Tropa de Elite 2 documenta drama brasileiro

Drama familiar de Capitão Nascimento desmistifica o herói nacional criado no filme anterior e o leva a repensar seu papel na polícia em filme que aborda o domínio de comunidades por mílicias.

ZEMA RIBEIRO

Tropa de Elite 2 – O inimigo agora é outro é um documentário. Nem venha José Padilha, o grande cineasta brasileiro na atualidade, com essa de “qualquer semelhança é mera coincidência” ou coisa que o valha. O filme, que já nasceu clássico, é, obviamente, a continuação de Tropa de Elite, mas engana-se quem pensa que é a estética da violência que toma conta da tela. É, também, mas não só. E a violência não está ali gratuitamente. O dedo é posto na ferida, sem dó nem piedade, e as entranhas corruptas que regem as relações entre os poderes constituídos no Brasil é exposta, crua e cruelmente. Engana-se quem pensa, por exemplo, que o assunto é exclusividade do Rio de Janeiro. Ou de suas favelas.

Quem viu o primeiro Tropa de Elite, no cinema, ou antes através das muitas cópias “piratas” vendidas em qualquer camelô, que só o tornaram ainda mais popular, ou na televisão, lembra: Capitão Nascimento (brilhantemente interpretado por Wagner Moura em ambos) vira herói nacional ao desancar “vagabundos”, “marginais”, e a “playboyzada” toda que financia o tráfico de drogas, usando métodos nada ortodoxos. À época, ele era o comandante do BOPE, o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar carioca.

Em Tropa de Elite 2 há um profundo mergulho na realidade de favelas cariocas controladas por milícias, formada por agentes ou ex-agentes públicos – policiais, bombeiros, agentes penitenciários. O Estado deixa de cumprir sua função social e constitucional – garantir a segurança pública da população, no caso – para atender aos interesses de pequenos grupos, o que se reflete inclusive (ou principalmente?) no cenário eleitoral: as milícias garantem votos (de cabresto) a políticos corruptos que trabalharão nos parlamentos para garantir sua continuidade. As milícias controlam da distribuição de gás de cozinha ao transporte alternativo, passando pela venda ilegal de TV por assinatura, entre outros, nas cerca de 300 favelas e bairros cariocas em que estão instaladas.

Altas doses de violência (física e psicológica) também se fazem presentes em Tropa de Elite 2. Nascimento é o narrador da película cujos ares hollywoodianos não são os dos clichês. Mas os olhares se invertem: se em Tropa de Elite, o policial não poupava sequer colegas de batalhão – “pede pra sair!” –, a coisa muda de figura em 2, graças a um drama familiar vivido pelo personagem.

Drama – A começar por sua ex-mulher Rosana (vivida por Maria Ribeiro), agora casada com o professor de história, militante de direitos humanos e deputado Diogo Fraga (Irandhir Santos). Este é, por assim dizer, ao menos em boa parte do filme, o “maior inimigo” de Nascimento, que tem uma relação conflituosa com seu filho Rafael (o estreante Pedro Van-Held), agora criado pelo novo casal.

Após dedicar 21 anos de sua vida, o Capitão Nascimento “cai na real” e repensa sobre a impossibilidade de responder à pergunta que o filho lhe fez quando tinha dez anos de idade, sobre o porquê de o trabalho dele ser o de “matar gente”. O policial militar, em processo de expulsão da corporação, justo por denunciar a corrupção arraigada no sistema, acaba colaborando com a CPI presidida por Fraga, que investiga as relações corruptas entre o tráfico de drogas, as polícias e os poderes executivo e legislativo no Rio de Janeiro da “ficção” de Padilha.

O personagem de Irandhir Santos é inspirado no deputado Marcelo Freixo (PSol/RJ), que presidiu uma CPI do crime organizado em 2008. A CPI pediu o indiciamento de mais de 250 envolvidos com as milícias. Hoje 12 homens se revezam para garantir segurança 24h por dia ao deputado e sua família e ao menos dois planos concretos de matá-lo já foram descobertos e desarticulados.

Em Tropa de Elite 2 Nascimento percebe que, mais que o crime que combate nos morros e no asfalto cariocas, está cercado de inimigos – que devem ser combatidos dentro de seu ambiente de trabalho. Ele percebe que problemas como os das milícias não são resolvidos por pura falta de vontade política, pelos interesses particulares em jogo. Assim, parte para outra guerra, ainda mais complexa e perigosa. Alguns “cinéfilos” desavisados, no entanto, podem crer que o capitão continua o truculento brucutu de outrora.

Outros desavisados chegam a aplaudir quando, por exemplo, Nascimento, em uma blitz, dá uma surra – eufemismo – em um deputado corrupto. Outros desavisados ainda podem concordar com o surrado clichê sem sentido de que “direitos humanos (só) defendem bandidos”. “O buraco é mais embaixo”. Deputados corruptos, como de resto quaisquer infratores das leis, devem ser punidos e cumprir suas penas, já estabelecidas em códigos específicos. Particularmente fico com outros ditos populares, clichês não: “violência gera violência” e “gentileza gera gentileza”.

O grande trunfo de Tropa de Elite 2 é justamente desmistificar a questão dos direitos humanos, ao expor as vísceras de um sistema – ou um conjunto de sistemas – entranhado e corroído pela corrupção, aparentemente um caso perdido, sem solução. Eis aí, aliás, uma das premissas da defesa, proteção e promoção dos direitos humanos: não desistir nunca. Assim se reumanizam aqueles que estão brutalizados. De um lado ou de outro.

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Acima, outra colaboração para o Vias de Fato de novembro/2010, sobre outro filme que não ‘tá na programação da 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos da América do Sul. Abaixo, a programação de hoje.

13h30min

Dois mundos, de Thereza Jessouroun
Brasil 15 min 2009 doc

Para os surdos, existem dois mundos entre os quais eles transitam: o mundo do silêncio e o mundo sonoro. Este filme retrata a experiência dos surdos com o mundo sonoro.

América tem alma, de Carlos Azpurua
Bolívia/Venezuela 70 min 2009 doc

O Carnaval de Oruro é destacado como a expressão máxima de alegria, diversidade e reconciliação coletiva da Bolívia. Diferentes setores se encontram e dançam ao som de um coro de vida e morte, no qual – momentaneamente – são eliminados rancores antigos e rivalidades seculares. Mal termina este mágico baile de máscaras, voltam a um ciclo de dominação e opressão… mas, atualmente, os deserdados da terra elevam o punho e a voz para abolir séculos de injustiça. Assim, a alma americana transcende este passado de incerteza e caminha esperançosa com o olhar voltado para as históricas transformações que marcam seu presente.

15h30min

Vlado, 30 anos depois, de João Batista de Andrade
Brasil 85 min 2005 doc

Por meio de depoimentos, o documentário reconstrói o caso de tortura do jornalista Vladimir Herzog, assassinado numa cela do DOI-CODI em São Paulo, em 1975.

17h30min

A história oficial, de Luis Puenzo
Argentina 114 min 1985 ficção

Buenos Aires. Professora de história desconfia que a menina que adotou seja filha de desaparecida política, vítima da repressão militar. O filme argentino mais premiado em todos os tempos.

19h30min

XXY, de Lúcia Puenzo
Argentina/França/Espanha 86 min 2006 ficção

Alex nasceu com as características sexuais de ambos os sexos e, para fugir dos médicos que insistiam em corrigir a ambiguidade genital da criança, seus pais a levam para um vilarejo no Uruguai. Convencidos de que uma cirurgia seria uma violência contra seu corpo, eles vivem retirados numa casa nas dunas. Um dia, recebem a visita de um casal de amigos, que traz com eles o filho adolescente. O pai visitante é especialista em cirurgia estética e se interessa pelo caso clínico da jovem. Enquanto isso, Alex, de 15 anos, e o rapaz, de 16, sentem-se atraídos um pelo outro.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

2 comentários em “Tropa de Elite 2 documenta drama brasileiro”

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