UM HOTEL EM SATOLEP SAMBATOWN

Alguém na plateia gritou pedindo Loucos de cara, quando o show Satolep Sambatown se aproximava do final. Vitor Ramil, autor do sucesso que invadiu as rádios do país na segunda metade da década de 1980, e Marcos Suzano, percussionista que o acompanhava – embora não possamos dizer simplesmente isso – não atenderam ao pedido.

Justifica-se: a única música mais velha, por assim dizer, do set list do duo foi Estrela, estrela, um dos bises, do primeiro disco do gaúcho, lançado em 1981, quando ele tinha apenas 18 anos. No mais, o repertório orbitou basicamente por Satolep Sambatown, disco lançado por ambos há três anos, Tambong (2000) e Longes (2004), solos de Ramil.

Mas o grito do carinha da plateia me fez lembrar – embora eu nunca tenha esquecido – de meu primeiro contato com a obra de Vitor Ramil. O que era aquela música de letra longa e um tanto estranha? – eu tinha coisa de seis, sete anos de idade. Tango (1987), o disco de Loucos de cara, é, até hoje, um de meus discos de cabeceira.

A ausência de uma de minhas músicas preferidas ao repertório – saí de casa com a certeza de que não a ouviria ali, ao vivo – no entanto, não diminuiu o espetáculo. E que espetáculo! Satolep Sambatown, o show, é algo que o pouco público presente ao Teatro Arthur Azevedo na noite da última quinta-feira (19) não queria que acabasse.

O pequeno público era grande conhecedor da obra de Ramil e com ele cantou várias de suas músicas: Livro aberto, Não é céu, Livros no quintal, A ilusão da casa, Neve de papel, Viajei, Foi no mês que vem, Estrela, estrela e tantas outras. O compositor-escritor revezava-se entre dois violões e Marcos Suzano, tal qual um mago, pilotava as percussões enfeitadas de eletrônica, sem exageros. Parecia criança deslumbrada com brinquedo novo, embora seja um dos maiores mestres do Brasil no lidar com aquela parafernália.

Satolep Sambatown, as duas cidades imaginárias, a Pelotas do avesso de Ramil e a cidade do samba do carioca Suzano, é um show de intimidades. Não a intimidade barata das celebridades fast-food. Mas uma intimidade verdadeira, como se músicos e plateia fossem velhos amigos de infância, os do palco agradando e “entrando pra história” sentimental de cada alma presente, os da plateia aplaudindo e cantando juntos, profundos conhecedores de quase tudo que ali se cantou.

“Conheço esta cidade/ como a palma da minha pica/ sei onde o palácio/ sei onde a fonte fica”. Leminski bem poderia ter dito isso sobre Satolep Sambatown, cidade que hospedou naquela noite mágica – e por isso inesquecível – de agosto, o Astronauta lírico que habita cada um de nós.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

3 comentários em “UM HOTEL EM SATOLEP SAMBATOWN”

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