EM DOIS TAPAS

Há um bom tempo não lia algo assim: comprei Minha fama de mau no aeroporto de Recife e entre a capital pernambucana e São Luís, uma escala em Fortaleza, dois sanduíches e duas latas de cerveja depois, já havia devorado mais de 200 páginas do livro, isto é, mais da metade dele. Chegando em casa continuei a leitura, a tempo de escrever sobre, para a Tribuna Cultural (Tribuna do Nordeste) de hoje.

ERASMO CARLOS, AGORA COM FAMA DE ESCRITOR

Quase-autobiografia de ídolo da Jovem Guarda descortina intimidades.


[Minha fama de mau. Capa. Reprodução]

Há personagens tão geniais, que por si só rendem ótimas biografias (embora quem as assine também seja responsável pela qualidade atingida): são os casos de, entre outros, Paulo Leminski (biografado por Toninho Vaz em O bandido que sabia latim), Sérgio Sampaio (por Rodrigo Moreira em Eu quero é botar meu bloco na rua), Tim Maia (por Nelson Motta em Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia) e Tarso de Castro (por Tom Cardoso em 75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros).

É o caso também de Erasmo Carlos, injustamente sempre tido como um compositor (e cantor) menor dentro da música brasileira. Talvez o fato de ser o parceiro mais constante de Roberto Carlos – o rei – possa explicar, em parte, a injustiça. Talvez o fato de ainda estar vivíssimo e em plena produção explique também o fato de ainda não ter sido biografado.

Minha fama de mau [Objetiva, 2008, 353 p., R$ 47,90] não chega a ser sua autobiografia. No livro, Erasmo Carlos, em sua prosa envolvente, ligeira e certeira, relata diversos causos engraçados e o volume acaba se transformando em uma espécie de conversa risonha e franca com seu autor, que nos arranca vários sorrisos: não há pudores em sua escrita simples e direta, capaz de emocionar tanto a quem viveu a época da Jovem Guarda, quanto quem não, entre fãs ou não do homem.

Mas trata-se de uma série de histórias que podem ser lidas, inclusive, fora da ordem em que aparecem distribuídas por suas páginas. É relato alegre que nem justifica o título: são as boas lembranças mais do senhor Erasmo Carlos alegre que aparece na contracapa que do jovem e “sisudo” Erasmo Carlos da capa. Também são personagens fundamentais desses relatos Roberto Carlos e Tim Maia – que ensinou os primeiros acordes de violão a Erasmo –, ambos integrantes da “turma da Tijuca”, grupo de jovens que acabaram virando as suas primeiras bandas, além de Carlos Imperial e Narinha – sua musa-mulher. Sexo, rock’n roll e os bastidores da Jovem Guarda dão o tom do livro que, se não chega a ser uma autobiografia, vale muito a pena pela visão bem humorada de quem é peça importante da história da música brasileira.

MINHA FAMA DE MAU – LEIA TRECHO

Madre Wandeca de Calcutá

Perguntam-me sempre se não rolou nada entre mim e Wanderléa, no período da Jovem Guarda. Digo que não, embora da minha parte deva admitir que a intenção existia. Mas o forte policiamento do seu Salim – um verdadeiro pai-zagueiro, marcando em cima do lance qualquer tentativa de gol – não deixava espaços para atacantes matadores como eu.

Eu e Wanderléa chegamos a dividir um programa na TV Record, em 1966. Era o Ternurinha & Tremendão, com textos de Chico Anysio, Arnaud Rodrigues e Mario Wilson e direção de Carlos Manga – que costumava elogiar minhas interpretações, me chamando de “Orson Welles brasileiro”, o que me deixava vaidosíssimo. No programa, fazíamos esquetes que eram adaptados de filmes de sucesso.

Wanderléa sempre foi muito criativa. Ela mesmo bolava sua coreografia, inventando passos e danças que, depois de serem mostradas na TV, eram imitadas por toda a juventude brasileira. Suas minissaias ousadas representavam o que havia de mais moderno na época. Ela e seu irmão Bil desenhavam e ele mesmo confeccionava as roupas extravagantes que Wanderléa usava em suas apresentações, misturando couro, franjas, tachas e camurça com botas acima do joelho, colares, cintões, pulseiras, chapéus etc.

Como todos nós da Jovem Guarda, Wanderléa sofreu com as críticas vindas de setores politizados, que a tachavam de “alienada” e “americanizada”. Mas ela contribuiu sim, do seu jeito, na luta pela liberdade, que era a principal preocupação do país naqueles tempos de ditadura. Numa época em que as mulheres viviam cerceadas por seus pais e maridos, ela colocou no coração de cada menina a semente do direito de se vestir, de dançar, de cantar e de ser feliz.

Um rubor adorável coloria seu rosto todas as vezes em que ouvia um palavrão nos bastidores machistas da TV Record dos anos 60. Mas seu semblante pegaria fogo mesmo se soubesse a verdadeira razão dos olhares maliciosos que a acompanhavam ao vê-la sair do camarim feminino. Afinal, no masculino ao lado, músicos e cantores disputavam, com socos e empurrões, um buraquinho na parede pelo qual era possível desfrutar da nudez das artistas da emissora, inclusive a dela. Bons tempos aqueles em que o nu ainda carregava um mistério.

(Erasmo Carlos, Minha fama de mau, páginas 181-182)

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

2 comentários em “EM DOIS TAPAS”

  1. vou ler esse aí tbm.
    zema, passa no flogao galloazhuu e saca o cartaz do “sessões para o nada” dessa sexta 27 de noviembre. se puder, dá uma força aí na divulgação. abraço.

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