INTERIORES LEMBRA PASSADO COM SAUDADE

Com beleza e leveza, Interiores, estreia do quarteto Argonautas, relembra passado que já não existe. Mas não dói ouvi-lo.


[Interiores. Capa. Reprodução]

“Vamos, morena,/ assistir àquela história no cinema”, começa Cataventos, faixa de abertura de Interiores [Radiadora Cultural, independente, 2009, pedidos pelo e-mail radiadora@gmail.com], inspirado disco do quarteto Argonautas, das mais belas coisas que ouvi recentemente. Continua, a mesma faixa: “Vamos reinventar um violão desafinado em noite de luar”.

Segue-se Arlequim, cujo acordeom de Ayrton Pessoa lembra em muito o Yann Tiersen das trilhas sonoras de O fabuloso destino de Amélie Poulain e Adeus, Lênin!. O amor de Margarida Flor se pergunta o que é o amor: “será que o amor só é amor se for distante?/ (…)/ será que o amor é pequeno ou é gigante?”

Por versos assim, o disco pode parecer água com açúcar. E de fato trata-se de trabalho extremamente doce, que nem o Qui nem jiló de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira pode amargar. Sua regravação para o clássico nordestino cita outras melodias do velho Lua.

No texto de apresentação no encarte do disco, os Argonautas entregam: “Interiores vem de uma sensação que todos parecemos compartilhar: a de que quando as cidades cresceram, quando o progresso veio, alguma coisa se perdeu, uma inocência e uma poesia que hoje quase não existem mais”. Alameda tenta resgatar essa coisa perdida: “Quero inventar outro porvir/ de outro viver/ e me encontrar n’outro lugar/ e pode ser que eu então me iluda”.

Pode-se, ainda que temporariamente, nos pouco mais de 35 minutos de duração do disco, esquecer o barulho infernal lá fora, o engarrafamento, a violência, os escândalos políticos. A música dos Argonautas é doce ficção. Ou melhor, a perfeita trilha sonora de uma doce ficção (escolha e imagine a sua preferida e faça de conta). Bate ou não uma sensação de Déjá vu (título da sexta faixa)? Uma saudade de um tempo que não volta mais?

“A paixão é maior que o bem-querer”, ensinam em Carolina, carnavalesca marcha romântica. Interiores nº. 2 lembra os bons tempos idos em que “todo o perigo que havia/ era roubar frutas nos quintais/ e flores nos varandais/ perder o bonde/ ou que se apagassem os lampiões a gás”, arrematando que “hoje são só saudade/ são só saudade/ era uma vez…”

Os Argonautas já estão entre meus herois musicais recém-descobertos: “agora eu era o heroi”, verso que abre João e Maria, parceria de Sivuca e Chico Buarque, é ouvido na sequência. Os vocais não deixam a dever a um Boca Livre dos bons tempos (e aqui bate mais uma saudade). “O que é que a vida vai fazer de mim?”, a pergunta-verso parece se encerrar com uma resposta: é demais a qualidade do trabalho do quarteto para que, raríssimas e honrosas exceções, é claro, toquem no rádio, invadam as telas de TV etc.

A inspirada Quintal é outro tema instrumental em que o acordeom se destaca. Além de Ayrton Pessoa (músico que assina também o projeto gráfico do disco), integram os Argonautas Rafael Torres (que assina a direção artística, ambos dividindo a produção), Germano Lima (contrabaixo) e Ronaldo Lage (percussão).

Com participação especial de Andréa Piol (voz), Canção para João de despedida, como o título anuncia, começa a avisar o ouvinte de que o fim do disco está próximo. Ela canta, retirante, Paraíba cearense: “João, meu menino João,/ vou-me embora dessa terra/ (…)/ não precisa tanta guerra/ pra saber quem sou, quem não/ sou menina, sou quimera/ sou mulher, mas sou joão/ de tão tua sou tão terra/ onde plantei tua solidão”.

Se “a mão que afaga é a mesma que apedreja” (Augusto dos Anjos), a faixa que batiza é a mesma que encerra o disco. Andamento acelerado, permeada de alegria: “sempre me vem como um vento a saudade de um tempo que eu nunca vivi”. E mais adiante: “vivo no século errado e me pego acuado sem poder sair”. Fossem outros tempos, certamente os Argonautas fariam sucesso. Comungando da mesma saudade que os acomete, desejo, sinceramente, estar errado. “Meu mundo é hoje” (Wilson Batista e José Batista) – e o deles também tem que ser. Que estes tempos se corrijam! Enquanto é tempo… Já é tempo!

[Tribuna Cultural, Tribuna do Nordeste, ontem. Gracias, CB, que me trouxe o disco de presente]

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

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