O BALAIO DE BOGÉA

Parceiro menos conhecido – mas não menos importante – de Antonio Vieira, o compositor maranhense Lopes Bogéa tem parte do reconhecimento merecido quase quatro anos após seu falecimento, em 13 de dezembro de 2004, quando já estava em curso o projeto de registrar suas composições em disco. Zeca Baleiro, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro, Celson Mendes e João Pedro Borges fizeram diversas gravações na casa do compositor, antes de sua subida. Balançou no congá (2007) finalmente ficou pronto e foi lançado pelo Saravá Discos, que tem posto nas prateleiras, em pequenas tiragens, discos importantes, como o póstumo Cruel, de Sérgio Sampaio, e Ode descontínua e remota para flauta e oboé – De Ariana para Dionísio, onde o autor de Vô Imbolá musicou poemas da falecida poeta paulista Hilda Hilst, com a participação de dez cantoras brasileiras. O selo de Zeca Baleiro também devolveu às prateleiras o esgotado O samba é bom, “estréia” ao vivo de Mestre Vieira, de 2001.


[Reprodução capa Balançou no congá]

Balançou no congá, o disco, traz 17 faixas, pequena amostra dum universo de mais de 300, em sua maioria inéditas. Artista multimídia quando a expressão sequer existia, Lopes Bogéa foi jornalista, radialista, poeta e compositor. Autor de vários livros, entre eles o clássico Pedras da rua (1988), onde contava pequenas histórias de loucos que andavam por ruas, becos e ladeiras ludovicenses, o vimarense já havia soltado a voz em ocasiões anteriores: em 1986 participou do compacto Velhos Moleques, com Antonio Vieira, Cristóvão Alô Brasil e Agostinho Reis. Dois anos depois, lançou, com seu parceiro em Balaio de Guarimã (no disco interpretada por Cesar Teixeira e Josias Sobrinho), o livro e o vinil Pregões de São Luís e Pregoeiros, reeditado em cd dez anos depois.

Em Balançou no congá, Alcione, Beth Carvalho, Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões), Genival Lacerda, Germano Mathias, Josias Sobrinho, Rita Ribeiro, Tião Carvalho e o próprio Zeca Baleiro embebem-se e embebedam-nos da poesia de Lopes Bogéa, de uma beleza e simplicidade que não se contradizem: o simples é o belo. O próprio Bogéa solta a voz em sete faixas, sendo três vinhetas. É ele quem convida, em Balaiei, sim, faixa de abertura do disco: “Vamo balaiar, menino! Oxente!”. Segue-se um desfile de importantes nomes da música brasileira por sambas, baiões, carimbós e toadas que bem poderiam ser clássicos dessa tal MPB, tivessem sido compostas nalgum lugar que não o Maranhão.

Aliás, de Maranhão, o homem tinha muito: coincidência ou não, João Batista Lopes Bogéa nasceu em 1926, no dia do santo que lhe deu nome, no povoado Jericó, município de Guimarães, interior do estado. A festa corria solta na terra do boi de zabumba. Figura plural, o tempo dedicado à música foi o mesmo dedicado, por exemplo, à caridade: durante meio século foi Diretor de Patrimônio do Asilo de Mendicidade. Em 1954, compôs sua primeira música, Manchete de jornal. Era um exímio cronista e suas composições não fogem disso. Bons exemplos são Eu sou do apartamento aqui de baixo (no disco interpretada por Germano Mathias), que narra uma briga de vizinhos, Papai Noel do rico e do pobre (por Chico Saldanha), que a seu modo trata da segregação social, e Produto de gafieira (por Criolina, no disco antecedida de vinheta na voz do próprio compositor), sobre namoricos em festas, mais uma vez o velho moleque se antecipando, o “fica”, quando ele ainda não era falado.

Certos artistas talvez não sejam seres humanos “normais”: ou são anjos ou são loucos. Bogéa devia ser um anjo louco. Como os que ele pintou nas páginas do citado Pedras da rua, ele mesmo um deles. Uma pedra rara, como bem disse Cesar Teixeira no texto de apresentação de Balançou no congá.


[Lopes Bogéa com o parceiro Antonio Vieira, Tereza Cantu e Joãozinho Ribeiro na edição de 15 de outubro de 2004 da Serenata dos Amores, quando o primeiro foi homenageado com o Troféu Zé Pequeno. Foto: Gilson Teixeira]

Serviço

Logo mais, às 19h, na Casa de Nhozinho (no pátio da entrada pela Rua de Nazaré), acontecerá o lançamento de Balançou no congá, com entrada franca. Estão confirmadas as presenças de Antonio Vieira, Cesar Teixeira, Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões), Erivaldo Gomes, Josias Sobrinho, Luiz Cláudio, Luiz Jr., Patativa e Zeca Baleiro. Outras figuras devem aparecer. Não se trata de um show. Será uma roda informal, como bem gostava de fazer em vida o saudoso Lopes Bogéa: um encontro de amigos para cantar e tocar descompromissadamente. Certamente algo quase tão gostoso quanto levar a menina ao pomar para comer Sapoti.

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

7 comentários em “O BALAIO DE BOGÉA”

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