Semana Noel Rosa


Ilustração: Mauricio Benega

“Em dezembro, o amigo Noel Rosa, já tuberculoso (tinha apenas 24 anos de idade) ,viajou para Belo Horizonte em busca de recuperação. Quando Almirante ia iniciar uma série de programas sobre Noel na Rádio Tupi, no início dos anos 50, escreveu para o compositor mineiro Rômulo Paes, pedindo subsídios sobre a passagem dele pela cidade. A resposta veio imediatamente:

“Chegou Noel no mês de agosto de 1934 [Rômulo se enganou. Foi no fim de dezembro]. Hospedou-se na casa do seu tio, que morava na Rua Silva Jardim, bairro da Floresta, perto da estação da Central do Brasil. Veio a fim de reestabelecer-se, pois o nosso clima é bom para o tratamento da sua enfermidade (estava fraco do pulmão).

Mas nada demoveu o boêmio Noel das noitadas alegres, junto à turma do Rádio, que, em 1934, estava começando a gostar de samba. Até os grã-finos, que tinham medo quando se falava em música do morro. Na turma de Rádio de Minas Gerais daquele tempo, havia vários estudantes universitários: Nélson Orsini, Paulo Lessa, Saulo Diniz, Mário Serra, Roberto Cesti, Tancredinho, José Vaz e outros.

Passou Noel quatro meses e meio entre nós, no bar do Cine Brasil, onde havia um piano velho e onde a turma tomava os seus chopes. Um dia apareceu lá o Hervê Cordovil e ele e Noel fizeram aquele samba Triste cuíca. Noel escreveu a letra num maço de cigarros Liberty Ovaes. Numa outra noite, Noel cantou a noite inteira na Praça Tiradentes, ponto elegante da capital mineira, e, quando caminhava para a Rua Silva Jardim, ‘capotou’ debaixo do Viaduto Floresta. Dormiu com o violão ao lado. Chegou o guarda e quis prendê-lo: “Mas, seu guarda, eu sou o Noel Rosa!” ‘Não tem importância. O senhor está preso. Cadê os documentos?’ Noel meteu a mão no bolso e tirou a letra do samba João-ninguém. O guarda meditou, olhou para os lados e pediu: ‘Dá um ré maior’, tirando uma flautinha do bolso e tocando, em seguida, o choro Os pintinhos no terreiro. Ficaram lá até as nove da manhã.

Ele cantava muito na Rádio Mineira. Quanto não estava no microfone, ia para o telefone passar trotes.”

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Com o trecho acima (p. 106), extraído de No tempo de Almirante / Uma história do rádio e da MPB [Lumiar Editora/Chediak Arte & Comunicação, 2005], de Sérgio Cabral, inicio a, vamos chamar assim, Semana Noel Rosa (que terá uns doze dias). Escreverei cá no blogue, vez em quando até a data do tributo, sobre o gênio que, subido aos 26 do primeiro tempo, completaria 100 anos no próximo dia 11 de dezembro, data em que receberá merecida e especialíssima homenagem de Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, no show Noel, Rosa secular, sobre o que também daremos detalhes por aqui.

Aberta ontem 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul

Este blogue comenta brevemente a noite de abertura da Mostra. Ao fim do post, programação de hoje.

Poucas vezes em minha vida vi o Cine Praia Grande tão cheio quanto ontem, na abertura da 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, que somente nesta edição chega à São Luís: todos os lugares do cinema estavam ocupados e pessoas, devidamente avisadas antes de, ocupavam, em pé, os corredores laterais da única sala que foge da rota comercial e/ou dos padrões hollywoodianos – por isso também, simbolicamente escolhida pela produção local para abrigar o evento.

Cheguei pouco antes das 18h e pequena fila já se formava para garantir o acesso à sessão inaugural – bom, houve uns poucos que quiseram apenas garantir o kit chique: uma sacola com o catálogo da Mostra, bloquinho de anotações, lápis, cartaz e uma linda camisa verde com a logomarca do evento. Mas, digamos que a maioria absoluta dos ali presentes estava mesmo ávida pelos filmes: da fala dos representantes das entidades e organizações envolvidas com a realização da Mostra até os créditos do segundo filme, a sala, um tanto quente, permaneceu lotada.

Ceres Costa Fernandes, diretora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, tradicional espaço cultural da Praia Grande que abriga o Cine Praia Grande, foi a primeira convidada pelo cerimonial a dar as boas vindas ao público, em nome da casa. Cometeu duas gafes: foi “politicamente incorreta” ao dar boa noite somente “a todos” e esqueceu o nome da “5ª. Mostra…”, sendo socorrida por alguém do cerimonial, “… 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul”, leu num catálogo que lhe entregaram.

Perdão, Mister Fiel, segundo filme da noite de estreia da Mostra é documento fortíssimo sobre os porões da ditadura militar e conta até com depoimento inédito do ex-presidente Ernesto Geisel – em áudio. José Sarney deixou o público presente entre o muxoxo e a vaia quando de sua primeira aparição na tela. Lula e Fernando Henrique Cardoso são outros ex-presidentes que aparecem no filme, entre parentes do operário Manoel Fiel Filho, o personagem-título torturado até a morte nos porões do DOI-CODI, intelectuais e ativistas de direitos humanos. O ponto forte são os depoimentos de um ex-agente do DOI-CODI.

Já perdi a sessão das 13h30min (horário de início da programação todos os dias até seu encerramento, no próximo domingo) e deixei os poucos-mas-fieis leitores deste blogue sem as infos sobre ela. Abaixo a programação de hoje da 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos da América do Sul em São Luís (incluindo a sessão perdida). E tornamos a repetir: toda a programação é gratuita. Basta chegar meia hora antes e retirar o ingresso na bilheteria do CPG.

13h30min

A Verdade Soterrada, de Miguel Vassy (Uruguai/Brasil, 56min, 2009, doc)

Foram mais de vinte anos de impunidade e silêncio forçado por ameaças e medo. Porém, as ditaduras do Cone Sul não conseguiram apagar todas as provas dos seus crimes. Hoje, a sociedade uruguaia discute de que forma se deve desenterrar esse passado e promover a justiça. A Verdade Soterrada resgata os testemunhos das vítimas do terrorismo de Estado em busca da verdade.

Rosita não se desloca, de Alessandro Acito e Leonardo Valderrama (Colômbia/Itália, 52min, 2009, doc)

Há 50 anos a Colômbia vive uma violenta e covarde guerra civil. As Farc e o exército do governo se enfrentam. Além disso, estão presentes no país inúmeros outros grupos armados de esquerda, gangues e paramilitares. Para todos, o país é hoje sinônimo de narcotráfico. Todos conhecem a história de Ingrid Betancourt e muitos sabem que é apenas uma pequena ponta desse enorme iceberg. Mas, se por acaso, um dia você for além das crônicas e notícias de jornais e de televisão, se você passear pelas belas ruas de Bogotá, verá o aspecto menos conhecido e mais absurdo dessa guerra. Nesse momento, encontrará histórias extraordinárias como a de Rosita Poveda, pequena agricultora indígena, com a cabeça cheia de “guevarismo” e agronomia, mulher de mãos grandes e sorriso completo. Há cinco anos ela limpa e cultiva um pedaço de terra doado por um arquiteto – localizado na periferia da capital – que servia como depósito de lixo e entulhos, além de refúgio para ladrões. Sem “plata”, mas com muito trabalho e garra, ela transformou o depósito de entulhos numa comunidade agrícola indígena e hoje, com sua associação, ensina práticas de agricultura orgânica para a população e estudantes universitários de toda a América do Sul.

15h30min

Ensaio de cinema, de Allan Ribeiro (Brasil, 15min, 2009, ficção)

Ele dizia que o filme começava com uma câmera muito suave, com um zoom muito delicado, e avançava em busca de Barbot.

108, de Renate Costa (Paraguai/Espanha, 91min, 2010, doc)

De todos os meus tios, Rodolfo foi o único que não quis ser ferreiro como meu avô: queria ser bailarino. A busca pelos rastros de sua vida leva a descobrir que, na década de 1980, no Paraguai da ditadura Stroessner, Rodolfo foi incluído em uma das “108 listas de homossexuais”, tendo sido preso e torturado. A história de Rodolfo revela uma parte da história oculta e silenciada de meu país. Em 108, duas gerações se enfrentam cara a cara, e o resultado permite que cada um de nós entenda seu lugar no mundo.

17h30min

A batalha do Chile II – O golpe de Estado, de Patricio Guzmán (Chile/Cuba/Venezuela/França, 90min, 1975, doc)

No período de março a setembro de 1973, a esquerda e a direita se enfrentam nas ruas, nas fábricas, nos tribunais, nas universidades, no parlamento e nos meios de comunicação. A situação torna-se insustentável. Os Estados Unidos financiam a greve dos motoristas de caminhão e incitam o caos social. Allende tenta conseguir um acordo com as forças da Democracia Cristã, mas fracassa. As contradições da esquerda aumentam a crise. Os militares começam a conspirar em Valparaíso. Um amplo setor da classe média fomenta o boicote e a guerra civil. No dia 11 de setembro, Pinochet bombardeia o Palácio do Governo.

19h30min

Abutres, de Pablo Trapero (Argentina/Chile/França/Coreia do Sul, 107min, 2010, ficção)

Na Argentina, os “caranchos” são os advogados que procuram as vítimas de trânsito para tirar a maior indenização possível das seguradoras e ficar com uma gorda comissão. Segundo as estatísticas, mais de 8 mil pessoas morrem em acidentes de trânsito no país. Um advogado especialista em lucrar com esse mercado passa a repensar seu trabalho quando se apaixona por uma jovem médica que cuida dos feridos em acidentes. Ela não aceita que ele continue nesse trabalho; em nome dela, ele tentará tomar outro rumo. Como na máfia, porém, há toda uma organização por trás, e eles não conseguem sair de uma espiral de violência.

Classificações indicativas e maiores detalhes, vide site da Mostra, onde pode ser baixado seu catálogo completo.

É hoje!

A cantoramiga Lena Machado enfeitiça a plateia do Feitiço Mineiro, em Brasília/DF, no show Samba de Minha Aldeia, em que canta parte do repertório de seu novo disco, e outras pérolas da música brasileira.

Ela será acompanhada por um time de bambas pra ninguém botar defeito: Marcio Bezerra (sax e clarinete), Luiz Jr. (violão sete cordas), Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho) e Carlos Pial, os três últimos maranhenses, o último atualmente radicado em Brasília.


Cliquem para ampliar

Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul chega pela primeira vez à São Luís

Programação tem início hoje no Cine Praia Grande e segue até domingo (5). Mais de 40 filmes serão exibidos em uma semana. Todas as sessões têm entrada franca.

Em sua quinta edição, a Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul chega pela primeira vez à São Luís. Realização da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH-PR), a mostra é produzida pela Cinemateca Brasileira, com patrocínio da Petrobras. Serão sete dias de exibições de filmes que têm os direitos humanos como tema, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com entrada franca.

“A mostra vem crescendo ao longo dos anos, por isso a capital maranhense só a recebe agora. Ano passado ela chegou a 16 capitais, este ano são 20. Sua próxima edição certamente chegará a todas as capitais do país”, entusiasma-se o cineasta e professor universitário Francisco Colombo, produtor local da mostra.

Exceto hoje, quando a sessão de abertura está marcada para 19h30min, a programação até o próximo dia 5 de dezembro (domingo), tem início às 13h30min. Vidas deslocadas, de João Marcelo Gomes, e Perdão, Mister Fiel, de Jorge Oliveira, serão exibidos na sessão inaugural da mostra.

A maioria dos filmes nunca foi exibida em São Luís – e alguns somente agora estreiam no Brasil. A seleção dos trabalhos incluídos na 5ª. Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul levou em conta o caráter artístico dos mesmos: os filmes não têm caráter panfletário e, por vezes, os direitos humanos são trazidos à tela de maneira transversal.

Todos os mais de 40 filmes que compõem a programação da mostra serão exibidos em closed caption e haverá sessões com audiodescrição, voltadas ao público com deficiência visual – estas acontecerão dias 1º. (quarta-feira) e 2, ambas às 13h30min. Dez países sul-americanos estão representados por produções.

A 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul visitará as 20 capitais brasileiras do circuito até o próximo dia 19 de dezembro. Este blogue, ao longo da semana de sua realização em São Luís – entre hoje e domingo (5), trará outras notícias sobre o evento.

Veja abaixo as sinopses dos dois filmes de sua sessão de abertura.

Vidas deslocadas, de João Marcelo Gomes (Brasil, 13min, 2009, doc)

Os palestinos são o único povo reconhecido pela república socialista do Iraque como refugiados. Após a queda de Saddam Hussein, eles perderam o direito de permanecer naquele país. Faez Abbas e Salha Nasser saíram do país em 2003 e, durante quatro anos, viveram em campos de refugiados em Al-Ruweyshed, entre o Iraque e a Jordânia. Em setembro de 2007 o casal foi reassentado no Brasil, junto a outros 120 refugiados palestinos. De acordo com a ONU, existem atualmente cerca de 4,7 milhões de refugiados palestinos no mundo todo.

Perdão, Mister Fiel, de Jorge Oliveira (Brasil, 95min, 2009, doc)

A morte sob tortura do operário comunista Manoel Fiel Filho por agentes da repressão, em 1976, nos porões do DOI-CODI de São Paulo, é a base do documentário que discute a intervenção dos Estados Unidos nos países da América do Sul, nas décadas de 1970 e 80, e a caça impiedosa aos comunistas, por meio da “Operação Condor”, idealizada pela CIA, e adotada pelo regime do general chileno Augusto Pinochet. Com entrevistas realizadas no Brasil, Estados Unidos, Chile e Argentina, trinta personalidades, entre as quais três presidentes do Brasil, além de historiadores, escritores, militantes dos Direitos Humanos, ex-presos e exilados políticos contam suas experiências pessoais e analisam o contexto político nacional e internacional que motivou a barbárie da ditadura militar. Uma gravação inédita do ex-presidente Ernesto Geisel revela a repercussão da morte de Manoel Fiel Filho nos bastidores do governo militar, e que culminou com a demissão do General Ednardo, Comandante do II Exército na época. Pela primeira vez, um documentário conta como morreram alguns jovens que se rebelaram contra a ditadura militar no Brasil.

No site da mostra pode ser baixado seu catálogo completo.

Hoje: Mombojó na Ilha

Ainda há quem me pergunte o que é Mombojó, o que acho muito natural.

Eu tento explicar. E classifico a banda mais ou menos assim: é uma banda pernambucana, pós-mangue, pop, com acento jovem-guardesco. Muito interessante!

E arremato com a dica: no site deles, os três discos estão disponíveis para download gratuito e legal.

Não mensuro o quanto de sucesso tenho, nem na explicação, nem no incentivo às pessoas ao download (e enquanto escrevo acá en el bloguito e acesso a página do Mombojó na internet, percebo que os discos não estão disponíveis, mas há um ensaio e um show com China disponíveis para a baixa dos interessados).

Amigo do tempo (2010), o disco mais recente, é o que menos ouvi deles (baixe clicando no título). O nome talvez traduza a maturidade necessária para lidar com a carreira e com a saída de um membro da banda e a subida de outro: o flautista Rafa subiu aos vinte e poucos do primeiro tempo.

Homem espuma, o segundo disco dos pernambucanos, é considerado pela crítica especializada como um disco médio. Como a crítica aqui não é especializada, o disco entrou num top 5 que fiz em 2006, ano de seu lançamento.

E eis o disco que me levou à paixão pelo Mombojó: Nadadenovo, a estreia de 2004, era uma contradição em termos, por que havia sim, novidades ali, a própria banda, uma, a primeira. Já há ali uma pegada meio Del Rey, o projeto paralelo em que o Mombojó se soma à China para fazer covers de Roberto Carlos (o que meio que sustenta a banda, com shows concorridíssimos Brasil adentro).

Música que não me sai da cabeça, dessa estreia, é Merda: “eu já caí/ já ‘tou no chão/ e ‘tou torcendo pra você/ ficar na merda/ como eu também estou/ nessa merda”, o clima leve e inocente da jovem guarda por trás de tudo.

São Luís é a última capital maranhense a receber o Mombojó. O show deles acontece hoje, dentro do I Mulambo Festival, no Circo Cultural Nelson Brito (Circo da Cidade, Aterro do Bacanga, ao lado do Terminal de Integração da Praia Grande), a partir das 20h. A produção (da Lima Dias Turismo) promete iniciar no horário. Os ingressos (R$ 30,00 inteira e R$ 15,00 para estudantes com carteira) podem ser adquiridos na Bunny’s e no local. Outras atrações da noite são as bandas locais Pedra Polida, Nova Bossa, Megazines, Garibaldo e o Resto do Mundo, Farol Vermelho e Ventura (cover da Los Hermanos), além do DJ Alladin.

Como cantaria Chico Science, ilustre conterrâneo do Mombojó: “mulambo eu/ mulambo tu”.

DISPARATE


Este blogueiro e Bruno Rogens entre os locutores do programa durante sua gravação. Foto: divulgação

E bem antes do I Mulambo Festival, logo mais às 11h, na Rádio Universidade FM (106,9MHz), eu e o professor Bruno Rogens somos os convidados do Disparate. Na ocasião a gente comenta o preconceito contra nordestinos, assunto que recentemente tomou conta do tuiter.

Ato público é arbitrariamente repudiado em Dom Pedro/MA

Manifestantes entregaram abaixo-assinado com mais de cinco mil assinaturas a representantes do Tribunal Popular do Judiciário. Documento exige afastamento imediato do juiz Thales Ribeiro de Andrade da magistratura.

POR ZEMA RIBEIRO*
DO TRIBUNAL POPULAR DO JUDICIÁRIO

Na última terça-feira, durante manifestação em Dom Pedro, o estudante universitário Marcos Robério dos Santos, o professor Dimas dos Santos e o juiz aposentado compulsoriamente Jorge Moreno, todos ligados às Redes e Fóruns de Cidadania do Maranhão, foram arbitrariamente presos. Nenhum deles recebeu cópia do mandado de prisão e foram soltos cerca de três horas após o encarceramento.

O episódio é, no mínimo, uma clara demonstração de abuso de autoridade: somente após seus recolhimentos ao cárcere, mandados de prisão eram “fabricados” para garantir a “legalidade” do ato: “ordens do juiz”, era como se justificavam os policiais militares e o delegado local.

Prisão anunciada – Entre os três presos, Dimas dos Santos, morador de Cantanhede, foi o segundo conduzido ao camburão – eram cinco: dois da Polícia Militar de Dom Pedro, um da PM de Presidente Dutra e dois da Força Tática. A ação repressora chegou a contar com mais de vinte policiais militares fortemente armados – metralhadoras chegaram a ser desembainhadas.


Chegou a mais de vinte o número de homens da Polícia Militar para conter uma manifestação pacífica em Dom Pedro

O mandado de prisão foi procurado pelos manifestantes. Depois de bate-boca com policiais, o documento foi apresentado: trazia os nomes de Vera Lúcia Alves Ferreira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Dom Pedro, Joselândia, Santo Antônio dos Lopes e Senador Alexandre Costa (Sinserpdom), e Gessildo Leite Ferreira, secretário de finanças do Sindicato. A polícia “confiscou” a carteira de identidade de Dimas para posterior “fabricação” de seu mandado de prisão – o que só ocorreu após o mesmo chegar à delegacia.

Perseguição – Vera Lúcia há tempos vem sendo perseguida pelo juiz Thales Ribeiro de Andrade, da comarca de Dom Pedro, atualmente respondendo também por Santo Antônio dos Lopes – procurado pela reportagem, era onde o mesmo estava, em audiência, na manhã de hoje (25).

Após uma greve deflagrada pelo Sindicato em Dom Pedro, uma ordem judicial determinava o retorno dos professores às suas atividades, sob pena de multa diária de cinco mil reais. Após 14 dias o mesmo resolveu executar a multa: em vez da execução recair sobre o patrimônio do sindicato, uma motocicleta do cunhado da presidente do Sindicato, usada por ela, foi apreendida e, de acordo com o juiz, cobria um dia de multa. Os outros 13 dias, portanto, 65 mil reais, seriam descontados do salário da professora Vera Lúcia: 30% dos vencimentos bloqueados mensalmente, ela passaria os próximos 16 anos e meio “pagando o pato”. O leilão da moto está marcado para hoje (25).


Faixa carregada por manifestantes (detalhe)

Na manifestação de terça-feira passada (23) o carro de som – um trio elétrico – alugado pelo Sinserpdom foi apreendido sob a alegação de “baderna”. O recolhimento se deu antes mesmo de qualquer uso: tendo chegado antecipadamente ao local da manifestação, a estrutura de som sequer chegou a ser usada. Tanto o veículo quanto seu condutor estavam com os documentos em dia, conforme apurado pela reportagem.

Em caráter de improviso, o Sindicato alugou uma bicicleta de som que seria apreendida em sequência – conforme o ridículo mandado de busca e apreensão expedido pelo juiz não há um motivo para tal, a não ser a bicicleta “pertencer” ao Sindicato, que estava apenas locando-a.

Outras denúncias – O juiz Thales Ribeiro de Andrade vem sistematicamente sendo denunciado por desmandos cometidos à frente da comarca de Dom Pedro. Por dar aulas em uma faculdade particular em São Luís já recebeu pena de advertência do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ/MA). Teve diárias de hotel pagas pela prefeitura de Dom Pedro com recursos do Fundef, comprovado pela Controladoria Geral da União (CGU). Mais recentemente esteve envolvido em outro episódio escandaloso: a venda de psicotrópicos apreendidos para farmacêuticos da região em que atua.


Cerca de 300 pessoas participaram de ato público de repúdio ao juiz Thales Ribeiro em Dom Pedro

A manifestação de terça-feira passada demonstra a intolerância da população com os desmandos do senhor juiz: cerca de 300 pessoas participaram do ato público, que tinha por objetivo entregar a representantes do Tribunal Popular do Judiciário um abaixo assinado com mais de cinco mil assinaturas, exigindo o afastamento imediato de Thales Ribeiro de Andrade da magistratura.

Diz o dito popular que “a justiça é cega”. Resta saber se a do Maranhão continuará se fingindo de surda aos anseios populares.

*ZEMA RIBEIRO é assessor de comunicação da Cáritas Brasileira Regional Maranhão

[transcrevo acá matéria escrita pro blogue do Tribunal Popular do Judiciário. Lá, sei lá por que cargas d’água, os vídeos não carregaram]

Cacuriando no Rio

Depois de Lena Machado em Brasília, Rosa Reis e o Cacuriá de Dona Teté levam nossa cultura popular ao Rio de Janeiro.

Que a dança tipicamente maranhense possa (re-)anunciar a paz por lá, e que aquela cidade continue linda.

Mais, abaixo, cliquem para ampliar.

O Feitiço de Lena Machado

Mais suspeito para falar impossível: colega de trabalho, assessor de comunicação e amigo pessoal, não necessariamente nessa ordem, recomendo, a quem me lê de Brasília, o show Samba de Minha Aldeia, que a amiga, redundo, Lena Machado apresenta nesta terça-feira, 30, no misto de bar e casa de espetáculos Feitiço Mineiro, na capital federal. O show, que leva o mesmo nome de seu segundo disco, não se limitará ao repertório daquele: além de músicas de Samba de Minha Aldeia, ela levará João do Vale, Chico Maranhão, Mirabô, Baden Powell e Chico Buarque, entre outros, ao palco brasiliense.

Mais não digo. Ou melhor, digo em breve. E o e-flyer ficou bonito paca, hein? Cliquem para ampliar!

O lendário Monstro Souza

Depois de lançamento na capital carioca, O Monstro Souza, livro de Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos, terá lançamento em São Luís, dentro da programação da IV Feira do Livro.

ZEMA RIBEIRO
EDITOR DE CULTURA


Novo livro de Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos será lançado hoje na programação da Feira do Livro. Capa. Reprodução.

Pensado e repensado há coisa de dez anos, O Monstro Souza – Romance Féstifud ganhou status de lenda cult entre aqueles que o conheciam – ou não. Era, até poucos dias, daquelas obras mais comentadas que lidas, o que é óbvio: como poderia ser lido se ainda não havia sido lançado?

Bruno Azevêdo lançou ano passado Breganejo Blues – Novela Trezoitão. Ambas as obras foram premiadas em categorias diferentes do Plano Editorial Gonçalves Dias, da Secretaria de Estado da Cultura, no começo de 2008. Este repórter, à época, integrou uma das comissões julgadoras que viria a premiá-lo, ele, obviamente, inscrito no concurso sob pseudônimo: era a de O Monstro Souza.

Assim, tive o privilégio de lê-lo antes e, antes, cultuá-lo. A obra que chega ao público via Pitomba – a editora/selo que Azevêdo inventou para publicar suas próprias obras e obras que ou de quem admira – é um pouco diferente da que eu li. O historiador e músico renegou a publicação através dos planos editoriais – O Monstro Souza também é vencedor do Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís, promovido ano a ano pela Fundação Municipal de Cultura da capital maranhense.

“O problema de cultivar um projeto por tantos anos – o Souza tem dez – é que bate um medo recorrente de ver a ideia concretizada por outra pessoa em algum lugar e ficar com aquela cara de plagiário, dando explicações”, declarou o escritor no blogue Romance Féstifud, uma de suas estratégias de marketing. Na página, ele tem postado diferentes ilustrações de O Monstro Souza por diversos artistas dos traços, daqui e de fora – a capa do livro, por exemplo, é obra do genial Marcatti.

O novo livro de Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos conta a história de um cachorro-quente que sofre uma mutação e, aos 1,80m, passa a atuar como serial killer e “lóverboy”. Apesar de gigantesco e horrendo, passa desapercebido, incógnito pelo cotidiano da cidade. É, em certo aspecto, uma homenagem ao cachorro-quente mais famoso da ilha: o do Souza, personagem real nesta obra de ficção, como a própria cidade de São Luís.

“Nojento! Terrível! Tesudo!”, anunciam cartazes pregados em muros e blogues da cidade. A noite de autógrafos de O Monstro Souza acontece hoje (20), às 21h, na Casa do Escritor, integrando a programação da IV Feira do Livro de São Luís (Praça Maria Aragão). Os cartazes anunciam também “sorteio de brindes, cachaça grátis e a presença de lindas modelos”.

O Debate entrevistou Bruno Azevêdo.


O autor conversou com O Debate por e-mail. Foto: divulgação.

ENTREVISTA: BRUNO AZEVÊDO

O Debate – Bruno, como foi o lançamento na ComicCon e OFF ComicCon?

Bruno Azevêdo – Foi massa! Desde o ano passado que entrei nessa de lançar o livro em eventos de quadrinhos [Breganejo Blues foi lançado no FIQ, em Belo Horizonte], eles dão visibilidade ao projeto e são menos fechados que os eventos de literatura como a Flip [a Festa Literária Internacional de Paraty, no Rio de Janeiro], meio que domidados por megaeditoras. Desta vez tive a sorte de muita gente já conhecer o Breganejo [Blues – Novela Trezoitão, livro publicado por Bruno Azevêdo ano passado] e o [O Monstro] Souza gerou uma puta expectativa. Vendi bem, valeram umas resenhas. Acho que fizemos bonito.

O Debate – O Gabriel Girnos, co-autor, participou? E aqui? Ele é um co-autor meio fantasma?

Bruno Azevêdo – O Gabriel mora no Rio e uma das melhores coisas de lançar lá é passar uns dias com ele. A co-autoria com o Gabriel reflete algumas posições que a gente compartilha, acho, sobre a arte e o papel do artista. Na capa do livro escrevemos “Um livro de Bruno Avezêdo e Gabriel Girnos”. O “um livro de” é referência ao cinema, onde um administrador – o diretor – assina uma obra coletiva, num gesto cínico. Eu e o Gabriel assumimos esse cinismo. Na prática ele diagramou o livro, criou graficamente o Monstro e fez algumas das HQs, mas o mais importante pra mim, e é o que define uma autoria, é o envolvimento com a feitura do livro. Foram 10 anos batendo a cabeça nesse conceito e hoje eu olho pro livro e sinceramente não sei o que é meu e o que foi feito sob influência de alguma opinião, dita ou não dita, do Gabriel.

O Debate – O Monstro Souza, antes do lançamento, já gozava de certo status de lenda. Venceu dois concursos literários e por eles você resolveu não publicar a obra, com medo de possível engessamento. Agora realizado, você, menos imparcial impossível, acredita que ele está à altura das expectativas?

Bruno AzevêdoO Monstro adquiriu mesmo uma reputação antes de sair, pela minha insistência em passá-lo prum monte de gente ler ao longo dos anos. Tive a sorte de o livro cair nas mãos de gente que curtiu a ponto de sair por aí apavorando os outros. O intrigante é que o livro que sai agora já não é o livro que a maioria desse pessoal leu. Alguns leitores leram a versão final e disseram que não bateu como antes. Pra mim ficou mais enxuto – cortei 40 páginas pra caber no meu bolso de editor fudido –, mais legal, apesar de o texto em si ainda pedir muitos ajustes, o que eu não estou disposto a fazer por ora. Mas respondendo diretamente, acredito que O Monstro Souza está à altura sim. Espero que esteja ainda mais alto, pra sair por aí dando cascudos.

O Debate – O livro tem lançamento oficial, em São Luís, dentro da programação da Feira do Livro. Você nutre certo desprezo pelo funcionalismo público e é autor de uma série intitulada O matador de funcionários públicos. Não é contraditório você ocupar um espaço público para lançá-lo?

Bruno Azevêdo – Não acho. Eu me valho da Feira como ela de mim e basta ver como o livro foi anunciado na programação da Feira, cheio de erros, pra perceber que meu desprezo tem um pingo de verdade. O matador de funcionários públicos é, por assim dizer, um exercício literário baseado num preconceito; e eu julgo um bom exercício literário e continuarei fazendo e ano que vem devo compilá-los em livro. Basta ver o que os FPs em São Luís fazem em suas repartições com qualquer coisa que envolva literatura – editais, concursos, a Feira em si – pra sacar que não funciona. Você sozinho faria editais e eventos mais interessantes.

O Debate – Em O Monstro Souza, como em Breganejo Blues, sobram citações desprezadas ou relegadas a segundo e terceiro planos pela dita cultura pop. Tua monografia de conclusão de curso [História, UFMA] versou sobre a dita música brega, objeto também de teu estudo no mestrado [Ciências Sociais, UFMA, em curso]. Teu trabalho como músico [Bruno Azevêdo foi contrabaixista da banda Catarina Mina], entretanto, está mais ligado ao universo pop-rock. Seria essa outra contradição em Bruno Azevêdo?

Bruno Azevêdo – Não acho que uma coisa invalide a outra. Eu não tenho cacife, como músico, para tratar o brega com o respeito que merece – como o Cidadão Instigado faz, por exemplo –, mas consigo transitar bem pelo universo punk, pop, etc. etc. Pra mim, estas coisas estão todas dentro da mesma tradição, a das coisas que me afetam e que de uma maneira ou de outra eu falo a respeito.

O Debate – O Monstro Souza mescla romance, HQ e jornalismo. É ficção feita com alguns personagens reais. Demorou dez anos para ficar pronto. O que significou mastigar um cachorro quente de 1,80m por tanto tempo?

Bruno Azevêdo – Esse cachorro-quente acabou virando um fantasma que assombrava vários momentos do meu dia. Fiz dezenas de outras coisas durante O Monstro. Ele quase saiu algumas vezes. Venceu dois concursos e nos dois eu recusei a publicação. Passou uns anos numa grande editora que quase faliu e por todo esse tempo eu voltava pro texto, pra coisa montada e ficava um desconforto principalmente com as pessoas que desenharam pro livro, com o Gabriel que tinha dedicado um tempão a ele. Engraçado que por sugestão do próprio Gabriel, publicamos o Breganejo Blues antes. Mais uma vez ele acertou.

O Debate – Tanto em O Monstro Souza quanto em Breganejo Blues os recursos de colagem usados por ti nos remetem ao genial Valêncio Xavier. O quanto ele te inspira? Quem ou o quê te inspira?

Bruno Azevêdo – A citação textual pra mim geralmente não faz muito sentido se o texto original tiver uma vestimenta gráfica. No Breganejo isso tá lá com o Tex Willer. Não faria sentido copiar as falas do Tex Willer se elas foram feitas em quadrinhos, daí copiei os quadrinhos inteiros. Isso é muito Valêncio Xavier, que de fato é uma referência forte. A revista Dragão Brasil, uma antiga revista de RPG, também é uma influência forte pra mim, pela forma como eles montavam várias linguagens e formas de escrever e apresentar informação. Eu lia aquilo como uma novela. Outros caras que sempre leio são o Josué Montello, o Alan Moore e o Lourenço Mutarelli.

O Debate – As obras bem traduzem isso: Bruno Azevêdo é um liquidificador. Quais os teus livros, discos e filmes favoritos? Ou, se preferir, quais os teus autores, músicos/grupos e cineastas/atores prediletos?

Bruno Azevêdo – Escritores citei três lá em cima [a entrevista foi feita por e-mail e o entrevistado recebeu as perguntas em bloco]. O Chuck Palahniuk também é um cara, mas eu curto muito Jornada nas Estrelas, O Massacre da Serra Elétrica (aquele velho), Pato Fu e Pixies, Rocky Horror Picture Show e Evaldo Braga, mas a lista seria muito grande pra citar.

O Debate – Você já passou na Feira do Livro de São Luís enquanto consumidor, este ano? O que achou?

Bruno Azevêdo – Passei e comprei um livro do Clive Barker por 10 reais. Achei a feira chata, sem atrativos interessantes, sem um elo com o Prêmio Cidade de São Luís, que deveria ter seus vencedores anunciados e publicar seus livros na feira – disseram que vão rolar os lançamentos do ano passado, mas duvido –, ou com alguma produção forte. Absolutamente desconectada com a produção literária atual aqui ou fora. Alguém me disse que o nome “feira” tem que ser tirado do evento, pra acabar com a ilusão de um mercadão do livro barato e tentar criar a ideia de um evento de circulação e discussão literária.

O Debate – A Pitomba, que já publicou Breganejo Blues, Belle Epoque [livro de poemas de Celso Borges] e O Monstro Souza, é uma editora independente. Do que depende o independente Bruno Azevêdo? Isto é, quem banca a Pitomba?

Bruno Azevêdo – Eu. Meu trabalho com um monte de outras coisas banca os livros. No caso dO Monstro, o Souza contribuiu. Isso e a paciência infinita da Karla, minha esposa. Tenho fortes restrições a leis de incentivo e sou um péssimo empresário. A Pitomba, pra mim, é uma declaração de existência.

O Debate – Tu, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha estão tramando o lançamento de uma revista literária chamada Pitomba! O que pode nos adiantar sobre a publicação? Qual a previsão de lançamento?

Bruno Azevêdo – A Pitomba! deve ficar pro começo do ano que vem – já está atrasadíssima. A ideia é coletar textos e imagens de pessoas que nós gostamos como Carolina Mello e Ricardo Sanchez, além de nossos próprios textos e imagens. A primeira edição terá algumas traduções, um conto meu e um poema longo do Celso.

O Debate – Você vive uma relação de amor e ódio com São Luís, cidade cenário e personagem de teus livros. O que você mais ama e o que você mais odeia na cidade?

Bruno Azevêdo – Eu não sei mais o que eu amo na cidade, cada dia ela fica mais escrota e inóspita. Dia desses fui na rua onde cresci e me toquei, depois de 30 anos, que ela não tem UMA árvore. Sabe por que demorei 30 anos pra me tocar disso? Porque não ter árvores em nossa malha urbana é natural. Minha relação com São Luís vai por aí, é meio essa relação de corno do Júlio Nascimento [ícone da música brega].

O Debate – Como Souza do Cachorro Quente recebeu a notícia do livro? Além de ser um personagem, que outra participação efetiva ele teve na feitura do livro?

Bruno Azevêdo – Sem o Souza o livro não existiria em vários sentidos. Além de patrocinar parte da publicação, ele pilhou por anos para que o livro fosse às ruas. Muita gente o procurava para saber do livro e algumas cenas eu incluí com base nas histórias que ele ouviu falar do livro. No final ele sentou comigo e disse: “vamo lá”? E eu respondi “vamo!”.

O Debate – O que pode esperar o público que comparecer hoje (20), às 21h, à “inacreditável festa de lançamento”, como anuncia o cartaz pregado em algumas paredes e blogues da cidade, na Casa do Escritor (Praça Maria Aragão)?

Bruno Azevêdo – Um show de atrações com música e dança, pipoca, balões, uma super-decoração digna das melhores quermesses, cachaça grátis, cachorro-quente grátis pra quem comprar o livro e a presença de lindas modelos! Se a coordenação da Feira não nos expulsar, faremos um festão. Levem suas radiolas!

[N’O Debate de hoje, sobre o lançamento de um livro revisado por mim e pela Karla Freire. Para que não me acusem de “parcialidade” no futuro: façam-no logo agora! E ‘té a noite!]

Na Eira: com a música do Ponto BR

Ponto BR marca o encontro de grandes mestres da cultura popular brasileira em disco e shows.

ZEMA RIBEIRO
EDITOR DE CULTURA

Paulistana de nascimento, compositora e regente de formação (pela Universidade Estadual Paulista), a musicista e pesquisadora Renata Amaral, já conhecida deste repórter de discos e shows, alcançou minha caixa de entrada no início da semana: de São Paulo, onde vive – modo de dizer, que a casa dela é o mundo, em bandas, bandos e turnês – mandava-me um convite/divulgação: o Ponto BR, coletivo formado sete importantes figuras da música e cultura populares brasileiras, toca em São Luís hoje (19), era o que me anunciava seu e-mail.

A trupe reúne ninguém menos que Humberto de Maracanã, Zezé Menezes, Henrique Menezes e Walter França, que cantam e tocam vários instrumentos, Renata Amaral (contrabaixo), Thomas Rohrer (violino) e Éder “O” Rocha (percussão) – saiba mais sobre eles no box. “Não somos ‘a banda que os acompanha’, como eles não são ‘participaçoes de luxo’: somos um coletivo cujo objetivo é justamente esse diálogo”, explica Renata Amaral.

Ontem (18), no Laborarte, Mestre Walter França e Éder “O” Rocha (ex-Mestre Ambrósio) ministraram oficina de maracatu. Hoje, a partir das 21h, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), acontece o show de lançamento de Na Eira, disco que registra o encontro do Ponto BR. Tudo gratuito (o disco será vendido na ocasião).

Renata Amaral, que conversou com O Debate por e-mail, já tocou pelo Brasil, América do Sul e Europa com nomes como Tião Carvalho, Suzana Salles, Priscila Ermell, ManaChica, Fuzarca, Itiberê Zwarg, Orquestra Popular do Recife e Claudionor Germano, entre muitos outros. Desde 1998 trabalha com A Barca, grupo de pesquisadores com quem lançou os discos Turista Aprendiz, Baião de Princesas e as caixas Trilha, Toada e Trupé e a Coleção Turista Aprendiz.

Como pesquisadora, desde 1991 viaja pelo Brasil formando um acervo que já conta com mais de 800 horas de registros audiovisuais e milhares de fotos de manifestações tradicionais brasileiras. Produziu, nos últimos 10 anos, 27 CDs e 10 documentários sobre cultura popular, e ministra cursos e oficinas tendo como base gêneros da cultura popular tradicional em espaços diversos.

Por duas vezes recebeu o Prêmio Interações Estéticas da Funarte [a Fundação Nacional de Artes, vinculada ao Ministério da Cultura] para residências artísticas no Maranhão e no Benin, desenvolvendo pesquisas que resultam em espetáculos e documentários sobre cultura afrobrasileira.

Após receber o seu e-mail/convite, não hesitei: respondi-lhe a mensagem com algumas perguntas sobre o disco, o show, sua passagem por São Luís, e sobre os mestres – ela inclusa – envolvidos. Eis a breve conversa que Renata Amaral teve, virtualmente, com O Debate.


A pesquisadora e musicista Renata Amaral concedeu entrevista aO Debate. Foto: divulgação.

ENTREVISTA: RENATA AMARAL

O Debate – Como surgiu a ideia do Ponto BR?

Renata Amaral – Surgiu da vontade de tocarmos com nossos mestres, do entendimento que eles são grandes artistas, que esta cultura tradicional é contemporânea também, acontece agora, vigorosa, em transformação, e que este diálogo poderia se dar de maneira mais profunda. Havia também a vontade dos mestres de experimentarem esse encontro, de expandir suas possibilidades artísticas. No show eles tocam vários instrumentos, cantam gêneros diversos. A ideia não é reproduzir estes gêneros nem fundi-los com outros, mas encontrar outro jeito de fazer música que dialogue não só com o repertório, mas com o pensamento estético desses mestres, seu jeito de ensaiar, de relacionar a música com a vida.

O Debate – Há quanto tempo esse encontro de mestres acontece, vem se apresentando? Quanto tempo durou a feitura do cd?

Renata Amaral – Formado em 2002, a convite do Festival Wemilere, em Guanabacoa, em Cuba, Ponto BR se apresentou em diversos espaços e festivais em São Paulo, como o Centro Cultural Banco do Brasil, representou o Brasil no Golden Karagöz Folk Dance Festival, na Turquia, e circulou por diversas cidades do interior de São Paulo, selecionado pelo PROAC SP. O processo de gravação resultou de uma imersão do grupo em ensaios e encontros registrados ao vivo em 2009. Os mestres foram para São Paulo e ficamos ensaiando já no estúdio e gravando. Em 2010 finalizamos as edições, mixagens, master, projeto gráfico etc.

O Debate – Como é dividir seu tempo entre A Barca e produções outras?

Renata Amaral – Uma trabalheira danada, mas me move uma paixão muito grande, pelo povo brasileiro e sua cultura, que me emociona todos os dias, e centraliza o foco dessas produções todas.

O Debate – São anunciadas participações especiais, embora não se dê “nome aos bois” no material de divulgação. São surpresa mesmo ou você pode nos adiantar algo sobre?

Renata Amaral – Não divulgamos antes, pois não havíamos conseguido confirmar com todos. O povo da Tenda Sao José, de Pirapemas, por exemplo, que eu gostaria muito que participasse, não poderá vir: estão em festejo. Mas teremos aqui a participação de D. Maria Rosa, caixeira, e D. Anunciação Menezes, caixeira e ebômi da Casa Fanti Ashanti, que participou dos shows em São Paulo também.

O Debate – Por que outras capitais o Ponto BR já passou e/ou vai passar?

Renata Amaral – Recife, Maceió, São Paulo, Belo Horizonte, São Luís e Fortaleza, nesta primeira circulação.

O Debate – De onde surgiu o título Na Eira, do disco?

Renata Amaral – A ‘eira’ aparece em muitas cantigas de terreiro, como um lugar ao mesmo tempo real e metafísico, onde os encantados ‘vêm baiar’. Se relaciona à ideia de estarmos também num espaço onde os limites podem ser diluídos, o espaço da arte, também ao mesmo tempo real e metafísico, alem de ser uma reverência ao sagrado brasileiro, tão diverso, e que invariavelmente fundamenta nossas tradições populares.

O Debate – E o Ponto BR, do grupo? Fale um pouco sobre o grupo.

Renata Amaral – Ponto é o nome dado aos cantos de diversos batuques de nossas manifestações populares, e é arte brasileira de primeira grandeza. Formado por músicos contemporâneos e mestres da cultura tradicional, o Ponto BR propõe o espaço da arte como local de encontro e diálogo possíveis entre vertentes e gerações, onde diferenças estéticas, temporais e sociais são harmonizadas revelando outra via para o fazer artístico. Experimentando saberes e sonoridades destas tradições, suas possibilidades formais, texturas vocais e instrumentais e o raciocínio estético proposto pelos mestres, Na Eira tem como resultado uma sonoridade única e atemporal. Ponto BR é um coletivo que reúne mestres como Humberto de Maracanã, cantador de bumba boi que deu nome ao Prêmio Culturas Populares do MinC, Walter França, do Maracatu Estrela Brilhante, chefe do baque centenário campeão do carnaval de Recife, e Zezé de Iemanjá, ekedi e caixeira do Divino da Casa Fanti Ashanti, em diálogo comigo, o pernambucano Eder “O” Rocha, o suíço Thomas Rohrer e o maranhense Henrique Menezes, músicos sediados em São Paulo, que além de seus projetos solo, trabalham com grupos e artistas diversos como A Barca, DJ Dolores, Ivaldo Bertazzo, Zélia Duncan, Orquestra Popular do Recife, Nação Zumbi, Mestre Ambrósio, Zeca Baleiro e Chico César, entre outros. Esta investigação estética está fundamentada em uma longa convivência com estas comunidades, sua cultura, seus guardiões, em pesquisas que já renderam dezenas de registros em CD e documentários destas manifestações. Toadas de bumba boi, maracatu, pontos de tambor de mina, jurema, cocos, cirandas, carimbós, rojões e vários outros fazem parte do CD Na Eira. Selecionado pelo Programa Petrobras Cultural, o CD conta também com a participação de Seu Nelson da Rabeca, de Alagoas, o babalorixá Euclides Talabyan, as mestras Maria Rosa e Anunciação Menezes, do Maranhão, o Povo Kariri Xocó, também de Alagoas, e a comunidade da Tenda São José de Pirapemas, no Maranhão, e está sendo lançado em circulação por seis estados brasileiros. Ponto BR realiza também oficinas de gêneros populares como bumba boi, divino, jongo e maracatu nação, em propostas de musicalização e arte-educação. Esculpido pela memória de seus mestres, o repertório de nossos gêneros tradicionais alia a absoluta simplicidade a uma surpreendente elaboração estética que a cultura oral filtra qualitativamente através do tempo. Esses pontos são melodias e ritmos matrizes da nossa música urbana, que influenciaram significativamente a formação de gêneros como o samba, o forró e inúmeros outros. Na Eira revela a sofisticação e a contemporaneidade destas manifestações, através das quais o povo brasileiro veicula e harmoniza sua vocação artística, sua corporalidade, sua espiritualidade.


O Ponto BR durante apresentação da turnê de Na Eira. Foto: Simão Salomão.

CONHEÇA OS MESTRES
POR RENATA AMARAL

Mestre Humberto de Maracanã

Homenageado do Prêmio Culturas Populares do MinC em 2008, Mestre Humberto de Maracanã é um ícone da cultura maranhense condecorado com a Ordem dos Timbiras [a mais importante comenda concedida pelo Governo do Estado do Maranhão].

Considerado um dos maiores compositores e cantadores de bumba boi da Ilha de todos os tempos, é líder do centenário Bumba Meu Boi de Maracanã, comunidade do interior da ilha de São Luís. O grupamento conta com mais de mil integrantes, sendo um dos dois maiores e mais conhecidos grupos tradicionais do estado. Mestre Humberto compõe incessantemente vários gêneros de música, e tem experimentado parcerias com artistas como A Barca, Siba, Alcione, Tião Carvalho, Beto Villares e Ubiratã Souza, entre outros, participando de gravações e concertos além de documentários e projetos de registro como: Tambores do Maranhão, Música do Brasil e Turista Aprendiz, além de ser tema de teses e artigos de pesquisadores em todo o Brasil.

Em 2007, com o patrocínio da Petrobras, lançou o DVD documentário Rio do Mirinzá e o CD Estrela Brasileira. Em 2008, o Bumba Meu Boi de Maracanã foi o único grupo do Maranhão selecionado no programa Rumos, do Itaú Cultural, e lançou o CD Lira Brasileira. Nos últimos anos o grupo lançou os CDs 25 anos de toadas do Guriatã no Maracanã (1998), São João Meu Santo Forte (1999), Luz de São João (2000), Boi de Maracanã (2001, duplo) e Humberto de Maracanã – 30 anos de glória (2003), entre outros.

Mestre Walter França

Um dos principais mestres da cultura popular de Pernambuco, é Chefe do Baque e compositor das loas do Maracatu Nação Estrela Brilhante do Recife, grupo centenário fundado em 1906, inúmeras vezes campeão do carnaval de Recife.

Começou na música aos quatro anos de idade ao lado dos 21 irmãos e do pai Zacarias, artista popular fundador da mais tradicional escola de samba do Recife, a Gigantes do Samba, e de outros folguedos como pastoril, caboclinhos e cocos. Mestre de bateria da Gigantes por 10 anos, assumiu em 1986 a chefia do Estrela Brilhante. À frente de centenas de brincantes e dos 120 batuqueiros do maracatu, se apresentou em cidades da Europa como Hannover (Expo 2000), Lisboa (Parque das Nações), Paris, Amsterdã, Colônia e Aechen, além de ter ido à África em 1991. Ministra oficinas e vivências em todo o país tendo fundado diversos grupos de maracatu pelo Brasil.

Zezé Menezes

Caixeira do Divino Espírito Santo e Primeira ekedi da Casa Fanti Ashanti, uma das principais casas de culto afrorreligioso do Maranhão, há mais de 50 anos em atividade, hoje Ponto de Cultura apoiado pelo Ministério da Cultura.

Conhecendo profundamente os vários gêneros realizados na casa como o Tambor de Mina, Tambor de Crioula, Candomblé, Carimbó de Caixa, Pajelança, Baião de Princesas, Canjerê, Samba Angola, Bumba Boi, Festa do Divino e outras, ministra oficinas de Caixa do Divino e Tambor de Crioula em diversos estados brasileiros. Trabalha em projetos de capacitação solidária e arte-educação para crianças e adolescentes da comunidade do Cruzeiro do Anil, bairro da periferia de São Luís.

É mestra do Reis do Oriente, gênero dramático tradicional do ciclo natalino e realiza há 11 anos o Festejo do Divino em São Paulo, na Associação Cachuêra! Gravou os CDs Caixeiras Cantam para o Divino (Itaú Cultural), Baião de Princesas (A Barca/CPC-UMES), Tambor de Mina na Virada Pra Mata, Tambor de Mina Raiz Nagô e Tambor de Crioula de Taboca (A Barca/Petrobras).

Éder “O” Rocha

Formado em percussão pelo Centro Profissionalizante de Criatividade Musical do Recife, tocou nas principais orquestras do Nordeste, como Sinfônica do Recife, Sinfônica do Rio Grande do Norte, de Olinda e Orquestra de Frevo do Maestro Duda.

Percussionista do grupo Mestre Ambrósio, trabalhou com artistas como Herbert Vianna, Zélia Duncan, DJ Dolores e Nação Zumbi, entre outros. Diretor artístico da Cia. Circense Nau de Ícaros e do grupo Olho da Rua. Articulista das revistas Batera e Manguenius, lançou seu disco solo Circo do Rocha e o método de percussão Zabumba Moderno

Henrique Menezes

Nascido na capital maranhense, Henrique Menezes pertence a uma importante família de artistas populares da Casa Fanti-Ashanti, centro religioso que é referência da cultura do estado. Tem ali o cargo de primeiro Ogã (Ogã Alabê Huntó) da Casa.

Trabalhou como percussionista com alguns importantes artistas maranhenses como Ubiratã Souza, Josias Sobrinho, Rosa Reis e Tião Carvalho. Radicado em São Paulo há mais de 15 anos, ministra oficinas de percussão e danças populares em escolas e universidades como ECA-USP, Unicamp, Universidade Estadual de Londrina e Universidade Anhembi-Morumbi, além da Associação Arte Despertar.

No teatro atuou sob a direção de José Celso Martinez nos espetáculos Os Sertões e Bacantes. É membro do grupo Força Tarefa, que há dez anos encena o espetáculo infantil Lampião no Céu, de Eliana Carneiro, e atua ainda no grupo Cia. das Mães, desde 2002.

Atualmente é Diretor Geral do Grupo Pé no Terreiro, que lançou recentemente seu primeiro CD, Cacuriá, e desenvolve também seu trabalho autoral junto à banda Bom Que Dói.

Thomas Rohrer

Suíço radicado no Brasil desde 1995, é formado pela Escola de Jazz de Lucerna. Seu trabalho transita entre a improvisação livre, o jazz contemporâneo, a música regional brasileira e a música medieval.

Em 1999 tocou no Montreux Jazz Festival com Chico César, Rita Ribeiro e Zeca Baleiro. Apresentou-se na Suíça, Itália, Nova Iorque e no Brasil em duo com a percussionista italiana Alessandra Belloni. Em 2002 e 2003 realizou uma turnê pela França, Espanha e Inglaterra com o quinteto de música instrumental de Carlinhos Antunes. Como membro do grupo de música medieval Sendebar, realizou apresentações em Nova Iorque, no Lincoln Center, Metropolitan Museum e na Catedral St. Johns the Divine. Em 2004 participa do projeto de intercâmbio MPB-BPM, integrando a Orchestra Escócia-Brasil. Participou da banda Aparelhagem, do pernambucano DJ Dolores, com apresentações no Brasil e turnês na Europa.

Membro do grupo A Barca, gravou e apresentou-se ainda com Zé Gomes, Ceumar, Tião Carvalho, Paulo Lepetit, Ivaldo Bertazzo, Paulo Freire, John Labarbera, Suzana Salles, Alexandra Montano, Satoshi Takeishi, Steve Gorn, Jamey Haddad, Antonio “Panda” Gianfratti, Marcio Mattos, Phil Minton, Jamie Haddad, Mark Dresser, Nelson da Rabeca, Saadet Türköz, Miguel Barella, Celio Barros, Carlinhos Antunes e Passoca, entre outros.

Serviço

O quê: Show Na Eira, lançamento do cd homônimo.
Quem: o grupo Ponto BR: os mestres Humberto de Maracanã, Zezé Menezes, Henrique Menezes, Walter França, Renata Amaral (contrabaixo), Thomas Rohrer (violino) e Éder “O” Rocha (percussão).
Quando: hoje (19), às 21h.
Onde: Praça Nauro Machado (Praia Grande).
Quanto: Grátis. O cd será vendido na ocasião.

[O Debate, hoje]

Dois amigos, sábado

Os amigos Paulo Melo Sousa e Bruno Azevêdo lançam, no mesmo dia e horário, sábado (21), às 21h, na programação da IV Feira do Livro de São Luís, seus novos livros.

O primeiro lança o livro de poemas Vespeiro. O segundo lança O Monstro Souza – Romance Féstifud, dele e Gabriel Girnos, revisado por este que vos tecla e Karla Freire.

Detalhes nas imagens abaixo (cliquem para ampliá-las).

Termina hoje Festival da Rede Mandioca

O compositor Cesar Teixeira fará o show de encerramento do Festival

Evento integrante da Semana Nacional da Solidariedade, que celebra o aniversário da Cáritas Brasileira em todo o país, termina hoje o 1º. Festival Estadual da Rede Mandioca.

Com atividades de formação e culturais e comercialização, o Festival movimentou, desde anteontem (10) a Praia Grande: seminários, palestras, debates e mesas-redondas ocuparam o Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho. A Feira, realizada no período vespertino, e as atrações culturais, à noite, ocuparam a Praça Valdelino Cécio.

A Cáritas completa em 2010, 54 anos de atuação no Brasil, tendo sido fundada por Dom Hélder Câmara. O organismo autônomo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) funciona como braço social e político da Igreja Católica.

O cantor e compositor maranhense Cesar Teixeira se apresenta hoje, às 19h, no encerramento do Festival. Amanhã ele participa da Feijoada de Fato, comemoração de um ano do jornal mensal Vias de Fato, editado por ele, também jornalista de formação, e Emílio Azevedo. A festa tem início às 13h, no Espaço Cultural Chamamaré (Ponta d’Areia). Os ingressos custam apenas R$ 10,00 e poderão ser adquiridos no local. (Zema Ribeiro)

[Textinho “para completar a página de Cultura” publicado nO Debate de hoje]

Pedrosa: “A propósito do fim da rebelião”

Com o título acima, o advogado Luis Antonio Câmara Pedrosa publicou em seu blogue, texto em que comenta a maior rebelião já ocorrida no sistema penitenciário maranhense e a cobertura da mídia durante e após a mesma. Pedrosa integrou a comissão que negociava as reivindicações dos detentos representando a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Maranhão (OAB/MA), por ele presidida.

Ao contrário do que quer fazer crer a mídia governista, como afirma o advogado em seu post, havia sim uma pauta de reivindicações (em parte já apresentada cá neste blogue, no post anterior, leia abaixo). As linhas de Pedrosa, abaixo transcritas na íntegra (grifos do blogue), merecem reflexão. Não apenas por que ele esteve no “olho do furacão”, mas também pelo conhecimento de causa de um dos melhores advogados que o Maranhão tem, por sua trajetória e pelo conteúdo que nos traz à tona, provocando um debate contra a voz única que se quer fazer ouvir e valer.

A PROPÓSITO DO FIM DA REBELIÃO
POR LUIS ANTONIO CÂMARA PEDROSA

No processo de negociação construído na segunda-feira, por uma comissão de negociação que incluía os representantes do Poder Judiciário, do Ministério Público, e do Sistema Penitenciário do Estado, esgotamos toda a pauta de reivindicação, por volta das 18 horas. Portanto, ao contrário do que afirma a mídia governista, o movimento deflagrado pelos presos tinha sim uma pauta de reivindicação.

Por volta das 18 horas, um dos líderes da rebelião, denominado “Cerec”, decidiu encerrar as negociações, afirmando que o movimento não encerraria naquele dia, mas se prolongaria por toda a manhã do dia seguinte. Após ligeiro tumulto, provocado pela fuga do pavilhão, de três presos marcados para morrer, retomamos o diálogo com os outros dois líderes, chamados “Roney Boy” e “Diferente”, que apesar de concordarem em liberar nove corpos, em troca de alimentação para os monitores reféns, afirmaram que o movimento somente se encerraria no dia seguinte.

Diante desse quadro, a comissão suspendeu as negociações, entendendo que somente não ocorrera a liberação dos reféns. Tudo o que foi reivindicado fora negociado, na presença das autoridades com poder de decisão, inclusive na presença da imprensa (por solicitação dos presos).

Eu estive na comissão, representando a OAB-MA (Comissão de Direitos Humanos) e entendi que a minha missão havia também se esgotado ali, retomando atividades em outros municípios, como São Bento (onde participei de audiência envolvendo os quilombolas da comunidade de Cruzeiro), São Vicente Férrer (onde fora morto o quilombola Flaviano Pinto Neto, da comunidade do Charco), e posteriormente em Barra do Corda, onde estou agora.

Acompanhei via rádios AM o desfecho da rebelião no dia seguinte. Achei estranho que novas negociações se desenvolveram, com a presença de um pastor. Os presos teriam encerrado a rebelião por obra e graça da intervenção de uma seita religiosa, segundo alguns jornais. Eu tenho certeza de que não foi bem assim. A rebelião tinha data e hora para terminar, desde o dia anterior. E aqueles presos, que cortam cabeças e esfolam colegas de cela, não são propriamente pessoas que se dobrem por um discurso religioso. Se duvidar, fazem tudo de novo, quem sabe, até com mais crueldade.

Quem se apresentou para negociar novas demandas, sem o comprometimento público das autoridades com poder de decisão, agora ficará em situação delicada. Na terça-feira, do alto do seu discurso religioso, um pastor mediou um compromisso que não seria cumprido: a não-transferênca dos líderes da rebelião para presídios de segurança máxima fora do Estado do Maranhão. E agora?

Por estas e outras que tenho muito cuidado antes de me expor em comissões de negociações. Negociador não promete, media. Quem deve assumir a pauta é a autoridade pública. Ela é que tem que olhar no olho do preso e dizer se aceita ou não a reivindicação. Presídio não é lugar para proselitismo religioso. Até porque se sabe que as conversões não ocorrem ao lado de cadáveres. Com cabeças rolando na grama, negocia-se com homens capazes de fazer qualquer coisa.

Pedrosa: "A propósito do fim da rebelião"

Com o título acima, o advogado Luis Antonio Câmara Pedrosa publicou em seu blogue, texto em que comenta a maior rebelião já ocorrida no sistema penitenciário maranhense e a cobertura da mídia durante e após a mesma. Pedrosa integrou a comissão que negociava as reivindicações dos detentos representando a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Maranhão (OAB/MA), por ele presidida.

Ao contrário do que quer fazer crer a mídia governista, como afirma o advogado em seu post, havia sim uma pauta de reivindicações (em parte já apresentada cá neste blogue, no post anterior, leia abaixo). As linhas de Pedrosa, abaixo transcritas na íntegra (grifos do blogue), merecem reflexão. Não apenas por que ele esteve no “olho do furacão”, mas também pelo conhecimento de causa de um dos melhores advogados que o Maranhão tem, por sua trajetória e pelo conteúdo que nos traz à tona, provocando um debate contra a voz única que se quer fazer ouvir e valer.

A PROPÓSITO DO FIM DA REBELIÃO
POR LUIS ANTONIO CÂMARA PEDROSA

No processo de negociação construído na segunda-feira, por uma comissão de negociação que incluía os representantes do Poder Judiciário, do Ministério Público, e do Sistema Penitenciário do Estado, esgotamos toda a pauta de reivindicação, por volta das 18 horas. Portanto, ao contrário do que afirma a mídia governista, o movimento deflagrado pelos presos tinha sim uma pauta de reivindicação.

Por volta das 18 horas, um dos líderes da rebelião, denominado “Cerec”, decidiu encerrar as negociações, afirmando que o movimento não encerraria naquele dia, mas se prolongaria por toda a manhã do dia seguinte. Após ligeiro tumulto, provocado pela fuga do pavilhão, de três presos marcados para morrer, retomamos o diálogo com os outros dois líderes, chamados “Roney Boy” e “Diferente”, que apesar de concordarem em liberar nove corpos, em troca de alimentação para os monitores reféns, afirmaram que o movimento somente se encerraria no dia seguinte.

Diante desse quadro, a comissão suspendeu as negociações, entendendo que somente não ocorrera a liberação dos reféns. Tudo o que foi reivindicado fora negociado, na presença das autoridades com poder de decisão, inclusive na presença da imprensa (por solicitação dos presos).

Eu estive na comissão, representando a OAB-MA (Comissão de Direitos Humanos) e entendi que a minha missão havia também se esgotado ali, retomando atividades em outros municípios, como São Bento (onde participei de audiência envolvendo os quilombolas da comunidade de Cruzeiro), São Vicente Férrer (onde fora morto o quilombola Flaviano Pinto Neto, da comunidade do Charco), e posteriormente em Barra do Corda, onde estou agora.

Acompanhei via rádios AM o desfecho da rebelião no dia seguinte. Achei estranho que novas negociações se desenvolveram, com a presença de um pastor. Os presos teriam encerrado a rebelião por obra e graça da intervenção de uma seita religiosa, segundo alguns jornais. Eu tenho certeza de que não foi bem assim. A rebelião tinha data e hora para terminar, desde o dia anterior. E aqueles presos, que cortam cabeças e esfolam colegas de cela, não são propriamente pessoas que se dobrem por um discurso religioso. Se duvidar, fazem tudo de novo, quem sabe, até com mais crueldade.

Quem se apresentou para negociar novas demandas, sem o comprometimento público das autoridades com poder de decisão, agora ficará em situação delicada. Na terça-feira, do alto do seu discurso religioso, um pastor mediou um compromisso que não seria cumprido: a não-transferênca dos líderes da rebelião para presídios de segurança máxima fora do Estado do Maranhão. E agora?

Por estas e outras que tenho muito cuidado antes de me expor em comissões de negociações. Negociador não promete, media. Quem deve assumir a pauta é a autoridade pública. Ela é que tem que olhar no olho do preso e dizer se aceita ou não a reivindicação. Presídio não é lugar para proselitismo religioso. Até porque se sabe que as conversões não ocorrem ao lado de cadáveres. Com cabeças rolando na grama, negocia-se com homens capazes de fazer qualquer coisa.