EPOPÉIA PORNÔ N’O ESTADO

[Essa saiu nO Estado do Maranhão de domingo (26). Posto abaixo o texto como enviado ao jornal (lá os “palavrões” ganharam reticências) e a íntegra do trecho (em itálico o que não foi publicado).]

A VOLTA – EM GRANDE ESTILO – DE REINALDO MORAES

Novo romance de Reinaldo Moraes é clássico contemporâneo.

POR ZEMA RIBEIRO*
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO


[Pornopopéia. Capa. Reprodução]

Talvez o acento agudo em Pornopopéia [2009, Editora Objetiva, 475 páginas, R$ 54,90] seja a primeira provocação de Reinaldo Moraes em seu novo livro. Talvez. As novas regras gramaticais, que tirariam dali o acento, ainda convivem com as velhas, numa suruba ortográfica que perdurará ainda alguns anos – esta resenha, portanto, seguirá a opção do bom e velho Reinaldão. A segunda, usar sua própria imagem (ainda que tratada) na capa do livro: sim, Reinaldo Moraes, clicado por Ronaldo Bressane, lendo um texto na Mercearia São Pedro (Vila Madalena/SP) – “boteco literário” que tem cá no Bar do Léo (São Luís/MA) um primo distante – onde aconteceu, mês passado, o lançamento do livro. Mas isso é o de menos. Provocação mesmo é destilar fina putaria pelo calhamaço, sem pausas para respirar – mesmo o leitor ficando sem ar de tanto rir – ou mesmo para ir ao banheiro – um dos muitos lugares apropriados para a leitura: em público poderão suspeitar que quem carrega a volumosa epopéia pornô está tendo um ataque. De riso.

Pornopopéia provavelmente não será levado a sério. Justo pelo tom, excessivamente hilariante, grosseiro de certa forma, mas com algumas pitadas de lirismo. Como se Reinaldo Moraes estivesse dizendo, aqui e ali, “é isso aí, criticaraiada de merda!, eu sei que ‘cês não vão entender nada…” É a história de Zeca, cineasta marginal fracassado quarentão que vive de bicos como roteirista de vídeos institucionais e trambiques outros. Como conseguir a próxima cerveja, dose de uísque, carreira de pó e/ou buceta são suas grandes e urgentes preocupações. A doçura fica por conta da saudade do filho Pedrinho, que mora com a mãe, ex-esposa em progresso – processo que acompanha o protagonista ao longo da epopéia pornô e que não se contará aqui, por motivos óbvios.

Intimado a escrever, com mais urgência que as suas próprias, um roteiro para um vídeo institucional dos embutidos de frango Itaquerambu – frigorífico fictício com rima real, justo para permitir haicais sacanas, “grosseiros”, engraçados e bastante verdadeiros, mesmo numa obra de ficção, espalhados também por toda a obra – o protagonista acaba se envolvendo em aventura após aventura, num exercício de linguagem que dá voz às ruas, em vez de círculos (literários?) restritos, que na maioria das vezes em nada contribuem para despertar ou aumentar o interesse dos que ganham voz em Pornopopéia por… literatura. Embora, talvez, essa não seja a preocupação de Reinaldo Moraes.

O autor nos diverte. E, antes de tudo, se diverte. E nos brinda com uma grande obra, mais contemporânea impossível. Zeca, nosso (anti-)herói, não busca redenção, desculpas, perdão ou similares. Quer viver apenas o agora, como se fosse morrer na página seguinte. Reinaldo Moraes escreve como quem vai morrer na página seguinte. Os grandes temas, atualíssimos, traduzidos em Zeca são a busca pelo prazer a qualquer custo (sexo e drogas, não necessariamente nessa ordem) e o individualismo. A crítica preguiçosa – exceções há(verão) – certamente enxergará em Zeca apenas um hedonista filha-da-puta (quase uma redundância) e em seu autor, provavelmente, apenas um desbocado politicamente incorreto. Ou um sub-beat, tremenda injustiça. Eu prefiro acreditar que estamos diante do mais novo clássico – um dos melhores! – da literatura brasileira em todos os tempos. Embora essa, talvez, não tenha sido a preocupação de Reinaldo Moraes.

*Zema Ribeiro escreve no blogue http://www.zemaribeiro.blogspot.com

PORNOPOPÉIA – TRECHO

“Decididamente, aquele dedo no meu cu não estava no roteiro. Mas suruba é isso mesmo. Não há como evitar tais acidentes de percurso. Só mesmo o cabra vindo com uma rolha de champanhe enfiada na toba pra evitar que se lhe atochem algo lá dentro – além da rolha, claro.

“Foda é que aquela porra de dedo no cu começou a me dar uma puta duma caganeira, como, suponho, não diria Madame de Sévigné. Mas, desconfiando que merda fresca não ia combinar muito com a intensa espiritualidade sensorial que praticávamos à larga e à solta naquele pornoclaustro, fiz o impossível pra me segurar.

“A horas tantas, com a vontade de cagar já sob relativo controle, senti mais um gozo se aproximando. Tomei, pois, a liberdade e gozei bem no fundo daquele buzanfã amigo, deixando lá quanta porra eu ainda tinha de reserva. E sabe que na hora da gozada até que não é tão ruim assim ter um dedo enfiado no cu? Ajuda a relaxar o esfíncter, a próstata e toda a musculatura lisa envolvida na fisiologia do orgasmo, como diria o saudoso dr. Reich.

“Gozo gozado, ansiei por ter meu cuzinho livre de intrusões digitais. Pensei até em virar uma gentil cotovelada na cara da gorda pra ela se tocar disso, mas a fofa se antecipou e foi puxando o dedo pra fora, o que me provocou outra vez um perigosíssimo peristaltismo. Tive de empreender outro esforço hercúleo – e bota cúleo nisso – pra travar a rosca e não liberar o almirante barroso que ansiava por vir à luz, mesmo sem ter muita luminosidade disponível naquele porão.” (página 170).

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

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