ano para o prêmio Universidade FM 2011

Um justo presente natalino para uma produção eminentemente coletiva, realizada em janeiro de 2011 no Bar Daquele Jeito, encharcada das humanidades e emoções dos compositores Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho; dos convidados especialíssimos, Léo Spirro, Célia Maria, Lena Machado e Lenita Pinheiro; dos talentos criativos dos artistas plásticos, Lena Santos e Ton Bezerra; do acompanhamento dos músicos maravilhosos: Arlindo Carvalho, Vandico, Domingos Santos, João Soeiro, João Neto e Juca do Cavaco; do auxílio luxuoso da Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e de todos os seus integrantes; da cumplicidade solidária de Zema Ribeiro e Marla Silveira.

Enfim, de todos apoiadores, poucos mas sinceros, e, principalmente, do público que lotou a casa e mostrou que ainda há espaço na cidade para eventos musicais que possam dar vez e voz para as pessoas expressarem seu “direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios (…)”, como está destacado no artigo XXVII da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Foi respeitando este direito de participação, que o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão abriu as suas portas na noite do 15 de dezembro último para receber, em seu respeitável quadro de sócios, uma das figuras mais queridas e solidárias, representante legítima do engenho e arte da cultura maranhense, agora confreira – Joana Bittencourt.

Com justiça e mérito intelectual, nossa “mãe” e “irmãzinha” do coração, poeta, escritora, compositora e diretora teatral – Joana Bittencourt -, que transformou sua própria residência num Ponto de Cultura para abrigar a Biblioteca Dinâmica Mário Meirelles, passou a ocupar a cadeira nº. 36 do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, patroneada por Jerônimo Viveiros. Motivo de orgulho e glória para todos nós que a guardamos no lado esquerdo do peito.

Com esta última coluna do ano, agradeço a paciência e desejo a todos os leitores, do fundo deste combalido coração de poeta, um FELIZ NATAL!

*Publicado no Jornal Pequeno do último 19 de dezembro, data em que o blogueiro completou 30 anos de idade.

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Grande notícia!: o show Rosa Secular terá bis dia 14 de janeiro de 2012, no Bar Daquele Jeito (Vinhais), às 22h. Mais detalhes por aqui em breve.

Evoé, Évora!

Num dezembro que já levou Dona Teté, Joãosinho Trinta e Sérgio Britto, subiu ontem (17), aos 70, Cesária Évora, que dispensa chinelos para pisar no céu.

“Seja quente ou seja frio, se for morno te vomito”. O dito popular adaptando o apocalipse biblíco certamente não se referia à morna, ritmo cabo-verdiano popularizado mundo afora pela “diva de pés descalços”. Cabo Verde fica mais pobre, o mundo fica mais feio sem sua beleza.

Saudade!

Discurso de Cesar Teixeira

[Por ocasião da entrega do Prêmio José Augusto Mochel, honraria concedida anualmente pelo Comitê Municipal do Partido Comunista do Brasil de São Luís a personalidades e instituições de destacada atuação na luta popular e democrática e na defesa dos direitos humanos. A solenidade aconteceu na noite de ontem (16), no Auditório Fernando Falcão, da Assembleia Legislativa]
Ladeado por Márcio Jerry, Joãozinho Ribeiro e sua filha Júlia Andresa, Cesar Teixeira é agraciado com Prêmio José Augusto Mochel, ontem

Caríssimos representantes do Comitê Municipal do PCdoB de São Luís e da Fundação Maurício Grabois, Exmo. Senhor deputado estadual Rubens Pereira Júnior. Quero a princípio agradecer pela indicação do meu nome ao Prêmio José Augusto Mochel de 2011. Na verdade é ele, o líder comunista falecido em março de 1988 – aqui representado pela sua esposa Elba Gomide Mochel – o legítimo homenageado, desde a instituição do Prêmio em 2007.

Não sei se mereço a premiação. Conheço pessoas de maior importância que eu no cenário dos direitos humanos no Maranhão, contudo ainda invisíveis, talvez porque sejam feitos de alma, não assinam ponto e não cumprem expedientes. Estão sempre disponíveis e sua luta é permanente. Mas não poderia deixar de participar desta cerimônia, nem recusar o convite de um partido que fez e faz história em favor do socialismo neste País de tanta injustiça social e tanta corrupção.

Muitas das lutas do PCdoB foram marcadas pela dor das perdas, mas significaram um avanço para a construção de uma ética política negada ontem pelo regime militar, e hoje pelas oligarquias que tomaram conta do Brasil. Mas o que os inimigos da liberdade não sabiam, é que com o sangue derramado por aqueles que tombaram também se fabricam tijolos, com os quais vão se erguendo os novos pilares da cidadania.

"No Maranhão estão aí milhares de camponeses banidos de suas terras, trabalhadores escravizados por fazendeiros sanguinários, quilombolas e índios sendo massacrados por grileiros" (Charge originalmente publicada no jornal Vias de Fato nº. 9, junho de 2010)

A democracia no Brasil ainda não mostrou sua verdadeira cara. Continua sendo uma máscara para a miséria do povo. No Maranhão estão aí milhares de camponeses banidos de suas terras, trabalhadores escravizados por fazendeiros sanguinários, quilombolas e índios sendo massacrados por grileiros. A natureza aos poucos vai sendo devorada pela ganância das empresas do lucro fácil e seus arautos.

Mas não vou aqui rezar missa para vigário. Todos aqui conhecem bem a realidade do nosso Estado e sabem quem são os culpados. Seria redundância citar a família Sarney. Por isso, não só entidades civis, movimentos sociais, igreja, sindicatos, devem estar atentos. Os ocupantes dos palácios, do congresso, das câmaras e das assembleias legislativas são igualmente responsáveis pela defesa dos direitos humanos e da constituição brasileira. A história certamente rejeitará os omissos e os corruptos.

Sem mais, me despeço, desejando a todos muita sorte no ano que se aproxima, e que não se deixem enganar pelo Halloween dos 400 anos de São Luís.

Quero finalmente agradecer aos anfitriões Márcio Jerry e Elba Mochel, dos quais recebi atenção integral, e de modo especial à minha mãe, Mundica Teixeira, já falecida, a minha companheira Irinete e a minha filha Júlia Andresa pelo apoio e carinho com que fui e tenho sido premiado todos os dias, na tristeza e na alegria. Muito obrigado, e vamos em frente!

Feliz Pitomba! nova!

Bobos da corte maranhense refestelam-se no carnaval carioca: o povo paga a conta

Ontem encaminhei ao Vias de Fato a página de cultura da edição deste mês, que chegará às bancas junto com o terceiro número da revista Pitomba!: o lançamento desta está marcado para esta sexta (16), às 19h, no Bar do Porto, aberto ao público (a revista custa R$ 5,00).

O que fiz para o jornal “que não foge da raia”: uma retrospectiva cultural. Diversas personalidades da cultura do Maranhão responderam à pergunta “para o bem ou para o mal, no campo cultural, o que você destacaria numa retrospectiva particular do ano que se encerra?”

O resultado você poderá conferir na edição impressa do Vias de Fato (aqueles que foram questionados por e-mail e responderam após o fechamento da edição terão suas respostas publicadas cá no blogue, junto das dos que responderam a tempo) e talvez você estranhe eu tanto falar do jornal quando o post deseja outra coisa.

O lance é o seguinte: entre as boas lembranças de alguns agentes culturais está o nascimento, a consolidação da revista Pitomba! Houve mesmo quem lembrasse da polêmica, de que tomou parte este blogue, envolvendo a publicação e o leitor-livreiro José Lorêdo, cujo texto que remonta à inquisição, acabou indo parar nas páginas do número 3 da de-vez-em-quandal editada por Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha. Dúvida que não quer calar: venderá a livraria Resistência Cultural este número da Pitomba!?

Abre este post poster encartado no caroço da revista, publicado com exclusividade neste blogue, retratando personalidades como a cantora Alcione, o secretário de saúde Ricardo Murad, o de cultura Luiz Bulcão, a governadora Roseana Sarney, o “sempre ridículo” Pergentino Holanda (cf. Flávio Reis) e outros “poderosos”, baba-ovos e quetais. Os maranhenses na festa carioca da Beija-Flor, paga com dinheiro dos que não serão convidados para esta festa podre. O derramamento de dinheiro público para bancar o carnaval alheio, de samba-enredo fruto de ensandecimento coletivo, foi outro fato lembrado na retrospectiva cultural do Vias de Fato, “para o mal”.

Apesar da turma ilustrada por Joka, 2011 fecha com saldo positivo, as sobrevivências de Pitomba! e Vias de Fato, sem o apoio de quaisquer verbas governamentais, provas incontestes disso, exceto, é claro, em se tratando das contas bancárias dos editores das publicações.

Abaixo, detalhes sobre o lançamento do novo número da Pitomba! e os nomes de quem está nesta edição.

Panorama plástico-poético em exposição na Galeria Hum

13 poetas somam-se a 13 artistas plásticos, ou vice-versa: a poesia atravessando as artes plásticas, ou vice-versa. Um panorama dos últimos 30 anos da produção poética e plástica do Maranhão. Para o poeta Celso Borges, “a ordem é e será a de expandir a língua, alimentar trocas, exercitar o atrito”, conforme afirma no release que recebi por e-mail. Ele, ao lado da marchand Ana Luiza Nascimento, curador da exposição TrezeAtravésTreze, cuja abertura se dá hoje, às 19h, na Galeria Hum (São Francisco), ficando em cartaz até o próximo 31 de janeiro.

Lista completa de poetas e artistas plásticos e maiores informações aqui.

Maré Memória

MURILO SANTOS
ESPECIAL PARA O BLOGUE

Já me perguntaram se essa foto é de minha autoria. Acho que sim. Coordenei o Departamento de Cinema e Fotografia do Laboratório de Expressões Artísticas (Laborarte), desde a sua fundação até meados de 1975. Antes disso, fiz parte do grupo que deu origem ao Laborarte, o Tefema, Teatro de Férias do Maranhão, fundado por Tácito Borralho em 1971. Desde então passei a fotografar e fazer iluminação de espetáculos. No Laborarte fiz fotos durante nossas pesquisas de campo e de espetáculos. A iluminação das peças também ficava a cargo do Departamento de Fotografia e Cinema. Lembro de ter feito uma foto semelhante a essa, desse mesmo ângulo. Lembro de ter aproveitado a placa de “proibido fumar” do Teatro Arthur Azevedo, enquadrando somente a palavra “proibido”, para sublinhar o tom de protesto do espetáculo e das músicas de Cesar Teixeira e Josias Sobrinho. Coisas da época. Se de fato a foto é de minha autoria, ela certamente foi feita durante um ensaio no Arthur Azevedo, momento em que eu aproveitava para sair da cabine de iluminação e fazer fotos para registro interno e divulgação dos espetáculos.

Com a adaptação da obra de José Chagas, Maré Memória, o Laborarte concretiza o sonho de integrar as diferentes linguagens desenvolvidas pelos chamados departamentos: Cênicas; Dança; Música; Fotografia e Cinema; Artes Plásticas e Artesanato; Propaganda; Imprensa.

O mastro que se vê na foto representa uma festa de São Benedito. Além das músicas compostas especialmente para o espetáculo, era cantado o tradicional bendito de São Benedito. Lembro que nesse momento os atores aceleravam progressivamente o cântico e o andamento de uma procissão em torno do mastro, até tornar-se uma correria. Geniais coisas do Tácito!

Para esse espetáculo, realizei dois filmes curtos em Super-8 filmados nas palafitas do bairro da Liberdade. Um documentário e outro que poderíamos chamar de experimental. A exemplo das músicas que eram cantadas e tocadas pelos músicos protagonistas da foto, assumindo personagens na cena, como forma de integrar também, o cinema ao espetáculo teatral, os filmes eram projetados num lençol estendido num momento determinado em um varal dessa palafita cenográfica que aparece na imagem. A ideia era fazer com que as imagens externas e reais compusessem a encenação no palco. Algo inédito para aquela época. Portanto, é em 1974, quando experimentamos de fato um laboratório de expressões artísticas integradas com Maré Memória é que se inicia o ciclo do Super-8 no Maranhão. Um início que tem na projeção desses filmes talvez as primeiras e únicas exibições para um público pagante

O curta experimental, se assim podemos classificá-lo, durava menos de três minutos. Neste filme, as imagens, quase sempre em closes, associavam estacas de palafitas aos buracos de caranguejos na lama, banhados pelo leve vai e vem das ondas da maré. O filme era projetado no instante em que o casal protagonista do espetáculo entrava em casa e se recolhia às suas intimidades. O público da peça pode ver o que podemos considerar talvez o único filme erótico do ciclo Super 8.

Guardo esta foto que registra as filmagens dos curtas para o espetáculo Maré Memória. No cenário de mangue e lama, a câmera Super-8 (uma Canon 1014 recém doada ao Laborarte) acha-se protegida por um saco plástico.

De pé no mangue (e lama) filmando para Maré Memória, o cineasta Murilo Santos fotografado por um palafitado

Obituário: Dona Teté

Quando chegou ao céu, Dona Teté tirou onda. Puxou a caixa a tira colo, pegou as baquetas e saudou São Pedro e os demais: “Boa noite, minha gente/ foi agora que eu cheguei/ fui chegando, fui cantando/ se é do seu gosto, eu não sei”. O porteiro da morada do altíssimo aprovou e logo um monte de velhinhos de barbas brancas e anjos imberbes caíram na dança: o primeiro Papa da Igreja Católica já era um velho conhecido de Almeirice da Silva Santos, que cá na terra, tanto já o havia saudado em ladainhas e nos festejos do divino espírito santo e nos juninos, a que se junta a Antonio, João e Marçal no Maranhão.

Carregava o apelido de Teté desde criança: o padre que a batizou achava o nome Almeirice muito grande para uma menina tão pequena. O apelido virou nome artístico pelas mãos de Lauro, amo do boi homônimo, o inventor da dança que ela não só ajudou a popularizar como era a maior representante.

Dona Teté faleceu na madrugada de hoje, aos 87 anos, após cerca de um mês de internação na UTI do Hospital Carlos Macieira, em decorrência de um acidente vascular cerebral. Não era o primeiro. No período junino deste ano vi aquela amável senhora pela última vez. Já parecia ir aos arraiais apenas para garantir a autenticidade de seu grupo: sem Teté não se tratava do Cacuriá de Dona Teté. Ela já não cantava nem dizia suas tiradas bem humoradas e cheias de duplo sentido. Na ocasião troquei algumas palavras com uma mulher que lhe acompanhava, não sei se filha ou alguém do grupo Laborarte. Eu desejava entrevistá-la. A mulher alegou que sua memória já estava bastante prejudicada e que sua fala, de tão enrolada, era de difícil compreensão até mesmo para os que conviviam com ela diariamente.

O corpo de Dona Teté – a alma certamente já está botando um grupo para dançar no céu – está sendo velado em sua residência, na Rua dos Guaranis, nº. 34, Barés, João Paulo, próximo à sede do Centro de Cultura Negra do Maranhão. O sepultamento acontecerá às 16h no cemitério da Pax União, em Paço do Lumiar.

“Mariquinha morreu ontem/ ontem mesmo se enterrou/ na cova de Mariquinha/ nasceu um pé de fulô”, cantava em um dos grandes sucessos de seu grupo. Vários pés de fulô certamente brotarão para saudar Teté, coloridos como as vestes dos dançarinos e dançarinas de cacuriá.

Maré Memória

Josias Sobrinho e Cesar Teixeira faziam uma dupla de violeiros no espetáculo teatral homônimo, baseado no livro-poema Marémemória (1973), de José Chagas. Dirigida por Tácito Borralho, a peça foi encenada pelo Laborarte durante dez dias consecutivos no Teatro Arthur Azevedo, em maio de 1974.

Fisguei a foto acima na maré do acervo laborarteano, em pesquisa acerca da citada adaptação.

O Labô completa 40 anos ano que vem. Revirar as boas marés dessas memórias é ótima pedida. Um show celebrativo reunindo seus três músicos fundadores, os dois acima mais Sérgio Habibe, seria sensacional, não?