TAMBORES DE LUTO


[A imagem de Mestre Felipe estampa painel gigante quando do tombamento do tambor de crioula como patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo IPHAN, 18/6/2007. Foto: Zema Ribeiro]

Tambores são corações. E como tal podem sofrer uma parada cardíaca. O silêncio fazendo mais barulho que a soma de grande, meião e crivador. Ainda bem que o silêncio não tem cor e as saias das coreiras continuam mais bonitas que ele. O silêncio é triste. Tirando o sono dos recém-nascidos, o silêncio é triste. “Na Vila de São Vicente, o rádio fala toda hora”. Tem hora que o rádio sai do ar.

Uma parelha parada aqui no canto, enfeitando a sala de estar de minha alma. Eu, que já tinha motivos de sobra para estar triste. Órfão, solteiro e gripado no final de semana, ninguém merece. Mas como reza a lei de Murphy: nada está tão ruim que não possa piorar. E o jornal me entra pela janela, agourento.

A foto só mostra o rosto, a indefectível e inseparável boina por sobre a cabeça. Penso no seu corpo encurvado, soma da idade – tinha 84 anos – e lesão por esforço repetitivo, explico: de tanto amarrar o tambor grande na cintura, por entre as pernas, pendia para frente.

A velha da foice, insaciável, já nos deu um bocado de notícia ruim este ano. E não está satisfeita: desta vez levou Mestre Felipe, um dos grandes gênios de nossa cultura popular. Ele ainda viu o tambor de crioula – eram quase sinônimos – ser reconhecido patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo IPHAN. Ele ainda recebeu flores em vida, como queria/cantava outro mestre, o Prêmio Orilaxé de Cultura Popular. Mas ainda era cedo.

Mestre Felipe faleceu ontem (18), por volta de 20h30min, vítima de parada cardíaca e insuficiência renal; estava internado há quinze dias. Seu corpo será sepultado amanhã (20) em sua São Vicente de Férrer natal, pedido que deixou. “Na Vila de São Vicente, o rádio fala toda hora”. Tem hora que traz péssimas notícias.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

2 comentários em “TAMBORES DE LUTO”

  1. Zema, a velha da foice anda tombando vários patrimônios este ano. por isso, é que sou do partido de nelson cavaquinho: “me dê as flores em vida”. amemos e reconheçamos o valor desses mestres em vida. é tudo o que podemos fazer.abslena machado

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