O lendário Monstro Souza

Depois de lançamento na capital carioca, O Monstro Souza, livro de Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos, terá lançamento em São Luís, dentro da programação da IV Feira do Livro.

ZEMA RIBEIRO
EDITOR DE CULTURA


Novo livro de Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos será lançado hoje na programação da Feira do Livro. Capa. Reprodução.

Pensado e repensado há coisa de dez anos, O Monstro Souza – Romance Féstifud ganhou status de lenda cult entre aqueles que o conheciam – ou não. Era, até poucos dias, daquelas obras mais comentadas que lidas, o que é óbvio: como poderia ser lido se ainda não havia sido lançado?

Bruno Azevêdo lançou ano passado Breganejo Blues – Novela Trezoitão. Ambas as obras foram premiadas em categorias diferentes do Plano Editorial Gonçalves Dias, da Secretaria de Estado da Cultura, no começo de 2008. Este repórter, à época, integrou uma das comissões julgadoras que viria a premiá-lo, ele, obviamente, inscrito no concurso sob pseudônimo: era a de O Monstro Souza.

Assim, tive o privilégio de lê-lo antes e, antes, cultuá-lo. A obra que chega ao público via Pitomba – a editora/selo que Azevêdo inventou para publicar suas próprias obras e obras que ou de quem admira – é um pouco diferente da que eu li. O historiador e músico renegou a publicação através dos planos editoriais – O Monstro Souza também é vencedor do Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís, promovido ano a ano pela Fundação Municipal de Cultura da capital maranhense.

“O problema de cultivar um projeto por tantos anos – o Souza tem dez – é que bate um medo recorrente de ver a ideia concretizada por outra pessoa em algum lugar e ficar com aquela cara de plagiário, dando explicações”, declarou o escritor no blogue Romance Féstifud, uma de suas estratégias de marketing. Na página, ele tem postado diferentes ilustrações de O Monstro Souza por diversos artistas dos traços, daqui e de fora – a capa do livro, por exemplo, é obra do genial Marcatti.

O novo livro de Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos conta a história de um cachorro-quente que sofre uma mutação e, aos 1,80m, passa a atuar como serial killer e “lóverboy”. Apesar de gigantesco e horrendo, passa desapercebido, incógnito pelo cotidiano da cidade. É, em certo aspecto, uma homenagem ao cachorro-quente mais famoso da ilha: o do Souza, personagem real nesta obra de ficção, como a própria cidade de São Luís.

“Nojento! Terrível! Tesudo!”, anunciam cartazes pregados em muros e blogues da cidade. A noite de autógrafos de O Monstro Souza acontece hoje (20), às 21h, na Casa do Escritor, integrando a programação da IV Feira do Livro de São Luís (Praça Maria Aragão). Os cartazes anunciam também “sorteio de brindes, cachaça grátis e a presença de lindas modelos”.

O Debate entrevistou Bruno Azevêdo.


O autor conversou com O Debate por e-mail. Foto: divulgação.

ENTREVISTA: BRUNO AZEVÊDO

O Debate – Bruno, como foi o lançamento na ComicCon e OFF ComicCon?

Bruno Azevêdo – Foi massa! Desde o ano passado que entrei nessa de lançar o livro em eventos de quadrinhos [Breganejo Blues foi lançado no FIQ, em Belo Horizonte], eles dão visibilidade ao projeto e são menos fechados que os eventos de literatura como a Flip [a Festa Literária Internacional de Paraty, no Rio de Janeiro], meio que domidados por megaeditoras. Desta vez tive a sorte de muita gente já conhecer o Breganejo [Blues – Novela Trezoitão, livro publicado por Bruno Azevêdo ano passado] e o [O Monstro] Souza gerou uma puta expectativa. Vendi bem, valeram umas resenhas. Acho que fizemos bonito.

O Debate – O Gabriel Girnos, co-autor, participou? E aqui? Ele é um co-autor meio fantasma?

Bruno Azevêdo – O Gabriel mora no Rio e uma das melhores coisas de lançar lá é passar uns dias com ele. A co-autoria com o Gabriel reflete algumas posições que a gente compartilha, acho, sobre a arte e o papel do artista. Na capa do livro escrevemos “Um livro de Bruno Avezêdo e Gabriel Girnos”. O “um livro de” é referência ao cinema, onde um administrador – o diretor – assina uma obra coletiva, num gesto cínico. Eu e o Gabriel assumimos esse cinismo. Na prática ele diagramou o livro, criou graficamente o Monstro e fez algumas das HQs, mas o mais importante pra mim, e é o que define uma autoria, é o envolvimento com a feitura do livro. Foram 10 anos batendo a cabeça nesse conceito e hoje eu olho pro livro e sinceramente não sei o que é meu e o que foi feito sob influência de alguma opinião, dita ou não dita, do Gabriel.

O Debate – O Monstro Souza, antes do lançamento, já gozava de certo status de lenda. Venceu dois concursos literários e por eles você resolveu não publicar a obra, com medo de possível engessamento. Agora realizado, você, menos imparcial impossível, acredita que ele está à altura das expectativas?

Bruno AzevêdoO Monstro adquiriu mesmo uma reputação antes de sair, pela minha insistência em passá-lo prum monte de gente ler ao longo dos anos. Tive a sorte de o livro cair nas mãos de gente que curtiu a ponto de sair por aí apavorando os outros. O intrigante é que o livro que sai agora já não é o livro que a maioria desse pessoal leu. Alguns leitores leram a versão final e disseram que não bateu como antes. Pra mim ficou mais enxuto – cortei 40 páginas pra caber no meu bolso de editor fudido –, mais legal, apesar de o texto em si ainda pedir muitos ajustes, o que eu não estou disposto a fazer por ora. Mas respondendo diretamente, acredito que O Monstro Souza está à altura sim. Espero que esteja ainda mais alto, pra sair por aí dando cascudos.

O Debate – O livro tem lançamento oficial, em São Luís, dentro da programação da Feira do Livro. Você nutre certo desprezo pelo funcionalismo público e é autor de uma série intitulada O matador de funcionários públicos. Não é contraditório você ocupar um espaço público para lançá-lo?

Bruno Azevêdo – Não acho. Eu me valho da Feira como ela de mim e basta ver como o livro foi anunciado na programação da Feira, cheio de erros, pra perceber que meu desprezo tem um pingo de verdade. O matador de funcionários públicos é, por assim dizer, um exercício literário baseado num preconceito; e eu julgo um bom exercício literário e continuarei fazendo e ano que vem devo compilá-los em livro. Basta ver o que os FPs em São Luís fazem em suas repartições com qualquer coisa que envolva literatura – editais, concursos, a Feira em si – pra sacar que não funciona. Você sozinho faria editais e eventos mais interessantes.

O Debate – Em O Monstro Souza, como em Breganejo Blues, sobram citações desprezadas ou relegadas a segundo e terceiro planos pela dita cultura pop. Tua monografia de conclusão de curso [História, UFMA] versou sobre a dita música brega, objeto também de teu estudo no mestrado [Ciências Sociais, UFMA, em curso]. Teu trabalho como músico [Bruno Azevêdo foi contrabaixista da banda Catarina Mina], entretanto, está mais ligado ao universo pop-rock. Seria essa outra contradição em Bruno Azevêdo?

Bruno Azevêdo – Não acho que uma coisa invalide a outra. Eu não tenho cacife, como músico, para tratar o brega com o respeito que merece – como o Cidadão Instigado faz, por exemplo –, mas consigo transitar bem pelo universo punk, pop, etc. etc. Pra mim, estas coisas estão todas dentro da mesma tradição, a das coisas que me afetam e que de uma maneira ou de outra eu falo a respeito.

O Debate – O Monstro Souza mescla romance, HQ e jornalismo. É ficção feita com alguns personagens reais. Demorou dez anos para ficar pronto. O que significou mastigar um cachorro quente de 1,80m por tanto tempo?

Bruno Azevêdo – Esse cachorro-quente acabou virando um fantasma que assombrava vários momentos do meu dia. Fiz dezenas de outras coisas durante O Monstro. Ele quase saiu algumas vezes. Venceu dois concursos e nos dois eu recusei a publicação. Passou uns anos numa grande editora que quase faliu e por todo esse tempo eu voltava pro texto, pra coisa montada e ficava um desconforto principalmente com as pessoas que desenharam pro livro, com o Gabriel que tinha dedicado um tempão a ele. Engraçado que por sugestão do próprio Gabriel, publicamos o Breganejo Blues antes. Mais uma vez ele acertou.

O Debate – Tanto em O Monstro Souza quanto em Breganejo Blues os recursos de colagem usados por ti nos remetem ao genial Valêncio Xavier. O quanto ele te inspira? Quem ou o quê te inspira?

Bruno Azevêdo – A citação textual pra mim geralmente não faz muito sentido se o texto original tiver uma vestimenta gráfica. No Breganejo isso tá lá com o Tex Willer. Não faria sentido copiar as falas do Tex Willer se elas foram feitas em quadrinhos, daí copiei os quadrinhos inteiros. Isso é muito Valêncio Xavier, que de fato é uma referência forte. A revista Dragão Brasil, uma antiga revista de RPG, também é uma influência forte pra mim, pela forma como eles montavam várias linguagens e formas de escrever e apresentar informação. Eu lia aquilo como uma novela. Outros caras que sempre leio são o Josué Montello, o Alan Moore e o Lourenço Mutarelli.

O Debate – As obras bem traduzem isso: Bruno Azevêdo é um liquidificador. Quais os teus livros, discos e filmes favoritos? Ou, se preferir, quais os teus autores, músicos/grupos e cineastas/atores prediletos?

Bruno Azevêdo – Escritores citei três lá em cima [a entrevista foi feita por e-mail e o entrevistado recebeu as perguntas em bloco]. O Chuck Palahniuk também é um cara, mas eu curto muito Jornada nas Estrelas, O Massacre da Serra Elétrica (aquele velho), Pato Fu e Pixies, Rocky Horror Picture Show e Evaldo Braga, mas a lista seria muito grande pra citar.

O Debate – Você já passou na Feira do Livro de São Luís enquanto consumidor, este ano? O que achou?

Bruno Azevêdo – Passei e comprei um livro do Clive Barker por 10 reais. Achei a feira chata, sem atrativos interessantes, sem um elo com o Prêmio Cidade de São Luís, que deveria ter seus vencedores anunciados e publicar seus livros na feira – disseram que vão rolar os lançamentos do ano passado, mas duvido –, ou com alguma produção forte. Absolutamente desconectada com a produção literária atual aqui ou fora. Alguém me disse que o nome “feira” tem que ser tirado do evento, pra acabar com a ilusão de um mercadão do livro barato e tentar criar a ideia de um evento de circulação e discussão literária.

O Debate – A Pitomba, que já publicou Breganejo Blues, Belle Epoque [livro de poemas de Celso Borges] e O Monstro Souza, é uma editora independente. Do que depende o independente Bruno Azevêdo? Isto é, quem banca a Pitomba?

Bruno Azevêdo – Eu. Meu trabalho com um monte de outras coisas banca os livros. No caso dO Monstro, o Souza contribuiu. Isso e a paciência infinita da Karla, minha esposa. Tenho fortes restrições a leis de incentivo e sou um péssimo empresário. A Pitomba, pra mim, é uma declaração de existência.

O Debate – Tu, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha estão tramando o lançamento de uma revista literária chamada Pitomba! O que pode nos adiantar sobre a publicação? Qual a previsão de lançamento?

Bruno Azevêdo – A Pitomba! deve ficar pro começo do ano que vem – já está atrasadíssima. A ideia é coletar textos e imagens de pessoas que nós gostamos como Carolina Mello e Ricardo Sanchez, além de nossos próprios textos e imagens. A primeira edição terá algumas traduções, um conto meu e um poema longo do Celso.

O Debate – Você vive uma relação de amor e ódio com São Luís, cidade cenário e personagem de teus livros. O que você mais ama e o que você mais odeia na cidade?

Bruno Azevêdo – Eu não sei mais o que eu amo na cidade, cada dia ela fica mais escrota e inóspita. Dia desses fui na rua onde cresci e me toquei, depois de 30 anos, que ela não tem UMA árvore. Sabe por que demorei 30 anos pra me tocar disso? Porque não ter árvores em nossa malha urbana é natural. Minha relação com São Luís vai por aí, é meio essa relação de corno do Júlio Nascimento [ícone da música brega].

O Debate – Como Souza do Cachorro Quente recebeu a notícia do livro? Além de ser um personagem, que outra participação efetiva ele teve na feitura do livro?

Bruno Azevêdo – Sem o Souza o livro não existiria em vários sentidos. Além de patrocinar parte da publicação, ele pilhou por anos para que o livro fosse às ruas. Muita gente o procurava para saber do livro e algumas cenas eu incluí com base nas histórias que ele ouviu falar do livro. No final ele sentou comigo e disse: “vamo lá”? E eu respondi “vamo!”.

O Debate – O que pode esperar o público que comparecer hoje (20), às 21h, à “inacreditável festa de lançamento”, como anuncia o cartaz pregado em algumas paredes e blogues da cidade, na Casa do Escritor (Praça Maria Aragão)?

Bruno Azevêdo – Um show de atrações com música e dança, pipoca, balões, uma super-decoração digna das melhores quermesses, cachaça grátis, cachorro-quente grátis pra quem comprar o livro e a presença de lindas modelos! Se a coordenação da Feira não nos expulsar, faremos um festão. Levem suas radiolas!

[N’O Debate de hoje, sobre o lançamento de um livro revisado por mim e pela Karla Freire. Para que não me acusem de “parcialidade” no futuro: façam-no logo agora! E ‘té a noite!]

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

11 comentários em “O lendário Monstro Souza”

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