Aperreio: realidade maranhense

Documentário de Doty Luz e Humberto Capucci terá primeira exibição pública hoje em São Luís. O curta-metragem foi selecionado para a mostra competitiva do Festival Amazônia Doc 2010, na categoria Documentário. O Debate entrevistou o cineasta Humberto Capucci.

ZEMA RIBEIRO
EDITOR DE CULTURA
FOTOS: DIVULGAÇÃO

Expressão bastante usada pelo povo maranhense para descrever situações de extrema dificuldade, Aperreio dá nome ao documentário em que os cineastas Doty Luz e Humberto Capucci registram a interferência das mudanças climáticas na vida de populações do interior do Maranhão. Eles rodaram por diversos municípios do Estado e imprimiram ao curta-metragem a poesia e a sabedoria populares. O filme propõe uma reflexão sobre o modelo de desenvolvimento vigente por estas plagas: o que defende os grandes projetos como “a salvação” – esta, no entanto, nunca chega, a não ser aos pequenos grupos que vêm obtendo lucros e vantagens com suas implementações ao longo dos anos.

Os versos do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro em Saiba, rapaz, podem bem traduzir o aperreio das populações do Maranhão, tanto quem aparece no documentário de Capucci e Luz, quanto quem não: “quando a seca não mata/ a chuva arrasa”. O Maranhão foi um dos estados brasileiros que mais sofreu com as enchentes nos dois últimos anos, período retratado por Aperreio.

O documentário foi rodado em digital mini-DV e tem 20 minutos de duração. A produção é da Café Cuxá Filmes, que tem como sócios os dois cineastas. Juntos, eles assinam roteiro e direção. Capucci é também responsável por edição, montagem e fotografia. Larissa Abreu Resende é a produtora executiva, Jeander Ribeiro assina a arte gráfica e à trilha sonora comparecem Dona Elza e Caixeiros da Dança do Caroço de Tutóia, Bumba-meu-boi de Boa Vista dos Pinhos e Mestre Patinho.

O documentário, que tem apoio da organização internacional Oxfam, é uma realização do Comitê de Monitoramento das Políticas Voltadas às Enchentes no Maranhão, composto por diversas entidades e organizações maranhenses de defesa, promoção e proteção dos direitos humanos – Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), Cáritas Brasileira Regional Maranhão, União Estadual por Moradia Popular, Associação Agroecológica Tijupá e Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), entre outras.

Aperreio terá sua primeira exibição pública hoje em São Luís: a sessão acontece às 19h, no Cine Ímpar, na sede do jornal O Imparcial (Rua Assis Chateaubriand, Renascença, por trás do Tropical Shopping), com entrada gratuita. O curta-metragem foi selecionado para a mostra competitiva, na categoria Documentário, do segundo Amazônia Doc – Festival Pan Amazônico de Cinema, que acontece de 3 a 14 de novembro em Belém/PA.


O cineasta Humberto Capucci capta imagens de Dona Elza do Caroço de Tutóia para Aperreio

ENTREVISTA: HUMBERTO CAPUCCI

Paulista de Jacareí, Humberto Rezende Capucci tem 32 anos e atuou por 14 anos no Conselho Indigenista Missionário, de onde se desligou em meados de 2009. Pelo CIMI já passou pelos estados de Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul. Atualmente morando em São Luís, produziu seu primeiro documentário em 2008, relatando um intercâmbio entre povos indígenas maranhenses e os povos Truká e Xucuru, em Pernambuco. Em 2009 sua produtora deu início à produção de um documentário sobre os caçadores e coletores Awá Guajá, povo nômade do interior do Maranhão, em risco de extinção. O documentário, já pré-lançado está em fase de finalização. Leia a seguir os melhores trechos da entrevista que Humberto Capucci concedeu aO Debate, por e-mail.

O Debate – Ano passado você se desligou do CIMI para se dedicar mais à Café Cuxá?

Humberto Capucci – Sim. Em 2008, ainda no CIMI, produzi meu primeiro documentário, registrando uma viagem de intercâmbio entre os povos indígenas do Maranhão e os povos Truká e Xucuru em Pernambuco. No início de 2009 começamos a filmar um documentário sobre o povo Awá Guajá, que ainda vive sem contato nas matas do Maranhão e corre sérios riscos de ser extinto. Esse documentário, mesmo já tendo sido pré-lançado, está sendo finalizado agora e em breve entra no circuito. A partir do segundo semestre de 2009 fui me desligando do CIMI e me dedicando cada vez mais à Café Cuxá. Nesse ano produzi mais dois vídeos: Festa do Ceveiro, do povo Krepyn Kateye, e Encontro, do povo Krenye. Ainda no final de 2009 começamos as gravações de um vídeo que eu chamaria de documentário didático, sobre o Estatuto dos Povos Indígenas, esse também recém finalizado.

O Debate – Embora sejam exceções, cineastas como Murilo Santos e Francisco Colombo têm denunciado as mazelas maranhenses em suas obras. O primeiro é documentarista reconhecido nacionalmente e tem um profundo envolvimento com as causas e bandeiras dos movimentos sociais maranhenses; o segundo, embora tenda mais à ficção, ainda assim documenta questões como a exploração do trabalho infantil e a violência urbana. Onde você se localizaria na produção cinematográfica maranhense?

Humberto Capucci – Nem ouso me comparar a esses caras. Eu sou mais militante do que cineasta. Acredito que eles chegaram às questões sociais através do cinema. Eu cheguei ao cinema através da luta social.


Cena de Aperreio: morador em frente a uma casa parcialmente destruída pelas enchentes

O Debate – Aperreio traz o drama dos maranhenses traduzido na música de Joãozinho Ribeiro: “quando a seca não mata/ a chuva arrasa”. O filme parte de uma “encomenda” de um conjunto de organizações do movimento social que compõem o Comitê de Monitoramento das Políticas Voltadas às Enchentes no Maranhão. No entanto, não dá a ideia, a quem assiste, de ser um filme institucional, ou ao menos não meramente institucional, como os que em geral vemos por aí. Você já pensava em fazer um filme que fosse além? Que pode concorrer em festivais Brasil afora?

Humberto Capucci – Na verdade a ideia não era fazer filme que pudesse concorrer em festivais. O que houve desde início, e é uma preocupação que tenho em todo trabalho, foi o cuidado de produzir um documentário que extrapole o nosso público. Se eu quero falar de problemas sociais, não adianta falar para as pessoas que vivem esses problemas e nem para as pessoas que trabalham junto a essas populações. Nesse sentido, se faço um filme com cara institucional, ele tende a ser visto apenas por essas pessoas. Por isso tentamos fazer um filme que despertasse a atenção de todos. Pra ganhar gente pro nosso lado. O que aconteceu é que despertou também a atenção dos festivais. Mas isso já foi uma grande surpresa.

O Debate – A trajetória de Aperreio se inicia hoje (28) com sua primeira exibição pública [às 19h, no Cine Ímpar, auditório do jornal O Imparcial, no Renascença, por trás do Tropical Shopping] e prossegue em outros espaços de exibição [o filme foi selecionado para a mostra competitiva do Festival Amazônia Doc, em novembro, em Belém/PA]. Quais as tuas expectativas particulares para Aperreio?

Humberto Capucci – A grande expectativa que tenho, de fato, é que ele cumpra seu objetivo inicial: ser um instrumento de apoio no trabalho de formação das entidades que encomendaram o filme, junto às comunidades onde atuam. Essa discussão sobre mudanças climáticas, aquecimento global e, principalmente, o modelo de desenvolvimento em questão é fundamental. E acredito que Aperreio contribuirá para levantar e aprofundar essas discussões.


Casas alagadas em Arari/MA em cena de Aperreio

Ficha Técnica

Categoria: Documentário > Formato: Digital Mini-DV > Duração: 20 minutos > Produção: Café Cuxá Filmes > Realização: Comitê de Monitoramento das Políticas voltadas às enchentes no Maranhão > Apoio: Oxfam Internacional > Ano: 2010 > Roteiro: Doty Luz e Humberto Capucci > Direção: Doty Luz e Humberto Capucci > Produção Executiva: Larissa Abreu Resende > Edição, Montagem e Fotografia: Humberto Capucci > Arte Gráfica: Jeander Ribeiro > Trilha Sonora: Dona Elza e Caixeiros da Dança do Caroço, Bumba- meu- Boi de Boa Vista dos Pinhos e Mestre Patinho > Contatos: cafecuxafilmes@hotmail.com, (98) 8194-2366 e/ou (98) 8191-9451

[O Debate, hoje]

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

2 comentários em “Aperreio: realidade maranhense”

  1. Opa, salve caro Zema!
    Como sempre, o conteúdo aqui é sempre de boa qualidade. Por uns “aperreios” de tempo, fiquei sem minhas caminhadas matinais por aqui, mas tô na área! Rss…
    Quero ver esse vídeo. Será que consigo com os produtores?
    Grande abraço,

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