BENEDITO LACERDA RESGATADO EM QUATRO CDS

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ESTADO

“Atenção, pois, ouvintes, procurem entender o que vão conversar, por meio de seus instrumentos, o Benedito e o Pixinguinha através deste choro que se chama Cochichando”. A voz de Almirante, entre chiados, apresenta a dupla Benedito Lacerda (flauta) e Pixinguinha (saxofone), em seu programa, Pessoal da Velha Guarda de Almirante, em gravação de 8 de outubro de 1947. “Este choro não teve gravação comercial”, anuncia o rico libreto que acompanha os quatro discos da primeira caixa de Será o Benedito?!? [Maritaca, 2006], “trilogia musical da obra do polêmico (e genial) Benedito Lacerda”.


[Reprodução capa caixa Benê, o flautista, primeira da trilogia Será o Benedito?!?]

Divididos cronologicamente, por assunto, os quatro discos desta primeira caixa – Benê, o flautista – são Grupo Gente do Morro, Benê & Pixinga e o Regional de Benedito Lacerda (partes I e II) e apresentam várias facetas da obra do “flautista, cantor, chorão, compositor, sambista, carnavalesco, arranjador, polêmico, político, empresário, fazedor, idealista, criador, financista, patrão, letrista, fumante, sindicalista, o branco d’alma preta”.


[Benedito Lacerda (com a flauta na mão) e Pixinguinha (o mais alto, à direita): talvez a mais frutífera parceria da música brasileira]

Benedito Lacerda está para Pixinguinha como Vadico está para Noel Rosa. A primeira relação é injusta: foi Benê – a intimidade que a caixa nos dá – quem tirou Pixinguinha do ostracismo, num dos vários episódios que o luxuoso libreto de 90 páginas traz: Pixinguinha, alcoólatra e com as mãos trêmulas, já não tinha embocadura para a flauta, seu instrumento de origem. Foi tocar saxofone e um “contrato” com Benedito Lacerda os levou a assinarem juntos todas as músicas compostas por um ou outro dali em diante. A Benê restou a fama de “ladrão” de músicas, quando eles inauguraram um modelo que se tornaria comum com outros nomes importantes da música como Lennon e McCartney ou Roberto e Erasmo Carlos.

Tendo vivido apenas 55 anos, Benedito Lacerda (1903-1958) é, sem dúvidas, importantíssima figura resgatada neste projeto patrocinado pela Petrobras, através da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura. Gravou com todas as grandes estrelas da música popular brasileira da época e tocou em mais de mil gravações, entre autor e intérprete. 83 faixas integram os quatro discos desta primeira caixa.

Tendo sido provavelmente o primeiro empresário da música brasileira, enxergando a música como profissão e acabando, por exemplo, com a figura do bêbado no regional, do músico desalinhado ao se apresentar em programas de rádio ou shows – como bem gostava de frisar Jacob do Bandolim –, Benedito Lacerda tem sua obra reeditada de forma pouco preocupada com o mercado: para os produtores, há a necessidade de despertar o interesse dos jovens pela música brasileira, independentemente da idade desta, mas há, antes, o interesse em preservar essa obra. Homero Lolito, engenheiro de som que conduziu o tratamento técnico das gravações que compõem Benê, o flautista, explica que “optou-se por manter a máxima integridade da sonoridade dos instrumentos e das vozes originais. […] Então optamos pelo chiado”.

O projeto de resgate da obra musical de Benedito Lacerda deve ter continuidade em breve, com o lançamento das outras duas caixas, Benê, o criador e Benê, o fazedor, abordando outras facetas deste importante, curioso e polêmico personagem da música brasileira.

[Texto publicado (sem as imagens) na edição de hoje (29 de julho) de O Estado do Maranhão, Caderno Alternativo, página 6]

FELIPE NERES FIGUEIREDO (1924-2008)

Mestre da toada no tambor de crioula

WILLIAN VIEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL

Um tambor ficou mudo no Maranhão e foi o de mestre Felipe, pioneiro dos coreiros que percorriam o Estado a animar as festas do povo, fosse pagamento de promessa a são Benedito ou festejos de são João; fosse no Carnaval ou no quintal do vizinho – lá estava o negro pequeno de óculos e boina tamborilando as toadas da “tradição genuinamente afro-maranhense”.

Em São Luís, Felipe Figueiredo era o “mestre” da arte há pouco alçada a patrimônio cultural imaterial graças ao esforço de gente como ele, que aos três já tocava tambor, introduzido por pais e avós na brincadeira inventada por escravos e que hoje continua nas saias, toques de umbigo e gritos de alegria de mulheres que seguem o compasso da música dos homens.

Nascido em São Vicente Férrer (MA) e crescido entre a roça e a construção de casas de taipa, tinha “o tambor como devoção ao santo”, diz o filho. “Fazia só por amor.”

Criou a associação folclórica do tambor de crioula de são Benedito e viajou o mundo para divulgar os três CDs que gravou com toadas cantadas nas ruas, como “Chorei Coro”. Mas Felipe não era só mestre de tocar e compor. Era professor dos meninos que pegavam seu jeito em oficinas que dava havia mais de 20 anos.

Ao morrer na sexta, aos 84, de parada cardíaca, mestre Felipe deixou sete filhos, 57 netos, cinco bisnetos e gerações de discípulos, que, diz o filho, “jamais deixarão o som de seu tambor morrer”.

[Da seção Obituário, Folha de São Paulo, 23/7/2008]

EM BOAS COMPANHIAS


Aqui, Mayara com Beatles, Itamar Assumpção, Police, Alceu Valença, Quinteto Violado, Sá Grama, Smiths, Cure, Lenine, Mundo Livre S/A, Trio Nordestino, Os Ostras, Comadre Florzinha, Blues Etílicos, Zé Ramalho, Guinga, Ná Ozzetti, Lobão e mais uma pá de gente boa.


E aqui, Mayara, mascote do Clube do Choro Recebe, com o nada menos que genial violonista João Pedro Borges.

HOJE

A mídia, provavelmente, só vai se ligar que hoje é dia do motorista e fazer matérias sobre o assunto, certamente apelando para essa baboseira da lei seca.

O MST realiza ato público celebrando o Dia do Trabalhador Rural, hoje, a partir das 16h, na Praça Deodoro. Participação da Banda Filhos de Jah e artistas convidados. Maiores informações: mstma@veloxmail.com.br

O REI DE HAVANA

Para mim, Franz Kafka e Julio Cortázar são os dois maiores escritores do mundo. Além deles, comparo minha condição de escritor censurado em meu país com a de Fiódor Dostoiévski de Crime e Castigo. Ele escreveu esse romance sob a dominação do czar e vivendo no subúrbio de Moscou. Mesmo assim, em vez de fazer um panfleto político, criou uma novela policial, como eu, que em vez de fazer os personagens sofrerem, os boto para trepar.

O escritor cubano Pedro Juan Gutierrez, em entrevista a Ferdinando Martins, na Revista da Cultura. Leia a íntegra aqui.

CAROS AMIGOS,

meu telefone celular (9112-1959) está com um “pequeno” problema: quando abro o aparelho (de flip, eu acho que é assim que se escreve) para atender a uma ligação, o visor pisca uma ou duas vezes e, quase sempre, a ligação cai. Peço que, caso aconteça quando algum/a amigo/a ligar, tente novamente ou ligue para o 8843-0183, outro celular que também atendo. Espero resolver o problema em breve.

Obrigado!

POESIANIMAÇÃO

Em terreno imaginário, quem diria ver letrinhas assim tão juntinhas rimando com dor, flor e lápis de cor. O tempo apressado das horas que a gente não entende. Em cabeça de poeta, criança deveria ter as chaves da porta da frente. Porque lá dentro, vejam só pequenos (e crescidos) leitores, lá na cabeça dos poetas tudo é diferente. Tem explicação dando cambalhota e verdade alugando fantasia.

O Eduardo Rodrigues, que é o dono dessa cabeça cheia de surpresas coloridas, resolveu, um dia, escrever o livro “30 poemas para ler e 20 para escrever” (Editora Alaúde). E alguns deles (e outros novos) viraram poemas animados, desses que descobrem que podem dançar e correr. Para isso chamou o Diogo Pace, que de tanto fazer arte, acabou mesmo ganhando a vida com isso. Adulto é um bicho esquisito. E bacana.

Juntos, eles prepararam cinco novas animações que você pode ver logo mais abaixo. O resultado é a simplicidade brincando com as palavras e as coisas. Todo o tempo. As pequenas ações do dia-a-dia tornam-se matéria-prima para esses clipes–poemas produzidos para a TV Rá Tim Bum e TV Cultura: mídias da modernidade carregadas de delicadezas, provando que a poesia e o universo infanto-juvenil devem, sim, falar a mesma língua. Porque, acreditem, algumas pétalas podem brotar do chão.

*

Gabriela Kimura, escritora, mulher do meu amigo Paulo Stocker, escreveu o texto acima para apresentar cinco poemas animados de Eduardo Rodrigues, que faz o Tulípio com o Stocker. Diogo Pace animou os delicados hai-kais que você lê aqui.

TAMBORES DE LUTO


[A imagem de Mestre Felipe estampa painel gigante quando do tombamento do tambor de crioula como patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo IPHAN, 18/6/2007. Foto: Zema Ribeiro]

Tambores são corações. E como tal podem sofrer uma parada cardíaca. O silêncio fazendo mais barulho que a soma de grande, meião e crivador. Ainda bem que o silêncio não tem cor e as saias das coreiras continuam mais bonitas que ele. O silêncio é triste. Tirando o sono dos recém-nascidos, o silêncio é triste. “Na Vila de São Vicente, o rádio fala toda hora”. Tem hora que o rádio sai do ar.

Uma parelha parada aqui no canto, enfeitando a sala de estar de minha alma. Eu, que já tinha motivos de sobra para estar triste. Órfão, solteiro e gripado no final de semana, ninguém merece. Mas como reza a lei de Murphy: nada está tão ruim que não possa piorar. E o jornal me entra pela janela, agourento.

A foto só mostra o rosto, a indefectível e inseparável boina por sobre a cabeça. Penso no seu corpo encurvado, soma da idade – tinha 84 anos – e lesão por esforço repetitivo, explico: de tanto amarrar o tambor grande na cintura, por entre as pernas, pendia para frente.

A velha da foice, insaciável, já nos deu um bocado de notícia ruim este ano. E não está satisfeita: desta vez levou Mestre Felipe, um dos grandes gênios de nossa cultura popular. Ele ainda viu o tambor de crioula – eram quase sinônimos – ser reconhecido patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo IPHAN. Ele ainda recebeu flores em vida, como queria/cantava outro mestre, o Prêmio Orilaxé de Cultura Popular. Mas ainda era cedo.

Mestre Felipe faleceu ontem (18), por volta de 20h30min, vítima de parada cardíaca e insuficiência renal; estava internado há quinze dias. Seu corpo será sepultado amanhã (20) em sua São Vicente de Férrer natal, pedido que deixou. “Na Vila de São Vicente, o rádio fala toda hora”. Tem hora que traz péssimas notícias.

GOOGLADA IRRESPONSÁVEL

Eu pensei que São Luís tivesse a exclusividade de contaminar peixes com merda. Explico: antes de embrulhar peixes em feiras, jornais trazem merda na mancha gráfica.

Eu estava enganado. Vejam isso.

Aí eu fui no Google. Digitei “daniel dantas” (em minúsculas e sem aspas) e encontrei esta imagem, logo na primeira referência aos homônimos. Quem é homônimo de quem?

Ah, ‘tá… então ‘tá explicado…

HOJE É SEXTA!


[reprodução arte Convite. Escultura: Wilson Bozó]

Ei, você aí que tanto reclama que São Luís é parada, provinciana, que não tem nada pra se fazer e não sei o que que tem mais. Ó, mais uma para o seu leque de opções, hoje (entre as tantas que já pendurei aqui, ao longo da semana): shows de Cesar Teixeira e Josias Sobrinho no Largo do Teatro Itapicuraíba, no Anjo da Guarda, dentro das comemorações do aniversário de 33 anos do Grupo GRITA, grátis, sobre o que você lê mais aqui.