Frederico Machado a lume

Frederico da Cruz Machado é um predestinado. Filho dos poetas Nauro Machado e Arleth Nogueira da Cruz, haveria de ser artista. Não é poeta – ao menos não o que conhecemos tradicionalmente, de escrever poesia. Tornou-se cineasta – premiadíssimo, dentro e fora do Brasil, com seus trabalhos exalando poesia – e empresário. Empresário das artes, diga-se. Bem sucedido e sediado em São Luís, por incrível que isso possa parecer.

Com 14 anos sua Backbeat (Rua Queóps, nº. 12, Edifício Executive Center, loja B/C, Renascença II) tem o maior acervo do Nordeste: cerca de 18 mil títulos, entre DVDs, CDs e Blu-Ray. Sua Lume Filmes, localizada no mesmo prédio que abriga a locadora, já lançou 128 títulos em 10 anos de existência. Raros, clássicos, lados-b, nacionais e estrangeiros, de diretores que vão de Akira Kurosawa a Rogério Sganzerla, entre muitos outros. A previsão para 2011 é que 48 novos títulos cheguem aos cinéfilos – a tiragem média de cada um é de 2.000 exemplares.

Quando esta 18ª. edição do Vias de Fato chegar às mãos de seus leitores, o Cine Praia Grande já estará exibindo Tetro, mais novo trabalho de Francis Ford Coppola (O poderoso chefão). Desde o dia 10, a única sala de cinema de arte da capital maranhense está, novamente, sob administração de Frederico Machado, via Lume Produções. Ele já havia coordenado o espaço entre 2000 e 2005, quando a sala registrou altos índices de frequência de público, seja nos festivais de cinema que realizou, seja em sessões ordinárias. Em 2009 ele voltou a gerir o cinema, que entre idas e vindas, sob administração terceirizada ou realizada pelo Governo do Estado, já abriu e fechou várias vezes, nos seus quase 20 anos de existência. O cinema, aliás, foi tema de apaixonado artigo do poeta e jornalista Eduardo Júlio no primeiro número deste jornal.

Entre os próximos passos de Frederico Machado está a realização do I Festival Internacional Lume de Cinema, que já tem mais de 700 filmes inscritos – as inscrições seguem até 14 de maio. O festival acontecerá de 14 a 23 de julho e, além do Cine Praia Grande, terá exibições na sede da Lume Filmes e no Teatro Arthur Azevedo.

A influência dos pais, Lume Filmes, Backbeat, cinema no Maranhão, o Cine Praia Grande, entre o passado, presente e futuro, Frederico Machado, com uma incompleta graduação em Filosofia, aos 38 anos, concedeu a seguinte entrevista ao Vias de Fato.

ENTREVISTA: FREDERICO MACHADO
POR ZEMA RIBEIRO


Foto: Divulgação

Vias de Fato – Um texto de tua mãe sobre o compositor Chico Maranhão, de quem teus pais foram vizinhos na tua infância, retrata o também arquiteto desenhando para divertir o menino Fred. Quais as principais lembranças de tua infância? Frederico Machado – Sem dúvida nenhuma, minhas idas para o cinema com meus pais. Cine Passeio, Éden, Monte Castelo, Roxy, Alpha. Era o paraíso. Também a Praia Ponta da Areia. Todo sábado e domingo pela manhã. Andava com meu pai, jogava futebol. Bons tempos! E música: comprar discos de vinil na rua Grande e depois ficar a tarde toda os escutando no quarto trancado. Beatles, Prince, Stones, dividiam bem o espaço com as musicas clássicas e com os compositores maranhenses, entre eles o Chico Maranhão.

Teu pai é cinéfilo, um homem apaixonado por cinema. Em que medida o gosto dele te influenciou, tanto enquanto consumidor de cinema quanto enquanto realizador? A influência do Nauro e também da Arlete são enormes. Meus pais foram os grandes responsáveis por eu ser um apaixonado pelo cinema. O fato de ir quase diariamente para uma sala de projeção foi o que me moldou a ser hoje um cineasta. A literatura de ambos também é responsável em grande parte pelo meu gosto particular de cinema autoral. O gosto por filmes mais pesados e fortes se deve, acredito, ao gosto pela própria literatura de Nauro. Já a linha sensível e humanista que acredito que o cinema deva ter, se deve ao fato de ter lido muito minha mãe e a sensibilidade da mesma.

Quais as tuas principais influências, tanto em se tratando de cinema quanto em outras artes? Isto é, além de assistir, o que você gosta de ler e ouvir? Acredito que toda imagem pode ser transformada em filme. Depende muito de como ela é transformada em película e com qual propósito. Por isso sou bem eclético no que assisto em cinema. Tem vários filmes comerciais extremamente importantes para o cinema mundial e para minha formação intelectual. Não vejo mal nenhum nisso. É diferente de minha opção como realizador, de ser mais voltado para o cinema realmente como arte, autoral, instigante, diferente. Mas um grande cineasta que tenho como referência é [o polonês Krzysztof] Kielowski [das séries Decálogo e Trilogia das coresA liberdade é azul, A igualdade é branca e A fraternidade é vermelha, estes exibidos na década de 1990 no Cine Praia Grande], pela sensibilidade em lidar com seus temas, sempre carregados de dor e perda. Como leitor, sou muito mais criterioso, porque até mesmo, para se ler o livro é necessário muito mais concentração, tempo e imersão na obra. Gosto da literatura russa, alemã. Era um leitor muito mais voraz antigamente. Como no cinema, prefiro livros mais densos e pesados. Em termos de música, cresci ouvindo rock alternativo. Nos meus tempos de juventude foi a expressão cultural que me tomou com mais visceralidade. Era meu ato rebelde, ouvir rock, vindo de pais artistas e que gostavam mais de cultura erudita. Pixies, Nirvana, Pavement, Les Thugs… Até hoje os escuto sem culpa ou remorso. Tive inclusive uma banda punk chamada Decapitados. Entretanto com o passar dos anos abriu-se um leque enorme de possibilidades musicais com a internet. Infelizmente a música se transformou apenas em um passatempo para mim.

O Cine Praia Grande, a partir do dia 10 de março, volta a ser gerido por você, homem por trás da Lume, empresa que o administrará. Que tipo de problemas a nova administração enfrentará? Em que termos se dá o contrato entre a nova empresa administradora e o Governo do Estado, responsável pelo cinema? Problemas: enormes e os mesmos de sempre. Falta de público, dificuldades com divulgação, falta de apoio das empresas, dos órgãos públicos que poderiam ajudar, dos artistas que não comparecem a esse espaço tão importante, das pessoas que reclamam da falta de um cinema de arte na cidade, mas que também não frequentam a sala… Entretanto, nunca deixamos de acreditar na possibilidade real do Cine Praia Grande ser o espaço cultural mais importante da cidade. A programação será voltada toda para filmes de arte. Ficaremos no cinema durante quatro anos através de contrato com o Governo do Estado. Todos os custos com a sala serão de responsabilidade da Lume Filmes.

Qual o seu momento preferido do cinema nacional? E o que acha do momento presente, sobretudo os anos Lula? E o que esperar do governo Dilma para a área? Sem dúvida nenhuma o período do Cinema Novo, nos anos 1960, foi o período de maior prestígio e qualidade do cinema nacional. Com o Governo Lula, o cinema nacional teve a grande vantagem de ser visto novamente. Com os editais propostos pelo Governo Lula, a população brasileira se viu novamente nos cinemas. Tivemos vários filmes de sucesso e qualidade. Acredito que com o Governo Dilma, teremos uma continuação dessa política de exibição e que mais e melhores filmes nacionais surgirão aumentando esse público e a própria qualidade. Isso é o que eu espero!

Como você percebe o cenário cinematográfico maranhense? Há a deficiência, sobretudo em se tratando de salas de exibição ou, onde elas existem, do conteúdo exibido. As novas tecnologias e o barateamento de seus custos – filmar hoje é mais barato que há 30 anos, por exemplo – não nos fizeram perceber, ainda, o surgimento de uma nova geração, utilizando-se disso. Você acha que estamos caminhando para este momento? O cinema maranhense tem uma carência enorme de incentivo. Não há salas de exibição, não há escolas de cinema, não surgem cursos de cinema, não há leis de incentivo estadual nem municipais. Enfim, o cinema no Estado do Maranhão mendiga de políticas públicas. Como pode surgir um cinema forte e respeitado se não há formas de produzir cinema com o mínimo de respeito pelos envolvidos? É complicado. E eu sou um afortunado, que os poucos editais que houve no Maranhão consegui sair vencedor – por isso o Vela [ao crucificado], Infernos e Litania [da Velha] viram a luz. Pessoas talentosas há. Os poucos filmes que se produziram no Maranhão nos últimos anos tiveram uma carreira vitoriosa em vários festivais. Levamos o nome do estado e da cultura do estado para vários estados e países e realmente parece que ninguém dá valor.

Você se considera bem sucedido, tendo em vista ser um empresário no campo das artes que deu certo, estando situado em São Luís? Totalmente. A Lume Filmes é a distribuidora mais respeitada de cinema autoral no Brasil, sem sombra de dúvida. É muito mais conhecida fora do Maranhão do que no nosso estado. O Vela ao crucificado, meu último filme, foi o filme brasileiro mais premiado do ano de 2010, entre longas e curtas. Realizamos um Festival de Cinema que em 20 dias com inscrições abertas já teve mais de 700 filmes inscritos, do mundo todo. Temos uma locadora com o maior acervo do Nordeste. A Lume Filmes está vivendo um grande momento. E isso eu devo à minha família, minha equipe, as mais de 20 pessoas que trabalham comigo para o engrandecimento dessa empresa.

Os filmes (re)lançados pela Lume têm recebido, invariavelmente, críticas positivas por parte de cadernos e seções de cultura de diversas publicações de circulação nacional. A que você credita esta boa aceitação? Realmente à qualidade dos filmes. A curadoria da coleção é toda realizada por mim. São filmes que têm enorme relevância para o cinema mundial. Além disso, os críticos e o público consumidor veem na nossa empresa uma empresa que de fato, respeita e ama o cinema. Isso dá dignidade a toda estrutura.

Teus filmes mais famosos e premiados, Litania da Velha, Infernos e Vela ao crucificado, tem relações literárias: o primeiro é baseado no poema homônimo de Arlete Nogueira da Cruz, tua mãe, o segundo é uma espécie de microbiografia poética de Nauro Machado, teu pai, e o terceiro é livremente inspirado no conto homônimo de Ubiratan Teixeira. Quais os próximos passos de Frederico Machado na condição de realizador? Estamos filmando novo curta – O exercício do caos – em roteiro original feito por mim. Temos dois projetos de longas para serem filmados no próximo ano. O I Festival Internacional Lume de Cinema para julho de 2011. O livro de ensaios Os filmes que sonhamos, com ensaios críticos dos filmes da Lume, inéditos, escritos pelos maiores ensaístas e críticos brasileiros atuais. Lançamentos para cinema no segundo semestre. Muita coisa boa!

Uma das tuas poucas ideias que não vingou foi o site Pastilhas Coloridas, revista eletrônica que abordava arte e cultura em geral – não só cinema – e agregou, entre outros, Eduardo Júlio e Reuben da Cunha Rocha. Pretendes retomá-la ou se concentrará especificamente no cinema, enquanto empresário e realizador? Era um projeto interessantíssimo. Mas dependia essencialmente de outras pessoas para vingar de fato. Pessoas que tivessem vontade de escrever e de colaborar. Temos vontade de retornar. É outro momento. Acredito que agora vingue. Era um projeto também que me deixou saudades.

[Vias de Fato, março/2011]

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

3 comentários em “Frederico Machado a lume”

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