DISCOTECA BÁSICA

NO Debate de hoje (21, com extras do blogue):

LANCES DE AGORA (1978)

Clássico de Chico Maranhão lançado pela gravadora Marcus Pereira foi gravado na sacristia da Igreja do Desterro, bairro do centro histórico ludovicense.

ZEMA RIBEIRO
EDITOR DE CULTURA


Lances de Agora. Capa. Reprodução. É nítida a “montagem”: já tentaram escanear uma capa de vinil? A assinatura é da ex-dona (óbvio que comprei meu exemplar num sebo), que ganhou o disco do próprio “compositor e cantor”.

Clássico de Chico Maranhão, gravado em quatro dias na sacristia da Igreja do Desterro, em São Luís do Maranhão, Lances de Agora, de 1978, foi disponibilizado para download ontem (20), no blogue Música Maranhense, editado pelo estudante de História Victor Hugo.

Lances de Agora foi lançado pela gravadora Marcus Pereira, antes um escritório de publicidade, responsável por descobrir ao Brasil, além de Maranhão, outros nomes importantíssimos da música popular brasileira, como Canhoto da Paraíba, Cartola, Dércio Marques, Diana Pequeno, Doroty Marques, Papete e Renato Teixeira, entre outros. Em pouco mais de dez anos de atividade, a gravadora lançou mais de cem títulos. Endividado, Marcus Pereira viria a se suicidar.

Toda a discografia de Chico Maranhão lançada pela gravadora permanece inédita em cd, o que inclui títulos belíssimos e hoje disputados a tapa em sebos Brasil afora, como Gabriela (1974) e Fonte Nova (1980). Lances de Agora (1978) tem 11 faixas, todas de autoria de Chico Maranhão e conhecidíssimas do público maranhense: Meu samba choro (regravada por Célia Maria), Lances de Agora, Ponto de fuga (regravada por Cristina Buarque e Flávia Bittencourt), Cirano (faixa de Gabriela, reapresentada em Lances de Agora por Maranhão), Mulher, Frevo do Barulho, Boi, meu menino, Velho amigo poeta (homenagem ao poeta Nauro Machado, então vizinho de Maranhão), Ponta d’Areia (do verso “caranguejeira namorando a parede”, que eu considero um dos mais bonitos da história da música brasileira, popular ou impopular), Vassourinha meaçaba (regravada por Flávia Bittencourt) e Pastorinha (indiscutível hit, ao menos em períodos juninos maranhenses).

Com formação completamente diversa da contemporânea, Chico Maranhão – que formou-se na mesma turma abandonada por outro Chico, o Buarque, na Faculdade de Arquitetura da USP – foi acompanhado no disco pelo Tira-Teima, que entre outros, contava com os talentos de Ubiratan Souza (violões, percussão), Arlindo Carvalho (percussão), Antonio Vieira (percussão), o único já falecido entre os músicos do plantel original de Maranhão, Chico Saldanha (violão), Sérgio Habibe (flauta) e Paulo Trabulsi (cavaquinho), então com apenas 17 anos de idade, único remanescente do Regional.

Clássico absoluto, repito, Lances de Agora é um disco por cuja reedição breve torcemos imensamente. Enquanto ela não chega, o download, além de recomendável, é simplesmente obrigatório.


Reprodução da contracapa. Cá no blogue o leitor ganha, de bônus, a ficha técnica do disco.

SÓ AQUI NO BLOGUE

Chico Maranhão assina todas as letras e músicas de Lances de Agora. Gosto de absolutamente todas (assim como gosto de absolutamente todas as músicas de Maranhão). Abaixo, letras, só para os leitores entenderem em parte (entendam completamente ao ouvirem o disco depois de baixá-lo) o que Marcus Pereira queria dizer, ao se referir a Maranhão, com “Inovador, como poucos, nos seus temas, na estrutura literária de suas letras” (abaixo transcritas como no encarta do disco).

CIRANO
Chico Maranhão

Cirano sorria, tossia, sorria, tossia, sorria
acendia o cigarro sentado sem graça
numa poça d’água da velha calçada
defronte à vidraça,
da nova vitrine, sorrindo pensava
soltando fumaça,
que embora a cabeça, pareça hoje em dia
quem pensa sua pança vadia, vazia…
De quem já fez tudo na vida
já foi de pular corda
fazer samba de roda, já foi de por gaiola, já foi
foi menino de roça, que foi
descobrindo, descobrindo
que a barriga prá se encher precisa brigar
e o salário da comida
nunca sobra prá depois.
Cirano, Cirano foi rei da sua vontade
tinha tanta coragem prá ser um Bonaparte
mas na história da arte só foi
só foi alfaiate que foi,
costurando, costurando, dando ponto
e pro freguês mais um desconto
e foi sabendo portanto
e foi sabendo que tinha que viver do esforço
da peça do pano do dinheiro do moço
do corte, do vinco, da calça, do bolso, da bossa
da prova, do esboço,
da fantasia e da moda,
da freguesa que concorda sem saber porque,
do molde, aquele molde que mudou
do novelo e do linho
da agulha que o tempo enferruja
da luta sem conta, do amigo que encontra
no caminho,
da hora, do ajudante intrigante
Sabia do roubo
e com segurança que o tempo avança
e o que é velho descansa
na breve lembrança do povo.
Mas o que Cirano não sabia
era do golpe que o homem recebe
daqueles que nada conseguem
do aço e do ferro que fere
o peito de quem se apercebe
da luta da greve do viver.

VELHO AMIGO POETA
Chico Maranhão

Velho amigo poeta, bom dia pra ti,
nesta manhã incerta, onde eu aprendi
que a vida é qualquer embarcação
sobre o mar da tormenta da paixão,
como vai o teu riacho de aluvião,
onde os barcos são pedras de carvão,
que acende assando o pão
da poesia irmão,
me conta como vão os teus pezinhos de romão,
e aquele mamoeiro macho sem razão,
que embaixo a seiva mata tuas
impingens com algodão…
Caro amigo poeta um beijo pra ti,
como vai meu colega, como vais aí?
como vai tua casa, teu clangor,
como vai tua paz interior,
como vai o teu porão de raro explendor,
onde um lenhador,
carpinteiro é dada a arrumação do fogo incendiador,
do rumo das caldeiras mortas do nosso motor,
senhor dos parreirais de brasa e de calor,
amigo, irmão, papai, pequena lágrima de amor…
Como vai teu filho, teu querido filho,
teu retrato de criança, ramo dum buquê da infância,
a rolar pelo capim, a correr pelo capim, a brincar
pelo capim.
Me conta de lá,
dos teus rios onde as margens correm pra beber,
me conta de lá,
dos teus mares onde as ondas são de cabarés,
me conta de lá,
dos teus olhos onde as covas são da viuvês…
me conta de lá,
das pitangas do ingá,
do cupim, da mambira do camurupim
da guariba do papa-capim,
dos garités…
das travessias que não davam pé.
Como vão os torqueses de nervos à cata do coração?
Como vão as toalhas de mesa dos fins de conversas
da Viana Vaz?
Como vai nosso sonho de linho, gomado a ferro
morno, um tostãozinho?
como vão as sandálias que calças com arte,
fivela pra fora da parte
da perna da calça, a única causa que tens no chão.

PONTA D’AREIA
Chico Maranhão

Eh, Ponta D’Areia, há muito tempo que eu
não te vejo não…

Capim verdinho levantando na cerca,
asfalto preto travessando a areia,
parede roxa quando nasce afundeia,
água na coxa, trepadeira na telha
fogo na boca, mecanismo na veia,
surra o cachorro, peixe seco na grelha,
morrendo pouco, cada dia na mesma… na mesa.

Eh Ponta D’Areia…

Caranguejeira namorando a parede,
moça bonita desarmando a rede,
nasceu de novo palmeirinha contente,
viva o caroço que sustenta a gente,
olho no prato, esperança na frente,
olha o borralho esquentando o ausente,
morrendo pouco, cada dia depende da trempe.

Pequena América da minha pobreza,
adormecida na própria natureza,
numa esquina brasileira surpresa,
nasceu menina comendo farinha seca
no fundo… no fundo… no fundo da nossa cabeça.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

14 comentários em “DISCOTECA BÁSICA”

  1. lisonjeado.

    grande victor: fiquei muito feliz em achar esta preciosidade no música maranhense. chico maranhão é um dos grandes gênios da música brasileira, infelizmente ainda não reconhecido como deveria. conforme prometi a andré sales no tuiter, vou te passar uns materiais para você disponibilizar no blogue. questão de tempo pra (me) organizar.

    obrigado! grande abraço!

  2. VELHO AMIGO POETA foi uma das canções que mais me marcaram quando cheguei a S.Luís, nos anos 80. Até hoje me pego cantando trechos dela. Agora mesmo cheguei ao blogue, Zema, a partir de busca que fiz no Google. Bacana descobrir um link para ouvi-la. Sou fã de Chico Maranhão e aprecio muito a música maranhense.

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