Toda a graça de Noel Rosa

Os quatro senhores da música do Maranhão fizeram bonito em homenagem a Noel Rosa, na data em que o Poeta da Vila completaria 100 anos.

ZEMA RIBEIRO


Autorretrato de Noel Rosa

Noel Rosa é, talvez, o mais genial dos criadores da música brasileira em todos os tempos, a começar por sua curta existência: subido aos 26 do primeiro tempo, só compôs por cerca de sete anos. No entanto, constam de sua lavra ou, para ser mais preciso, de sua caneta em maços de cigarro cujas marcas ficaram apenas na memória, mais de 300 composições. Entre estas, um sem número de clássicos absolutos, até os dias atuais.

Nascido no subúrbio do Rio de Janeiro, em Vila Isabel, com um defeito no queixo provocado pelo fórceps, ali viveu até morrer, de tuberculose. A grande maioria de seu legado musical eternizou fatos prosaicos, caso de Com que roupa?, seu primeiro sucesso, datado de 1931.

Uma série de homenagens aconteceu em todo o país, através de seminários que discutiram sua obra, publicações e shows musicais e teatrais, no ano em que Noel de Medeiros Rosa, o nome de batismo do Poeta da Vila, completaria 100 anos no último dia 11 de dezembro.

O Maranhão não podia ficar de fora desta rota e quatro compositores cuja obra bebe diretamente da fonte noelesca renderam-lhe o belíssimo tributo Noel, Rosa secular [Bar Daquele Jeito, Vinhais, 11/12], que contou ainda com a adesão de convidados especiais. Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, carinhosamente apelidados “os quatro senhores em concerto” – alusão aos três tenores – receberam Celia Maria, Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro como convidados para celebrar os cem anos de nascimento de Noel – justo na data em que ele os completaria.

Não faltaram clássicos ao repertório: O x do problema, Feitiço da Vila, Feitio de oração, Pra quê mentir?, Gago apaixonado, Filosofia, As pastorinhas, Pela décima vez, Último desejo, Quando o samba acabou. Músicas que o público cantou junto, atualíssimas. Em qualquer roda de samba que se preze, clássicos que não podem ficar de fora. E o tributo a Noel não era qualquer roda de samba.

Arlindo Carvalho (percussão), Domingos Santos (violão sete cordas) João Neto (flauta), João Soeiro (violão), Juca do Cavaco (cavaquinho) e Vandico (percussão) formaram o regional que lembrou ao pé da letra as imortais melodias de Noel. “Outra característica de Noel que deve ser ressaltada é a riqueza de suas melodias. Muito dificilmente alguém mexe num arranjo dele, tudo à época já tinha um caráter definitivo”, observou o compositor Josias Sobrinho, autor de um clássico atemporal em que homenageia o “pai do samba”: Terra de Noel.

Pai do samba sim: “Ainda que o “polêmico” primeiro samba [Pelo telefone, de 1917] seja atribuído ao compositor Donga, quem de fato deu forma, peso e medida à canção brasileira foi Noel de Medeiros Rosa. Ele tinha o toque de gênio, aquela capacidade rara de abordar os temas mais banais com um olhar único, embebido sempre em lirismo e humor”, atesta outro herdeiro de Noel, o compositor maranhense Zeca Baleiro, em texto escrito para a apresentação de Noel, Rosa secular.

O humor, aliás, é outra vertente que poderia ter sido (mais) explorada nas homenagens rendidas a Noel ao longo de 2010 e além: há um sem-número de casos pitorescos e “historietas hilariantes” – para lembrarmos o clássico livro de Six [saudoso boêmio, cavaquinhista e advogado maranhense, um dos maiores defensores do choro que o país já (ou)viu], que também tinha as suas – que por vezes nos ajudam a entender melhor esta ou aquela composição – para quase cada música de Noel Rosa há uma história, quase sempre com um toque, sutil ou desbragado, de humor.

Noel Rosa partiu cedo mas “deixou uma obra imensa, impressionantemente rica e vasta, especialmente quando se sabe que seu autor se foi com a idade de Hendrix e Joplin”, finaliza Baleiro.

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Texto publicado na edição de dezembro/2010 do Vias de Fato, ora nas bancas. Com sua reprodução aqui anuncio a reprise de Noel, Rosa secular (com os quatro senhores Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho mais as participações especiais de Célia Maria, Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro): dia 8 de janeiro de 2011 (sábado), às 22h, no Bar Daquele Jeito (Vinhais). Os ingressos custarão R$ 20,00 (metade para estudantes com carteira) e desta vez terão venda antecipada: em breve o blogue dá mais detalhes.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

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