FACETA RIMA COM QUÊ?

[Se você desconsiderar a resmungada inicial, é possível que me agradeça a dica. Sem querer ser pretensioso, é claro. Este é um post, antes de tudo, de um blogueiro muito contente em ter achado o que achou]

Cada vez que um som ruim me invade a casa pela janela, a primeira reação é me irritar. A segunda é tentar controlar a irritação (suponho que seja melhor que fechar as janelas, às vezes), manter-me como se nada tivesse acontecido. A terceira é pensar sobre o fato, talvez não de forma tão organizada quanto colocar isso num texto, aqui, por exemplo.

A música – podemos chamar isso/aquilo de música? – é ruim e é sempre tocada alta. Parece regra: quem ouve música ruim ouve sempre no volume máximo. Quanto mais ruim, mais alta. Outro dia pensei no porquê de as músicas de duplo sentido não terem mais a mesma graça de outrora. Saudosismo barato? Envelhecimento, quiçá precoce, deste que vos escreve? Lei de Murphy?: nada está tão ruim que não possa piorar? Nem umas coisas, nem outras: penso que é simplesmente por já não haver duplo sentido. Além do sentido ser único, as melodias são ruins e propositalmente efêmeras, e o conteúdo, não raro, ofende. Principalmente as mulheres.

Minha vã filosofia não consegue entender – e minhas palavras traduzir – como é que mulheres vão para festas (ou compram discos, ou ouvem rádio ou veem TV) para serem (ab)usadas: é uma cachorra aqui, é uma vadia acolá, para não botar aqui termos mais agressivos, ofensivos.

Bom, não vou me alongar em temas que não são – ou ao menos não deveriam ser – a razão deste post, contente, feliz, repito. É que uma coisa se relaciona com a outra.

Quando criança, sete, oito anos, era auge da lambada, do forró pré-universitário, digamos assim, e era comum ouvirmos letras de duplo sentido: quem não se lembra, por exemplo, do clássico Tico-Tico (Tico mia), de Sandro Becker? (Dele ou por ele interpretado, deem, por favor, um desconto se erro o nome da música, de seu compositor, ou mesmo do cantor, que não sei se escreve assim e ‘tou com pregui’ de googlar) Quem não se lembra de “seu delegado, prenda o Tadeu/ ele pegou a minha irmã e…”?

Lembro de dois vinis que gostava bastante de escutar, nessa mesma época, embora tenham sido lançados bem antes, em 1978 e 79, quando eu sequer havia nascido. Ali estavam as letras de duplo sentido – com inteligência e certa inocência, eu diria – melodias dançáveis e interessantes (para se ter uma ideia, anos depois Amor de criança seria sampleada por Chico Science no início de sua A cidade), o canto rústico nordestino, o encanto de menino, em mim mantido até hoje, quando reencontro estas pérolas, talvez contradizendo o suposto envelhecimento precoce afirmado anteriormente.


[O disco de 1978. Capa. Reprodução]


[O de 1979. Capa. Reprodução]

Trechinho, que só ouvindo é que tem graça: “mulher do cego faz três dias que morreu/ oi, bateu, bateu, mas não pode se levantar/ pegaram ela, botaram den’do caixão/ e o velho passava a mão no lugar” (Mulher do cego). Outro?: “oi, Dona Maçu, Dona Maçu, Dona Maçu/ toca o dedo no buraco do tatu/ eu tenho a minha prima/ que se chama Julieta/ uma formiga mordeu ela/ bem na boca da cabeça” (Dona Maçu). Só mais uma para não estragar-lhes a surpresa: “cuidado, cantor!/ pra não dizer palavra errada/ velha da bochecha grande/ moça da bochecha inchada/ tira o dedo da bochecha/ bota den’da panelada” (Cuidado cantor!).

Eram dois vinis do Pastoril do Velho Faceta que, após séculos de busca, consegui baixar ontem. Recomendo que vocês façam o mesmo. O risco é, como eu, ficar (re-)ouvindo direto. O que não faz mal algum, em tempo de tanto mal gosto. Viva o Velho Faceta e seu Pastoril!

Abaixo, deixo também um vídeo, para que vocês tenham uma ideia do que são os pastoris profanos, digamos, “didaticamente”. Chamaram minha atenção os versos “pacu pequeno é minhoca/ pacu grande é mandioca”, riam vocês também e vivam os pastoris desses brasis! “E pra vocês que ficam, xau/ fecha a porta e mete o pau!”

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

9 comentários em “FACETA RIMA COM QUÊ?”

  1. Belíssimo texto, Zena. Tens toda razão, banalizaram o duplo sentindo e acham graça ofender a mulher ao máximo e é verdade… como podem as mulheres dançarem ao som da sua própria humilhação?
    (Gostei de ter passado por aqui, procurava rima para faceta)
    Um abraço,

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