O Imparcial, 85 anos

[O jornal O Imparcial completou ontem, 1º., 85 anos. A edição comemorativa apresentou a seus leitores um novo projeto gráfico-editorial. Abaixo, íntegra de entrevista que publiquei por lá]

O LEGADO DOS 400 ANOS

São Luís terá grande festa para seus 400 anos, mas não só: erradicação do analfabetismo e combate à pobreza estão entre as metas do comitê organizador.

ZEMA RIBEIRO

Doutor em Inteligência Artificial pelo Inria (França, 1995), o tunisiano Sofiane Labidi, 46, está no Maranhão há 17 anos. Aqui já exerceu diversos cargos públicos. Entre outros, foi Pró-Reitor de Pesquisa da Universidade Virtual do Maranhão (Univima) no Governo Jackson Lago (2007-2009). Em 2008 recebeu da Assembleia Legislativa o título de Cidadão Maranhense, e do Governo do Estado sua maior honraria, a medalha do Mérito Timbira, pelos relevantes serviços prestados à ciência do Maranhão.

Desde o ano passado Labidi é Coordenador Executivo do Programa São Luís 400 anos, que cuidará das ações programadas para a efeméride da fundação francesa da capital maranhense.

O Decreto Municipal 40.282, de 11 de agosto de 2010, criou o Conselho Gestor do programa, presidido pelo prefeito João Castelo (PSDB). Ele subdivide-se em três comitês: o Executivo, formado por nove secretarias municipais (Planejamento, Governo, Comunicação, Cultura, Turismo, Patrimônio Histórico, Obras e Serviços Públicos, Urbanismo e Habitação, e Desporto e Lazer); o Estratégico Organizador, formado por representantes dos governos federal e estadual, da Câmara Municipal e Assembleia Legislativa, Associação Comercial do Maranhão, Fiema, Sebrae, CDL, ICE, AML, São Luís Convention & Visitors Bureau e universidades; e o Consultivo, espécie de ouvidoria em que pessoas e instituições podem apresentar sugestões.

O Conselho foi empossado em março passado e aguarda a indicação de um representante do Governo do Estado para iniciar um calendário ordinário de reuniões, com vistas a programar as festividades e obras com que São Luís apagará com a brisa de seu mar suas 400 velinhas.

Em entrevista a O Imparcial, Sofiane Labidi explicou o que é o programa, como e por quem é composto e o que está sendo planejado para a grande festa.


Foto: Blogue do Itevaldo

O IMPARCIAL – O que é o Programa São Luís 400 anos?
SOFIANE LABIDI – Tudo começou com um decreto assinado pelo Dr. Castelo em agosto do ano passado, criando o Conselho Gestor, constituído por três comitês: o Comitê Executivo, formado por secretarias do município que têm ligação com o quarto centenário de São Luís; o Comitê Estratégico Organizador, para empoderar a sociedade civil organizada; a Prefeitura não quer preparar sozinha este grande programa, o aniversário da cidade, então este comitê tem representantes do Governo Federal, do Governo Estadual, Sebrae, Fiema, da Associação Comercial, do ICE, o Instituto de Cidadania Empresarial, universidades, então, vários órgãos envolvidos, e o Comitê Consultivo, para que mais entidades participem do processo, por que não dá para colocar muita gente no Comitê Estratégico Organizador. Todos aqueles que têm interesse em participar, podem estar nesse Comitê Consultivo. Tudo forma o Conselho Gestor, que é presidido pelo próprio Castelo, e tem como presidente de honra Dona Gardênia [Castelo, esposa do prefeito]. Iniciamos os trabalhos preparando uma programação para o aniversário da cidade, que se inicia no aniversário deste ano, em setembro, e vai até 31 de dezembro de 2012.

Qual o critério de seleção das entidades da sociedade civil que compõem o Comitê Estratégico Organizador? A representatividade. Quando se fala em Fiema, Sebrae, ICE, Governo do Estado, Governo Federal, universidades, são membros que têm que estar presentes, são fundamentais nesse trabalho. Não dá para colocar todo mundo nesse comitê, por isso foi criado o consultivo, para aqueles que gostariam de participar, de dar sua opinião, ideias. É o que a gente quer: ideias inovadoras, preparando a cidade para seu quarto centenário.

No Comitê Consultivo as entidades não têm acento, ele é uma espécie de ouvidoria… Exatamente.

Entre o Comitê Executivo e o Comitê Estratégico Organizador, são quantas entidades, instituições e organizações envolvidas? No Executivo são nove secretarias municipais que têm uma ligação direta com o aniversário. No Estratégico Organizador são 12 entidades do estado, município, Fiema, Sebrae e outros.

Que solenidades estão previstas? Já há algo programado para este um ano e três meses? Inicialmente fizemos uma consulta às secretarias municipais, por que elas têm seus projetos, seus planejamentos para 2012. E aqueles projetos mais interessantes, mais impactantes, mais estruturantes, e que têm ligação com o aniversário da cidade, a gente chancelou e entraram na programação dos 400 anos, embora a chancela final seja do Comitê Estratégico Organizador, que vai se reunir em breve. Há uma programação que vai ser discutida; outros projetos vão ser colocados, alguns devem ser retirados, dependendo da evolução das reuniões e das opiniões do Comitê Estratégico Organizador. São muitos projetos. Estamos trabalhando em cinco eixos e estamos numa fase de integração desses eixos com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, criados pela ONU, mas há vários eventos culturais, artísticos, religiosos, históricos, esportivos. São cerca de 60 eventos previstos, não há nada fechado, nada definido, estamos construindo. Mas há coisas bem adiantadas. Temos mais de 60 projetos de várias naturezas. Posso dizer que os carros-chefes do que a gente colocou nessa programação são o combate ao analfabetismo, o combate à pobreza e uma campanha de cidadania.

Quais os cinco eixos que estão sendo trabalhados? De eventos, educação, ciência e tecnologia, marketing e promoção da cidade, isso é importante para o turismo, para a divulgação de São Luís fora do estado e do país, desenvolvimento e meio ambiente, e infraestrutura. São Luís precisa melhorar muito sua infraestrutura. Cada eixo tem vários projetos, que a gente chama de produtos.

A programação cultural certamente será um dos pontos altos das comemorações. Quem e o quê constarão nessas solenidades, em se tratando de pontos da cidade, artistas, manifestações culturais? Como se dará a seleção? Alguns eventos já vêm acontecendo e vão continuar acontecendo, mas com um diferencial. O carnaval, o São João, as festas natalinas vão ter um gosto de aniversário da cidade. A Fundação Municipal de Cultura está tentando que as escolas de samba enfoquem o tema São Luís 400 anos. Inclusive estamos em negociação com escolas de samba, tipo a Beija Flor, no caso do Rio de Janeiro, e São Paulo, para adentrarem o tema dos 400 anos de São Luís em seus carnavais, como forma de promover a cidade. Além desses projetos e ideias que se colocaram, teremos o lançamento de um edital que vai chamar para projetos de eventos culturais. Os artistas plásticos, os músicos, a área do teatro, entre outras, poderão acessar esse edital e os classificados receberão apoio financeiro para desenvolver seus projetos durante o ano de 2012.

Para além das festividades, que são uma coisa natural do período, o que o programa prevê, em se tratando de fomento, do ponto de vista de deixar um legado para a cidade? Não adianta fazer muita festa e no final nos perguntarmos: em quê a gente melhorou a cidade? O que deixamos para nossos filhos? O povo maranhense é festeiro, tem que ter festa, mas não pode ser apenas isso. Além do monumento dos 400 anos, quando lembramos São Paulo com o Ibirapuera, uma construção fantástica que hoje é uma referência, estamos pensando em algo para cá, um monumento que seja uma marca, que as pessoas possam subir, tirar fotos. Além do monumento estamos pensando em projetos estruturantes, que tenham um impacto na estrutura e na sociedade ludovicenses. Por isso pensamos em dois projetos: o combate ao analfabetismo e o combate à pobreza. Isso mexe com as pessoas. É inconcebível que em pleno século XXI ainda existam analfabetos. Numa capital como São Luís, patrimônio cultural da humanidade, nós temos mais de 50 mil analfabetos. Isso é absurdo! Existem vários programas de combate ao analfabetismo, de alfabetização, mas a gente precisa de um esforço arrojado, de uma força-tarefa. Fizemos um projeto, que está em fase de captação de recursos. É possível se acabar com o analfabetismo. Este será um dos melhores presentes para São Luís, no seu aniversário de quarto centenário: uma declaração da ONU, da Unesco, São Luís uma cidade, um território livre do analfabetismo. Temos cerca de 5% da população analfabeta. A Unesco considera território livre do analfabetismo até 4%. Precisamos baixar 1%, mas não queremos parar aí, queremos chegar à zero. O outro grande projeto é o combate à pobreza, como foi demonstrado, na experiência internacional, pelo professor Muhhamad Yunus, em Bangladesh, que ganhou o Nobel da Paz em 2006. Ele está sendo convidado a vir à São Luís. Sua vinda será um marco, a capital maranhense nunca recebeu um Nobel e esta não será uma vinda apenas para uma palestra, visitar os bairros, Itaqui-Bacanga, Cidade Operária, Cidade Olímpica. Estamos trabalhando na criação do chamado Banco do Povo, que é a experiência que deu certo em Bangladesh. Este professor tirou muita gente da pobreza. Graças a um fundo que ele criou, depositado em um banco, que já existe em toda a América do Sul, exceto no Brasil. A ideia é dar microcrédito às pessoas mais pobres. Às vezes o microcrédito permite a um cidadão, a uma família, ter sustentabilidade, manter seu próprio negócio, pequeno, mas que ele precisa para comprar matéria-prima. Lá começa com 200 dólares, a pessoa gasta, presta contas, paga juros pequenos, e vai até 5 mil dólares. As pessoas realmente saíram da pobreza. O que a gente precisa é de um programa dessa natureza. O bolsa-família é importante, mas tem que ser acoplado a um projeto de geração de renda e este é um projeto de geração de renda. Interessante observar que 97% dos clientes do Muhhamad Yunus são mulheres. Demonstrou-se que mulheres têm mais sensibilidade, respeitam mais o recurso, pensam na família, nos filhos, no homem. Em São Luís estamos fazendo um mapeamento de que tipo de atividades vão ser apoiadas, por que não é só dar recurso, mas todo apoio, acompanhamento, assessoria, formar agentes de crédito. Existem programas do Banco do Brasil, do Banco do Nordeste, Crediamigo, entre outros. A filosofia do Muhhamad Yunus é que mesmo que as pessoas tenham restrição, por exemplo, SPC, Serasa, que o Banco Central proíbe a concessão de crédito, para eles é que precisa do crédito, para que saíam da pobreza e paguem suas dívidas. O terceiro grande projeto que a gente precisa muito é uma campanha de cidadania. Fiz diversas visitas a instituições, universidades, e surgiram ideias interessantes. Não adianta preparar grandes festas, grandes eventos, se o povo não está preparado. A gente percebe isso. A gente precisa cuidar mais de nossa cidade, não sujar, pensar a questão da poluição sonora, que incomoda muita gente. É uma campanha de solidariedade: as pessoas estão cada vez menos solidárias. Precisamos aproximar as pessoas, conciliar o cidadão com sua cidade. Para esta campanha a gente precisa do apoio da mídia, do jornal O Imparcial, das tevês. É uma campanha de cidadania, focando principalmente na limpeza, mas também em outros aspectos. Eu acho que é fundamental nos prepararmos para os 400 anos.

Como está o diálogo com o governo do Estado? Todos estão envolvidos nesse projeto comum, o quarto centenário de São Luís. O Governo do Estado tem assento no Comitê Estratégico Organizador, receberam ofício. Estamos esperando apenas a indicação do representante pela governadora Roseana Sarney. Acredito que vá ser Luis Fernando [Chefe da Casa Civil] ou [o secretário de Cultura Luiz Henrique de Nazaré] Bulcão. Já já iniciaremos nosso calendário ordinário de reuniões mensais.

Quando será a primeira? Logo. Acreditamos que ainda este mês. Estamos esperando apenas a definição do nome do representante do Governo do Estado.

Essas duas frentes, a erradicação do analfabetismo e o combate à pobreza, são bastante grandiosas. Qual o volume e a origem dos recursos envolvidos no programa São Luís 400 anos, de agora, com a instalação do comitê, até dezembro de 2012? Estamos fazendo esse levantamento agora. São cerca de 130 projetos que estão sendo cadastrados em uma ferramenta de gerenciamento, por que é quase impossível se monitorar e acompanhar isso manualmente, recursos, prazos etc. Existem as secretarias que já têm recursos alocados. Um grande evento de ciência e tecnologia, a [reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência] SBPC vai acontecer em São Luís em 2012. Teremos cerca de 22 mil pessoas envolvidas. Existe um recurso assegurado pelo Governo Federal, com apoio da Prefeitura e da própria Universidade. A programação dos 400 anos não é apenas da Prefeitura, o Governo do Estado também se colocará para que tenhamos uma programação para todos os ludovicenses. Para a erradicação do analfabetismo e combate à pobreza precisaremos de cerca de 30 milhões de reais, que já estamos buscando captar. Já há sinais positivos de conseguir estes recursos.

São Luís já foi tida como Atenas brasileira. Como fica a produção literária no contexto desse programa? Já há alguma coisa prevista ou ainda vai ser discutido? Teremos muitos concursos para incentivar a produção cultural. Temos muitos artistas e nos últimos anos, infelizmente, o foco ficou apenas no carnaval e São João. Quando se fala em cultura, em São Luís, no Maranhão, a gente pensa muito em carnaval e São João. Claro que é muito bonito, importante, mas a questão de nossa cultura é bem mais rica que apenas estes dois períodos. A literatura maranhense é bastante conhecida e forte, a poesia, o teatro, as artes plásticas precisam de incentivo. Vários concursos serão lançados para incentivar a produção cultural com foco no São Luís 400 anos. Estamos até pensando em produzir livros como 400 olhares sobre São Luís, a história de São Luís através do tempo, então, estamos buscando incentivar, através desses concursos e editais que serão lançados, a produção cultural, enfocando a história de São Luís e sua riqueza cultural, artística, turística.

De Atenas, com o advento do reggae a cidade passou a ter também a alcunha de Jamaica brasileira. Como você reagiria aos que enxergam São Luís, hoje, como apenas brasileira? Eu não concordo com isso. Uma das belezas de São Luís é essa riqueza cultural que ela tem e outras cidades não. É algo encantador. É muito bonito o reggae, que tem raízes jamaicanas. Tem músicas de raízes africanas, indígenas, europeias. Essa diversidade cultural que São Luís tem faz sua beleza. Uma das coisas mais belas que a gente tem é essa miscigenação cultural, essa riqueza cultural.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

2 comentários em “O Imparcial, 85 anos”

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