QUINTA DE PRIMEIRA

A revista que Iramir Araújo e cia. lançam na quinta-feira (2) é das várias coisas que ficaram pendentes na gestão passada do governo (leia-se: Jackson Lago, governador do Maranhão; leia-se: Joãozinho Ribeiro, secretário de estado da cultura do Maranhão). É das várias coisas que levarão o horroroso “trenzinho colorido” com o arrogante “de volta ao trabalho”, logomarca do velho “novo tempo” (aliás, como estão horríveis viaturas e prédios públicos “coloridérrimos”) a indicar o apoio do “Viva Cultura”, a cultura mais morta que nunca, com o retrocesso total no setor. Quem discordar, responda: cadê os editais?

Alguns “artistas” irão calar, com medo de perderem a boquinha, de não mais serem “ajudados” (sim, meus caros, no Maranhão, isso ainda é possível) etc. Não é o caso de Iramir e cia.: a revista Balaiada tem texto de apresentação de Joãozinho Ribeiro.

Acho justo que sejam colocados os pingos nos is.

O serviço do lançamento ‘tá no convite abaixo:

Sobre a revista, escrevo em breve, que eu mesmo ainda não li. Mas em se tratando de Iramir e cia., sei que vem coisa fina por aí.

GRITA REALIZARÁ CURSO DE INICIAÇÃO TEATRAL

As aulas terão início dia 6 de julho, ocorrendo às segundas, quartas e sextas-feiras no horário das 18h às 21h.

Aberto para maiores de 18 anos, o Curso de Iniciação Teatral do Grupo GRITA, que será realizado durante todo o mês de julho no Teatro Itapicuraíba, sede do grupo no bairro do Anjo da Guarda. O curso terá carga horária de 36 horas e será ministrado pelo teatrólogo, ator e diretor Cláudio Silva, que em mais de 30 anos de carreira traz em seu currículo de ator mais de 20 espetáculos, além de assinar a direção de várias montagens, como Aves de Arribação, de Aldo Leite (2002); Floresta dos Guarás, de Josias Sobrinho (2006); A Casa do Bode, de J.C. Lisboa (2007) e está há mais de 10 anos na direção geral da Via Sacra do Anjo, o maior espetáculo a céu aberto do Maranhão, que em 2009 recebeu um público de aproximadamente 250 mil pessoas em dois dias de apresentação. Cláudio Silva é também fundador e coordenador do departamento cênico do Grupo GRITA.

As inscrições para o Curso de Iniciação Teatral podem ser realizadas no Itapicuraíba, entre 8h e 11h e 14h e 17h, custando R$ 30 (taxa única). As aulas terão início dia 6 de julho, ocorrendo às segundas, quartas e sextas-feiras no horário das 18h às 21h. Mais informações pelo telefone 3228-9840 e pelo email: grupogrita@grupogrita.org.br

[de release recebido por e-mail]

A NÃO TRIBUNA CULTURAL


[Cáritas está trabalhando em projeto de reconstrução de moradias destruídas pelas enchentes. Foto: Acervo Cáritas Brasileira Regional Maranhão]

Ontem, irresponsabilidade fruto do atropelamento de afazeres em que me encontro, acabou não rolando a Tribuna Cultural. Quer dizer, até rolou, mas fugindo do tema: como o colunista aqui não enviou texto, espertamente a turma de Gojoba publicou este texto no lugar. Domingo que vem estamos de volta ao (a)normal. Hasta!

BOA PEDIDA!

Dia 4 de julho, sábado que vem, o Clube do Choro Recebe (Restaurante Chico Canhoto, Residencial São Domingos, Cohama, 19h) volta, com shows do Instrumental Pixinguinha e Gildomar Marinho, que aproveitará a ocasião para fazer uma espécie de avant première de seu disco de estreia, Olho de Boi, que será lançado em breve (ainda não nesse show).

Depois, para a famosa, sagrada e tradicional estica, eis uma boa pedida:

Milla Camões também deverá cantar coisas de seu disco de estreia. Ao lado de Gildomar Marinho, Lena Machado e Flávia Bittencourt (que lança em breve Todo Domingos, todo dedicado ao repertório de Dominguinhos) são as promessas (anunciadas) da música maranhense em 2009.

DE BOB DYLAN A BOB MARLEY: UM SAMBA-PROVOCAÇÃO

Quando Bob Dylan se tornou cristão
Fez um disco de reggae por compensação
Abandonava o povo de Israel
E a ele retornava pela contramão

Quando os povos d’África chegaram aqui
Não tinham liberdade de religião
Adotaram Senhor do Bonfim:
Tanto resistência, quanto rendição

Quando, hoje, alguns preferem condenar
O sincretismo e a miscigenação
Parece que o fazem por ignorar
Os modos caprichosos da paixão

Paixão, que habita o coração da natureza-mãe
E que desloca a história em suas mutações
Que explica o fato de Branca de Neve amar
Não a um, mas a todos os sete anões

Eu cá me ponho sempre a meditar
Pela mania da compreensão
Ainda hoje andei tentando decifrar
Algo que li que estava escrito numa pichação
Que agora eu resolvi cantar
Neste samba em forma de refrão:

“Bob Marley morreu
Porque além de negro era judeu
Michael Jackson ainda resiste
Porque além de branco ficou triste”

*

Letra e música de Gilberto Gil (in: O eterno deus Mu dança, 1989), a homenagem desse blogue ao “king of pop”, Michael Jackson, e seu inesquecível moonwalk, falecidos ontem.

NINGUÉM PODE NOS CALAR

Não só por que as fiz, mas acho essas fotos fortíssimas. Havia muito tempo não participava de algo tão emocionante, o lançamento do Tribunal Popular do Judiciário. Terminado o dia estava super-cansado, mas feliz.

Dom Xavier Gilles profetizava: “os jornais não darão uma linha sobre isso aqui, mas é preciso que façamos a nossa parte”. Acertou na mosca e antecipo desculpas a quem porventura tiver publicado: confesso que não li todos os muitos jornais ludovicenses de lá para cá. Mas não duvido que o bispo de pena e verve afiadas estivesse certo.

Oração latina (Cesar Teixeira), hinos da Igreja Católica, palavras de ordem, gritos e clamores por justiça eram entoados assim, todo mundo de mãos para cima, de braços dados. É ou não uma imagem forte?

Cesar Teixeira e Lena Machado entoaram Oração latina, música forte, pulsante, desses casos raros de músicas que caem em domínio público com seu autor ainda vivíssimo. “Com as bandeiras nas ruas ninguém pode nos calar/ (…)/ Ninguém vai ser torturado com vontade de lutar”, diz a letra, entre outras verdades.

Por detrás da multidão, passava o Liberdade. Aqui na foto era só um ônibus com destino ao bairro, mas quiçá, com o Tribunal Popular do Judiciário, Liberdade e Justiça possam ser grafadas em maiúsculas assumindo seus reais significados na vida prática e cotidiana de todos os seres humanos.

“Com as bandeiras nas ruas ninguém pode nos calar”. E só estátuas de bronze (as ausentes do Pantheon), pombos e (espíritos de) porcos poderão seguir indiferentes ao clamor popular.

*

Clique aqui para ver mais fotos do Tribunal Popular do Judiciário.

*

Cesar Teixeira, acompanhado do grupo Chibé de Farinha Seca, apresenta o show Forró do Corta Jaca no arraial da Praça da Saudade (Madre Deus), neste sábado (27), às 20h. Grátis.

*

O Bar do Léo corre o risco de fechar. Ricarte Almeida Santosescreveu sobre, o que o blogueiro aqui fará em breve.

MENINOS, EU VI


[Charge: Nani]

(…)

José Sarney é uma vergonha para o Brasil desde sempre. Desde antes da Nova República, quando era um político subordinado à ditadura militar e um representante mais do que típico da elite brasileira eleita pelos generais para arruinar o projeto de nação – rico e popular – que se anunciava nos anos 1960. Conservador, patrimonialista e cheio dessa falsa erudição tão típica aos escritores de quinta, José Sarney foi o último pesadelo coletivo a nós impingido pela ditadura, a mesma que ele, Sarney, vergonhosamente abandonou e renegou quando dela não podia mais se locupletar. Talvez essa peculiaridade, a de adesista profissional, seja o que de mais temerário e repulsivo o senador José Sarney carregue na trouxa política que carrega Brasil afora, desde que um mau destino o colocou na Presidência da República, em março de 1985, após a morte de Tancredo Neves.

(…)

Há poucos dias, vi a cara do senador José Sarney na tribuna do Senado. Trêmulo, pálido e murcho, tentava desmentir o indesmentível. Pego com a boca na botija, o tribuno brilhante, erudito e ponderado, a raposa velha indispensável aos planos de governabilidade do Brasil virou, de um dia para a noite, o mascate dos atos secretos do Senado. Ao terminar de falar, havia se reduzido a uma massa subnutrida de dignidade, famélica, anêmica pela falta da proteína da verdade. Era um personagem bizarro enfiado, a socos de pilão, em um jaquetão coberto de goma.

(…)

*

Com grifos meus, trecho de Sarney, o homem incomum, texto do jornalista Leandro Fortes publicado em seu blogue Brasília, eu vi (não sei se saiu também na CartaCapital: os péssimos serviços de entrega da revista aos assinantes ainda não me deixaram ler meu exemplar essa semana).

*

Paulo Henrique Amorim e Ricarte Almeida Santos também já ecoaram a voz de Fortes.

GRITO POPULAR CLAMA POR NOVA JUSTIÇA

Lançamento do Tribunal Popular do Judiciário reuniu mais de 500 pessoas em São Luís, segunda-feira passada (22).


[Manifestantes ocuparam a Praça do Pantheon, em ato na tarde de segunda-feira (22)]

Denúncias das mais “comuns”, como juízes “TQQ” – os que só estão nas comarcas às terças, quartas e quintas-feiras – ou mesmo comarcas sem juízes e/ou promotores a denúncias mais graves, como as relações espúrias entre os três poderes, com a troca de favores e auto-subserviência, além de estupradores e assassinos gozando de liberdade e impunidade, “protegidos” pelo esquema denunciado. Não foram poucas as falas nesse sentido, mostrando que a cultura de privilégios e inoperância do judiciário nem é nova nem ocupa percentual pequeno do mapa do Maranhão.

Leia aqui o texto completo.

CONVERSAS LITERÁRIAS

17 de setembro do ano passado: eu, Fabreu, Marla e Gilson César fomos à Capinzal do Norte pelo Conversas Literárias. A ideia do projeto era sempre (aconteceu em vários municípios) colocar um jornalista (eu) conversando com um escritor (Fabreu). Em Capinzal, contamos com a presença do poeta local Cícero Gomes de Oliveira. Foi uma experiência interessante.

A foto abaixo é a digitalização de parte da página que tem o texto de Fabreu sobre a viagem, na revista Conversas Literárias, lançada em abril passado. O texto, ele provavelmente postará em seu blogue, a estrear em breve, aguardem.

O título de meu texto, na revista na página seguinte ao de Fabreu, cita diretamente Relatos do escambau, estreia dele.


[Fernando Abreu, Zema Ribeiro e Cícero Gomes de Oliveira dando vida ao projeto em Capinzal do Norte. Legenda da revista. Foto: Marla Silveira]

RELATOS DE CAPINZAL

ZEMA RIBEIRO*

Auto-considerado um homem de bastidores, recusei por duas ou três vezes o convite. Que tinha eu a falar? Dava uma desculpa qualquer e declinava. Sempre. Mais um convite e já não havia como dizer não. Ao ser informado que eu dividiria a mesa com Fernando Abreu – “um cara de que gosto muito e cuja obra conheço”, pensei – aceitei, “de imediato”, o convite para participar do projeto Conversas Literárias: um jornalista (ou quase) conversa com escritores da capital e do interior, promovendo intercâmbios, trocas de experiências, interação com o público.

Iríamos à Capinzal do Norte, município recém-nascido – pedaços de Lima Campos, Codó, e Santo Antonio dos Lopes, de deliciosa cachaça que ainda comprei de lembrança – mas com talentos já de idade: Cícero Gomes de Oliveira, poeta setentão, lavrador que criou os não-lembro-quantos filhos com a roça que capinava, trocou a enxada pela pena e nos deixou encantados com sua obra, Verdades em poesia, cujos versos li sôfrega e apressadamente antes de começarmos o bate-papo numa quadra de esportes.

Deixou-me positivamente admirado o público ali presente, crianças mais ou menos prestando atenção, jovens e adultos interessados, uma banda musical formada por adolescentes, parecíamos grandes estrelas – Fabreu, contente, depois, deu autógrafo até em camisa de time de futebol, além, é claro, de em seus O umbigo do mudo e Relatos do escambau; o terceiro se aproxima, conversávamos no carro, na ida, na vinda, enquanto contávamos histórias engraçadas, cochilávamos e ouvíamos discos levados pelo magnífico Gilson César, mímico que quase nos rouba a cena.

Capitaneado por Marla Silveira, o Conversas, entre outros pontos positivos, ajuda também a divulgar a literatura maranhense, deixando obras nas bibliotecas municipais por onde passa. Quando fui, era dia quente, estrada longa, a vida imitando a literatura, nós-retirantes desbravando as letras e o Maranhão. Que o Conversas dê um longo calhamaço, obra em progresso ainda longe do ponto final.

*Entre outras coisas, escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com. Participou do projeto Conversas Literárias em Capinzal do Norte, no dia 17 de setembro de 2008

COLUNA ANTI-SOCIAL

Em Inverdades, André Sant’anna devolve a condição humana a celebridades.


[Inverdades. Capa. Reprodução]

Não à toa, André Sant’anna avisa, de início: “Qualquer semelhança com fatos reais, neste livro, é mera coincidência. As pessoas citadas não existem e nunca existiram. Eu também não existo”. O escritor, que se sai agora com o ótimo e engraçadíssimo Inverdades [7Letras, 2009, 66 páginas, R$ 22,00], tece um rosário de ficções com nomes de gente famosa: Lula, Ronaldo, Sandy, Mick Jagger, Beatles, Nelson Rodrigues, João Gilberto, Paulo Coelho, Jimi Hendrix, Miles Davis, Bill Clinton, Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Tim Maia, entre muitos outros.

Um trecho, sobre o trio musicalmente formado na Tijuca: “as moças que o Roberto Carlos, o Erasmo Carlos e o Tim Maia amavam muito nem ligavam pras canções que eles faziam. Talvez por isso as canções fossem tão bonitas”. Esta, uma das verdades pescadas entre as ficções, Inverdades de André Sant’anna. Sandy foge de casa e escreve uma carta aos pais, Jimi Hendrix “desliga”, Miles Davis conversa com Duke Ellington depois de mortos, sobre suas lápides eternas. Nelson Rodrigues sente dores – gases? – durante a madrugada e pensa e vê putaria no apartamento em frente.

André Sant’anna reduz seres famosos à sua condição inicial: gente. Simples, comum. Produz uma espécie de colunismo anti-social onde, em vez de se valorizar o fashion mundinho podre de fofocas e saber quem está saindo com(endo) quem, outras Inverdades são desnudadas. Seus contos ligeiros são uma delícia de se ler e talvez esta seja sua obra mais engraçada – Sexo e O paraíso é bem bacana são também bastante recomendáveis. O livro é uma espécie de reality show do lado “não (necessariamente) belo” de gente comum: as celebridades que não existem – peças de ficção, ao menos seus atos são – mas se embriagam, peidam e fazem outras coisas “intoleráveis”.

Se o colunismo social devolvesse às celebridades sua condição humana, talvez atingisse parte da graça alcançada por André Sant’anna nesse Inverdades. O jornalismo – com ou sem diploma – e o mundo seriam bem melhores…

[Tribuna Cultural, Tribuna do Nordeste, hoje]