MARANHÃO, ENGENHOSA MENTIRA

Não me espantará que num futuro próximo o Maranhão venha a ser chamado de “Uganda brasileira”

O Maranhão é um Estado do Meio Norte brasileiro, um preciosismo para nomear a região geograficamente multifacetada que é ponto de interseção entre o Nordeste e a Amazônia. Com área de 330 mil km2, pleno de riquezas naturais, tem fartas agricultura e pecuária, uma culinária rica e diversa e uma cultura popular exuberante. Não obstante tudo isso, pesquisa recente coloca o Estado como o segundo pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do País, atrás apenas de Alagoas.

Sou maranhense. Nasci em São Luís, capital do Estado, no ano de 1966, mesmo ano em que o emergente político José Sarney assumiu o governo estadual, sucedendo o reinado soberano do senador Vitorino Freire, tenente pernambucano que se tornou cacique político do Maranhão, a dominar a cena estadual por quase 40 anos. De 1966 até os dias de hoje, são outros 40 anos de domínio político no feudo do Maranhão, este urdido pelo senador eleito pelo Amapá José Sarney e seus correligionários, sucedâneos e súditos, que gerou um império cujo sólido (e sórdido) alicerce é o clientelismo político, sustentado pela cultura de funcionalismo público e currais eleitorais do interior, onde o analfabetismo é alarmante.

O senador José Sarney, recém-empossado presidente do Senado em um jogo de caras barganhas políticas, parecia ter saído da cena política regional para dar lugar a ares mais democráticos, depois de amargar a derrota da filha Roseana na última eleição ao governo do Estado para o pedetista Jackson Lago. Mas eis que volta, por meio de manobras politicamente engenhosas e juridicamente questionáveis, para não dizer suspeitas, orquestrando a cassação do governador eleito, sob a acusação de crime eleitoral, conduzindo a filha outra vez ao trono de seu império. Suprema ironia, uma vez que paira sobre seus triunfos políticos a eterna desconfiança de manipulações eleitoreiras (a propósito, entre os muitos significados da palavra maranhão no dicionário há este: “mentira engenhosa”).

Em recente entrevista, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disparou frase cruel: “Não vamos transformar o Brasil num grande Maranhão.” A frase, de efeito, aludia a uma provável política de troca de favores praticada pelo Planalto atualmente – segundo acusação do ex-presidente -, baseada em jogo de interesses regionais tacanhos e tráfico de influências. Como alguém nascido no Maranhão, e que torce para que o Estado alcance um lugar digno na história do País (potencial para isso não lhe falta, afinal!), lamento o comentário de FHC, mas entendo a sua ironia, pois o Maranhão tornou-se, infelizmente, ao longo dos tempos, um emblema do que de pior existe na política brasileira. Não é de admirar que divida o ranking dos “piores” com Alagoas, outro Estado dominado por conhecidas dinastias familiares.

Em seus tempos de apogeu literário, São Luís, a capital do Maranhão, tornou-se conhecida como a “Atenas brasileira”. Mais recentemente, pela reputação de cidade amante do reggae, ganhou a alcunha de “Jamaica brasileira”. Não me espantará que num futuro próximo o Maranhão venha a ser chamado de “Uganda brasileira” ou “Haiti brasileiro”. A semelhança com o quadro de absoluta miséria social a que dois célebres ditadores levaram estes países – além do apaixonado apego ao poder, claro – talvez justificasse os epítetos.

[Do cantor e compositor Zeca Baleiro, na coluna Última palavra, na IstoÉ (nº. 2035, 1º. de abril de 2009, nas bancas, se é que o coronel não mandou recolher)]

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

6 comentários em “MARANHÃO, ENGENHOSA MENTIRA”

  1. A questão não se reduz, mas a pretensa ‘grandeza’ do ato de Zeca sim!!Primeiro é preciso considerar que o Império de Sarney não teve seus sólidos (e sórdidos) alicerces abalados especificamente com a eleição do atual governador Jackson Lago, mas sim com o rompimento do governador anterior a ele, José reinaldo, com o grupo sarneysista. O q fez o talentoso artista diante dos abusos, escândalos, nepotismos e festas privadas realizadas com o dinheiro público nas dependências do Palácio dos Leões, fatos amplamente divulgados na imprensa local e nacional?? Onde estava a preocupação com o povo do Maranhão e a consciência política do nosso famoso artista??Talvez alguns fatos possam explicar a repentina mobilização, articulação e pronunciamento do nosso ilustre conterrâneo Zeca SANTOS Baleiro:Caso alguém tenha um projeto sério e concreto relacionado à área do meio ambiente para o estado do Maranhão, procure Aziz SANTOS Jr – primo de Zeca Baleiro!!Projetos Culturais de fomemto e resgate da bela diversidade cultural do Estado do Maranhão – é melhor primeiro consultar Samme SANTOS – prima de Zeca Baleiro!!!Mas para que qualquer verba destinada a tais projetos seja liberada, é preciso a aprovação do TODO PODEROSO Secretário ‘das finanças’ do Governo do Maranhão, Sr. Abdala Aziz Aboud SANTOS – tio de Zeca Baleiro!!! – no momento prestando esclarecimento sobre destino obscuro dado ao dinheiro público, não coerente com o plano de orçamento apresentado para o atual exercício.“Alguém precisa dizer ainda alguma coisa?” – pergunta o blogueiro Ricardo Santos.E eu respondo: -Sim, claro que sim…temos mais é que exercitar o pensamento crítico para não trocar 6 por meia dúzia. Diante disso tudo, a atitude de Zeca Baleiro não me comove…quem dera ele tivesse continuado apenas compondo e cantando suas belas canções!!!

  2. o que significa ter uns parentes no governo perante ser da família de quem é dono do estado?“e eurespondo: -sim, claro que sim…”. mas quem sou eu? anônimos, identifiquem-se.

  3. Ao receber um e-mail com esse texto de Zeca Baleiro, o mesmo que consta no link: http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2055/artigo129794-1.htm , quis me expressar com as palavras de resposta ao e-mail, com esperança que alguém o veja, de preferência o próprio. Caríssimos amigos, perdoem-me pela sinceridade, não gostei do e-mail e quis fazer uma retórica: No Maranhão o povo é manipulado pelo desconhecimento (e não pelo analfabetismo) e o são pelos que se dizem estudiosos (os mesmos que apóiam esse governo e o Tucanato Brasileiro) e os ricos desse estado, esse e-mail repassado é mais um sinal do ódio e do despreparo de um grupo político corrupto, surrupiador e incapaz e admira-me muito sair de uma mente tão brilhante pensamento tão medíocre, porém entendo, sei que ele depois de sair da porta do extinto cinema vendendo balas, nunca mais retornou às suas origens, ele não viaja através do Maranhão, ele não conversa com Funcionários Públicos Estaduais (professores e policiais, especialmente), ele não vem até o interior pra ver os enormes desmandos e desvios do erário praticado por uma minoria de previlegiados, que fazem fervorosos discursos anti-Sarney’s como o dele. Trocando em miúdos… como comentarista político nosso caro Zeca continua sendo um ótimo compositor e músico (apesar de ouví-lo muito não o acho bom cantor).Arrais Jr.Membro do P-SOL (Coroatá-MA)

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