A POESIA MUSICAL DE RAMON MELLO

Livro de estreia do poeta carioca reúne influências musicais diversas.


[Vinis mofados. Capa. Reprodução]

Não estranhem o mofo do título, caros leitores: referência explícita a Caio Fernando Abreu. O conteúdo é poesia vivíssima, ágil, certeira, like a rolling stone. Se pedras que rolam não criam limo, poesia também. O primeiro poema do livro é dedicado a Waly Salomão, desde sempre apaixonado por livros e literatura (Cesta básica, o poema, ligeiro, fala justo dessa paixão), o que mostra o bom acompanhamento do poeta que ao longo de sua estreia presta ainda outros tributos.

Vinis mofados [2009, 94p., Língua Geral, coleção Língua Real, R$ 25,00 no site da editora], de Ramon Mello é, como entrega o título, um livro cheio de referências musicais. Inclusive dividido em lado a e lado b. O autor, nascido em Araruama em 1984, já é da geração do moribundo CD (e mp3, mp4, download etc.), mas traz, neste belo livro-álbum, uma interessante coleção de um pouco de tudo, matéria-prima de sua boa poesia, não confundir simplicidade com facilidade.

“resolvi organizar/ a bagunça na estante:// palavras empoeiradas/ fotografias letras de/ música vinis mofados// e uma coleção de/ romances fracassados”, o poema-título (Vinis mofados, p. 68). Na homenagem a cidade natal, um dos poucos poemas sem explícita referência musical, ele escreve: “bebedouro de araras e/ (alguns) políticos corruptos” (Araruama, p. 25). Não fossem as aves, o poeta poderia ter nascido em qualquer lugar e ainda assim parido este poema.

Aproveitem a promoção: “baratos da ribeiro/ promoção do dia:// elis regina richard/ strauss (zaratustra)/ beatles gal fa – tal// tudo por cinco real” (Sebo, p. 38). Sua poesia, observações (o autor é jornalista), é feita de sentimentos. Uns doem: “toca discos com/ agulha quebrada/ livros encaixotados// gato persa deprimido/ vomitando mudanças/ saudades e bolas de// pelo piano de parede/ mudo chorando/ ausência dos seus// dedos firmes viris/ enquanto escrevo/ versos inúteis” (Partitura, p. 74).

Do alto de sua juventude o que Ramon Mello faz é tirar a poeira e o mofo de seus vinis-poemas, colocando-os na vitrola-olhos-mentes-corações-dos-leitores para tocá-los.

*

Este texto deveria ter saído na Tribuna Cultural há duas semanas; no domingo pós-natal o Tribuna do Nordeste não circulou; no domingo pós-ano novo, republicaram meu texto sobre o novo livro da Bruna Beber. Acabou saindo hoje.

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

3 comentários em “A POESIA MUSICAL DE RAMON MELLO”

  1. o velhinho continua bom, né? tipo os vinhos que ele já não pode mais apreciar, pena. o livro do ramon eu li de papel mesmo. vale muito a pena. abração e um ótimo 2010!

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