COLOMBO, REALIDADE E FICÇÃO

[Íntegra da entrevista publicada nO Imparcial de hoje. Reverso será exibido no bloco das 19h, amanhã (20), no Teatro Alcione Nazaré, Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande]

Francisco Colombo é o diretor do único filme maranhense que concorre na 32ª. edição do Festival Guarnicê de Cinevídeo, este ano.


[Reverso. Cartaz. Reprodução. Foto: Evandro Filho (still)]

Diversos realizadores maranhenses participarão do 32º Festival Guarnicê de Cinevídeo nas categorias vídeo, videoclipe e vídeo de um minuto. O radialista e professor universitário Francisco Colombo é diretor do único filme [finalizado em película, na bitola 35mm] maranhense que competirá nesta edição de um dos mais tradicionais festivais do país – que este ano sofreu um abalo com a debandada de patrocinadores, que alegaram, entre outros motivos, a crise mundial, para reduzir (e até mesmo zerar) o apoio ao grande acontecimento anual do cinema no Maranhão.

Influenciado por nomes tão distintos como Truffaut – o título de seu penúltimo curta era o singular da tradução Os incompreendidos para Les quatre cents coups (1959) – e Joe Carnahan (Narc, 2002), entre muitos outros – o diretor é, antes de tudo, um “leitor” –, é daí que Colombo provavelmente tira a inspiração necessária para a beleza da violência de Reverso – o título que concorre ao Guarnicê desse ano – sem tornar-se mero panfleto, e sem se preocupar também com o que é (ou não) politicamente correto.

Cinco minutos em plano sequência. 16 tomadas até o resultado final, ideal – perfeito, eu diria. Três atores em cena e uma câmera enredando-os. A crítica ao sistema capitalista numa tradução sincera e em tom de denúncia da sociedade brasileira, até hoje escravocrata. A nervosa trilha sonora de Beto Ehongue (da Negoka’apor) traduz o medo – que já não pertence somente a este ou aquele personagem: será de toda a plateia. Ou já é, quando cada um de nós percorre as ruas das cidades em clima de insegurança e abandono – como os personagens de Francisco Colombo, com quem conversamos, no terraço de sua residência, boca da noite de domingo passado (14), sobre Reverso, outros trabalhos seus e política cultural.


[Colombo exibe Reverso para a reportagem]

ENTREVISTA: FRANCISCO COLOMBO

Zema Ribeiro – Como foi o processo de concepção de Reverso, da ideia do roteiro até o filme em si?

Francisco Colombo – Esse roteiro é engraçado, por que o filme é pequeno, é um curta, em plano sequência, mas o roteiro surgiu há vários anos. Precisamente em 2004, num dia em que eu saía da Faculdade São Luís [onde o diretor dá aula], acompanhado do professor Junerlei [Moraes, da UFMA]. A gente ‘tava dando uma oficina de técnicas de reportagem, salvo engano, numa semana de comunicação. Aí eu saía de lá com uma câmera na mochila e ele, meio apavorado, me perguntava: “tu não tem medo de ser assaltado? E se aparecer um ladrão?”, e eu dizia que se aparecesse um ladrão eu ia tentar conversar. Cheguei em casa e comecei a esboçar o roteiro e levei vários anos nisso. A ideia inicial previa o uso de uma parte em desenho animado, algo bastante piegas. Só que foi evoluindo, com o passar do tempo, no final de 2008 uma colega ajudou e eu achava que o final ainda era uma incógnita, e ela deu uma sugestão e eu cheguei então à versão final. Mas é claro que o roteiro, ainda que se chegue a uma versão final, ele se defronta com uma realidade, que é a realidade de filmagem, da locação, dos atores, as contribuições que cada um tem que dar, então, na verdade, a versão final é a versão do filme mesmo, que não tem como mascarar, de forma alguma, por que ele foi rodado em plano sequência.

ZR – Então a idéia do professor apavorado acaba acontecendo no filme, em que tu és roteirista e diretor, em plano sequência.

FC – É, o personagem tem uma câmera e ele é abordado.

ZR – Ele já foi pensado para ser plano sequência?

FC – Não. Acontece que eu ‘tava saindo de uma produção, de outro filme, chamado A espera, um filme de época, ambientado nos anos 60. Eu era só produtor, a direção e o roteiro são de Léa Furtado, e foi um filme muito puxado. Tem gente que pensa que o produtor é o cara que só administra que dá ordem, que controla dinheiro…

ZR – [interrompendo] A imagem do diretor sentado naquela cadeirinha bonitinha…

FC – Pois é. Eu não consigo conceber uma coisa como essa, eu sou um produtor que bota a mão na massa, mesmo. Eu ia diretamente atrás das coisas, pagava as pessoas, e às vezes eu carregava coisas mesmo, carreguei muito…

ZR – [interrompendo novamente] Que é um retrato não só de produção em cinema no Maranhão, mas em todas as áreas artísticas…

FC – [devolvendo a interrupção] Principalmente no Maranhão.

ZR – O artista é desde o carregador de piano até o cara que toca o piano mesmo.

FC – Ele afina, ele reforma, ele toca, ele faz tudo. Foi assim que aconteceu. Eu saí de uma produção muito puxada e já estava quase desistindo de filmar o Reverso, e eu falei para o diretor de fotografia: “só se for em plano sequência, por que eu não consigo mais pensar em decupagem”, embora já existisse uma decupagem. Só que eu não estava mais familiarizado com ela, já que o roteiro já tinha um bom tempo de elaborado. Havia uma versão que pensava os planos em separado, todo um planejamento. Só que eu já estava um pouco distanciado disso, acabei jogando como uma piada, vencido pelo cansaço e o Ralf [Tambke, diretor de fotografia] disse: “boa idéia, acho que um plano sequência resolve”. E aconteceu.

ZR – De onde veio a verba para Reverso?

FCReverso foi feito com a ajuda de amigos. E um pouco na rebarba de A espera. Veio ator para A espera, fotógrafo, assistente de fotografia, e como eram todos meus amigos, toparam entrar na aventura sem ganhar nada.

ZR – Com a trilha sonora, da mesma forma.

FC – Para a trilha houve um pequeno cachê. Mas não foi nenhuma imposição por parte do artista, o Beto Ehongue. Aliás, ele se doou como toda a equipe. Só que eu acho que por conta das circunstâncias, e também por que é justo a pessoa receber, negociamos um pequeno cachê, simbólico mesmo. Ele, de forma alguma fixou qualquer coisa. Foi uma atitude bem bacana dele, por que ele também queria estar numa obra cinematográfica e achou que era interessante esse momento, essa parceria. Foi bem legal o processo criativo com ele.

ZR – É uma música que ajuda a compor o ambiente nervoso do filme. Eu ‘tava revendo o filme ontem, Graziela [esposa do repórter] ‘tava no banho, e ela me dizia, depois, ter conseguido rever o filme inteiro na cabeça, justo por conta da trilha. Tu colocas um videomaker branco para filmar um bêbado num ambiente que nós [ludovicenses] sabemos que é a Praia Grande [bairro do centro histórico da capital maranhense] e ele é assaltado por um negro. Você não receia ser chamado de racista?

FC – Esse tipo de reação pode acontecer. Eu me preocupei bastante. Essa foi uma decisão muito difícil, aliás, de ser tomada, desde o começo. Mas o que acontece é que há vários fatores em torno disso, em torno dessa escolha. O primeiro é que não podemos ser hipócritas, de negar que isso retrata, de alguma forma, a estrutura social brasileira. E não fui eu quem inventou isso. E, aliás, eu sou contrário à manutenção desse tipo de sociedade. Eu sou muito contrário a essas formas de dominação. Eu acho, por exemplo, que o Maranhão é um estado herdeiro dessa escravatura, é um estado escravocrata ainda. As estruturas, o poder, o estado, que deveria ser um agente promotor do bem comum, é escravocrata. Enfim, eu tenho uma crítica forte a tudo isso que aí está estabelecido. Mas é importante lembrar que somente um personagem negro, um ator negro, poderia dizer o que o nosso assaltante diz no filme. Então isso não é por acaso. Não é uma atitude pensada, simplesmente: eu vou botar um negro para ser o assaltante. Só um negro, só uma pessoa que é vítima dessa história, dessa situação toda, poderia dizer as coisas que o assaltante diz no curta.

ZR – Que são coisas fortíssimas, que bem traduzem uma realidade.

FC – São coisas fortes. Eu acho que ele sintetiza, em poucas frases, uma crítica ao sistema capitalista, e toda a história do povo negro, do povo africano que foi arrancado e trazido para cá para ser escravo. Seria hipócrita dizer: ah, eu devia ter botado um assaltante branco. Outro fator que é muitíssimo importante é o fator estético: Gilberto Martins, o ator negro, o assaltante, é sensacional!

ZR – É, acho que toda a equipe do filme é muito boa.

FC – Mas eu falo especificamente dele, por que é o personagem negro, é o ator negro, que é um assaltante. Penso que outro cara não seria capaz de fazer o papel que ele faz. Discutindo uma realidade hipotética, de inverter os papeis, acho que um não faria o papel do outro tão bem quanto cada um fez o seu, apesar dos dois atores serem muito bons. O Gilberto é um ator absolutamente singular e um ator no qual eu confio muito. Essas questões não podem ceder a uma pressão para fazer o que hoje, erroneamente, se chama de politicamente correto.


[Gilberto Martins e Antonio Saboia em cena de Reverso. Fotografia (still): Evandro Filho]

ZR – De onde vêm os atores? Tu já tinhas trabalhado com eles?

FC – Gilberto Martins é um ator que já trabalhou comigo num outro curta, chamado Procura-se [2006], que é uma brincadeira, um exercício de linguagem, embora não tenha repercutido. E por conta de eu ter trabalhado com Murilo [Santos, técnico e editor de som em Reverso] nO crime da Ullen [2007, direção de Murilo Santos], tivemos mais uma vez um contato. E desde Procura-se eu já pensava nele para ser este personagem do Reverso. Antonio Sabóia foi um ator que eu tive contato através de Breno [Ferreira, diretor maranhense], no filme Ódio [2007, direção de Breno Ferreira], em que eu fui o diretor de fotografia. Gostei muito da postura, do comportamento dele e percebi que ele tinha potencial para trabalhar outro papel. E deu certo. Nilsson Asp é um ator gaúcho que veio para São Luís para o filme A espera. Nos conhecemos em 2005, em Vitória/ES, e nos encontramos ano passado em Itajaí/SC, num festival de documentários. E ele aceitou, se doou bastante, é um ator gigantesco. A gente observa que é um elenco que se equilibra fortemente. Ninguém destoa do conjunto e não dá para dizer que isoladamente a é muitíssimo melhor que b. Daí a importância de se ter grandes atores para exercer quaisquer tipos de papeis.

ZR – As pessoas, às vezes, têm uma tendência a achar que curta-metragem é algo menor dentro do cinema. Qual a tua opinião sobre essa diminuição do curta?

FC – É o equivalente ao que as pessoas fazem do conto em relação ao romance, na literatura, o que eu acho uma bobagem. Tem contos, como curtas, que são absolutamente gigantescos, e longas e romances que não dizem nada. São bobagens, como também é bobagem o apego forte à literatura para se fazer adaptação, se querendo coisas absolutamente iguais, quando os suportes e as linguagens são absolutamente diferentes.

ZR – O que você espera de Reverso? Sabemos que corre o risco de acontecer, espero que não, o que aconteceu com O incompreendido ano passado, que eu pensava que seria [enfatizando] o filme do festival.

FC – Acho que Reverso é um filme muito forte, que deverá ser bastante significativo, talvez seja polêmico, talvez seja atacado. Às vezes a gente confia bastante no trabalho e acaba que depende do julgamento de umas poucas pessoas. Espero que ele dê certo, que repercuta. As poucas pessoas para quem já mostrei gostaram muito, ainda não ouvi nada de negativo a respeito. Mas O incompreendido, ainda assim, teve uma trajetória interessante: esteve em Cuzco [Peru], Santa Cruz de La Sierra [Bolívia], na Mostra Internacional de São Paulo, festival badaladíssimo, interessantíssimo, e uma das grandes vitórias dele, também, foi participar de festivais no sertão da Bahia, sertão de Pernambuco, em Natal, e na Mostra Paulista de Cinema Nordestino, todas ano passado. E para mim é muito importante isso por que ele foi para a periferia. Por que o cinema é sempre dito uma arte elitista e o produto final também é apreciado em circuitos elitizados, restritos, então eu achei bastante importante participar desses eventos por que a periferia de São Paulo, por exemplo, é um lugar habitado majoritariamente por nordestinos.

ZR – Que tem tudo a ver com a temática do próprio filme [O incompreendido], a história do menino que lava pára-brisas para ganhar uns trocados e tem o sonho de andar de carro e acaba um dia andando num camburão policial.

FC – Pois é, a maneira que se tem de realizar sonhos, né?

ZR – O que acaba sendo uma característica interessante de teus filmes, pelo menos dos, digamos, três maiores, Reverso, mais recente, O incompreendido e No fiel da balança, embora se valendo de elementos de ficção, acabam traduzindo realidades, acabam funcionando como documentários.

FC – A vida que nos cerca é muito importante para aparecer num trabalho, mesmo sendo ficcional. E há quem diga que a ficção, na verdade, é um tipo de documentário, por conta do registro do momento em si. Mas os filmes são impregnados daquilo que a gente vive, nossos medos, anseios, sonhos, e é também uma maneira da gente exprimir, expressar e ainda mandar um recado. Por isso esse senso de realidade é tão forte. E nesse filme, particularmente, a coisa chega a um estado tal, por que ele é filmado em plano sequência, praticamente não tem como se escapar.

ZR – O giro da câmera enredando os personagens durante o desenrolar da ação.

FC – Acho que isso vai ser um elemento muito forte, dando um nervoso, um medo, na tela grande. Ele vai ser projetado na tela 185, que é a maior tela de cinema que se tem aqui. Acho que o movimento, como a teia envolve os personagens, vai acabar enredando a platéia também, pois é muito forte.

ZR – Tu estás envolvido na produção de A espera. Como é que está esse processo?

FC – O filme está em processo de montagem. Houve um problema nos arquivos, é todo digital. Está vindo agora um HD com o back-up das imagens e então vamos retomar esse processo. É um filme que eu acho que vai ficar bem bonito, por que há um cuidado muito grande na direção de arte, há atores muito bons, caso do Nilsson Asp, da Arly Arnaud, que mora aqui em São Luís. Então penso que o resultado vá ser bastante interessante. Além do quê, o montador é Murilo Santos, que é uma pessoa que sente bem o filme para proceder os cortes.

ZR – Esse filme foi aprovado em edital público da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão. Como você analisa o momento atual por que passa a cultura do estado, indo na contramão do restante do país, quando se fortalece a política de editais em todo o Brasil, nas esferas municipal, estadual e federal, e o Maranhão, de repente, com a volta de Roseana Sarney ao poder e [do secretário Luiz] Bulcão à SECMA, já não se tem por exemplo um edital para a seleção de manifestações artísticas e artistas para as apresentações no período junino. Como você vê esse cenário?

FC – Sou completamente a favor dos editais. É a maneira mais democrática de produtores e artistas terem acesso aos recursos públicos e de dar satisfação à sociedade, quando se objetiva realmente um produto cultural. É lamentável não ter edital. No caso do cinema, particularmente, é muito triste. Já ouvi algumas pessoas dizerem, gente que entende do assunto, que o cinema no Maranhão foi uma das poucas coisas inovadoras no campo artístico. Não é uma fala minha, mas acho interessante que as pessoas levantem esse tipo de debate. E o que é mais interessante de dizer é que quem fez filme no Maranhão fez com raça, com vontade própria, por que o Estado sempre foi ausente. Quando há uma tentativa do Estado tentar, entre aspas, se redimir, e houve acertos, com a política de editais, agora, a meu ver, há um retrocesso. O edital da Secretaria era interessante, aconteceu com problemas, equívocos, era uma primeira edição, mas houve uma vontade muito grande de se corrigir e humildade. Achei essa postura bem interessante por parte do governo, na época. E também apreciei esse edital por que é bem parecido com o edital do BNB [Programa BNB de Cultura, no qual O incompreendido foi selecionado], por que é bem interessante, simples, não quer dificultar o entendimento do produtor e o acesso, por que a gente sabe que não é fácil compreender editais. É difícil ser artista e lidar com leis, com esses mecanismos de incentivo. A classe artística tem que se unir e tem que reclamar por que isso é um direito.

[NOTA: Reverso está entre os selecionados para a VI edição do Festival de Cinema de Maringá/PR, que acontece entre 3 e 10 de julho de 2009]

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

3 comentários em “COLOMBO, REALIDADE E FICÇÃO”

diga lá! não precisa concordar com o blogue. comentários grosseiros e/ou anônimos serão apagados

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s