A MERDIFICAÇÃO DA CABELEIRA DO MAESTRO

Primeiro violino das mais importantes orquestras brasileiras, por ser um exímio e bem preparado instrumentista, o mineiro Ricardo Wagner, cujo nome deu-lhe predestinação para o sucesso na profissão, teve vida passageira e inquieta.

Casado precocemente, formou numerosa prole, acrescida, mais tarde, por outros tantos descendentes, oriundos de aventuras extraconjugais.

De porte elegante, cabelos ondulados e longos, boa altura, verdadeiro exemplar do músico erudito, o Ricardo encantava ouvintes, grandes platéias, além de sempre merecer certa atenção facciosa das mulheres. Era imponente ao postar, com suave pressão do lado esquerdo do rosto alegre, seu vetusto stradivarius, quando transmudava-se na figura de um perfeito galã.

Morou em diversas cidades brasileiras, numa vida inconseqüente de nômade, apenas para fugir das cartas-precatórias itinerantes, que circulavam, à sua procura, com ordem de confisco salarial, para pagamento de inúmeras pensões alimentícias.

Como excelente artista, conseguia viver de escapatórias. Mesmo assim, com o auxílio de várias fãs, continuava proliferando.

Um dia, em pleno Rio de janeiro, no antigo Empire Hotel, no bairro da Glória, onde costumava hospedar-me, recebi, no último andar, no qual funcionava um requintado restaurante, de iguarias baianas, de propriedade da mestra da arte culinária, Sra. Maria Teresa Weiss, o fidalgo violinista, acompanhado de uma das suas concubinas, para o almoço. Era uma distinta gauchinha, de descendência italiana, chamada Sofia.

Nessa época, o renomado maestro já produzira doze filhos, com matrizes diversas. Verdadeiro garanhão, de puro sangue.

O almoço, com desfile de pratos típicos da Bahia (caruru, efó, vatapá, moqueca de siri mole, bobó de camarão, etc., tudo com leite de côco e dendê, bem apimentados), também regado a vinho branco, de safra nobre, estendeu-se até às 16:00 horas, quando o Ricardo, etilicamente eufórico, pediu-me a chave do meu apartamento, para fazer uma rápida incursão sentimental.

E lá se foram, fulgurantes e belos.

Nessa hora, o restaurante já revesava o seu pessoal, para um segundo turno de trabalho, que notou minha presença, ali solitário, a bebericar. E o tempo foi correndo, a noite chegando, sem qualquer notícia do casal. Eis, senão, quando, me aparece um mensageiro do hotel para dizer-me:

— Dr. Assis, parece que seu amigo está com problemas lá no apartamento. É que ele acaba de fazer uma estranha encomenda: seis vidros de “shampoo” e condicionadores de teores diversos, dois pentes finos, três vidros de sabão líquido, além de meia dúzia de toalhas de rosto.

Diante disso, corri até o apartamento, onde a Sofia me atendeu:

— Aguarde um momento lá no restaurante, que já subirei para conversarmos. Está tudo bem.

E, quando lá chegou, descreveu a seguinte e estapafúrdia cena: os dois, em perfeita coalizão amorosa, resolveram, no caminho das divagações libidinosas, apelar para um posicionamento invertido, cognominado “soixante-et-neuf”, quando ela por cima, sentiu-se, num átimo, mal da barriga, explodindo, sem que quisesse, um violento jato de merda, com perfume de dendê, sobre a cabeleira do parceiro, que em defesa empurrou suas nádegas para a frente, quando veio o segundo jato, ainda mais forte, sobre seus olhos. E o maestro, cego e merdificado, correu para o banheiro, em busca de assepsia geral, para purificar sua copiosa cabeleira, igual a uma peruca francesa. Por isso, teve de fazer aquela extravagante encomenda ao mensageiro.

E o Ricardo, quinze anos depois do episódio, ainda penteava os cabelos, com o trejeito de passar a mão no nariz, para saber se ainda restava algum aroma fétido de dendê.

*

Mister Six, o grande Francisco de Assis Carvalho da Silva, em Historietas hilariantes, 1998. Meu medidor (a busca no Estante Virtual) acusa: livro raríssimo. Ricarte, valeu o empréstimo!

Autor: zema ribeiro

homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais

2 comentários em “A MERDIFICAÇÃO DA CABELEIRA DO MAESTRO”

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