“A arte no Maranhão está ameaçada”

Músico de formação, bancário de profissão. Assim poderia ser definido o cantor, compositor e violonista Gildomar Marinho até bem pouco tempo. Nascido em Santa Inês e crescido em Imperatriz, hoje se divide entre Fortaleza e São Luís. Em 2009 ele lançou Olho de Boi, gravado aqui, fazendo um apanhado de mais de 20 anos de criação musical, antes restrita a pequenos círculos de amigos. Em 2010, foi a vez de Pedra de Cantaria, gravado lá, que após lançado na capital cearense, onde hoje o artista vive por dever do ofício de bancário e do mestrado em Avaliação de Políticas Públicas (UFC), deverá ganhar show de lançamento em São Luís, muito em breve. Tão logo ele retorne da turnê Na estrada, em que percorrerá 20 cidades nordestinas ao lado de Carlinhos Veloz e Wilson Zara. É verdade que Gildomar continua se dividindo entre as duas funções mas, sorte a nossa, aos poucos a música vai ganhando ainda mais espaço em sua vida – e nas nossas. Ouça trechos de seus discos em sua página no myspace – é a trilha ideal para a leitura da entrevista abaixo, que ele concedeu ao Vias de Fato em sua mais recente passagem por São Luís.

ENTREVISTA: GILDOMAR MARINHO
POR ZEMA RIBEIRO


Foto: Paulo Caruá

Vias de Fato – Você começou na música ainda criança. Em Fortaleza/CE licenciou-se em música (UECE), ainda na década de 1990. No entanto só mais recentemente tem se dedicado ao que podemos chamar de carreira artística, com o lançamento de dois discos, em 2009 e 2010. A que se deveu essa demora? Gildomar Marinho – A música, na verdade, sempre esteve presente na minha vida, já que meu pai, dublê de motorista e violonista, desde cedo me incentivou a tocar. Em Fortaleza pude me dedicar mais fortemente à música tocando em eventos e nos barzinhos e interagindo com nomes importantes da cena musical cearense. Isso tudo, somado à formação em Música, foi moldando o meu trabalho, que só recentemente me senti preparado para registrar. Posso afirmar que a gravação da música O Mano no CD Regar a Terra, do MST, foi o empurrão que faltava para eu criar coragem. Eu sou muito crítico com o meu trabalho e com minhas limitações, mas o incentivo de amigos e dos parceiros foi fundamental para o projeto sair do meu papel imaginário.

Em Fortaleza, em paralelo ao trabalho no Banco do Nordeste, da primeira vez que você morou lá, havia a administração de um bar que serviu de ponte para diversos artistas maranhenses, o Pertinho do Céu, casa lendária do circuito universitário alternativo da capital cearense. Fale um pouco dessa experiência. Foi uma experiência muito positiva, pois a casa, apesar de pequena, tinha uma programação cultural muito intensa, com música, artes plásticas, cinema, já que na época o cinema cearense estava despontando para ser o que é hoje em importância no cenário nacional, e até um bloco de carnaval a perambular pelas ruas boêmias do Benfica. Isso tudo sem nenhum apoio, público ou privado. Era uma coisa de movimento mesmo. Por estar dentro do circuito universitário, muitos frequentadores do bar hoje estão em posição de destaque no cenário cultural, acadêmico, político e até mesmo empresarial. Quando revejo alguém, a associação é inevitável. Mas hoje há muitos lugares em Fortaleza cumprindo o mesmo papel. Sobrou a gostosa saudade de um tempo bem intenso.

Olho de Boi, seu disco de estreia, trazia um apanhado de mais de 20 anos de criação, músicas antes restritas a um pequeno grupo de amigos-fãs. Pedra de Cantaria continua esse processo de registro e traz composições mais novas e resgata uma música de teu pai, o bolero Não fale nada. Como se deu a concepção e produção dos dois trabalhos? O Olho de Boi era um sonho antigo, já que em 1997, eu e o Paulo Renato, um cantor e compositor cearense, havíamos feito um show no Teatro São José, em Fortaleza. O show não tinha nome e precisávamos de um. Não me lembro como, lembrei de uma reportagem que tinha lido recentemente sobre o selo Olho de Boi e fiz uma associação ao bumba-meu-boi maranhense. A saudade bateu, corri pro violão com caneta e papel e fiz a música, assim, de uma sentada. Peguei o telefone e liguei pro Paulo: tenho o nome do show e a música. Os amigos sempre diziam: tem que registrar isso, tem que gravar. Em 2008 criei coragem e gravei o CD com algumas músicas que estavam no fundo do baú e algumas que fiz no estúdio, além da parceria contigo, na música Lembra?. A cereja do bolo, para mim, foi a participação da cantora mineira Ceumar, que muito me emocionou com sua voz em Alegoria de saudade. O projeto do Pedra de Cantaria também é antigo. Semelhante ao Olho de Boi, surgiu por causa de um poema a quatro mãos [também com o repórter], então inacabado, concebido em um momento maravilhoso que foi a Festa do Divino em Alcântara. Isso em 2004, se não me engano. O verso: “Pedra de cantaria, se eu pudesse alcantararia São Luis, Maranhão” ficou martelando meu juízo por anos e eu não conseguia definir um compasso que completasse musicalmente a frase. Eu pensei: vou executar o projeto. Na hora, a inspiração bate. Confiei um pouco na sorte. Trocando e-mails, letra indo e voltando, a tecnologia ajudou, ajusta aqui e ali, a música saiu. No CD Pedra de Cantaria me permiti a expandir as parcerias, incluindo a música Pra Chorar no Rio, com Ricarte Almeida Santos. Gravar a música de meu pai foi muito emocionante. Ele havia cantado para mim a música quando fui visitá-lo em Imperatriz. Eu anotei rapidamente a letra e fiquei martelando a melodia na cabeça. Quando eu mostrei a música gravada para ele, a emoção foi mútua. Os músicos foram muito competentes no registro.

A partir do dia 16 de janeiro você cai literalmente Na Estrada, no projeto homônimo que levará Carlinhos Veloz, Wilson Zara e você a 20 cidades nordestinas. Fale um pouco de sua relação com estes dois artistas e do projeto em si. Ambos são meus amigos desde a nossa passagem por Imperatriz, nos anos 1980 e comecinho dos anos 1990, embora a aproximação com o Carlinhos tenha se dado mais recentemente, quando ele resolveu vir morar em São Luis. Amigos comuns, memórias comuns, sonhos e projetos comuns, resolvemos fazer uma parceria para levar a música maranhense para os estados do Nordeste, sobretudo para o interior. A ideia é simples: tocar e cantar para os estudantes, que serão os artistas, produtores, formadores de opinião, ou simplesmente ouvintes no futuro. Uma espécie de semente plantada. Junto com os shows, faremos uma pequena oficina sobre a música popular, com destaque à música maranhense. Estamos com uma expectativa positiva, pois é um intercambio importante para nós. O projeto conta com o patrocínio da Petrobras e tem o apoio do Ministério da Cultura.

Você participou do histórico show de aniversário de 26 anos da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), que viria a ser a primeira apresentação da cantora Lena Machado em São Luís. Anos depois, com O Mano, integrou o repertório do disco que comemorou os 20 anos de atuação do MST no Maranhão. Em Pedra de Cantaria há uma homenagem ao líder camponês e agora Doutor Honoris Causa (UFMA) Manoel da Conceição [o carimbó elétrico Batalha do Cerrado]. É fácil trazer a temática dos direitos humanos para dentro de tuas criações sem soar panfletário? Obrigado pelo “sem soar panfletário”. Resta saber se o pessoal que não gosta do Mané tem a mesma opinião [risos]. Na verdade, a temática dos direitos humanos me acompanha desde os tempos da infância. A minha mãe, pobre, sempre enfatizou os valores como honestidade e respeito ao próximo. Estes valores foram se consolidando na minha trajetória na Pastoral de Juventude, na minha militância política e acabou refletindo na minha criação musical. No Maranhão é até fácil tornar-se panfletário, devido à sua característica de estado assimétrico socialmente e dominado por décadas por uma única oligarquia. Sobretudo, por seus métodos de aliciar, cooptar, ameaçar, e utilizar o bem público em proveito próprio. Esse negócio de madrinha de boi, patrono disso, mausoléu daquele, praça deste, até municípios com nomes de pessoas vivas e ativas politicamente, não é mais do que o velho patrimonialismo grassando o século XXI neste estado. Até a arte no Maranhão está ameaçada, quando a produção artística inconveniente aos seus interesses é preterida, perseguida, ignorada. E o que é pior: a cultura oficial maranhense se resume a apoio a eventos concentrados no tempo, Carnaval e São João, e no espaço, São Luis. Sobram umas migalhas para o interior e para as demais datas do ano. Isso cria uma confusão entre estado de mecenato e estado de mercenários. Isso tudo dá até motivos para um par de sambas, canções e raps de protesto. No entanto, ao fazer uma canção, um verso, eu me imagino ouvindo ou lendo em outra dimensão de tempo e espaço. Uma abstração. Eu não conserto versos por conveniência. Se eu percebo que a letra que vou dizer ou cantar não soma nada aos valores que acredito, eu simplesmente aborto. Tiro da carne. Extirpo.

Olho de Boi contou com a participação especial da cantora mineira Ceumar. Pedra de Cantaria reuniu Carlinhos Veloz, Celso Borges, Erasmo Dibell e Lília Diniz. Como foi trabalhar com cada um/a e reuni-los nestes dois trabalhos? Foi uma experiência ímpar. Mandei uma guia bamba de Alegoria de Saudade pra Ceumar, a letra nem estava pronta e ela respostou dizendo que havia gostado e que gravaria comigo. Fiquei muito emocionado. A tecnologia permitiu a gravação à distância. A voz dela foi captada em Amsterdã, o que torna o Olho de Boi internacional [risos]. Aproveitei a experiência para reunir os bons nomes da cena musical maranhense no meu segundo trabalho. Em Claustrofobia contei com a ótima performance do poeta Celso Borges, com o poema Vazio. Carlinhos Veloz emprestou sua bela voz na música O Rio e Erasmo Dibell, com seu suingue sarará cantou em Madre. Contei também com a participação da poeta e atriz Lilia Diniz, com sua voz de lavadeira cantando Oiei pro Céu, de Dona Elza de Tutóia, que abre a música Batalha do Cerrado, em homenagem ao líder camponês Manoel da Conceição. Carlinhos, Erasmo, Lilia e o Celso, todos foram muito receptivos e o resultado foi muito além do que eu esperava.


Reprodução

Pedra de Cantaria já teve dois shows de lançamento em Fortaleza. Olho de Boi, em 2009, teve shows de lançamento no Maranhão, em Imperatriz e São Luís. Quando o público daqui poderá conferir o disco novo ao vivo, no palco? Após a turnê, que vai até o início de fevereiro, pretendo fazer o show em São Luis e, quem sabe, em Imperatriz. O que mata é o ofício. Bater ponto, frequentar aulas e fazer shows itinerantes exige uma agenda coordenada. Estou com a expectativa de fazer o show em meados de março ou abril.

Teu primeiro disco foi gravado em São Luís, com músicos daqui; o segundo, em Fortaleza, com músicos de lá. É possível fazer uma comparação entre as experiências? Entre as experiências, sim. Em ambas, percebi uma receptividade muito boa do meu trabalho. Olho de Boi, por ser o primeiro, entrei um pouco assustado no estúdio, e com a preocupação de dar uma unidade ao disco, com um repertório tão diverso. O Marcus e o Robertinho, do estúdio Kerigma, que assinaram a direção, me deixaram bem à vontade e me permitiram interferir no resultado. Gravar em Fortaleza foi uma experiência um pouco diferente, pois eu já tinha uma proposta para o CD e contei com o importante apoio do Hoto Jr, percussionista cearense, que se envolveu integralmente ao trabalho e dirigiu a gravação e os shows de lançamento. Quando eu botava as guias ele já dizia: essa música cabe tais instrumentos e vou convidar esses músicos e tal… só pude interferir um pouco na hora de mixar. O que posso dizer é que todos foram muito profissionais.

Teus dois discos tiveram apoio do programa Cultura da Gente, do Banco do Nordeste. Você já pensa num terceiro trabalho? O que o fã-clube pode esperar? Eu pretendo gravar o terceiro trabalho, provisoriamente intitulado de Tocantes. Pretendo fazê-lo de forma independente. A ideia é fazer um trabalho com músicas feitas “no forno”. Inéditas até para mim hoje. Tenho algumas parcerias sendo trabalhadas, que vão enriquecer o trabalho. Em termos de estilo, posso adiantar que o disco será mais “baladeiro”. Quero fechar a trilogia de discos em estúdio para poder avançar em outros projetos. Outras mídias.

Vivendo na ponte aérea entre o Ceará e o Maranhão, como você observa a cena cultural, sobretudo musical, daqui, do ponto de vista da organização da classe artística e da gestão cultural? Olha, vou dizer o que vejo, da forma como vejo. Recentemente vi em um jornal local um título interessante, em letras garrafais: “A cultura deu um salto no Maranhão”. Não li a reportagem, mas poderia interpretá-la de duas maneiras: a cultura deu um salto aqui na breve gestão do Joãozinho Ribeiro, quando se ensaiou a democratização dos bens e serviços culturais em favor da criação, fruição e desenvolvimento da cultura maranhense, e depois, por propulsão, foi cair em outro lugar; a segunda interpretação é que o salto pode ter sido para um abismo sem tamanho, por causa da miopia dos gestores públicos que os impede de ver que não se faz cultura por decreto. É necessária a construção de uma política cultural que vá além dos eventos e festas e da confusão que se faz com outras áreas como o turismo, que termina drenando os parcos recursos destinados à cultura em prol de um programa que já tem sua própria política e seu próprio orçamento. Do ponto de vista da organização da classe artística, ainda impera o velho individualismo e as associações “de pasta”, na qual o sujeito fica de plantão na porta da secretaria, com um projeto na mão, representando uma coletividade real ou imaginária, esperando a boa vontade do “servidor público”. Sim, embora não pareça, mas são servidores públicos. O resultado termina sendo aquele que já citei anteriormente, que vai cair na arte tutelada, cujo ápice pode ser descrito como o visto na festa de ano novo que termina sendo uma ode aos governantes de plantão. Tendo a oportunidade de conhecer a gestão de outros estados, percebo que o caminho é o inverso: o da interiorização, o da municipalização, o do Brasil de dentro. Isso significa a criação de equipamentos culturais em pontos-chave no interior, estimulando a participação e formando e valorizando os verdadeiros agitadores culturais. Só a título de exemplo, conheço o pequeno município de Pedro II, no Piauí, que conseguiu aprovar dezenas de projetos culturais em editais, pelo simples fato de ter tido um equipamento de difusão, discussão e fruição da cultura, um pequeno espaço cultural. Simples, barato e eficaz, para usar o jargão administrativo.

Qual a sua análise dos oito anos do governo Lula no setor cultural, com os ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira, e quais as expectativas para os próximos quatro anos, com Dilma Rousseff na presidência e Ana de Holanda no Ministério da Cultura? O exemplo dos meninos de Pedro II, que ilustrei, dá a dimensão dos resultados da gestão Lula. A cultura, antes vista como apêndice da educação, como mera manutenção de bens simbólicos, ou ministério de cabide de aliados derrotados, ganhou musculatura política, aumentou, ainda que modestamente, seu orçamento. Mas o mais importante: colocou a diversa, contraditória, rica, desigual, concentrada política cultural em discussão. E a premissa de buscar o aumento constante do apoio, desconcentrar os bens e serviços culturais e a busca de alcançar um sistema nacional de cultura que garanta a esta e às próximas gerações o direito universal à cultura, já justifica uma análise positiva. Quanto à nova ministra Ana de Holanda, tenho boas expectativas, pela trajetória de sua família, por estar perto de alguém como Chico Buarque, que soube como poucos sintetizar a alma, a cultura brasileira e pelo compromisso firmado pela Presidente Dilma em intensificar as mudanças iniciadas na gestão Lula. Mas a minha expectativa é reforçada por causa dos meninos de Pedro II e de tantos outros lugares que, uma vez que aprenderam o caminho das pedras, não retrocedem por vontade ao ponto anterior.

A entrevista até aqui foi com o artista Gildomar Marinho. Agora, uma pergunta ao funcionário do Banco do Nordeste: do que o Maranhão precisa para ter um Centro Cultural Banco do Nordeste instalado aqui? Como funcionário do Banco do Nordeste não tenho a autorização adequada para responder a essa pergunta, já que esta é uma decisão da alta administração do Banco. Agora, o que posso dizer é que há um cenário positivo de apoio à cultura e que é preciso aproveitar estes bons ventos. O Banco está querendo imprimir sua nova marca, a cultura está entre suas estratégias de ação e já há três centros culturais do Banco do Nordeste, em Fortaleza e Juazeiro do Norte, no Ceará, e Sousa, na Paraíba e outros estão em construção. É hora de juntar forças para conseguir um para o Maranhão. Pessoalmente, preferiria que fosse no interior, pelas razões que já enfatizei nesta entrevista. Mas, sendo no Maranhão, serei um soldado nesta luta. O que se precisa é de uma forte mobilização local, acima de ideologias, e a disponibilização de um espaço físico adaptável para a implantação do centro cultural. Neste caso, a parceria é fundamental.

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O músico, amigo e parceiro Gildomar Marinho aniversaria hoje. Com Carlinhos Veloz e Wilson Zara, pelo projeto Na Estrada, apresenta-se hoje em Recife/PE, na Estação Central Metrô, às 19h, com entrada franca. Nossos votos de feliz aniversário e sucesso vão aqui, com a reprodução desta entrevista publicada no Vias de Fato de janeiro/2011.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

11 comentários em ““A arte no Maranhão está ameaçada””

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