FSM 2009

Parto daqui a pouco para Belém, onde participarei do Fórum Social Mundial 2009. Durante essa semana não sei como ficará a frequência de atualizações no blogue. Espero que se mantenha normal ou que aumente com novidades acerca dos acontecimentos por lá, “ao vivo do Pará”. Vamos ver. E até a volta.

AINDA WADO

Sob o impacto da apresentação de Wado, quinta-feira passada (22), na programação cultural do Laboratório Internacional de Mídias Livres, escrevi o texto abaixo, publicado na Tribuna Cultural, Tribuna do Nordeste, ontem (25). Adivinhem qual será o disco da semana que vem…

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O SOTAQUE DE WADO

Artista que disponibiliza toda sua obra gratuitamente na internet passou recentemente por São Luís.

Enquanto a indústria fonográfica se ressente da vertiginosa e constante queda nas vendas, batendo cabeça, quiçá por mero desconhecimento da realidade vigente, há vida inteligente fora dos escritórios dos conglomerados.

Músicos como o jornalista alagoano (nascido em Santa Catarina) Wado são prova disso. Toda a sua obra – até aqui, quatro discos muito bons, da estreia Manifesto da arte periférica (2001) ao título mais recente, Terceiro mundo festivo (2008) – está disponível para download, gratuito e legal, em seu site http://www.uol.com.br/wado.


[Terceiro mundo festivo. Capa. Reprodução]

Curiosos mais interessados podem comprar, pelo site, Terceiro mundo festivo, original, por apenas R$ 5,00. Uma alternativa, inclusive, ao que se convencionou chamar “pirataria”. O disco, a propósito, foi inicialmente disponibilizado na internet, para só depois ser vendido, além de via web, em shows do cantor, como o que ele realizou em São Luís quinta-feira passada (22), na programação do Laboratório Internacional de Mídias Livres.

Wado cria alternativas de comercialização para sua obra (o download gratuito de seus discos tem proporcionado mais shows, por exemplo), que alia letras inteligentes com melodias “de gastar as sandálias”, algo infelizmente raro na eme-pê-bê contemporânea.

Contemporâneo, aliás, é termo que cai muito bem para Wado (voz e guitarra) e a banda que o acompanha (disco e shows) – Dinho Zampier (teclados, violão de aço e voz), Pedro Ivo Euzébio (programações), Bruno Rodrigues (contrabaixo) e Rodrigo Peixe (bateria). Eles inspiradamente executam o “brazilian eletro-funk-disco-reggaeton-afoxé” anunciado na capa. O terceiro mundo de Wado é festivo, como o nosso, ao menos enquanto dura a audição de seu(s) disco(s). E merece ganhar todos os mundos com seu sotaque, digamos, universal.

UM COLETIVO LOTADO

Ainda peguei um pedaço da mixagem do mundo com Pedro Sobrinho [Festa Mixando o Mundo, sexta-feira, 23, 19h]. A praça Nauro Machado estava movimentada para além do fato de ser sexta-feira. A programação cultural do Laboratório Internacional de Mídias Livres estava impecável.

Depois do DJ-professor, era a vez de Didã, Erivaldo Gomes e a Fogo, Cordas e Tarraxas animarem o público ao som de hits já conhecidos, de tão ouvidos n’A vida é uma festa! e no rádio, via seus bons discos [Amor brotando, dela; Pensamentos drobados (sic), dele]. Fiquei bebericando uma cachaça com canela, prevendo que teria que estar aquecido, caso a chuva caísse: O céu escuro anunciava, forte, para logo mais.

Outros preferiam aquecer-se de outra maneira: correndo pela praça feito crianças. Até onde vi, a brincadeira era inocente e se dava entre íntimos. Não sei se estou certo, se vi (de) tudo. Afinal de contas, estava ali para assistir aos shows. O fato é que, a polícia, por um motivo ou outro, recolheu uma turma para seu trailer, instalado na calçada da Câmara Municipal de Vereadores. Bom, recolher não chega a ser eufemismo, mas oculta o que de fato os policiais faziam: algemavam os adolescentes, davam-lhes socos, tapas e “bicudos” (chutes) nas costas. Em homens que já não podiam reagir.


[Policiais torturavam adolescentes ao vivo, em cores e sob a chuva. Foto: Zema Ribeiro]

Cesar Teixeira já estava no palco – e certamente não viu isso, pois, conhecendo o seu temperamento como eu modéstia a parte conheço, teria dito umas poucas e boas aos policiais – quando a chuva desabou. Ficamos eu, Reuben e Bruno sob a chuva, enquanto minha esposa e Graciane foram se proteger sob a aba do trailer da polícia. Qual não foi a surpresa delas – e nossa – quando os fardados retiraram de lá os adolescentes e jogaram sob a chuva: “Te molha aí pra aprender o que é bom, vagabundo!”, ou coisa que o valha, diziam. Não sem mais tapas, socos e pontapés.

Revoltadas, as meninas argumentaram corretamente que este não é(ra) papel da polícia, sendo retrucadas por algum babaca que dizia que “por causa de gente como vocês é que existe esse tipo de marginais”, ou coisa que o valha. Penso que é por conta de policiais e de pessoas (com pensamentos) assim que as coisas andem do jeito que (des)andam.


[Cesar Teixeira: artista e público se confundindo. Foto: Zema Ribeiro]

A chuva caía ainda mais grossa e antes que a confusão piorasse, saímos dali para o palco, onde à beira, o público não pequeno tentava se proteger da chuva. Cesar Teixeira, vendo a agonia, deixou que artista e público se misturassem sobre o palco: “podem subir”, autorizou. O forró comia solto quando a produção temeu pelo desabamento do palco – risco iminente. “Vamos cair na chuva, que quem tem medo de morrer não nasce”, Moisés Nobre pedia que a turma descesse. Ordem obedecida, não sem um pouco de demora. O jornalista compositor mandou Boi da Lua, anunciando sua saideira: “Vamos encerrar que a turma tem que puxar um fino para pegar o voo”.

Depois era a vez do Fino Coletivo subir ao palco e mandar hits de seu primeiro e ótimo disco. A turma contagiou os molhados. Experiência inédita para a banda: “Essa vai entrar pra nossa história”, disseram. Certamente para muitos ali também: o blogueiro nunca esteve tão ensopado para ver show de artista nenhum. “Nunca antes” na história.


[Fino Coletivo. Capa. Reprodução]

A chuva de matar sapo não permitia que ninguém acendesse um fino, particular ou coletivo. Nem arrisquei tirar a pessimáquina fotográfica do bolso. Temia por vê-la estragada, de tão molhada que estava minha roupa. Estávamos encharcados até a alma: água e boa música. “Minha língua é um copo d’água na tua boca de dragão”. Água, boa música e cachaça com chuva – já não havia como proteger o copo – o corpo, há muito estava desprotegido.

Os ladrilhos da praça nos seguraram em momentos de tarja preta sem receita, “esse funk é tarja preta/ remédio forte/ esse samba é tarja preta/ remédio forte”. O Fino Coletivo – como Wado, seu ex-integrante, que tocou na noite anterior –passou por São Luís em Boa hora. Que voltem logo!

WADEANDO

A primeira lembrança que tenho de Wado é de Cinema auditivo, disco que milagrosamente consegui comprar em alguma finada loja de discos em São Luís (se você mora na capital maranhense e tem – ou tinha – o hábito de comprar discos, sabe do que estou falando).

Lembro da dúvida: seria ele pernambucano?, por conta da música que evocava o mangue(-beat), mas não entregava o ouro. Não se tratava de mero discípulo de Chico Science e cia., mas foi certamente influenciado por ele(s). Wado, descobri tempos depois, é catarinense de nascimento, há muito radicado em Alagoas.

Há quase três anos, nos topamos num encontro do Overmundo, quando éramos “correspondentes” do site em nossos estados. Fizemos amizade. De uns dias para cá não sai do cd-player seu Terceiro mundo festivo, mais recente trabalho do moço, disponível, como todos os seus outros títulos, para download em seu site.


[o blogueiro tietando, após a passagem de som. Foto: Danielle Moreira]

Mas o que já é muito bom em disco, ganha ainda mais força ao vivo, deixemos meus preâmbulos de lado. A apresentação de Wado e banda, ontem (22), na programação cultural do Laboratório Internacional de Mídias Livres foi simplesmente sensacional. Música dançante aliada a letras inteligentes, coisa cada vez mais rara na dita eme-pê-bê.


[Terceiro Mundo Festivo. Capa. Reprodução]

Wado ficou contente com o convite e eu, como membro da Comissão Organizadora do Laboratório, também curti a disponibilidade, a seriedade do trabalho, a postura do moço, cuja formação – o compositor é jornalista – por si só já justificaria sua participação na programação. Músicas como Reforma agrária do ar (Wado/ Adriano Siri/ Pedro Ivo Euzébio), que versa protesto contra “o latifúndio das ondas do rádio”, como diz a própria letra, mais ainda.

Uma inversão o fez subir ao palco antes das atrações locais – Lena Machado e Choro Pungado e as bandas, que não vi, Pedra Polida e Kazamata: Wado sairia literalmente voado pelo circuito palco/autógrafos-hotel-aeroporto. Seu voo de volta a Alagoas não demoraria a decolar, ele já precisava estar no trampo hoje, não deu para negociar outra folga. Tipo o blogueiro.

Sobre as duas apresentações que presenciei, só ouvi elogios: a caixa de comentários aí embaixo está aberta, não só a eles, à vontade.

Numa das músicas que Wado cantava sem tocar, deixei um bilhete sobre a guitarra, no chão do palco. Lembrava-lhe de anunciar que estava com discos para vender – só R$ 5,00 – e dos downloads em seu site. Uma amiga, também jornalista, se/me perguntou: “ele é jornalista, vende discos a cinco reais e os discos podem ser baixados de graça. Ele vive do quê?”.

De nos fazer felizes, resposta possível. Para quem perdeu o imperdível, outra chance de ver algo imperdível, reforço: hoje tem Fino Coletivo, depois do DJ Pedro Sobrinho (20h; “obrigado pelo Wado, Zema!”, ele me disse), Erivaldo Gomes, Didã e Cesar Teixeira – também compositor jornalista.

INÉDITOS

WADO E FINO COLETIVO PELA PRIMEIRA VEZ EM SÃO LUÍS

O cantor alagoano e a banda carioca tocam pela primeira vez na capital maranhense, dentro da programação cultural do Laboratório Internacional de Mídias Livres.

A programação do Laboratório Internacional de Mídias Livres, que acontece em São Luís de hoje (22) até sábado (24) será completamente marcada pelo ineditismo. O encontro discutirá alternativas e estratégias de comunicação, na perspectiva de garantir o acesso democrático à comunicação, algo ainda distante no país, apesar da garantia constitucional desse direito. A idéia é a criação de um laboratório permanente, reunindo profissionais, professores, estudantes e curiosos em geral.

A programação cultural segue a mesma trilha e também trará à São Luís nomes importantes do cenário alternativo nacional. Além das atrações locais, todas com alguma ligação com a temática do evento pioneiro.

Hoje (22), a partir das 22h, na Praça Nauro Machado, onde se concentrará a programação cultural do Laboratório Internacional de Mídias Livres, sobem ao palco a Banda Pedra Polida, Lena Machado e Choro Pungado, Banda Kazamata e o alagoano Wado.

Amanhã (23), a festa começa mais cedo, no mesmo local. Às 19h o palco estará livre para bandas e/ou artistas que desejem mostrar seu trabalho. Interessados em participar devem se inscrever pelo site http://www.laboratoriodemidiaslivres.org. Às 20h, o DJ Pedro Sobrinho comanda as pick-ups na festa Mixando o Mundo. E a partir das 22h acontecem shows de Erivaldo Gomes e Didã, Cesar Teixeira e a banda carioca Fino Coletivo.

WADO – Catarinense de nascimento, Wado reside em Alagoas, onde trabalha na imprensa. De influências várias – o funk, o afoxé, o reggaeton – tem construído sua obra, cujo título mais recente é Terceiro mundo festivo (2008), disponível para download (legal) em seu site, http://www2.uol.com.br/wado.


[Wado. Foto: divulgação]

As periferias do mundo têm produzido música com quase nada de matéria prima. É a seca do sertão juntada a microfones baratos, estúdios caseiros, pouco conhecimento técnico, mas muita vontade e urgência. Entre os títulos de sua discografia há um Manifesto da arte periférica (2001, sua estréia).

Wado já participou do Tim Festival, Projeto Pixinguinha (da Funarte) e de festivais pela Europa. A caravana por ele integrada no Pixinguinha foi escolhida para representar o Brasil quando das comemorações do Ano do Brasil na França, em 2005. O artista tocará em São Luís pela primeira vez, justo no Ano da França no Brasil, 2009.

FINO COLETIVO – Mais que uma banda, o Fino Coletivo é uma reunião de artistas. Com um cd lançado, o homônimo Fino Coletivo já coleciona hits e fãs. Atualmente é formado por Adriano Siri (voz), Alvinho Cabral (guitarra, violão e voz), Alvinho Lancelotti (voz), Daniel Medeiros (baixo, programações e voz) e Marcus Cesar (bateria).


[Fino Coletivo. Foto: divulgação]

O Fino já teve Wado como integrante, mas a distância geográfica entre o Rio de Janeiro da banda e a Alagoas do compositor-jornalista levou-os a trilhar caminhos não tão distintos assim: ambos continuam fazendo boa música. Sorte a nossa.

Bebendo em várias influências, somadas umas às outras, cada integrante trouxe as suas, o Fino Coletivo passeia com desenvoltura e qualidade, principalmente por funk e samba. Parte do repertório do primeiro cd da banda pode ser ouvido em http://www.myspace.com/finocoletivo. O site oficial, com maiores informações, é http://www.finocoletivo.com/. Também é a primeira vez que eles vêm à São Luís.

O Laboratório Internacional de Mídias Livres é uma realização da Universidade Federal do Maranhão, Ministério da Cultura, Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, FAPEMA e diversas organizações da sociedade civil. A programação completa do Laboratório Internacional de Mídias Livres pode ser acessada pelo site http://www.laboratoriodemidiaslivres.org ou pelo blogue http://laboratoriodemidiaslivres.blogspot.com.

[Texto do blogueiro publicado no site da Secma e distribuído aos meios de comunicação maranhenses]

A TUA CABE?

Tudo é extremamente real em Nossa vida não cabe num Opala, filme brasileiro que obteve relativo sucesso no cenário alternativo, ano passado. Talvez o excesso de álcool incomode certos puristas. É bom que saibam que existem pessoas assim, de verdade.

Essa realidade nua e crua é o que há de melhor no filme: a história de irmãos ladrões de carros que precisam continuar no ofício para honrar uma dívida do pai falecido com um mafioso de desmanches, saga de tragédia e chantagem geração após geração, maldição (?). As vidas dos ladrões, “coisas” pelas quais, às vezes, não damos o mínimo valor.

O filme, no entanto, não tenta nos passar lições de moral, ao menos não no sentido formal, “moral da história” ao pé da página. Mas chega a incomodar – e este é um bom sentimento para durar além das letras subindo ao final.

Adaptação da peça Nossa vida não vale um Chevrolet, de sua autoria, o dramaturgo Mário Bortolotto não gostou do resultado final, segundo depoimentos em seu blogue, o Atire no Dramaturgo. Bortolotto, aliás, aparece tranqüilo, bebendo num boteco, numa das cenas.

Leonardo Medeiros (Lavoura Arcaica) é Monk, o filho mais velho que deseja honrar Oswaldão, o pai falecido. Medeiros se sai bem como protagonista: é, a contragosto, exemplo para Slide (Gabriel Pinheiro), que também por conta da dívida do pai vai lutar boxe – ofício abandonado por Monk: “Eu queria mesmo era ser ladrão”, o irmão mais novo confessa a admiração pelo mais velho.

O elenco conta ainda com nomes como Jonas Bloch, Milhem Cortaz (Tropa de Elite), Maria Manoella (Crime delicado), Maria Luiza Mendonça, Paulo César Pereio, o pugilista Maguila e Dercy Gonçalves – sua última aparição no cinema, recheada de palavrões.


[Dercy disparando palavrões em sua última aparição no cinema. Foto: divulgação]

Reinaldo Pinheiro saiu-se muito bem em sua estreia como diretor. Por trás, uma trilha sonora impecável, a cargo do Maestro Amalfi e Mário Bortolotto. Somada à bem trabalhada fotografia, cria um clima diferente do que é comumente visto no cinema nacional.

Eu recomendo: Nossa vida não cabe num Opala está em cartaz no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com sessões às 16h, 18h30min e 20h30min. Os ingressos custam R$ 4,00 e R$ 2,00 (para estudantes com carteira e pessoas com mais de 60 anos; para todos, aos domingos).

ANTEONTEM

TRIBUNA CULTURAL

BRASIL E DINAMARCA, UM CLÁSSICO DA MÚSICA


[capa. Reprodução]

Formado por um dinamarquês e quatro brasileiros, o Maritaca Quintet lança Waterbikes, inspirado disco instrumental.

O pianista dinamarquês Thomas Clausen é sinônimo de jazz (e) de qualidade. Mas sua paixão pela música brasileira o levou a formar, em 1997, o Thomas Clausen Brazilian Trio, com o baterista Afonso Corrêa e o contrabaixista Fernando de Marco, ambos radicados na Europa. A eles, em 2006, juntaram-se o flautista e saxofonista Teco Cardoso e a flautista Léa Freire, o que deu no Mary Tak Quintet.

Para o mercado brasileiro, em vez de se traduzir por Quinteto Maria Agradecida, o grupo chegou como Maritaca Quintet, quiçá por Maritaca – um outro nome para jandaia, uma ave brasileira – ser o selo por onde nos chega Waterbikes (2008), gravado em Copenhague, Dinamarca, disco que mescla o jazz ao choro, samba e maracatu, aliando aí três visões de Brasil (não apenas os estilos citados): a do estrangeiro Clausen, a dos brasileiros longe de casa, Afonso e Fernando, e a dos brasileiros que continuam residindo aqui, Teco e Léa. Sofisticação e simplicidade caminham lado a lado.

Ela e Clausen, a propósito, assinam a grande maioria do repertório de Waterbikes – oito temas com títulos como Choro, Samba do Gui Gui, Cultura e Alegria, entre outros. As exceções são os clássicos Chega de saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e Retrato em branco e preto (Tom Jobim e Chico Buarque), cujas novas roupagens fogem do óbvio: vale lembrar que ano passado a velha bossa nova comemorou 50 anos.

[Tribuna do Nordeste, 18 de janeiro de 2009]

CULTURA LIVRE

Aí o charmoso e-flyer (a arte é do Rafael Rosa) de divulgação do show que a Pedra Polida fará quinta-feira (22), às 22h, dentro da programação cultural do Laboratório Internacional de Mídias Livres, algo que, mesmo você dentro da organização, só se vai saber o que é quando acontecer. Se é que vocês me entendem.

Na quinta rolam ainda shows com Lena Machado e Choro Pungado, Banda Kazamata e Wado.

Sexta-feira, mais cedo, a partir das 19h, tem Palco Livre (para bandas e/ou artistas que quiserem mostrar seu trabalho, mediante inscrição via site), 20h: Mixando o mundo, com o Dj Pedro Sobrinho, 22h: shows com Erivaldo Gomes e Didã, Cesar Teixeira e o Fino Coletivo.

Os shows, todos, acontecem na Praça Nauro Machado, Praia Grande, bairro que concentrará quase todas as atividades do Laboratório.

Mais, diremos depois. Programação completa do Laboratório Internacional de Mídias Livres no site.

ESPERANÇA

Diante da estranheza de minha esposa por um dos muitos discos estranhos que tenho, que pus para trilha do café da manhã de domingo – após inaugurar os ouvidos, aquela manhã, com o Chorinhos e Chorões, hábito dominical, quase vício –, troquei por uma coletânea do Trio Esperança, a Bis, aquela da capa verde e branca, com dois discos, geralmente vendida bem baratinho nas Americanas.

O Trio Esperança, as então crianças Regina, Mário e Evinha (que depois partiria para a carreira solo) todo mundo conhece: do clássico Filme Triste (Sad movies) (Make me cry) (John D. Loudermilk, versão de Romeo Nunes), muito tempo depois regravada por Chico César, tornando-se sucesso novamente.

Uma música triste chamou-me a atenção: O menino do amendoim (José Messias), cuja letra transcrevo abaixo:

Amendoim torradinho
Moço, tenha pena de mim
Sou um pobre vendedor de amendoim

Amendoim torradinho
Dois mil réis o pacotinho
É melhor pedir do que roubar
Compra moço, pra me ajudar

Quem me vê assim tão sujo
Imagina um delinqüente
E evita essa mistura de abandono, trapo e gente
Não, não, não, não me olhe com desdém
Também tenho coração
Pelo menos atenção devo merecer
Não nasci por que pedi
Mas eu peço pra viver

Compra moço, pra me ajudar
Amendoim torradinho

No geral, a coletânea passeia por temas jovem-guardescos, várias, várias versões (como o primeiro sucesso aqui citado) e é um disco alegre. Inocente, eu diria.

De uma inocência que anda em falta na música popular brasileira. Popular no sentido de popular mesmo, não no sentido comumente usado, de antônimo de erudita. Pena que a música popular brasileira de hoje seja/esteja ficando cada vez pior. E isso não é saudosismo barato.

É claro que há gente boa produzindo. Muita. Mas, infelizmente, não é popular. Ainda. Será que um dia será?

Mas é bom que não deixemos o nome do Trio a que tributamos neste post se apagar em nós.

DO CARALHO!

Baseado em peça teatral de Mário Bortolotto, trata-se da estréia de Reinaldo Pinheiro como diretor de longas e é, acredite!, o último filme de Dercy Gonçalves.

Não perca! Em cartaz no Cine Praia Grande, que volta a abrir as portas dia 20 de janeiro, com sessões às 16h, 18h30min e 20h30min.

CRENDICE

Eu não tenho papas na língua
hóstias bentas não me calam
amor é o que me apascenta
crendices vãs nada trazem

Eu não travo meu prazer
como pão, como você
bebo vinho só por gozo
rezo quando Deus me chama
axé, aleluia, namastê
quem disse que não tenho fé?

Buda, Jesus, Meishu Sama
Lutero, Kardec, Maomé
Tanigushi, Umbanda, Candomblé
Santo Daime, Dalai Lama
nada quero que me salve
só o beijo que você me deve

Desdenho da razão pura
sentimento ando à cata
o que ata e não desata
o que não mata e cura
na desmedida exata

Filosofia? More na sua
vá tomar naquela reta
ajoelhar perante Meca

Que me perdoem os ascetas:
setenta vezes sete eu peco
eu não tenho sangue de barata!

*

Um dos poemas inéditos (agora não mais) que Lúcia Santos (poemas e voz. Na foto acima clicada por Geraldo Iensen) apresenta no recital Nu frontal com tarja, acompanhada por Nosly (guitarra), na programação d’O Beco Cultural (penso que só “O Beco” bastaria), produção de Ópera Night que rola amanhã, a partir das 20h, no mesmo bat-local d’A Vida é uma Festa! (em frente à Cia. Circense de Teatro de Bonecos, na Praia Grande).

Haverá uma pá de outras boas atrações, mas – sem desmerecê-las – a minha grande tara é por ver esta Uma gueixa pra Bashô (título de um livro de hai-kais de Lúcia), em recital que trans(it)ará entre o irônico, o erótico e o romântico, todo de poemas inéditos – exceto esse a que tive acesso e tomo a liberdade de publicar aqui.

A programação completa d’O Beco (‘bora apostar como é esse o nome que vai pegar?) você vê aqui.

OS TAMBORES E O TALENTO DE PIAL


[foto: Brawny Meireles]

Em seu segundo disco solo, Perfusão, o percussionista maranhense Carlos Pial mostra todo o seu talento e versatilidade.

Em Perfusão (2009), Carlos Pial tira os instrumentos da sacola e apresenta uma variedade de ritmos, sons, idéias originais, fazendo seu segundo disco solo – o primeiro é Maranhafricanizado (2002) – fazer jus ao nome: o percussionista nos brinda com as influências de seu Maranhão natal fundidas ao que se convencionou chamar de world music.

Para executar o repertório, quase completamente autoral e inédito – exceto Fogueira (César Nascimento) e Praia Grande (Sávio Araújo) – a cozinha percussiva de Pial – “agora a cozinha quer falar”, como cantaria o saudoso Gigante Brazil em música de Paulo Lepetit – toma a frente, acompanhada do baixista João Paulo (da Banda Legenda) e dos tecladistas Jesiel Bives, Elienae Soares e Rinalde.

O bom trabalho foi selecionado no Plano Fonográfico da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (SECMA) em 2007 (escreveremos em breve neste espaço sobre outros trabalhos) e certamente credencia o músico a levar para casa mais alguns troféus do Prêmio Universidade FM, já vencido por ele em 2003 (melhor música instrumental), 2004 e 2006 (melhor percussionista).

CHORINHOS E CHORÕES – “O seu café instrumental de domingo” entrevistará hoje (11) o percussionista Carlos Pial, que falará de seu novo trabalho para o sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos e seus ouvintes [nota: este blogueiro deveria ter se juntado a Ricarte e Gilberto Mineiro, que entrevistaram Pial na manhã de domingo. A ressaca pela festa de formatura do amigo Reginho não permitiu. Na quinta-feira (15), às 20h, na mesma Universidade FM detalhes à frente, Pial será o entrevistado do Companhia da Música, sob a batuta do já citado Gilberto Mineiro]. O programa vai ao ar às 9h, na Rádio Universidade FM, 106,9MHz, e pode ser ouvido também pelo site http://www.universidadefm.ufma.br

PERFUSÃO, O SHOW – Dia 16 de janeiro (sexta-feira) acontece o show de lançamento de Perfusão, segundo disco solo do percussionista maranhense Carlos Pial. Nesta apresentação ele será acompanhado pelos músicos Oliveira Neto (bateria), João Paulo (contrabaixo) e Renato Serra (tecladista) e contará com as participações especiais do saxofonista Sávio Araújo e do cantor e percussionista Papete. Os ingressos custam R$ 15,00 (metade para estudantes com carteira) e podem ser adquiridos na bilheteria do Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande), local da apresentação [outra nota: só agora percebi que não dei o horário da apresentação no Serviço impresso: é às 21h].

[Tribuna Cultural de domingo passado (11), no Tribuna do Nordeste]