QUANDO O PINCEL É UMA ARMA


[Nervos de aço, 1973. Capa. Reprodução]

Como era criar uma arte contestatória durante uma ditadura?

Era um embate. A censura cerceava a informação e nos forçava a ser criativos. Fazíamos o registro do momento por meio de metáforas. Era um grande desafio trabalhar, muitas vezes, com censores na própria redação. Mas não acho que a censura tenha acabado. Ela apenas se transformou e hoje é exercida pela mídia e pelo poder econômico. A quantidade de lixo nas bancas e nas tevês é absurda. Se espremer a programação, pouca coisa é relevante. Por trás disso está o interesse de alienar e não discutir os problemas do país. Se a tevê é uma concessão pública, por que não tem nenhum programa educativo no horário nobre?

Como você vê a questão dos direitos humanos hoje no Brasil?

São muito pouco respeitados, a começar pelo direito das crianças. Somos um país perverso com uma grande maioria vivendo na pobreza. Quando comecei a trabalhar, muitas das figuras políticas já estavam aí, legislando em causa própria. Uma realidade que mudou muito pouco em mais de 40 anos.

Observando sua obra, percebe-se uma nítida ligação com a música popular brasileira. De que maneira as duas artes se encontram?

Faço parte de uma geração que, embora tenha sofrido com uma ditadura, foi vitoriosa. Uma geração talentosa da qual acabei fazendo parte como aquele que fazia a interpretação visual daquele momento. A música era uma voz forte contra o arbítrio. E meu trabalho era a síntese do que acontecia em uma única imagem, seja na música, no teatro ou em livros. Sempre tive a consciência de que o que fazia era o primeiro convite para as pessoas ouvirem o disco, assistirem a peça ou ler o livro. Eu tinha que assumir a responsabilidade de transformar graficamente aquelas criações.

*

O homem que dá essas respostas (grifos do blogue) é autor da capa que ilustra este post, uma das mais bonitas da história da música brasileira. Trata-se de Elifas Andreato, cuja exposição As cores da resistência, no Memorial da Resistência, em São Paulo, traz ao público cerca de cem trabalhos seus, entre capas de discos, revistas, livros, cartazes e outros. A entrevista completa pode ser lida no site do jornal Brasil de Fato.

CAPITOSO TALENTO

As primeiras coisas que me ocorrem procurar, por exemplo, em um shopping center qualquer, são livrarias e lojas de discos. Sinto saudades de um tempo em que existiam lojas que vendiam “apenas” discos. Livrarias ainda existem umas poucas em São Luís – sebos também.

Já não é a mesma coisa, mas as seções de discos de lojas de departamentos às vezes me quebram um galho. Além de umas promoções vez por outra interessantes, dá pra sentir o gostinho de procurar algo e esbarrar em outra coisa, ou que você não procura ou de que você nunca tinha ouvido falar.


[Reprodução]

Foi assim que conheci Ceumar. Dindinha [capa acima], seu disco de estreia, produzido por Zeca Baleiro, já tinha certo tempo de lançado. Passava eu pela Rua de Santana quando adentrei uma loja, especializada na verdade em brega, forró, pagode e quetais. Tipos de música de que em geral não gosto – sempre há exceções.

Entrei por já ter achado, na mesma loja, em outras visitas, verdadeiras raridades naquelas caixas de promoção, com “qualquer disco a R$ 5,99”, por exemplo – foi lá, e por esse preço, que antes ou depois de levar a mineira para casa, já não lembro, adquiri o História antiga, do Renato Braz, disco (e cantor) de que também gosto bastante.

Mas voltemos a Ceumar e a primeira vez em que me deparei com ela. O disco não estava numa das promoções – era até caro para os padrões da época. Não resisti ao ver, na contracapa, os nomes de Itamar Assumpção, Josias Sobrinho e Zeca Baleiro, além de outros por quem já nutria admiração. Além do belo sorriso da moça. Além do belo desenho – dela mesma, descobriria depois – da capa.

“Divinha o que primeiro/ vem amor ou vem dindim/ Dindinha, dê dinheiro,/ carinho e calor pra mim”. Corto para já em casa, botando o disco pra rodar, a Dindinha de Zeca Baleiro tão bem imortalizada por Ceumar. Depois Itamar Assumpção e seu Banzo, dos versos “Às margens do rio Sena/ me lembro do Amazonas/ da minha raça morena” e saudades outras (Itamar, hoje uma saudade, apareceria com sua “voz de preto velho”, como creditado no encarte, na Rosa Maria de Josias Sobrinho).

Tive a certeza imediata de ter feito uma belíssima aquisição. E ainda não havíamos chegado a interpretações da musa de Itanhandu para Josias Sobrinho, Sinhô, Zé Ramalho, Chico César, Luiz Gonzaga, Jacinto Silva, Onildo Almeida, Luiz Gonzaga e outras de Zeca Baleiro, entre outras.

Ao fim do disco, uma certeza, uma vontade: ouvi-lo novamente. Não para confirmar o talento de Ceumar. Mas para repetir a dose de prazer. O canto dela “é um capitoso vinho/ que nos embriaga com um só pinguinho”, como diz, sobre o amor, a letra de Maldito costume (Sinhô).

Dali por diante, acompanho com especial atenção sua carreira: saiu disco novo – dela ou com sua participação no disco de outro artista – já mando buscar (em faltando lojas de discos em São Luís, a internet me salva). Shows na Ilha, não perco um. E tendem a rarear, com a moça agora morando na Holanda. Por isso, também, vou a (mais) este:

SERVIÇO

O quê: show de Ceumar. Participação especial de Tássia Campos.
Quando: dia 31 de julho (sábado), 20h.
Onde: Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande)
Quanto: R$ 25,00 (metade para estudantes. Ingressos à venda na Lima Dias Turismo, Rua Cândido Ribeiro, 134, sala 205, Centro).
Produção: Musikália Produções.
Maiores informações: (98) 3221-3364, 8858-3641, 8189-4447.

PERRENGUE

Gosto bastante do trabalho de Lobo, por cujo disco de estreia guardo enorme ansiedade. A depender de eu conseguir sair, ainda hoje, ao menos temporariamente do PFG (Programa Pindaíba de Fazer Gosto), pinto lá, logo mais. Aos poucos-mas-fieis leitores, deixo, de já, a recomendação.

ASSASSINADO EX-PRESIDIÁRIO QUE DENUNCIAVA CRIMES OCORRIDOS NO SISTEMA PRISIONAL MARANHENSE

As denúncias, de crimes como tortura, tráfico e assassinatos, incluíam autoridades do Sistema Prisional do Maranhão.

POR ZEMA RIBEIRO

O motorista Marco Aurélio Paixão da Silva, 36, foi assassinado a tiros na madrugada desta quarta-feira (21), em sua residência, uma quitinete na Ivar Saldanha, bairro da periferia de São Luís.

Matosão, como era conhecido, deixa viúva e três filhos, inclusive uma recém-nascida. O crime brutal se dá justo quando ele, em liberdade condicional concedida no último dia 13 de julho, vinha denunciando supostos crimes cometidos no interior da Penitenciária de Pedrinhas, onde cumpriu pena por tráfico de drogas. As denúncias incluíam abusos de autoridade, tráfico de celulares, armas e drogas, torturas e mortes.

Após presenciar vários crimes, incluindo homicídios, Matosão foi ameaçado. Isso o motivou a fazer as denúncias. Segundo ele, em entrevista veiculada em um programa de televisão local, no último dia 5 de julho (segunda-feira), o atual secretário adjunto de Administração Penitenciária Carlos James Moreira da Silva estaria diretamente ligado à “máfia do sistema penitenciário”, esquema de favorecimento de alguns presos, que com ele negociavam a agilização de processos, redução da pena e liberdade – traficantes cumprindo pena em regime fechado passavam o dia na rua, cuidando dos “negócios”, pagando “rendimento”, isto é, do apurado com o tráfico, um percentual é repassado a quem lhes garante a “liberdade”.

Ainda no dia em que a entrevista foi ao ar, Matosão também procurou a Seccional Maranhão da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/MA), a Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Cidadania e a Ouvidoria de Segurança Pública. Até então ele não poderia ser incluído no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (Provita) por estar cumprindo sentença. A Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), entidade executora do Provita, já havia iniciado o processo de triagem, que estava em fase de conclusão para o ingresso de Matosão no programa, após seu livramento condicional, concedido em 13 de julho pelo juiz Jamil Aguiar da Silva, titular da Vara de Execuções Criminais e Penas Alternativas.

Ofício assinado pelo ouvidor de Segurança Pública do Maranhão José de Ribamar de Araújo e Silva, encaminhado em 6 de julho (e reiterado dia 16) a Aluísio Guimarães Mendes Filho, secretário de Estado de Segurança Pública do Maranhão, permanece sem resposta. O documento solicitava custódia e proteção pessoal com a máxima celeridade possível a Marcos Aurélio Paixão da Silva, diante das denúncias que o mesmo apresentou voluntariamente à Ouvidoria e das ameaças que sofria o denunciante.

BRASIL É RESPONSÁVEL PELA IMPUNIDADE NO “CASO ASSIS”

Passados quase 20 anos do assassinato do lavrador Francisco de Assis Ferreira, nenhum envolvido foi julgado e/ou condenado. OEA acatou denúncia da SMDH e Justiça Global e responsabiliza o Estado brasileiro pela impunidade.

POR ZEMA RIBEIRO

“Já ia dar doze horas, os companheiros chamaram ele. Já só andavam juntos, temendo as ameaças. Ele disse: ‘vão andando que eu acompanho já vocês’. Outro companheiro disse: ‘vão indo que eu fico mais ele’. Ele [Assis] ainda perguntou: ‘vocês têm água?’. E os outros responderam que não, que o resto que tinham derramou. E ele retrucou que também não iria demorar, que estava com sede. ‘A sede é tanta que eu ‘tou cuspindo bala’, lembro bem o termo que me disseram que ele usou. No caso, a bala já ‘tava lá na frente esperando ele”.


[O lavrador e líder sindical Assis. Reprodução de panfleto distribuído quando do primeiro aniversário de seu assassinato]

Aos 62 anos, Dona Antonia Araújo Oliveira, carrega no rosto as marcas do sofrimento. Cada ruga parece uma medida de tempo particular da dor que carrega desde o covarde assassinato do marido, o lavrador e liderança sindical Francisco de Assis Ferreira, quando retornava da roça para almoçar em casa, na gleba Conceição do Salazar, em Codó/MA [atualmente Capinzal do Norte]. A cena é lembrada por ela no parágrafo anterior.


[Pistoleiros presos à época do assassinato de Assis e soltos em seguida. Exceto Feliz Diogo, ainda vivo, todos morreram sem julgamento e/ou condenação. Foto: Reprodução da publicação Conflitos de Terra. Acervo SMDH]

À época, foram presos em flagrante os pistoleiros Natal José de Sousa (Paturi), José Felício de Oliveira (João do Boi), Francisco de Sousa Lobão (Corda), Luís Silva Ferreira (Valter da Dedé) e Feliz Diogo do Espírito Santo. Após nove dias na cadeia foram soltos mediante parecer do Ministério Público, que considerou a prisão ilegal. Jonas da Cruz Rocha, suposto proprietário de uma fazenda de 12 mil hectares, a área em conflito, foi apontado como mandante do crime.

A polícia não realizou exames periciais básicos como balística ou da cena do crime. Pelas falhas da investigação policial, o inquérito só foi concluído em 1994, ano em que a viúva mudou-se para o povoado Santa Cruz [hoje em Capinzal do Norte/MA], outra área de conflito, onde vive até hoje. “Mas lá já foi tudo desapropriado. Tem oito meses que eu ‘tou na casa de uma irmã, no Ceará, mas eu, apesar de ter nascido lá, não me acostumo mais a morar ali”, disse. “Mas aqui, acolá, eu entro lá [onde o corpo do falecido marido está sepultado] pra eu nunca esquecer. É uma obrigação, eu vou todo cinco de novembro [aniversário do assassinato]”, completa. O processo que apurava o homicídio foi declarado improcedente pelo juiz da comarca de Codó em 1997. Da decisão houve recurso ao Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão, em maio de 2000. Mas as esperanças de julgamento, condenação e de que a justiça fosse feita foram sepultadas no Palácio Clóvis Bevilácqua.

Ontem (19) completou nove anos do ingresso da petição P-462-01 na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA). A Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) e a ONG Justiça Global (RJ), diante da morosidade do judiciário maranhense e do arquivamento do caso, alegaram a responsabilidade internacional da República Federativa do Brasil pela falta de prevenção e pela impunidade no assassinato de Francisco de Assis Ferreira. Ele tinha 44 anos quando foi executado. A denúncia foi acolhida pela CIDH no relatório de admissibilidade nº. 94/09, de 7 de setembro de 2009, quando a OEA concluiu ter competência para examinar o mérito do Caso 12.726 – número com que o mesmo foi inscrito na corte internacional.

Conflito – O suposto proprietário da fazenda expulsou duas famílias de lavradores rurais dessa propriedade em 1989. No ano seguinte o fazendeiro interporia uma ação de reintegração de posse. 30 anos antes, em 1959, Jorge Rocha Tibúrcio, pai de Jonas, teria registrado indevidamente as terras em questão, os povoados Pitoró, Resfriado e Pescateira, localizados na gleba Conceição do Salazar.

Milícias privadas foram contratadas por Jonas para bloquear o acesso das famílias às suas plantações. Ameaças de morte contra trabalhadores rurais foram denunciadas pelos mesmos ao delegado de polícia do município de Coroatá e organizações da sociedade civil, entre as quais a SMDH, denunciaram as tensões na região, solicitando ao então secretário de segurança pública estadual Agostinho Noleto, medidas preventivas para desarmar as milícias e garantir a segurança e a integridade física dos lavradores e suas famílias. Nada foi feito e em 5 de novembro de 1991 Assis foi assassinado com um tiro no peito e outro nas costas, em uma emboscada.

Na ocasião, o trabalhador rural Francisco das Chagas Sousa, conhecido como Pretinho, foi ferido por um dos tiros no braço esquerdo, mas sobreviveu. “Não era para ele [Assis] ter morrido. Se fosse doença, ele ainda estava vivo, iria fazer 63 anos, ele era só um ano mais velho que eu. Se fosse a morte que Deus dá, a gente se conformava. Mas uma criança ver seu pai morto assim…”, lembra dona Antonia, emocionada. E completa: “Mas ele sempre dizia: ‘eu vou morrer pelos companheiros’”, referindo-se à sua atuação como liderança junto ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Codó/MA.


[Centenas de pessoas acompanharam o enterro de Assis. Foto: Cesar Teixeira]

Admissibilidade – A Comissão Interamericana de Direitos Humanos declarou admissível a petição “no que se refere a supostas violações dos direitos protegidos nos artigos I e XVIII da Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem com relação aos fatos ocorridos antes de 25 de setembro de 1992” – data da assinatura da declaração –, conforme texto do relatório nº. 94/09, da CIDH/OEA.

“Recorremos à OEA por terem sido esgotadas as instâncias internas e até hoje nós não termos um julgamento, o que só faz com que as pessoas achem que podem tirar a vida de outras, que podem banalizar um direito fundamental, que é o direito à vida”, afirma Joisiane Gamba, advogada da SMDH. “É um recurso extremo, que não gostaríamos de ter que usar, mas que é preciso, uma vez que os espaços responsáveis pela apuração e responsabilização no Estado brasileiro não tem sido ágeis, hábeis e eficazes para a garantia dos direitos humanos. O Brasil está no relatório de 2009 da OEA como um estado que não garante os direitos humanos. É um vexame público, mas infelizmente tivemos que acessar, e vamos acessar todas as vezes em que se fizer necessário garantir direitos humanos, que não têm pátria nem nacionalidade, completa.

A petição também foi declarada admissível “no que se refere a supostas violações dos direitos protegidos nos artigos 8.1 e 25.1 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos quanto à obrigação geral consagrada no artigo 1.1 desse tratado, com relação aos fatos ocorridos depois de 25 de setembro de 1992”; as partes – SMDH e Justiça Global como peticionários e o Estado brasileiro – foram devidamente notificadas e a CIDH/OEA continua com a análise do mérito do assunto. A decisão foi publicada em 7 de setembro de 2009 e incluída no Relatório Anual à Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos.

“A OEA acolheu a denúncia pela não apuração dos responsáveis pela morte de Francisco de Assis e nesse momento a Comissão [Interamericana de Direitos Humanos] está examinando o mérito dessa denúncia. Nosso trabalho, agora, é de acompanhamento dos desdobramentos da análise do mérito”, explica o advogado Celso Sampaio, da SMDH. “Isso pode resultar em várias sanções ao Estado brasileiro, de ordem pecuniária, com indenizações, ou de ordem estrutural, com relação à questão da segurança no país. Houve prisões, mas não houve apuração, nem julgamento ou condenação de quem quer que seja até a presente data”, complementa.


[Dona Antonia, 63, na sede da SMDH, ontem. Foto: Zema Ribeiro]

Na manhã de ontem (19), a senhora Antonia Araújo Oliveira, esteve na sede da SMDH, em São Luís/MA, onde, acompanhada dos advogados Celso Sampaio e Joisiane Gamba, que têm acompanhado o caso junto à OEA, concedeu entrevistas a diversos meios de comunicação da capital maranhense.

Dona Antonia vive da pensão de um salário mínimo. Tem seis filhos (“Homem é só o mais velho, as outras todas são mulheres”). Quase sempre cabisbaixa, sua expressão é de profunda tristeza, apesar do olhar vivo. Ao fim da manhã, após lembrar detalhes doloridos de sua viuvez precoce, pediu licença para fumar. Ao despedirmo-nos com um abraço, ela esconde o cigarro e comenta, sobre o vício: “Eu sei que ‘tou errada. Mas o mal que eu faço é só pra mim”. Sábia lição.

SEGURA A BUCHA E BÓRA LÁ!

O violonista Zé Barbeiro lança Segura a bucha, disco autoral e instrumental, na capital maranhense. Nesta quinta-feira, 22, às 20h, no Restaurante Cantinho da Estrela (Rua do Giz, 175, Praia Grande, em frente à Praça Valdelino Cécio.

Maiores informações: (98) 8413-6035, 8168-1060, 8122-5044.

JUÍZA ARGENTINA SE NEGA A CASAR GAYS MESMO QUE “CUSTE SUA PRÓPRIA VIDA”

Copiei da Folha.com

DA FRANCE PRESSE, EM BUENOS AIRES

Uma juíza de paz argentina afirmou nesta sexta-feira que jamais realizará o casamento de casais homossexuais, um dia depois de o Senado aprovar uma lei que autoriza essas uniões.

“Que me acusem do que quiser. Deus me diz uma coisa e eu vou obedecer com todo rigor, mesmo que custe meu cargo, e mesmo que me custe a vida”, afirmou Marta Covella, juíza de paz da cidade de General Pico.

“Fui criada lendo a Bíblia e sei o que Deus pensa. Deus ama a todos, mas não aprova as coisas ruins que as pessoas fazem. E uma relação entre homossexuais é uma coisa ruim diante dos olhos de Deus”, assinalou ainda.

A Argentina se converteu na madrugada de quinta-feira no primeiro país da América Latina a autorizar o casamento entre homossexuais, com uma histórica e longa votação no Senado.

A lei foi aprovada com 33 votos a favor, 27 contra e 3 abstenções, depois de uma sessão que durou mais de 14 horas e apesar da oposição da Igreja católica, que liderou uma intensa mobilização social para impedir a aprovação do projeto.

A nova legislação propõe reformar o Código Civil mudando a fórmula de “marido e mulher” pelo termo “contraentes” e prevê igualar os direitos dos casais homossexuais com os dos heterossexuais, incluindo os direitos de adoção, herança e benefícios sociais.

A Igreja lançou na última semana uma forte ofensiva contra a lei e mobilizou na terça-feira milhares de seus fieis para pressionar contra sua aprovação.

&

Via Pedro Alexandre Sanches.

&

Comentário do blogue: imagina se fosse no Maranhão!

JUÍZA ARGENTINA SE NEGA A CASAR GAYS MESMO QUE "CUSTE SUA PRÓPRIA VIDA"

Copiei da Folha.com

DA FRANCE PRESSE, EM BUENOS AIRES

Uma juíza de paz argentina afirmou nesta sexta-feira que jamais realizará o casamento de casais homossexuais, um dia depois de o Senado aprovar uma lei que autoriza essas uniões.

“Que me acusem do que quiser. Deus me diz uma coisa e eu vou obedecer com todo rigor, mesmo que custe meu cargo, e mesmo que me custe a vida”, afirmou Marta Covella, juíza de paz da cidade de General Pico.

“Fui criada lendo a Bíblia e sei o que Deus pensa. Deus ama a todos, mas não aprova as coisas ruins que as pessoas fazem. E uma relação entre homossexuais é uma coisa ruim diante dos olhos de Deus”, assinalou ainda.

A Argentina se converteu na madrugada de quinta-feira no primeiro país da América Latina a autorizar o casamento entre homossexuais, com uma histórica e longa votação no Senado.

A lei foi aprovada com 33 votos a favor, 27 contra e 3 abstenções, depois de uma sessão que durou mais de 14 horas e apesar da oposição da Igreja católica, que liderou uma intensa mobilização social para impedir a aprovação do projeto.

A nova legislação propõe reformar o Código Civil mudando a fórmula de “marido e mulher” pelo termo “contraentes” e prevê igualar os direitos dos casais homossexuais com os dos heterossexuais, incluindo os direitos de adoção, herança e benefícios sociais.

A Igreja lançou na última semana uma forte ofensiva contra a lei e mobilizou na terça-feira milhares de seus fieis para pressionar contra sua aprovação.

&

Via Pedro Alexandre Sanches.

&

Comentário do blogue: imagina se fosse no Maranhão!

APANHEI-TE CAVAQUINHO

O nosso Ditinho, ai que dó. Já estava no fim. Você também achou? Meio surdo, asmático, a voz era um sopro lá no fundo. Na rua, de repente se chegava por trás, me pegava no braço:

– Quero uma escova e pasta. Para mim você compra?

Cada vez mais rouco. Íamos à farmácia. Me dava o dinheiro, eu falava com a balconista. Tanta pena do camaradinha. Sabia pedir duas coisas, apenas com gesto: cafezinho (erguia o indicador bem torto) e cigarro (apontava a marca, fumante desgraçado). Contanto que não falasse, era incapaz.

O último rebento fanado da sexta ou sétima união incestuosa de primo com prima. O famoso louquinho da tradicional família curitibana que, ao chegar visita, é fechado no porão.

Além da mãezinha, só uma mulher ele amou na vida – a sua grande paixão secreta. Uma artista americana de cinema, célebre na época. Não é que esqueci o nome? Ditinho escreveu-lhe mil e uma cartas de amor desesperado, mesmo em português. Propunha casamento, pacto de morte, fuga para Antonina. Sob registro, mandou seis fotos coloridas: de cachimbo, lendo uma revista, todo risonho, de perfil. Depois a impressão da mão, assinalada a longa linha do amor. Por fim o contorno em vermelho do troféu de Mister Curitiba – duas vezes ampliado. Em resposta chegava do estúdio sempre o mesmo retrato em branco e preto.

Quando ela noivou, o nosso herói surgiu cambaleante no bar:

– Viu só? O que a bandida fez?

Bebia rum puro, de um gole só. Logo a testinha perolada de suor frio. Escorregava da cadeira, em coma alcoólico – os amigos o assistiam, não morresse ali mesmo. Como explicar à santa mãezinha?

Na hora em que a atriz casava, ele rabiscou bilhete de despedida e engoliu setenta e seis comprimidos de vários tamanhos e cores. Dormiu dois dias e três noites, com a mãe e a irmã se revezando na cabeceira. Abriu o olhinho raiado de sangue, a velha começou:

– Ditinho, por que…

– O Ditinho morreu.

Durão, exigiu que o tratassem pelo nome, cultivou tossinha nervosa e bigodinho feroz.

– Ah, doce inimiga. Para você amor é alô, um beijo e adeus?

Tinha razão: seis meses não durou o casamento. Quando a traidora se separou, ele devolveu o desprezo:

– Viu só? Aqui do gostosão não esquece.

Quase surdo, maníaco por jazz e ópera de Verdi. Um agudo desafinado, exibia furioso o dentinho de ouro:

– Viu? Viu só? – saltitando na pontinha do pé. – Esfolo vivo. E bebo o sangue.

Com aquele tamaninho e tudo, aquela mãozinha peluda, tocava piano. E não tocava mal. Ofendido quando eu pedia marchinha carnavalesca. Baixando a tampa, sacudia os bracinhos:

– É um selvagem. Não tem gosto.

No fundo da livraria o ronronar do velho gato pesteado e já sabia – era ele, folheando uma revista de cultura física, os guapos rapagões. Eu me inclinava para distinguir o fiozinho de voz:

– Já não tenho amigo. Só amante.

O seu querido bofe, que recebia na sala de música. Cabecinha retorcida para o outro lá no alto. Apresentava-o como discípulo, fanático dos recitais de ópera. Recitais ou inocentes bacanais? Quem há de saber?

Ali o piano, os mil discos preciosos, as grandes caixas de som, o sofá de veludo vermelho. Seu ídolo era um negro possesso de álcool e droga. Em surdina perseguia no pianinho a alucinada clarineta.

– Olhe, que beleza. Nem uma nota em falso. Ínfimo burocrata, esquecido na sala escura do sótão. Entre os processos empoeirados, espirrava e dedicava-se a palavras cruzadas. Se você passava no corredor, pronto escondia na gaveta o caderninho.

Desligado da conversa, suspirava fundo, olhinho perdido:

– Que será o meu canarinho está fazendo?

Odiava o irmão mais velho:

– Bêbado. Desgracido. Quer vender a casa. E me deixa na rua.

Só restavam no antigo sobrado ele e a irmã solteirona.

– Minha segunda mãe. Quem sabe até minha mãe?

Ela que o defendia contra a cidade maldita. A salinha sagrada de música, o branquinho nas refeições, a moela, o coração e a sambiquira.

– Passe o branquinho, Maria.

O vício do arroz lavado em sete águas.

Não é que a irmã faltou de repente? Finou-se dormindo, um sorriso pálido na boquinha torta. Os amigos tremeram: Que seria do Ditinho?

No casarão agora ele e a velha criada. Quase noite, voltou do enterro. Sentado no caixote de lenha, soluçava em desespero. Subiu penosamente os degraus:

– Não me incomode. Vou descansar.

Pouco depois chegou o discípulo dileto. Ou querido bofe. Loiro alto, louco por blue. A negra arrastou-se pela escada, abriu a porta do quarto – ele sonhava e gemia. No pijama azul de bolinha. Uma gorda lágrima ali no canto do olho. Sacudiu-o de leve.

– Credo, Biela. Que foi?

O novo parceiro lá estava.

– Espere um pouco. Já vou.

Desceu no roupão florido de seda, lencinho no pescoço. Ofegava, sibilante, o cabelo ainda molhado para assentar o remoinho. Pintava-o bem preto. Escolheu um disco do grande Nazareth.

– A marcha fúnebre de Maria.

Violão, flauta e cavaquinho, como ele apreciava. Sem sossego, andando inquieto pela sala.

– Tanto calor.

Rebentou o botão do casaco, aflitinho.

– Ai, meu Deus. Que agonia.

Abanava-se com a revistinha. A mão crispada no lenço, abriu a boca, rolou de costas no tapete.

O outro saiu correndo:

– Alguém acuda. Chame o doutor.

Era tarde, mortinho para sempre: um simples retrato desbotado em branco e preto. E o violão do chorinho nunca mais foi brejeiro.

[Dalton Trevisan. In: Meu querido assassino. Editora Record, 1983, páginas 76-80]

OBITUÁRIO: PAULO MOURA

Fã confesso do saudoso Pixinguinha (1897-1973), a quem saúda como o maior mestre da música brasileira em todos os tempos, o insuspeito Ricarte Almeida Santos, tido não por acaso como o “embaixador do choro no Maranhão”, tem em Ternura, de K-Ximbinho (1917-1980), seu choro predileto. E na execução de Paulo Moura, em Mistura e manda (1983, capa abaixo), sua preferida para o clássico do clarinetista – ao repertório de K-Ximbinho Paulo Moura dedicou o disco K-Ximblues (2002).

“Material indispensável em qualquer discografia de música brasileira”, o radialista escreve o que já havia me dito pessoalmente várias vezes, acerca do disco lançado pela extinta Kuarup, que conta com participações especiais dos violonistas Maurício Carrilho, César Faria, Raphael Rabello e João Pedro Borges. Ricarte, como eu, a cantoramiga Lena Machado (que me mandou o SMS dando conta: vejo pouca televisão e pela manhã menos ainda) e um numeroso séquito de fãs e admiradores, está de luto pela subida de Paulo Moura (17/2/1933-12/7/2010).

Clarinetista e saxofonista, Paulo Moura é um dos músicos mais importantes do Brasil, dono de uma maneira característica de tocar: antes mesmo de ler as fichas técnicas, eu conseguia dizer algo como “isso é Paulo Moura!”, ouvindo pela primeira vez vários discos dele ou de que ele participou. Em Brasileirinho (documentário de Mika Kaurismäki, de 2005) aparece, simpático, lambendo uma palheta para sua clarineta e comentando sobre as sonoridades diversas do instrumento.

Outros destaques de sua vasta discografia são Paulo Moura interpreta Radamés Gnattali (1959), Pilantrocracia (1971), Confusão urbana, suburbana e rural (1976, capa acima), este com produção de Martinho da Vila e capa de Elifas Andreato, Estação Leopoldina (2003), além de discos mais recentes, divididos com outros papas de outros instrumentos, casos de El negro del blanco (2004, com o violonista Yamandu Costa), Gafieira Jazz (2006, com o pianista Cliff Korman, que reúne faixas de dois discos lançados anteriormente no exterior: Mood ingênuo, de 1999, e Gafieira dance Brasil, de 2001), Dois panos pra Manga (2006, com o pianista João Donato), Samba de latada (2007, com o cantor e compositor Josildo Sá) e Afrobossanova (2009, com o bandolinista e guitarrista Armandinho Macedo), último título de sua lavra.

O pouco espaçamento entre os lançamentos mais recentes dá provas de que, mesmo aos quase 80, Paulo Moura era incansável. E engana-se quem pensa que isso poderia servir de desculpa para trabalhos de qualidade inferior.

Talvez agora a pergunta-título do clássico-mor de Ratinho (1896-1972) seja respondida. O saxofone chora a subida de Paulo Moura. A clarineta acompanha os lúgubres lamentos.


[No Festival Kaiser Bock, SP, 1997, com Arthur Moreira Lima, em Chorando baixinho (Abel Ferreira)]

ALCÂNTARA DEVERIA SER QUESTÃO DE HONRA PARA O MARANHÃO

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Como você acha que a sociedade maranhense, a classe política e as organizações sociais do Maranhão deveriam tratar esta questão de Alcântara?

Para mim Alcântara deveria ser uma questão de honra para o Maranhão, para a classe política, para a elite, para nós todos cidadãos maranhenses. Além de ser uma cidade histórica, tombada como patrimônio nacional desde 1948, é um local onde proliferam as manifestações da cultura popular, as festas religiosas, os saberes (como a cerâmica de Itamatatiua, a carpintaria naval de São João de Cortes). É, junto com outros municípios da Baixada, praticamente o berço de várias manifestações culturais maranhenses das mais tradicionais, como o bumba-meu-boi às mais recentes, como o reggae. Além disso, foi o celeiro de São Luís durante todo o século XIX. Abasteceu e continua a abastecer a capital de pescado, peixe seco, farinha, carvão e outros produtos. No tocante às terras dos quilombolas tem uma situação semelhante ao território indígena de Raposa Serra do Sol. Alcântara é um extenso território étnico, sendo a maior do Brasil em terras contíguas. São mais de 150 comunidades. Cuidar das terras de quilombos, titulá-las a esses grupos é saldar uma dívida histórica do nosso país. Então, para implantar uma base de foguetes, que poderia ser feita em outro lugar ao longo da linha do equador, você passa por cima de tudo isto? Você vai destruir estas comunidades? Vai matá-las de fome? Vai exterminar todo esse patrimônio imaterial? Alcântara é uma referência cultural no país, é uma joia… Em qualquer lugar do mundo isto seria valorizado. A elite do Maranhão, esta elite dirigente, não gosta do seu povo e não gosta desses lugares! Eles se aproximam da cultura popular apenas para servir a seus interesses eleitorais…

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Este conflito social em Alcântara provocou uma denúncia de algumas organizações sociais contra o Brasil na OEA (Organização dos Estados Americanos). Sobre este assunto, você esteve em uma audiência em Washington e, na presença dos representantes do Ministério das Relações Exteriores do Brasil disse que, em Alcântara, estava sendo colocado em prática um processo de “limpeza étnica”?

É verdade. E a representante do ministério não gostou, mas não teve como responder. Trata-se mesmo de um grande processo de limpeza étnica. Eles impedem as famílias de se reproduzir material e socialmente. Nós os antropólogos temos classificado esta situação de limpeza étnica. Nas agrovilas, os mais velhos vão morrer. Os mais jovens foram jogados nas periferias de Alcântara e São Luís. Ou seja, em um breve espaço de tempo aquelas áreas estarão limpas de pessoas, de grupos étnicos.

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A implantação da Base trouxe algum benefício para o Município de Alcântara?

Nenhum! Ela está implantada há mais de 20 anos e além de todos os problemas que nós já falamos, se você for ver o Índice de Desenvolvimento Humano do município não melhorou em nada. O Maranhão é uma das unidades da Federação cujos índices de desenvolvimento são mais baixos. Alcântara e outros municípios da Baixada são aqueles que apresentam a pior situação nesses índices. Como se explica isto, se ali existe uma base de lançamento de foguetes, teoricamente uma tecnologia de ponta? Não seria para o município estar vivendo muito bem? A propaganda oficial fala em emprego, mas na verdade os empregos não existem. O que tem, às vezes, são pequenos trabalhos que duram no máximo três meses. E o que dizer da situação educacional do município?

Hoje, estamos às vésperas de mais uma eleição. Como observadora da realidade social do Maranhão, não lhe parece que as questões referentes a índios, quilombolas, lavradores, quebradeiras de coco, sem terra, estão fora da agenda dos partidos e seus candidatos?

Infelizmente não existe lugar para este discurso. Diante desta pergunta eu fico pensando: será que é porque não dá voto? De fato, não se vê ninguém falando de quebradeira de coco, de quilombola, de índios, de camponês, do pequeno trabalhador rural. Será que é porque a classe média não se interessa por estes temas? O fato é que os partidos políticos ficam indiferentes. Todos! Não seria correto esperar que, ao menos os tidos como à esquerda, tratassem dessas questões? Mas, qual o partido no Maranhão que fala sobre os danos causados pela Siderúrgica, pelo Centro de Lançamento de Foguetes de Alcântara, pelo Agronegócio?

Sobre os efeitos negativos da Soja, do Eucalipto, da Vale, da Alumar…

Pois é! Ninguém fala!

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O Vias de Fato e Maristela de Paula Andrade falam. A antropóloga e professora da UFMA é a entrevistada do mês de julho do único jornal local que tem coragem de tocar os dedos nas feridas (no plural, que as feridas são muitas).

Outro destaque do número 10 (que é a nota do jornal também!), ora nas bancas, é a matéria O escândalo do “Projeto da EMSA” (com fotos deste blogueiro) sobre o rol de problemas (para usarmos um termo bem leve) do projeto Tabuleiros de São Bernardo, em Magalhães de Almeida/MA, cuja implantação começou há 23 anos, quando Sarney era presidente da República. O projeto de fruticultura irrigada até hoje ainda está sem funcionar plenamente.

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