TODA FLÁVIA

[Matéria publicada no número 4 do Vias de Fato, de janeiro de 2010]

A DOMINGUEIRA DE TODO SANTO DIA DE FLÁVIA BITTENCOURT

Cantora maranhense tributa o compositor e sanfoneiro pernambucano Dominguinhos em Todo Domingos, disco que foge de estereótipos.

POR ZEMA RIBEIRO

A participação especial de Dominguinhos na estreia de Flávia Bittencourt [Sentido, 2005] pode ter sido um prenúncio: em 2009, a cantora maranhense lançou seu segundo disco, completamente dedicado à obra do sanfoneiro pernambucano: Todo Domingos – a exceção é Seu Domingos, música dela, em homenagem a ele, como o disco inteiro.


[Todo Domingos. Capa. Reprodução]

A cantora conta como foi o encontro: “Eu o conheci num evento em que eu fui me apresentar. Ele se apresentou depois de mim e me chamou para cantar De volta pro aconchego [Dominguinhos/ Nando Cordel]. Meu pai já tinha conhecido Dominguinhos, salvo engano em Pernambuco, e falou que tinha uma filha que cantava e ele disse que eu podia ligar. Aí, imagina, Dominguinhos nunca me viu na vida e do nada eu vou ligar? Nunca liguei. Quando nos encontramos, contei a história e ele disse que lembrava. Falei “tou gravando um disco, vou te convidar pra participar”, e ele foi numa boa, super atencioso. E a partir disso a gente passou a ter um contato maior, de ligar. Tem uma coisa de alma, você bate mais com umas pessoas que com outras, foi isso que aconteceu com Dominguinhos. Conhecer, eu já conhecia, mas o que todo mundo conhece. Nunca tinha parado para pesquisar os discos dele mais antigos, de conhecer pessoalmente, ouvir histórias. E isso vai instigando a pessoa a querer saber mais. Ele me apoiou, me emprestou os discos todos, ajudou na liberação das músicas. Ele editou música em vários lugares diferentes, o que torna as coisas mais difíceis. O próprio Dominguinhos conta que para gravar um DVD dele mesmo, com composições dele, passou por um processo dificílimo de liberar as próprias músicas. Eu vou agradecer sempre. Seria quase impossível lançar esse disco sem a colaboração dele, demoraria muito mais. Vou agradecer sempre a participação dele ativa nesse processo todo”. Dominguinhos toca sanfona em Diz amiga [Dominguinhos/ Guadalupe].

Entre outros músicos, participaram da gravação Leandro Saramago (violão sete cordas), Dudu Oliveira (flauta), Nicolas Krassik (rabeca), Guto Wirtti (baixo acústico), Alessandro Cardozo (cavaquinho), Silvério Pontes (trompete), Luiz Flávio Alcofra (violão), Charlles da Costa (violão), Rogério Fernandes (baixo elétrico), Alexandre Maionese (flauta), Gerson da Conceição (violões, efeitos), Tiquinho (trombone) e Netinho Albuquerque (percussão), marido da cantora.

Flávia Bittencourt, que aos dois anos e meio de curso abandonou a Faculdade de Farmácia para dedicar-se integralmente à música, escolheu 12 obras do repertório do “afilhado de Gonzagão” buscando justamente fugir desse estereótipo. “Dominguinhos sempre foi muito identificado com a coisa da música nordestina, do forró, e embora esse lado também seja maravilhoso, sempre cobriu muito esse outro lado dele, das melodias lindas que ele tem, o grande melodista que ele é e que a gente ouve nesse trabalho”, explica a cantora, que, se deixou de fora clássicos absolutos como De volta pro aconchego [Dominguinhos/ Nando Cordel] e Gostoso demais [Dominguinhos/ Nando Cordel], gravou temas como Arrebol [Dominguinhos/ Anastácia], Retrato da vida [Dominguinhos/ Djavan] e O babulina [Dominguinhos/ Anastácia], seu único samba, em que homenageia Jorge Ben.

Outro estereótipo evitado pela artista é o que insiste em reproduzir o nordestino como um povo sofredor: “Eu não consegui deixar de gravar o Lamento sertanejo [Dominguinhos/ Gilberto Gil], que é uma música belíssima e já estava no repertório do show do primeiro disco”, diz Flávia, emendando com uma história: “Uma vez ele tava dividindo o palco com o [músico gaúcho Renato] Borghetti. Quando Borghetti cantava apareciam coisas lindas no telão e quando Dominguinhos ia cantar só aparecia seca, o gado morrendo, e ele disse que se incomodou, que reclamou depois com a produção”.

“Eu sempre tenho muito cuidado com os trabalhos. Acho que todo mundo procura fazer sempre o melhor, né?”, Flávia responde se perguntando ao porquê da demora entre Sentido [2005] e Todo Domingos [2009]: “O Sentido foi lançado de verdade em 2005 e eu não caí no mesmo erro com Todo Domingos. Sentido tava mixado e eu mandei as músicas para rádio. As músicas já tocavam desde 2003 e eu fiquei atrás de verba para concluir o disco, que acabou ficando ou parecendo mais velho do que realmente é. Do segundo, não soltei nada antes”, completa, antecipando já ter repertório para um novo trabalho: “Já começamos a pensar o terceiro, que esperamos que demore menos, quem sabe ele chega em 2010, 2011 no mais tardar”, promete.

FAIXA A FAIXA

Flávia Bittencourt comenta, uma por uma, todo Todo Domingos.

Lamento sertanejo [Dominguinhos/ Gilberto Gil]. “As duas do Gil acabaram entrando. São músicas que eu sempre gostei. Lamento sertanejo já fazia parte do show do primeiro disco. Quando a gente resolveu gravar Todo Domingos foi natural que ela entrasse. O arranjo ficou bacana, a gente testando em casa viu que valeria a pena ela fazer parte da gravação”.

Eu só quero um xodó [Dominguinhos/ Anastácia]. “Clássico dos clássicos de Dominguinhos, sua música mais gravada, até em japonês. Pensei que tinha que gravar diferente e gostei muito do resultado, um [compasso] 6×8 que combinou muito com ela”.

Contrato de separação [Dominguinhos/ Anastácia]. “Para mim, é uma das melodias mais lindas dele”.

Sete meninas [Dominguinhos/ Toinho]. “Foi a alegria dessas Sete meninas, que é contagiante. Eu pensei no contexto do repertório, para dar uma balanceada”.

Diz amiga [Dominguinhos/ Guadalupe], com participação especial de Dominguinhos. “Foi um momento emocionante da gravação, pela presença dele no estúdio, pela emoção que ele passa quando tá tocando. Quem esteve lá presente se emocionou muito”.

Arrebol [Dominguinhos/ Anastácia]. “Não parece ser uma música do Dominguinhos. É diferente do que ele costuma compor, harmonia, melodia, isso me chamou muito a atenção e por isso resolvi gravá-la”.

Quem me levará sou eu [Dominguinhos/ Manduka]. “É linda, sou apaixonada por essa música também. Foi gravada pelo Fagner, cujo trabalho também gosto muito. Aí a gente fez um arranjo mais percussivo”.

Retrato da vida [Dominguinhos/ Djavan]. “É a única parceria com Djavan. Apesar de eu não ter gravado, por exemplo, as duas parcerias com Chico Buarque”.

Tenho sede [Dominguinhos/ Anastácia]. “A maioria das músicas são parcerias do Dominguinhos com a Anastácia, este disco é uma homenagem a ela também. E essa eu também não consegui deixar de fora. O Jayme Vignoli fez um arranjo de cordas maravilhoso, uma obra prima”.

São João bonito [Dominguinhos/ Anastácia]. “É uma marchinha, uma quadrilha, no original. Amei a melodia quando ouvi, muito fofa – esse é o melhor adjetivo para defini-la. É uma melodia graciosa e ela também não é muito conhecida pela maioria das pessoas”.

Seu Domingos [Flávia Bittencourt]. “A ideia me veio na pré-produção, um dia em casa lembrando das coisas que ele costuma falar. Ele detesta essa coisa do nordestino sofrido. Uma vez ele tava dividindo o palco com o [músico gaúcho Renato] Borghetti. Quando Borghetti cantava apareciam coisas lindas no telão e quando Dominguinhos ia cantar só aparecia seca, o gado morrendo e ele disse que se incomodou, que reclamou depois com a produção, que o nordestino só era visto de forma estereotipada, e foi pensando nisso que eu fiz Seu Domingos“.

O babulina [Dominguinhos/ Anastácia]. “É o único samba dele, em homenagem a Jorge Ben, e eu queria registrar também isso. Ficamos em dúvida sobre gravar ou não, por que ele homenageia outro cara. Mas é uma música do Dominguinhos, e eu adoro Jorge Ben também”.

Abri a porta [Dominguinhos/ Gilberto Gil]. “O xote e o reggae têm células bem parecidas, mas ninguém nunca tinha gravado reggae, reggae, reggae totalmente. E eu nunca tinha gravado um reggae. As gravações dessa música sempre tiveram essa mescla e eu resolvi assumir como reggae mesmo, chamei o Gerson da Conceição, que arranja pra reggae como ninguém”. (ZR).

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

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