Bandeira de aço, eterna

Disco antológico é divisor de águas na produção musical maranhense. Faixa-título, de Cesar Teixeira, batiza show do compositor em julho. Breve memória sentimental embalada pelo trabalho, fruto da pesquisa incansável de Marcus Pereira

ZEMA RIBEIRO

Papete usa um boné xadrez e óculos de aro fino. E sorri. E não é para menos. O músico bacabalense é um homem de sorte. Estava na hora e lugar certos. A estampa é ladeada por um texto, de que colho trecho.

“E logo entrei em contato com um grupo de compositores maranhenses que nos convidou para uma reunião boêmia na Madre Deus, trincheira maior dos resistentes em favor da cultura popular regional, dos tambores, do bumba meu boi. E, perplexos, assistimos ao desfile de composições surpreendentes de Carlos Cesar [Teixeira], Josias [Sobrinho], Ronaldo [Mota] e Sérgio Habibe. Muito antes, a partir de 1968, Chico Maranhão, cujo apelido não deixa dúvidas, vinha me mostrando as coisas de sua terra. Nosso encantamento foi tal que as músicas se instalaram dentro de nós e nosso grupo passou a ter uma senha que era cantarolar ou assobiar a fantástica música de São Luís.”

O trecho é um parágrafo inteiro do texto sem título, assinado pelo pesquisador e produtor Marcus Pereira, na contracapa do vinil Bandeira de Aço, lançado por ele em 1978. Na capa, além do título do disco e de um simpático boi de lata, o nome de seu intérprete, Papete, encimando a expressão “Compositores do Maranhão”, que se referia aos quatro que gravou, os citados autores das composições surpreendentes. Àquela altura, Chico Maranhão já havia lançado pelo menos três discos pela gravadora: um disco brinde com músicas do maranhense de um lado e de outro Renato Teixeira (1969) – disco este que transformou definitivamente o escritório de publicidade de Pereira em gravadora –, Maranhão (1974) e Lances de Agora (1978), gravado em quatro dias na sacristia da secular Igreja do Desterro, no bairro homônimo do centro histórico da capital do Maranhão.

Outra contracapa de texto antológico, aliás. Lá, Pereira cravaria a sentença, espécie de doce praga de que não conseguimos nos livrar: “Ninguém nasce e vive impunemente em São Luís do Maranhão”.

Mas divago.

Bandeira de Aço era o segundo disco de Papete na Marcus Pereira. Antes, ele já havia lançado Papete, berimbau e percussão (1975), em que executa em sua maioria temas de domínio público, pontos de mina e tambores outros. No segundo, nove composições dos quatro mosqueteiros, três deles com passagens pelo Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão, o Laborarte, fundado em 1972 – a exceção é Ronaldo Mota (hoje o único que reside fora do estado) –, um repertório para ninguém botar defeito: no lado a, Boi da Lua (Cesar Teixeira), De Cajari pra Capital (Josias Sobrinho), Flor do Mal (Cesar Teixeira), Boi de Catirina (Ronaldo Mota) e Engenho de Flores (Josias Sobrinho); no lado b, Dente de Ouro (Josias Sobrinho), Eulália (Sérgio Habibe), Catirina (Josias Sobrinho) e a faixa-título (Cesar Teixeira).

Músicas até hoje, como preconizava o relato de Marcus Pereira, cantaroladas e assobiadas por qualquer maranhense – ou quem quer que as tenha ouvido ao menos uma vez. É ou não é Papete um artista de sorte? O talento não lhe nego. Era ou não era fácil tornar Bandeira de Aço, o disco, um sucesso? Nem tanto: “aquele time de compositores praticamente definiu uma estética da música popular produzida no Maranhão”, afirma o sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos em dissertação que está produzindo para o Mestrado em Cultura e Sociedade (UFMA) – o trabalho do apresentador do Chorinhos e Chorões versa sobre as relações entre os sucessivos governos e a produção musical/fonográfica do Maranhão, a ser defendido ainda este ano.

O fato é que demorando mais ou menos, o repertório de Bandeira de Aço inteiro caiu nas bocas, mentes e corações do povo – o disco embalou minha infância e a vida inteira e o que dela ainda vem. Quem nunca ninou uma criança com um Boi da Lua? Ou quem nunca dançou ao som de qualquer daquelas músicas num arraial da vida?

Meu "Shopping Brazil", autografado pelo compositor
Meu "Shopping Brazil", autografado pelo compositor

Cesar Teixeira, Josias Sobrinho Ronaldo Mota e Sérgio Habibe ainda demorariam algum tempo a estrear no mercado fonográfico – digo, em disco, interpretando suas próprias composições. Uns mais, outros menos. O primeiro, que já compunha e vencia festivais desde entre o final da década de 1960 e início da de 70, já vencera salões de artes plásticas e participou da fundação do Laborarte, só viria a lançar Shopping Brazil – sua estreia em disco-solo, apesar de já ter sido gravado por um sem-número de intérpretes – em 2004.

Ali mostrou músicas inéditas e regravou músicas já conhecidas do público em interpretações alheias. Boi de zabumba, coco, choro, samba, xote, baião, hip-hop, ladainha. Tem de tudo. Entre as regravações, Bandeira de Aço. Quem não se lembra de versos clássicos como “Mamãe, eu tou com uma vontade louca/ de ver o dia sair pela boca/ de ver Maria cair da janela/ de ver maresia/ ai, maresia”?

Esgotado, Shopping Brazil ganhará reedição ainda em 2011. A verdade é que as demoras – para lançar um primeiro disco, para recolocá-lo nas prateleiras das quase inexistentes lojas ou para gravar um segundo – se justificam pela despreocupação do artista com questões que não sejam coletivas. Sua música e sua poesia – esta completamente inédita, fora um ou outro poema publicado aqui ou acolá em antologias – sempre estiveram a serviço de causas nobres, como seu jornalismo, sua militância por direitos humanos, indissociáveis os vários césares que lhe habitam. Quem, numa greve, nunca cantou os versos de Oração Latina? A música, vencedora do Festival Viva Maranhão de Música Popular, em 1985, é hoje um hino de trabalhadores e movimentos sociais. Sua vida e obra sempre foram bandeiras de aço, resistência, ideais, convicção e coerência.

Bandeira de Aço dá nome a show que Cesar Teixeira (foto) apresenta dia 30 de julho (sábado), às 21h, no Circo Cultural Nelson Brito (Circo da Cidade, Aterro do Bacanga, ao lado do Terminal de Integração da Praia Grande). A produção é de Ópera Night.

No espetáculo, uma espécie de “saideira das férias”, o repertório, completamente autoral, passeará por músicas mais ou menos conhecidas, incluindo aí dos clássicos que todo mundo sabe e cantará junto a inéditas. Os poderes públicos do Maranhão têm permitido à população conhecer apenas as faces carnavalesca e junina de diversos artistas. A exemplo de outros, Cesar Teixeira é daqueles que têm bem mais a mostrar.

Bandeira de Aço, o show, é uma oportunidade ímpar de ver e ouvir Cesar Teixeira em ação. De saber-lhe a força poética. De sentir a alma tocada por seus versos certeiros. De perceber que a cultura popular do Maranhão é bem mais que carnaval, São João e bumba-bois abençoados por madrinhas e padrinhos cuja credibilidade quase nos faz perder a fé num mundo melhor. Que a Bandeira de Aço tremule de alegria.

[Outro texto nosso no Vias de Fato de julho, ora nas bancas]

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

7 comentários em “Bandeira de aço, eterna”

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