OBITUÁRIO: PAULO MOURA

Fã confesso do saudoso Pixinguinha (1897-1973), a quem saúda como o maior mestre da música brasileira em todos os tempos, o insuspeito Ricarte Almeida Santos, tido não por acaso como o “embaixador do choro no Maranhão”, tem em Ternura, de K-Ximbinho (1917-1980), seu choro predileto. E na execução de Paulo Moura, em Mistura e manda (1983, capa abaixo), sua preferida para o clássico do clarinetista – ao repertório de K-Ximbinho Paulo Moura dedicou o disco K-Ximblues (2002).

“Material indispensável em qualquer discografia de música brasileira”, o radialista escreve o que já havia me dito pessoalmente várias vezes, acerca do disco lançado pela extinta Kuarup, que conta com participações especiais dos violonistas Maurício Carrilho, César Faria, Raphael Rabello e João Pedro Borges. Ricarte, como eu, a cantoramiga Lena Machado (que me mandou o SMS dando conta: vejo pouca televisão e pela manhã menos ainda) e um numeroso séquito de fãs e admiradores, está de luto pela subida de Paulo Moura (17/2/1933-12/7/2010).

Clarinetista e saxofonista, Paulo Moura é um dos músicos mais importantes do Brasil, dono de uma maneira característica de tocar: antes mesmo de ler as fichas técnicas, eu conseguia dizer algo como “isso é Paulo Moura!”, ouvindo pela primeira vez vários discos dele ou de que ele participou. Em Brasileirinho (documentário de Mika Kaurismäki, de 2005) aparece, simpático, lambendo uma palheta para sua clarineta e comentando sobre as sonoridades diversas do instrumento.

Outros destaques de sua vasta discografia são Paulo Moura interpreta Radamés Gnattali (1959), Pilantrocracia (1971), Confusão urbana, suburbana e rural (1976, capa acima), este com produção de Martinho da Vila e capa de Elifas Andreato, Estação Leopoldina (2003), além de discos mais recentes, divididos com outros papas de outros instrumentos, casos de El negro del blanco (2004, com o violonista Yamandu Costa), Gafieira Jazz (2006, com o pianista Cliff Korman, que reúne faixas de dois discos lançados anteriormente no exterior: Mood ingênuo, de 1999, e Gafieira dance Brasil, de 2001), Dois panos pra Manga (2006, com o pianista João Donato), Samba de latada (2007, com o cantor e compositor Josildo Sá) e Afrobossanova (2009, com o bandolinista e guitarrista Armandinho Macedo), último título de sua lavra.

O pouco espaçamento entre os lançamentos mais recentes dá provas de que, mesmo aos quase 80, Paulo Moura era incansável. E engana-se quem pensa que isso poderia servir de desculpa para trabalhos de qualidade inferior.

Talvez agora a pergunta-título do clássico-mor de Ratinho (1896-1972) seja respondida. O saxofone chora a subida de Paulo Moura. A clarineta acompanha os lúgubres lamentos.


[No Festival Kaiser Bock, SP, 1997, com Arthur Moreira Lima, em Chorando baixinho (Abel Ferreira)]

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

5 comentários em “OBITUÁRIO: PAULO MOURA”

  1. lindo texto, amigo Zema.
    seu estilo mouraniano de escrever torna a leitura do seu texto a audição de um solo do agora saudos mestre da clarineta. adorei.
    abração,
    salve salve paulo moura

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