Papoético discute arte e cultura

[Vias de Fato, fevereiro/2011]

POR ZEMA RIBEIRO

Nos e-mails em que divulga a ideia, Paulão, como é mais conhecido o poeta e jornalista Paulo Melo Sousa, sempre termina com um apelo: “vá e leve mais um destrambelhado junto”. Assim o Papoético, realizado há pouco mais de dois meses, tem visto seu público crescer a cada quinta-feira.

O Chico Discos, que abriga a roda de conversa informal, parece ainda menor do que é, e quem chega “atrasado” acaba ouvindo o papo de pé – alguns ficam ali encostados pelo balcão, a degustar bebidas e petiscos vendidos por Chiquinho. Literatura, música, cinema, teatro, artes plásticas, quadrinhos, política e gestão cultural, entre outros assuntos, têm sido discutidos, descontraidamente.

Mentor dos encontros, Paulão assume o papel de animador das conversas, espécie de moderador informal. Não que ele não leve o Papoético a sério. Leia a seguir a entrevista que ele concedeu ao Vias de Fato.


Foto: divulgação

ENTREVISTA: PAULO MELO SOUSA

Vias de Fato – Como surgiu a ideia do Papoético? Paulo Melo Sousa – Ultimamente, os artistas de São Luís estão bastante dispersos, cada um cuidando da sua vida, de seus projetos pessoais, acabaram-se os antigos redutos da boemia, locais onde era possível ainda encontrar pessoas interessadas em cultura e se conversar um pouco sobre arte. Nos anos oitenta, quando integrei o Grupo Poeme-se [1985-1994], tive a ideia de realizar saraus literários que viraram recitais de poesia e que evoluíram para performances poéticas. Na época, o Poeme-se chegou a montar um espetáculo com 40 minutos de duração, em 1993. Foi uma performance a partir de colagens que fiz do trecho de um dos cantos do livro O Guesa, de Sousândrade, chamado O Inferno de Wall Street. Então, aqueles saraus renderam muito, e proporcionaram grandes encontros que se tornaram fortes amizades, como é o caso dos poetas Eduardo Júlio, Dyl Pires, Ricardo Leão e tantos outros. Dessa forma, resolvi reativar esse movimento agora no final de 2010, em novembro, e cada vez mais os artistas estão aderindo e os encontros estão cada vez mais animados, o que mostra que muita gente estava também a fim de se encontrar e discutir arte e cultura.

O Papoético começou despretensiosamente e vem, a cada quinta-feira, reunindo um público maior, tornando pequeno o Chico Discos, sebo que o abriga. A que você credita o sucesso das sessões de debate-papo? Como falei acima, acho que o pessoal estava sentindo essa necessidade de se encontrar. Os temas são estimulantes, provocantes até, em certos momentos polêmicos, o que tem excitado os participantes. O Chiquinho tem um ambiente agradável, um som de primeira qualidade, criterioso. Ali se escuta de Thelonious Monk a Paco de Lucia, de Astor Piazzolla a Joaquín Rodrigo, de Adoniran Barbosa a Marisa Monte, Arnaldo Antunes, coisa de primeira. E tem o estimulante, uma cachaça mineira, uma cerveja gelada, e até absinto para os mais afoitos…O ambiente é agradável, a maioria são pessoas amigas, contudo, novas amizades estão surgindo nesse ambiente, como aconteceu na época do Poeme-se. De qualquer forma, nunca sou despretensioso…

Apesar do nome, a proposta do Papoético é discutir diversos assuntos relacionados à cultura, artes e outras áreas do conhecimento: literatura, música, cinema, teatro, artes plásticas. Este objetivo vem sendo atingido? Sim, ao final de cada encontro peço sugestões de novos temas de forma democrática, e sempre surgem propostas estimulantes. Também estamos atentos ao que vem ocorrendo na cidade em termos de produção cultural, quando acontece um lançamento de livro chamamos o escritor para falar sobre seu trabalho. Recentemente, Celso Borges, Bruno Azevedo e outros lançaram a revista Pitomba e, logo em seguida, eles foram convidados para falarem sobre o projeto. No momento, está acontecendo um movimento de vários artistas na Fonte do Ribeirão chamado Fonte Viva. Estão sendo realizadas ações de denúncia sobre o abandono desse monumento pelas autoridades e nós iremos debater essa questão do patrimônio histórico como um todo em breve. São Luís completará 400 anos daqui a pouco mais de um ano e não se ouve nada das autoridades até agora sobre o assunto…

Apesar de sempre destacar o nome de uma ou duas figuras para conversar sobre determinado assunto, o Papoético é bem democrático, com todos falando e ouvindo, a experiência acaba se tornando um aprendizado coletivo. Como se dá a escolha dos, digamos assim, palestrantes? Tudo é feito de forma democrática, e não nos preocupamos também com o tema, pois sabemos que sempre haverá assunto interessante para ser debatido ali. São Luís cresceu muito em termos de produção cultural em relação a 20 anos atrás. O que sempre faltou, e agora não é diferente, é discutir com proficiência essa produção, discutir a cidade. O Papoético facilita essa possibilidade…

Onde o Papoético vai descambar? Ou, melhor perguntando, há pretensões tuas para o Papoético, no sentido de o encontro gerar algo como uma revista, um festival ou coisa parecida? Como se costuma dizer na gíria, vamos deixar rolar…a criança ainda está verdinha, cheirando a leite. Já se sugeriu ali, acho que foi o Luís Mello, que se fizesse um blog. É uma ideia, vamos ver quem vai assumir a paternidade da proposta…

Como você analisa o cenário da literatura maranhense hoje? Tanto em termos de nomes, individualmente, como de acontecimentos, a exemplo das Feiras do Livro, do surgimento da revista Pitomba, e mesmo do Papoético. A Feira do Livro de São Luís, para mim, foi um fracasso nas suas duas últimas edições, algo sem tesão, como se fosse uma obrigação. Não vi um escritor que não tenha reclamado da organização, algo mixuruca em relação aos eventos da administração anterior. Não que eu esteja aqui defendendo a gestão do ex-prefeito, que foi precária em vários aspectos. No entanto, reconheço que o trabalho da Lúcia Nascimento foi primoroso. Trazer nomes como Ariano Suassuna, Arnaldo Antunes, Afonso Romano de Sant’anna, dentre tantos outros é o que conta, o que interessa. Trouxeram agora o pré-fabricado Fabrício Carpinejar, que falou o tempo todo da namorada, num discurso evangélico no estilo do fanfarrão Silas Malafaia, foi o cúmulo, uma grande bobagem. Tive que sair às pressas para não vomitar… Sou alérgico ao supérfluo… Não vou falar do Papoético, deixo isso para quem quiser comentar. Vejo novos nomes na literatura maranhense despontando já como escritores de peso, o que considero muito importante, muitos poetas novos, muitos prosadores com uma linguagem vigorosa, outros abrindo espaço. Na literatura infantil, estamos bem servidos, é a minha opinião. Tem gente aqui que estaria bem situado no cenário nacional se estivesse morando e produzindo no eixo Rio-São Paulo.

E o cenário do jornalismo? O jornalismo impresso é amordaçado pela autocensura nos jornais tradicionais. Poucos escapam, já que a sobrevivência fala mais forte e quem manda são os donos das empresas jornalísticas. Alguns alternativos sobrevivem a duras penas, e ainda são uma opção possível para se exercer um jornalismo que mereça esse nome. Hoje, penso que os blogs são a grande saída para se fazer algo de forma independente e realmente significativa em termos de jornalismo sério e independente.

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O primeiro Papoético de março, dia 3, debatepapeará sobre Poesia, cujo dia nacional é celebrado em 14 de março. Poetas habituès do encontro semanal, como Celso Borges, Eduardo Júlio, Bioque Mesito, Rosemary Rego, Lenita Estrela de Sá, Josoaldo Rego, Lúcia Santos e outros, conversarão sobre o assunto com o público presente. Lembrando: o Papoético acontece às quintas-feiras, às 19h, no Chico Discos (Rua Sete de Setembro, Centro, quase esquina com Afogados). De graça (os presentes pagam apenas o que consomem).

Blow-up

Encontrei esta preciosidade ontem no Chico Discos (Rua Sete de Setembro, quase esquina com Afogados, Centro). É assim que meu dinheiro some (embora o livro tenha me saído barato). O conto-título do livro de Julio Cortázar inspirou Depois daquele beijo, de Michelangelo Antonioni, um de meus clássicos de cabeceira.

Hoje, lá, quem participa do Papoético é o escritor português António de Abreu Freire, autor de Padre Antonio Vieira – História de um homem corajoso contada aos jovens e lembrada ao povo. Começa às 19h e é grátis.

Belle Époque no Distrito Federal


Capa. Reprodução.

Do meio do mundo um e-mail do poetamigo Celso Borges me avisa: nesta quarta (23), às 19h, na Livraria Café com Letras (Brasília/DF), ele lança seu Belle Époque, livro que encarta o cd Quase. Mais informações no Candango!

Vias de Fato nas bancas


Capa. Reprodução. Clique para ampliar.

Nesta edição (17) assino matéria sobre o Baile do Parangolé, que celebrou os 32 anos da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) no último dia 12 de fevereiro, e entrevisto o poeta Paulo Melo Sousa, o Paulão, que vem capitaneando com sucesso o Papoético, descontraído debate-papo sobre cultura, arte e o que mais pintar (que em breve ganhará blogue). Flávio Reis assina um longo artigo sobre O Monstro Souza, de Bruno Azevêdo, que em breve reproduziremos cá no blogue.

Leia aqui as manchetes do Vias de Fato de fevereiro, já nas melhores bancas da cidade.

A garçonete que odiava big brother

Pior que bares que tocam aqueles DVDs ruins de bandas ruins são bares que exibem o big brother brasil. Se você sai de casa para beber – ou comer – na hora do programa apresentado por Pedro Bial, já sabe! – não, não sei, a que horas passa? – vai dar de cara com o bbb na tela do estabelecimento.

Ainda passava a novela, pedi um x-calabresa e uma coca-cola – “pode trazer logo!” – e minha mulher um caldo de ovos. Subiram os letreiros, fim do capítulo, eu esperava por um filme, a vinheta do big brother invadiu a televisão. Éramos só nós dois à mesa, pude tranquilamente trocar de lugar, ocupando uma cadeira da qual eu não via – embora ouvir ainda seja demais – nada do reality show.

Menos rápida que minha mudança de lugar, a garçonete trocou o canal, um filme qualquer em outro canal qualquer. Quase volto a meu lugar original, mas uma idiota, agora sentada à minha frente, muxoxou, pedindo à garçonete para voltar a TV ao pior programa da tevê brasileira. “Big brother? Ninguém merece!”, muxoxou de volta a garçonete, mas “o freguês sempre tem razão”, o pedido da cliente idiota foi prontamente atendido.

De minha mesa ainda esbocei gestos e caretas rápidos dando a entender que detesto big brother – mesmo sem nunca ter assistido a sequer 30 segundos de qualquer capítulo dessa escória televisiva. Nossos pedidos chegaram e me concentrei no sanduíche, pedindo uma segunda lata de coca-cola para acompanhá-lo.

Esse tipo de gente que pede para ver o big brother em um estabelecimento é o mesmo que não hesitaria em esculhambar o garçom – ou a garçonete – caso, por exemplo, o seu macarrão viesse sem o queijo ralado por cima – mesmo que isso não fosse culpa do garçom ou da garçonete: até o queijo ralado ser devidamente colocado no lugar, como mandam a receita e o figurino, o garçom ou garçonete já teria sido xingado e amaldiçoado por três gerações, mesmo tendo resolvido o problema do freguês – ocasionado por uma cozinheira ou balconista meio desatenta – quiçá por estar com o sentido no big brother (outra televisão na cozinha?). “O freguês sempre tem razão” não deveria, nunca, ser desculpa para quem quer que seja, em qualquer lugar, ser ríspido ou descortês. Afinal de contas, mesmo tendo razão sempre, nem sempre o freguês – ou a freguesa – tem bom gosto.

A TV ainda estava ligada no “Bial e suas feras” quando saímos. Mas meus ouvidos se ocupavam com a música que saía de um aparelho de som, abaixo do televisor pendurado na parede envolto por uma grade. Do micro-system vinha uma coletânea do Nirvana, que a garçonete pôs para passar o tempo do bbb, o movimento fraco para uma noite de sábado sem chuva, a lanchonete quase tão vazia quanto a cabeça da freguesa que mirava o televisor.

Encontro

Termina hoje a 3ª. Semana Político-Cultural do Instituto Maria Aragão, que celebra os 101 anos da médica e militante comunista que lhe batiza. Às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), será exibido o filme Encontro com Milton Santos ou O mundo global do lado de cá, do cineasta Silvio Tendler:


Capa. Reprodução.

Após a exibição do filme, Tendler participa de debate, com os professores Francisco Colombo (Faculdade São Luís), Nonata Santana (UFMA) e Zulene Barbosa (UEMA). Antes, às 18h30min, o Grupo de Teatro Maria Aragão (GAMAR), da Cidade Operária, apresentará peça baseada em poemas de Ferreira Gullar: sobre seu Poema sujo (1975), Tendler está realizando um doc e aproveitou a passagem pela Ilha para visitar várias passagens/paisagens da obra gullariana.

A sessão/debate é grátis e os presentes ainda concorrem a DVDs de Silvio Tendler, incluindo o título que será exibido hoje. Ontem, além de Utopia e Barbárie, dele, foi exibido o clipe Maria, com que o cineasta Murilo Santos homenageia Maria Aragão. O curta do maranhense terá reprise hoje, entre a encenação do peça e a exibição do Encontro…

Mistério no Labô

Em se tratando de programação, o Cineclube Laborarte é, hoje, a grande sala de cinema de São Luís:

Amanhã (17), O mistério do samba, de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda, sobre a Velha Guarda da Portela, com participações de Marisa Monte, Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho e outras personalidades do “universamba”. Sessão única, grátis.

Vai perder?:

O Laborarte fica na Rua Jansen Müller, 42, Centro.

Aniversário de Maria Aragão é celebrado pelo IMA

No último 10 de fevereiro, a médica e militante comunista Maria Aragão teria completado 101 anos. Para celebrar a data, o Instituto Maria Aragão (IMA) realizará sua 3ª. Semana Político-Cultural, com a presença do cineasta Silvio Tendler, que exibirá alguns filmes seus e participará de debates, mediados por professores da UFMA. A programação, gratuita, acontece no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, na Praia Grande:


Clique para ampliar e ler a programação completa

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EM TEMPO

Hoje (15), às 19h, sob mediação do professor e cineasta Francisco Colombo, Silvio Tendler participar de debate-papo com alunos da Faculdade São Luís, em seu auditório. O evento é aberto e gratuito e não-alunos da instituição também podem participar.

Novos modos de fazer jornalismo

Aline Coelho, que no finzinho do ano passado defendeu monografia no curso de Comunicação, habilitação em Jornalismo, na Faculdade São Luís, analisando os blogues deste que vos tecla e do jornalistamigo Itevaldo Jr., disponibilizou a íntegra de seu trabalho no Overmundo. Para ler o trampo, é só baixar o pdf.