imbecilidade genérica

“com tanta coisa menos tóxica para fazer na vida, dedicá-la inteira à suposta imbecilidade genérica dos outros não é uma das atitudes mais inteligentes, é? estranho que essa postura, a um só tempo arrogante e obtusa, parta de sujeitos que se consideram tão inteligentes. mainardi não está sozinho. gente como nelson ascher ou reinaldo azevedo engrossam a prole convencida e chorona de paulo francis na mídia brasileira. e o mandamento central de sua jihad ressentida quer ser inspirado naquela brincadeira de nelson rodrigues, de que “toda unanimidade é burra”. é uma idéia instigante, engraçada, mas improvável. unanimidades não existem. se alguma existisse, o próprio nelson rodrigues seria contra ela. e mainardi ou ascher, com muito menos brilho, também. qualquer unanimidade deixaria de ser unânime. “unanimidade” só existe restrita, mesmo que por aspas. significa maioria. e nem todas são burras, obviamente. dos momentos de nelson rodrigues, gênio teatral, prefiro vários outros, como aquele em que ele colocou “sujeito inteligente” entre as dez coisas que mais odiava. já dos colunistas paulistas, esses sujeitos inteligentes, os melhores momentos são aqueles em que estão em férias”.

*

trecho de “um minuto de silêncio pelas antas queimadas”, trecho da coluna “homem de mídia”, assinada por carlos nader na trip de março (nº. 164).

reflexão para começo de semana (útil) neste maranhão onde tanta gente (jovens ainda na faculdade ou “velhos” com uma “carreira”) quer ser mainardi ou reinaldo azevedo. no texto de nader, há um subtítulo (de onde o trecho acima foi retirado). aqui, é o título do post.

doses de choro e riso. na medida.

um apressado e/ou desavisado leitor poderá torcer o bico e dizer: mais um release. calma!

na verdade, trata-se de mais uma participação deste blogueiro no boteco do tulípio (com este são três textos e você pode ler todos no site do bebum mais querido do brasil).

o lance é o seguinte: os convidados podem escrever sobre o que quiserem, mas eu prefiro sempre falar de algo relacionado a bares, farras, álcoois vários (e muitos) e coisas do tipo. tudo a ver, né?

enfim, já em 2008 ouvi uma história muito engraçada que se passou no chico canhoto e, ainda sob o efeito do citado suíte gargalhadas, fiz graça em cima (sem aumentar, nem inventar). de leve, uma propagandinha do nosso querido chico canhoto, agora conhecido, além de na frança, também no boteco do tulípio. para ler o texto , clique aqui.

Mesa 2
Zema Ribeiro

DOSES DE CHORO E RISO. NA MEDIDA.

Antes de passar à história propriamente dita, devo dizer umas duas coisas. Primeiro, que esta é mais uma história que conto de ouvido aqui no Boteco do Tulípio, pois não estava lá quando a mesma se deu – no entanto a coisa não descamba para o tão propagado jornalismo de ficção praticado no Maranhão, pois isto não é jornalismo (e fica aqui um aviso). Segundo, que ela tem influência fortíssima do “Suíte Gargalhadas”, cuja leitura terminei recentemente, clássico-engraçado do Henrique Cazes que junta mais de cem histórias de músicas e músicos (e boemia) brasileiros. Terceiro, pedir aval e bênção a Ricarte Almeida Santos, embaixador do choro no Maranhão, que ficou de escrever sobre o fato – e pode fazê-lo, com maior riqueza de detalhes e, portanto, alguma graça mais, como aconteceu quando ele me contou no Bar do Léo, depois.

O fato é que o projeto Clube do Choro Recebe já tinha certa tradição no Bar e Restaurante Chico Canhoto, na Cohama, acontecendo todos os sábados, de forma quase sagrada. Por tratar-se de área residencial, no entanto, a música ao vivo rola somente até as onze da noite. Boêmios que querem esticar a noitada, por ali mesmo, podem fazê-lo, de forma civilizada, sem música e sem alteração – na voz, que o “beber com moderação” dos comerciais de cerveja, às vezes, não é o forte da rapaziada. Foi o que aconteceu já na madrugada de um domingo desses.

Era próximo de duas da manhã. Uma viatura da polícia militar estacionou e policiais desceram para orientar a esposa de Chico Canhoto: “Minha senhora, são quase duas da manhã. É bom fechar o bar, pois a senhora está correndo riscos”. “Mas aí são todos cidadãos de bem”, contra-argumentou a proprietária do estabelecimento. “Justamente por serem todos de bem, eles devem não possuir porte de arma. Logo, se aparece algum elemento mal-intencionado eles não poderão defendê-la”, justificou o policial, que ouviu um “o quê que tu quer, me’rmão?!” de um dos boêmios que havia esticado o expediente etílico naquela noite-madrugada.

Não gostando da pergunta-resposta atravessada do músico, o policial se aproximou. “Vão trabalhar em outro lugar, aqui só tem gente de paz”, o músico continuou. Percebendo que o homem da lei trazia a mão junto ao revolver, o boêmio deu um chega-pra-lá no policial: empurrou-o para trás. Algemado, pelo desacato, o músico foi jogado dentro da viatura, onde recebeu ainda uns sopapos – para ficarmos na leveza que este papo de boteco requer e merece.

Ao perceber a “arrumação”, Chico Canhoto resolveu interpelar os policiais: “Não prendam meu amigo. Soltem-no. Prendam-me se for preciso, mas deixem-no em paz”. “Se você quer ir preso, me desacate”, ordenou um policial, que ouviu – e daqui a cena começava a ganhar ares hilários – um “você é um insensível!”. “Me desacate, homem!”. “Você é um imprudente, um insensível!”. “Ah, tu não quer ser preso não… ‘tu tá é me elogiando”, o policial passava a régua e conduzia o músico ao plantão central.

Uma delegada, namorada de um outro músico, também havia resolvido esticar a noite. Mas, terminada a roda de choro no Canhoto, procurou outro canto. Botando o carro na garagem, já quase amanhecendo, recebe um telefonema: “Doutora, venha aqui pra delegacia, prenderam Fulano!” (preservamos aqui os nomes de nossos personagens, à exceção do dono do bar e do produtor do projeto, à guisa de propaganda).

Meia-volta no carro, destino: delegacia. O delegado de plantão tentou dar bom dia: “Fulana, você por aqui…”. Foi interrompido: “Respeite! Pra você é Doutora Fulana! E solte o rapaz”. O músico foi liberado e no sábado seguinte era platéia do Projeto Clube do Choro Recebe. Como se nada tivesse acontecido.

O Projeto Clube do Choro Recebe acontece todo sábado, às 19h, no Bar e Restaurante Chico Canhoto (Residencial São Domingos, Cohama, São Luís/MA).

servicinhos

hoje

o quê: lançamento do livro sussurros
quem: o poeta eduardo borges
quando: hoje (27), às 19h
onde: na livraria poeme-se (rua joão gualberto, 52, praia grande)
quanto: entrada franca. o livro será vendido por r$ 15,00
quadrilha: o autor é promotor público, irmão da artista plástica ana borges. o prefácio é assinado pelo poeta nauro machado e as ilustrações são de jonilson bruzaca, que é namorado da zina nicácio, que escreveu o release que pendurei no varal.

sábado

o quê: com fusão eletrônica
quem: os djs dolores (se) e pedro sobrinho (ma)
quando: sábado (29), às 22h
onde: no espaço armazém (rua da estrela, praia grande)
quanto: r$ 20,00 (mais detalhes no e-flyer que penduro abaixo)
hora-extra: a produção é de gilberto mineiro, que ainda vai aprontar muito em 2008. trata-se da primeira visita de helder aragão (“vulgo” dolores) ao maranhão, ele, integrante, de raspão do mangue-bit, já tocou em diversos festivais internacionais, em disco de adriana calcanhotto (maritmo, 1998) e assinou a trilha sonora de “narradores de javé“. lançado pelo selo belga crammed, “1 real” é seu mais novo trabalho.

aí vem o chávez, chávez, chávez, todos atentos olhando pros jornais…

sobre a vinda de chávez ao brasil, não entendi duas coisas: 1) o sigilo quase absoluto mantido em torno da questão e 2) o incômodo arrepio causado na mídia da província querida.

em relação à primeira, acho que o assunto deveria ser explorado o máximo possível. a visita de chávez ao maranhão é mais importante que, por exemplo, a vitória de rafinha no 8º. bbb ou o olho de uma cadela vira-lata arrancado por um par de pit bulls.

sobre o segundo, não entendo a baba espessa que escorre da boca de alguns e lhes mela os teclados que usam para sujar páginas de jornais que, dentro em breve, embrulharão peixes nas feiras da ilha.

o cúmulo: a página 5 do jornal pequeno de hoje traz matéria assinada por oswaldo viviani sobre o assunto. o título “seguranças de hugo chávez exageram na desconfiança” trazia sobre si o chapéu “mal-encarados”, referindo-se aos seguranças. até aí, tudo bem, é a opinião dele. ou do jornal, sei lá. um box (“visita de chávez ao país se estende de hoje até sexta-feira” é o título) dava conta da permanência do venezuelano no brasil: entre amanhã e sexta-feira. um “(ov)” ao final indica que o texto do box é também do autor da matéria.

um subtítulo diz o seguinte: “‘cala-boca’ do rei em chávez ficou na história“. seguem-se 14 parágrafos sem tocar no assunto em questão (o ‘cala-boca’). o último parágrafo arremata (transcrevo o que viviani escreveu e assinou, novamente com as iniciais entre parênteses): “polêmico, em suas aparições públicas, hugo chávez virou personagem do ano passado, quando recebeu um constrangedor “por qué no te callas?” do rei espanhol juan carlos, durante um encontro de líderes no chile“.

por si só, reside aí um absurdo: os citados 14 parágrafos, que não fazem nenhuma menção ao ‘cala-boca’, não justifica(ria)m o subtítulo. traça-se ali um resumo de biografia do presidente venezuelano. o outro absurdo, mais grave, é que, fora o parágrafo final (0 15º.), todo o texto pós-subtítulo, com erro e tudo (“releito” em vez de “reeleito”, por exemplo) foi “chupado” daqui.

esqueci de dar antes

mas dou agora: letícia cardoso é a mais nova mestre da ilha.

explico: semana passada, a amiga gisele brasil avisou-me da defesa de o teatro do poder: cultura e política no maranhão, dissertação de mestrado da primeira, que rolou hoje. avisei a sweety lady: deixa chegar mais perto para eu dar um toque na galera.

resultado, engraçado: quarta-feira passada, à noite, véspera de feriado, topei sem querer com letícia, através de amigos comuns. bebemos juntos na feira da praia grande e eu acabei por descobrir que o violonista português victor castro, professor da escola de música lilah lisboa, é o marido dela.

aquela miniatura de farra pareceu comemorar antecipadamente o resultado de hoje: letícia cardoso teve sua dissertação aprovada no mestrado em ciências sociais da universidade federal do maranhão. e este blogue, se não deu antes, dá agora os merecidos parabéns a ela.

intercontinental! quem diria! era só o que faltava!!!

recorro ao sempre mestre e gênio itamar assumpção para batizar este post. um texto meu atravessou o oceano. é…

conheci daniel cariello pessoalmente há uns anos, no rio de janeiro. apesar do contato pouco, trocávamos e-mails com certa freqüência. ele, atualmente morando em paris, edita uma revista chamada brazuca (cuja versão impressa é distribuída gratuitamente na frança) e convidou-me a participar da edição de março, especial turismo.

a idéia: uma rota de 10 mil quilômetros, de foz do iguaçu a manaus, passando por são luís do maranhão e outras cidades brasileiras.

a carga de trabalho e atribuições mil quase me deixam de fora: era dia de mandar o texto e eu queria/precisava de mais prazo. “mas não deixe de fazer, pois não temos plano b”, cariello me escreveu, meio preocupado. terminado este novo prazo, nada de texto pronto. ganhei mais 48h e um pouco de aporrinhação para a cabeça do editor depois, consegui.

e as fotos? aos 47 do segundo tempo a queridamiga micaela socorreu-me, mandando fotos feitas por ela e pelo marido, que ficaram uma beleza, ilustrando meu texto em francês (dado o tamanho, a edição de março da brazuca não é bilíngüe).

meu texto foi cortado, resumido. sem problemas. abaixo a versão original de “contradictions insulaires“, que mandei para a revista. como ficou, você vê no site da brazuca, onde é possível também baixar a versão pdf da revista.

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contradições ilhéus

por zema ribeiro [1]

“sobre os jardins da cidade/ urino pus. me extravio/ na rua da estrela, escorrego/ no beco do precipício./ me lavo no ribeirão./ mijo na fonte do bispo./ na rua do sol me cego,/ na rua da paz me revolto/ na do comércio me nego/ mas na das hortas floresço;/ na dos prazeres soluço/ na da palma me conheço/ na do alecrim me perfumo/ na da saúde adoeço/ na do desterro me encontro/ na da alegria me perco/ na rua do carmo berro/ na rua direita erro/ e na da aurora adormeço” [2]

como no poema de ferreira gullar, um de seus filhos ilustres, são luís do maranhão é uma cidade cheia de contradições. uma cidade que traz em si uma necessidade de reinvenção constante, principalmente por parte de seus filhos que conhecem “o estrangeiro”. caso de celso borges, em são paulo há 19 anos: “a são luís que eu deixei, não existe mais. eu pude inventar outra cidade, vivê-la de outra forma, de longe. redescobri muita coisa, nova poeticamente, da cidade nesses anos. sua geografia, a percepção da claridade, a beleza física, o vento, a chuva.” [3]


[o esvoaçar das saias das coreiras. foto: micaela neiva moreira]

outrora atenas brasileira, apelidos como ilha rebelde, ilha do amor e jamaica brasileira – há controvérsias – re-batizam a são luís do bumba-meu-boi e do tambor de crioula, manifestação cultural que ano passado foi tombada como patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo instituto do patrimônio histórico e artístico nacional (iphan), e este ano estampará mais de 2 milhões de selos da empresa brasileira de correios e telégrafos. prestes a completar 400 anos, o debate que ora se descortina gira em torno da questão: são luís do maranhão: jamaica, atenas ou apenas brasileira?


[vista aérea da feira da praia grande. foto: gabriel jauregui]

multicolorida, são luís é terra de várias tribos: dos clubes de reggae ao clube do choro, da fauna de a vida é uma festa! aos “hippies de boutique” que passeiam em shoppings climatizados e nunca perceberam a delícia de um peixe frito ou um assado de panela na feira da praia grande. de bêbados varando madrugadas na praça joão lisboa, a mesma da igreja do carmo, cuja ponteira [4] sérgio habibe viu de longe, enquanto se afastava de barco, quiçá rumo à alcântara. da confusão do estacionamento do largo de são joão, onde josias sobrinho rasgou a calça do liceu maranhense ao driblar o bonde – ou despistar o trocador, dá no mesmo – e cair ralando o joelho numa parede [5]. da igreja do desterro onde chico maranhão gravou seu antológico lances de agora [6], profano e sacro em mesmo altar.

a ilha contraditória, que insiste, burra, em repetir à exaustão a pobreza de versos de forrós de plástico vindos de outros cantos, abriga ainda o bar do léo, reduto dos amantes de boa música. mecânica, que “não fazemos música ao vivo” e “é proibido dançar” são placas visíveis no emaranhado [7] de fotografias, objetos antigos e discos, muitos discos, que enfeitam aquele pedaço do hortomercado do vinhais. não é para menos: é invejável o acervo de leonildo peixoto, o léo do bar, para os íntimos.

pão maligno com miolo de rosas [8], a bela-feia são luís merece todo nosso amor-ódio. caminhar como um damião [9], por sobre paralelepípedos, ao lado de azulejos, cumprimentando-lhes, como quem chora-ri por nada. ser confundido com um louco, e do alto de sua lucidez, declamar versos como os de cesar teixeira, também tradutores de toda esta contradição: “as ladeiras sobem/ e descem/ como estreitas línguas/ de répteis/ engolindo bêbados/ e prostitutas/ na noite de luto/ sem lua.// sob os telhados/ de escamas/ as ladeiras se arrastam/ há séculos/ enxugando o suor/ da história/ como se menstruassem/ pedras.// embaixo/ o vômito das estrelas,/ em cima/ o cocô do bispo,/ mas tudo/ as ladeiras ponderam./ de manhã/ cospem pivetes.// descansam/ no largo do desterro/ e de joelhos/ entram na igreja,/ afinal,/ não é fácil ser ladeira/ sem pecar/ ao mesmo tempo.” [10]

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box (dicas)

bar e restaurante chico canhoto – consagrado como o mais novo espaço cultural da cidade, tem realizado, sempre aos sábados, animadas rodas com chorões da jovem e velha guardas da música instrumental maranhense, além de promover intercâmbios musicais com estados vizinhos. lá, também, é servida a melhor picanha da ilha. no residencial são domingos (cohama).

igreja do desterro – com uma torre só, a mais antiga igreja edificada em são luís. seu largo já serviu de palco para diversos projetos de música e teatro, a exemplo do hoje adormecido serenata dos amores. o desterro é um dos três bairros que compõem o centro histórico de são luís, entre praia grande e portinho.

a vida é uma festa! – idealizado pelo poeta zémaria medeiros, o movimento musical semanal acontece ininterruptamente desde maio de 2002, sempre às quintas-feiras. atualmente é realizado na cia. circense de teatro de bonecos (praia grande), depois de ter sido sediado no saudoso bar de seu adalberto. congrega uma fauna exótica e irreverente de poetas, músicos, atores, malabares, mímicos, dançarinos e outros. gratuito.

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notas

[1] zema ribeiro escreve no blogue http://zemaribeiro.blogspot.com. colabora também com o overmundo e cronópios, além de diversos jornais ludovicenses.
[2] gullar, ferreira. poema sujo. in: toda poesia. são paulo: civilização basileira, 1980.
[3] ribeiro, zema. entrevista. celso borges em vários mo(vi)mentos.
[4] a música “ponteira”, de sérgio habibe, traz versos como “vou ver de longe a ponteira/ da igreja do carmo”.
[5] depoimento do compositor josias sobrinho a zema ribeiro.
[6] o disco foi gravado na sacristia da igreja do desterro, em junho de 1978, por marcos pereira, que também registrou outros importantes nomes da música brasileira, a exemplo de cartola, canhoto da paraíba e arthur moreira lima.
[7] “emaranhado” é o título do mais recente disco de chico saldanha (2007).
[8] “pão maligno com miolo de rosas” é o título do penúltimo livro do poeta ludovicense nauro machado (2006).
[9] protagonista de “os tambores de são luís”, o clássico absoluto de josué montello; em mais de 400 páginas, damião percorre parte de são luís, a pé, em uma noite/madrugada para ver o nascimento do trineto.
[10] teixeira, cesar. patrimônio cultural profano. in: clesi. poesia de bolso. circuito de literatura. ipatinga (mg): clube de escritores de ipatinga, v. 2, 2003. disponível em http://www.guesaerrante.com.br/2005/11/29/Pagina133.htm

esse cabra é foda!

assim se referiu a bruno torturra nogueira, certa vez, xico sá, em bate-papo via msn com este que vos perturba em pleno sábado de aleluia.

eu repito: esse cabra é foda! há tempos sem visitar fudeus (as postagens não eram mais tão freqüentes e eu passava adiante), dei uma espiadinha hoje, e descubro que btn tá de blogue novo, via trip, deporter (link já trocado ao lado), inaugurado diretamente da suíça, onde o moço está em busca de entrevistar albert hoffman, “descobridor” do lsd, hoje com 102 anos.

vai rolar um fórum mundial de psicodelia e mais não digo e mais você descobre .

gracinha

uso o jargão de hebe camargo para batizar este post, simplesmente por preferir acreditar que não passa de gracinha a ação movida por jornalistas da revista (?) veja contra luis nassif. seria cômico se não fosse trágico, meus caros.

“série de nassif é campanha criminosa”, diz defesa de jornalistas da veja. carla soares martin escreve no portal comunique-se sobre o caso. pergunto: não é crime, por vezes (quase sempre?), o jornalismo (?) praticado pela revista (?) veja?

trecho das ações diz que “o jornalista, no seu sacerdócio, deve ser sereno como um juiz, honesto como um confessor, verdadeiro como um justo”; não que haja aí alguma mentira, mas a veja usar um texto desses contra nassif é, no mínimo, contradição. a defesa dos jornalistas (?) acusa ainda nassif de exercer “abuso no exercício da liberdade de informar”. que diabé isso?

saiba mais sobre o caso clicando nos links espalhados ao longo do post.

perguntar não ofende

tucanos lançam jornal em imperatriz. título de nota publicada dia 17/3 no blogue de marcos franco leva-me a perguntar: quantos embrulha-peixes surgirão em são luís até outubro? desses, quantos durarão além-campanha, somando-se ao já grande número de impressos ilhéus?

oração para uma segunda-feira santa

a semana santa começou. com são pedro mandando água. ele, responsável por minha não-ida ao canhoto, sábado. ‘tava arrumado, pronto para sair, água desabou. literalmente. segunda-feira santa, mais chuva. e o povo rezando para não ter expediente na quinta. e minha memória estranha (ou a falta dela) sem lembrar como foi ano passado, como são todos os anos. mais que nunca, vale a máxima: em feriado de santo, até ateu comemora. ossos doendo, preguiça e cansaço se somando, numa matemática maluca, de resultado inesperado. eu me lembro de itamar assumpção, cantando com tom zé, “é tanta água despencando lá do céu, meu deus do céu, meu deus do céu, o que é que ‘tá acontecendo?, é são pedro que ficou pinel, com raiva de são paulo? é primavera, só que só fica chovendo”. chove em são luís, no maranhão. o dia começa triste. meu inferno particular. um telefonema matutino, só pra desejar bom dia, se não tem o poder de fazer parar de chover, pra eu não molhar meu chinelo e a barra da calça, me põe um sorriso no rosto e, de repente, já estou no paraíso, que para ficar completo, me lembro de rita lee: “agora só falta você”.

angelicalanche


[reprodução capa]

“salta um rilke shake/ com amor & ovomaltine/ […]/ eu peço um rilke shake/ e como um toasted blake”, pediu ele à garçonete, no misto de lanchonete e livraria. depois que farmácias começaram a vender coca-cola, e isso não era tão recente, o comércio de modo geral havia começado a inovar. ali mesmo, naquele salão onde entrou há pouco, era possível ver um velhinho segurando um ás de colete, prestes a anunciar sua vitória em mais uma rodada de um jogo de baralho (literário), sem cartas marcadas. isso mesmo: lanchonete, livraria e salão de jogos. já era o tempo em que “os velhos jogavam damas na praça, professores de tudo que é dor” [léo jaime].

o jovem começou, enquanto encarava seu lanche: “dentadura perfeita, ouve-me bem:/ não chegarás a lugar algum./ são tomates e cebolas que nos sustentam,/ e ervilhas e cenouras, dentadura perfeita./ ah, sim, shakespeare é muito bom,/ mas e beterrabas, chicória e agrião?/ e arroz, couve e feijão?/ dentinhos lindos, o boi que comes/ ontem pastava no campo. e te queixaste/ que a carne estava dura demais./ dura demais é a vida, dentadura perfeita./ mas come, come tudo que puderes,/ e esquece este papo,/ e me enfia os talheres”.

enquanto fartava-se com seu lanche (refeição?) naquela manhã de ressaca e fome conseqüente, corria os olhos por lombadas e deparou-se com um anúncio fixado em uma das paredes: “família vende tudo/ um avô com muito uso/ um limoeiro/ um cachorro cego de um olho/ família vende tudo/ por bem pouco dinheiro/ um sofá de três lugares/ três molduras circulares/ família vende tudo/ um pai engravatado/ depois desempregado/ e uma mãe cada vez mais gorda/ do seu lado/ família vende tudo/ um número de telefone/ tantas vezes cortado/ um carrinho de supermercado/ família vende tudo/ uma empregada batista/ uma prima surrealista/ uma ascendência italiana & golpista/ família vende tudo/ trinta carcaças de peru (do natal)/ e a fitinha que amarraram no pé do júnior/ no hospital/ família vende tudo/ as crianças se formaram/ o pai faliu/ deve grana para o banco do brasil/ vai ser uma grande desova/ a casa era do avô/ mas o avô tá com o pé na cova/ família vende tudo/ então já viu/ no fim dá quinhentos contos/ pra cada um/ o júnior vai reformar a piscina/ o pai vai abrir um negócio escuso/ e pagar a vila alpina/ pro seu pai com muito uso/ família vende tudo/ preços abaixo do mercado”.

anotou o site da editora contido no anúncio – http://www.cosacnaify.com.br/ – e mandou buscar o livro da angélica freitas, lançado há um ano (março, 2007), para comemorar o dia da poesia, ontem (14).

*

este não é um post autobiográfico. os itálicos acima são (trechos de) poemas de rilke shake, estréia em livro da poeta gaúcha.

você é um “cu-de-boi”?


[reprodução pôster]

Guiado pelas lembranças de quando era criança e o pai levou-lhe ao cinema para ver um filme de Mazzaropi, Quinzinho (Mateus Nachtergaele) deseja fazer o mesmo com Neco (Vinícius Miranda), seu filho. Assim, sai da casa tranqüila, do cotidiano pacato da roça onde mora, no interior de Minas Gerais, acompanhado de sua mulher, Zulmira (Gorete Milagres), a quem ele carinhosamente chama de Zuri, e do burro Policarpo. Enfrentam uma verdadeira aventura, como peregrinos devotados em romaria: chuva, comida por quilo, gozações de vendedores e o completo desprezo de donos de cinema, que pouco se lixam para os desejos de Quinzinho. Ou que pouco se importam com a qualidade daquilo que exibem em suas salas, enxergando apenas cifras. Ficção? Não.

“O cinema virou igreja evangélica. Não dava lucro, vivia vazio. A igreja só vive cheia, o povo paga para entrar”, afirma um personagem – fictício? –, enquanto Quinzinho avança rumo a mais uma “cidade grande” procurando realizar o sonho de mostrar Mazzaropi ao menino.

São fortes cenas como a execução de Mané Charreteiro num acampamento do MST – ficção? – e o reencontro de Quinzinho e Neco, após um desencontro provocado pela truculência de policiais no citado acampamento. “Tapete Vermelho[Comédia, 100 minutos, Brasil, 2006. Direção: Luiz Alberto Pereira], o filme, é belo e engraçado – mas não engraçadinho – o tempo todo. Nachtergaele em mais um show de interpretação apropria-se dos trejeitos do ídolo, seja para cantar [Renato Teixeira assina a música do filme], seja no andar, mas não faz de si mera caricatura ou cópia de Mazzaropi. Saga de fã em busca de ídolo pouco provável de ser vista hoje em dia, tempos de cada vez mais efemeridade nas “artes”, o próprio filme indo na contramão disso.

Quem ainda não viu, é um “cu-de-boi”, apenas para citar um xingamento que aprendi vendo Quinzinho bradar contra aqueles que não queriam ver seu sonho realizado.

você é um "cu-de-boi"?


[reprodução pôster]

Guiado pelas lembranças de quando era criança e o pai levou-lhe ao cinema para ver um filme de Mazzaropi, Quinzinho (Mateus Nachtergaele) deseja fazer o mesmo com Neco (Vinícius Miranda), seu filho. Assim, sai da casa tranqüila, do cotidiano pacato da roça onde mora, no interior de Minas Gerais, acompanhado de sua mulher, Zulmira (Gorete Milagres), a quem ele carinhosamente chama de Zuri, e do burro Policarpo. Enfrentam uma verdadeira aventura, como peregrinos devotados em romaria: chuva, comida por quilo, gozações de vendedores e o completo desprezo de donos de cinema, que pouco se lixam para os desejos de Quinzinho. Ou que pouco se importam com a qualidade daquilo que exibem em suas salas, enxergando apenas cifras. Ficção? Não.

“O cinema virou igreja evangélica. Não dava lucro, vivia vazio. A igreja só vive cheia, o povo paga para entrar”, afirma um personagem – fictício? –, enquanto Quinzinho avança rumo a mais uma “cidade grande” procurando realizar o sonho de mostrar Mazzaropi ao menino.

São fortes cenas como a execução de Mané Charreteiro num acampamento do MST – ficção? – e o reencontro de Quinzinho e Neco, após um desencontro provocado pela truculência de policiais no citado acampamento. “Tapete Vermelho[Comédia, 100 minutos, Brasil, 2006. Direção: Luiz Alberto Pereira], o filme, é belo e engraçado – mas não engraçadinho – o tempo todo. Nachtergaele em mais um show de interpretação apropria-se dos trejeitos do ídolo, seja para cantar [Renato Teixeira assina a música do filme], seja no andar, mas não faz de si mera caricatura ou cópia de Mazzaropi. Saga de fã em busca de ídolo pouco provável de ser vista hoje em dia, tempos de cada vez mais efemeridade nas “artes”, o próprio filme indo na contramão disso.

Quem ainda não viu, é um “cu-de-boi”, apenas para citar um xingamento que aprendi vendo Quinzinho bradar contra aqueles que não queriam ver seu sonho realizado.