Que venha o futebol de verdade!

Quem me acompanha deste ou de blogues anteriores, sabe que futebol não é lá minha praia. Devo ter jogado umas duas partidas na vida e vi o esporte pela tevê umas tantas vezes – até hoje vejo, embora com menos frequência, principalmente de 1998 para cá, quando a seleção brasileira vergonhosamente perdeu o campeonato mundial para a França, vocês lembram.

O fato é que em minha modestíssima opinião – de quem se mete onde não é chamado – o futebol virou um grande espetáculo publicitário, milionário. E só. E o jornalismo esportivo ao mesmo tempo fábrica e incineradora de ídolos, às vezes falsos. A máquina que move o futebol como um todo me incomoda, chego a ser a favor de teto salarial para os profissionais da bola. É um grande jogo onde poucos ganham milhões e muitos perdem sono, trabalho (a ressaca na manhã seguinte, os ônibus lotados para voltar do estádio para casa) e dinheiro (ingressos, camisas oficiais dos clubes), sustentando o circo todo – que eu quero é ver pegar fogo.

Não sou daqueles que torcem apenas na Copa do Mundo. Ou que torcem contra por ser o futebol o ópio do povo – sabemos que de fato é, como o são novelas e BBBs. Futebol, para mim, é poesia, como já disseram Paulo Leminski e Marcelo Montenegro. “Como querer que um gol tenha razão de ser, além da explosão de alegria da torcida?”, já indagou o primeiro; do segundo, basta ler qualquer texto seu sobre o assunto. Quem lembra do Canal 100 também entende(rá) essa relação – poesia e futebol jogando no mesmo time, basta ler Nelson Rodrigues ou Xico Sá.

Mas deixemos o blá blá blá de lado: quão patética a despedida de Ronaldo. Num Pacaembu lotado, pouco mais de 15 minutos ontem, contra a Romênia – o Brasil venceu por 1×0, com um gol de Fred, no primeiro tempo, antes da entrada do “fenômeno”, combinada para e acontecida aos 30 minutos do primeiro tempo. Como disse, futebol não é minha praia. Então permitam-me uma pergunta, talvez descontextualizada ou já respondida: por que Ronaldo não se despediu contra a Holanda, seleção mais forte que a Romênia, contra a qual o Brasil apenas empatou em 0x0, dias antes?

Galvão Bueno e cia., para maldição dos que, como eu, viram o jogo pela tevê aberta, emocionaram-se mais com o pouco mais de quarto de hora que Ronaldo passou em campo – e depois com sua abobalhada volta olímpica – que com o próprio gol da seleção brasileira.

Não me entendam mal, meus caros: é inegável a contribuição que Ronaldo Nazário de Lima deu ao futebol brasileiro, ao futebol mundial. É um dos maiores jogadores em todos os tempos, é o maior artilheiro da história das copas do mundo. Mas a festa de ontem era dispensável. Ele podia ter dormido sem essa – nós também. Ao vê-lo junto aos filhos num quadradinho com gramado e traves, um campinho de brinquedo, digamos – não ficou no banco de reservas – impossível não lembrar do saudoso Bussunda, que tanto e tão bem o imitou no Casseta & Planeta.

"Bussúndico", Ronaldo despediu-se "oficialmente" ontem dos gramados

Mas o pior já passou. Que venha o futebol de verdade, hoje à noite, com Coritiba e Vasco decidindo a Copa do Brasil. É quando uns dirão, definitivamente, que futebol não é a minha praia: vai, Vascão!

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

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