o bigode mais famoso do maranhão

(ou: grode é no bigode!)

alguns amigos têm reclamado que eu divulgo as coisas e não apareço. têm, vez em quando, razão. então, neste sábado, tem a segunda edição da banda do bigode (eu vou!), no bar do bigode e maiores informações no panfleto aí embaixo.

sarney e a maranhensidade

“maranhensidade”. assim – sem as aspas – o imortal josé sarney intitula seu artigo dominical em seu jornal, o estado do maranhão.

confesso nunca ter lido obra nenhuma de sarney e pelo que sempre ouço falar, creio não dever perder tempo. tanta coisa para ler, a vida é curta, meus caros. confesso também não ser leitor costumeiro de seus artigos, seja no jornal maranhense, seja na folha de são paulo. a propósito: o mesmo artigo publicado em um é reproduzido no outro?

seu texto de domingo (27.jan.2008) é repetitivo e, portanto, cansativo. cita figuras do naipe de gilberto freyre – é com “y”, viu, seu sarney? –, pe. antonio vieira e simão estácio da silveira, o que não o livra dos adjetivos que ora lhe dou.

“maranhensidade”, o texto de sarney, é a amplificação do eco do coro de descontentes provincianos. notem: os que levantam a voz (ou a pena) para discordar da maranhensidade – no fundo, também um jeito novo de gerir a cultura, e mais, suas verbas – são os que já não têm as mesmas facilidades de outrora, quando a cultura era enxergada tão somente como departamento de marketing de sucessivas administrações e artistas não passavam de bobos da corte, apenas animando bailes palacianos e micaretas sistêmicas, cujos únicos critérios eram o coleguismo, o clientelismo e o apadrinhamento político.

não entrarei no mérito da questão, nem elencarei feitos de pouco mais de ano da atual gestão da secretaria de estado da cultura do maranhão, encabeçada pelo digníssimo secretário joãozinho ribeiro. poderia até mesmo resumir o fato, com a seguinte sentença: se “maranhensidade” incomoda tanto sarney e seus asseclas, deve ser coisa que preste.

ou então o homem perdeu as estribeiras ao descobrir que já não é mais o bigode mais famoso do maranhão: o sucesso da banda do bigode (encontro de amigos para um carnaval diferente no bar homônimo, no renascença; sem recursos públicos, acrescente-se) mostrou o contrário.

talvez o bloco da bandida seja melhor que a tal “maranhensidade”. resta saber a que bandida sarney se refere. deve entender muito de “maranhensidade” um homem que se elegeu senador pelo amapá.

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o artigo de sarney pode ser lido a partir deste link (acesso exclusivo para assinantes do jornal o estado do maranhão).

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a imagem que ilustra este post, eu peguei aqui.

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sábado tem mais banda do bigode. a gente avisa por aqui.

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sobre o assunto, confira também os textos “maranhensidade e bandalheira” (editorial, pág. 2) e “rabugento” (informe jp, pág. 3), na edição de hoje do jornal pequeno (acesso livre, sem senha e/ou assinatura)

o incêndio vespertino nas piscinas dos subúrbios

quando lecionava escrita criativa na iowa university, john cheever propunha três exercícios a seus alunos:

1] a escritura de um diário por ao menos uma semana, um diário onde aparecesse tudo: sentimentos, sonhos, orgasmos, todo tipo de sensações, desde as mais íntimas até a descrição da cor de garrafas vazias ou prestes a serem entornadas;

2] o segundo passo consistia na composição dum conto onde sete personagens ou paisagens que aparentemente não tivessem nada a ver surgissem inevitável e profundamente relacionados entre si;

3] o terceiro passo — e esta era a sua lição favorita — era redigir uma carta de amor como se estivesse escrevendo num edifício em chamas — “um exercício que nunca falha”, dizia.

e cheever falou mais ainda, num depoimento à newsweek: “um conto ou um relato é aquilo que se conta a si mesmo na sala do dentista, enquanto se espera que lhe arranquem um molar. o conto curto tem na vida, me parece, uma grande função. é também num sentido muito especial um bálsamo eficaz para a dor: no teleférico até a pista de esqui que fica preso na metade do caminho, no bote que se parte, diante do doutor que observa fixo suas radiografias… passamos o tempo esperando uma contra-ordem para a nossa morte e quando não tempos tempo suficiente para um romance, bem, aí está o conto curto. estou muito certo de que, no momento exato da morte, uma pessoa conta para si mesmo um conto e não um romance”.

nesse ensaio (que coincidiu com a publicação de seus contos reunidos), john cheever aguçou a forma com que compreendia a narrativa curta: “quem lê contos?, alguém se perguntaria, e gosto de pensar que são homens e mulheres em salas de espera quem os lêem; os lêem nas viagens aéreas intercontinentais, em vez de assistir filmes banais e vulgares para matar o tempo; os lêem homens e mulheres sagazes e bem informados que parecem sentir que a ficção narrativa bem pode contribuir para a nossa compreensão de uns e outros e, algumas vezes, do confuso mundo que nos rodeia. o romance, em toda sua grandeza, exige, ao menos, algum conhecimento das unidades clássicas, que preservam esse laço misterioso entre a estética e a moral; porém que esta novidade inexorável exclua a novidade em nossas formas de vida seria lamentável. alguns conhecemos esta novidade através de a guerra das galáxias, outros através da melancolia seguinte ao erro cometido por um jogador que não rebate sua última chance num jogo de beisebol. na busca da novidade, a pintura contemporânea parece haver perdido a linguagem da paisagem e — muito mais importante — do nu. a música moderna se separou daqueles ritmos mais profundamente enraizados em nossa memória, porém a literatura ainda possui a narrativa — o conto — e defenderia isto com a própria vida. nos contos de meus estimados colegas — e alguns dos meus — encontro essas casas de verão alugadas, esses amores de uma noite apenas, e esses laços extraviados que desconcertam a estética tradicional. não somos mais nômades, porém — sem dúvida — isto subsiste mais que uma insinuação no espírito de nosso grande país, e o conto é a literatura do nômade”.

[retirado de “why i write short stories”, john cheever]

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este post, já com alguma idade, esteve algum dia no blogue de joca reiners terron, fechado desde o ano passado. encontrei-o, impresso, da última vez em que “arrumei” o quarto (junto do poema do m. m., postado aí por baixo). das coisas que merecem ser pregadas na porta da geladeira, assim como o “metafísica e hambúrgueres“, que eu vacilei e não imprimi antes dele fechar o blogue.

bloco de notas

hoje, às 16h, meu amigo paulo stocker participa de um bate-papo no uol. pauta: o aniversário da são paulo (em) que ele desenha. detalhes aqui.

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reuben na cult de janeiro. leia “caligrafia do corpo” aqui.

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e por falar em agrippino, peço desculpas a quem importunei nos últimos dias com a pergunta “meu panamérica ‘tá contigo?”. já o encontrei. obrigado!

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um bate-papo entre bruna beber e ronaldo bressane (duas figuras de que gosto muito), postado no blogue do segundo, despertou-me a curiosidade e, satisfeita esta, o interesse por mallu magalhães. por msn, recomendei a guria (tem apenas 15 anos, mas canta muito, viu?) a gisele brasil, o que gerou frases como “que voz fofaaaaaaaaaaa”, “ela é de onde?”, “poxa.. ela não disponibiza os downloads lá”, “mas tô ouvindo a mallu e ela acalma” etc., etc., etc. quê que cê ‘tá esperando que ainda não clicou no nome da menina para ouvir?

a(s) letra(s) do(s) samba(s)

semana passada, quinta e sexta-feira, o jornalista cunha santos publicou, no jornal pequeno, a letra do samba do bloco pau-brasil, “matar um homem não é calar a sua voz“, que versa sobre o assassinato do poeta gerô, a completar um ano em março que vem. gigi moreira, jeovah frança, josias sobrinho, ribão, wilson bozó e este blogueiro que vos aporrinha assinam a letra, que traz versos como “seu polícia, eu sou gerô, o cidadão que você matou“. a música é de gigi moreira e wilson bozó. antes, cunha santos apresenta também a letra do bloco la bohemios de fátima, que segundo ele, em conversa que tivemos ontem antes de descer até o aniversário de marlementa, é o bloco no qual irá desfilar este ano. leia as letras e considerações do autor de “pesadelo” no jornal pequeno.

jornalismo policial com classe

2008 mal começou (vejam bem: mal começar não significa começar mal, certo?) e este blogueiro já quase encheu seu saco de tanto bater na mediocridade do jornalismo local (vide alguns posts abaixo). “passar sabão em cara de cavalo”, diria a sabedoria popular.

o circo de horrores de péssimo gosto inclui foto colorida e grande de gente mergulhada em poça de sangue, mulher sentada com faca cravada no peito, “história em quadrinho” sem graça nenhuma e, mais recentemente, corpo de tatuador assassinado sendo “periciado” por transeuntes. isso, só para citar alguns exemplos. e, claro, tudo em primeira página.

ontem, assistindo a um telejornal na tv brasil, gostei muito da dinâmica de preservação dos vários brasis, observada num quesito aparentemente bastante simples: a diversidade de sotaques dos repórteres fazendo matérias. o padrão bobo de jornalismo (trocadilho infame) “engarrafaria” tudo apenas na voz de alguém do eixo rio-são paulo e ponto.

no mesmo telejornal, vi a notícia de um homem que estava em liberdade condicional e, após lanchar (ou almoçar ou jantar, não lembro), pulou o balcão e fez um caixa (ou garçon ou cozinheiro) de refém (lembro aqui de memória e, se falho, perdão). a polícia chegou e tentou negociar e, não demorou muito, o homem de revólver em punho liberou o funcionário da lanchonete (ou restaurante ou lembro lá o quê). resumo da ópera sinistra: levantou a camisa e deu um tiro no próprio peito. levado às pressas para um hospital numa ambulância, não resistiu e morreu.

pergunto-me, se isso fosse no maranhão, como teria “reagido” a imprensa local. e leio a “cobertura” de jotabê medeiros em seu blogue. jornalistas (fazendo jornalismo policial ou não) têm muito o que aprender com este moço.

(sons e poemas) para um dia de domingo

é domingo. entre o acordar (ainda a tempo de ouvir “chorinhos e chorões” completo) e o ir à missa (às 18h, em são pantaleão), passo o dia a vasculhar uma parte de minha (desorganizada) estante, buscando uns documentos e organizando alguns textos xerocados ao longo do curso de comunicação social (jornalismo): serão encadernados para (alg)uma (possível) revisão durante a elaboração da monografia.

perdidos eu não diria, mas no meio da bagunça, encontrei uns poemas inéditos do marcelo montenegro, que ele me enviou junto do orfanato portátil (autografado), tempos atrás.

posto aqui (“agora mesmo algum maluco / deve estar postando qualquer treco / genial na internet“), um dos poemas, ao qual não acrescerei nenhum adjetivo, pois qualquer elogio (“genial”, por exemplo) torna-se redundância em se tratando da obra do homem.

@

velhas variações sobre a produção contemporânea

marcelo montenegro (, inédito)

agora mesmo algum maluco
deve estar postando qualquer treco
genial na internet,
alguém deve estar pensando
em como melhorar aquele
texto enquanto lota o especial
de vinagrete, perseguindo
obstinadamente um acorde
voltando da padaria.

agora mesmo alguém
pode estar pensando
que guardamos só pra gente
o lado ruim das coisas lindas —
assim, trancafiado a sete chaves
de carinho — alguém
pode estar sentindo tudo ao mesmo tempo
sozinho, assim brutalmente
sentimental, feito coubesse
toda a dignidade humana
num abraço tímido.

agora mesmo alguém deve estar limpando
cuidadosamente o cd com a camisa,
pulando a ponta do pão pullman,
sentindo o baque da privada gelada,
perguntando quanto está o metro
daquela corda de nylon, trepando
no carro, empurrando o filho
no balanço com uma mão
e na outra equilibrando
a lata e o cigarro, agora mesmo
alguém deve estar voltando,
alguém deve estar indo,
alguém deve estar gritando feito um louco
para um outro alguém
que não deve estar ouvindo.

agora mesmo alguém
pode estar encontrando
sem querer o que há muito
já nem era procurado, alguém que no quinto sono
deve estar virando para o outro lado,
alguém, agora mesmo, no café da manhã
deve estar pensando em outras coisas
enquanto a vista displicentemente lê
os ingredientes do toddy.

@

após o dia entre a poeira, velhos textos, avaliações, o caralho a quatro e a catorze, sons, deixo-os com este poema.

sons: trio madeira brasil, luiz tatit, yamandu costa, arnaldo antunes, rubi, elizeth cardoso, jacob do bandolim etc., etc., etc.

felicidade

ando a pé e apesar das chuvas que agora caem sobre meu corpo (ainda não gastei meu orçamento anual destinado à compra de guarda-chuvas) e de alguns motoristas ******* (coloque aí o palavrão que você julgar melhor), tenho me sentido bem feliz. o bolso ainda sem grana, mil coisas por fazer, por resolver, pendências, cobranças, trabalhos e trabalhos. e eu feliz, sem reclamar. fico feliz com a felicidade dos outros, que no fundo, é a minha também: graziela aprovada para o mestrado, laura e luís (casal de amigos de quem fomos padrinhos de casamento) de volta à ilha, as amigas milena reis e kamila mesquita defendendo suas monografias e obtendo excelentes notas para obtenção do grau de bacharel e blá blá blá; também o samir aranha, que eu não conheço pessoalmente mas, tal qual este que vos perturba com umas linhas sobre seu próprio estado de felicidade atual, teve colombo como orientador; paula brito, a estagiária-chefinha, já com a dela pronta (defenderá em março); moara, irmã, correndo com os últimos detalhes e trocando e-mails e telefonemas vez em quando para tirar uma ou outra dúvida (às vezes consigo ajudar, às vezes, deixo-a ainda mais confusa, risos, “é apêndice ou anexo?”), defenderá em breve também. eu já fazendo algumas leituras para começar a escrever a minha (depois do carnaval, dessa vez é pra valer!). de uma forma ou de outra, uns mais outros menos, acompanhei (e acompanho e continuarei) as trajetórias de cada um, de cada uma, e sei que são merecedores, cada qual à sua maneira, dos ótimos resultados obtidos. e 2008 apenas começou. ainda teremos muito o que comemorar. felicidade, no fundo, é ter amigos que nos façam felizes. e, claro, ter alguém para amar.

duas segundas-feiras

Maranhensidade: um estado de alegria

por Joãozinho Ribeiro

Neste primeiro contato do ano com os leitores desta coluna, aproveito para fazer uma oportuna e respeitosa retificação de autoria, e atribuir os créditos do irretocável artigo da semana anterior (07/01), intitulado “Nossa Singela Homenagem aos Serelepes”, ao camarada da vida & da arte – ZEMA RIBEIRO. Pois, em virtude de momentânea ausência da Ilha, não tive meios materiais para elaborar a respectiva redação e solicitei a valiosa colaboração do parceiro, no que fui prontamente atendido.

Feitos os devidos reparos e reconhecimentos dos direitos morais, após a realização de um Natal recheado de programações artísticas por todos os cantos da cidade, e de um Reveillon ecumênico e multicultural, 2008 se anuncia como um ano de singulares celebrações de datas altamente significantes para a história do nosso Estado, do País e do Planeta:

– 40 anos do “68” (passeata dos 100 mil, tropicalismo e roda viva, censura e AI-5, barricadas de Paris, Primavera de Praga, protestos contra a Guerra do Vietnam, assassinatos de Luther King e Robert Kennedy, Apollo 8 em órbita da Lua…)

– 50 anos da Bossa-Nova

– 200 anos da vinda da Corte Portuguesa ao Brasil

– 400 anos do nascimento do Padre Antonio Vieira

– 170 anos da revolta da Balaiada

– 100 anos da Academia Maranhense de Letras

Motivos não faltarão para afirmação da nossa maranhensidade e sua conexão com o Brasil e o Mundo. Por falar nisso, sei que esta expressão ainda incomoda muitos ouvidos, principalmente quando se torna alvo de interpretações obtusas, desprovidas do mínimo de observância ao conteúdo dos ensinamentos do professor Milton Santos: “no global está a aparência; no local, a essência”. Ou nos versos do poeta e compositor Josias Sobrinho: “Com o rumo voltado pra dentro e aberto pro mundo todinho!”.

Maranhensidade é carnaval e academia; são joão e literatura; educação e cultura; turismo e tecnologia; intercâmbio e identidade; pertencimento e trocas; tolerância e diversidade; música e magia; conhecimento e universalidades; saberes e fazeres; direitos e liberdade para exercê-los: à livre expressão e manifestação artística, jornalística, do pensamento; enfim, do engenho e arte daquilo que temos de melhor para contribuir com a cultura da paz e com o reencantamento da Humanidade.

Bandeira branca! Para que o Carnaval da Maranhensidade 2008, a exemplo de 2007, seja um “Estado de Alegria”, transbordante de paz e solidariedade entre os empolgados foliões, e também entre aqueles que preferem a tranqüilidade e a meditação dos retiros religiosos e espirituais.

Abram alas! Para que a negritude da nossa maranhensidade possa se espraiar por todos os cantos e cânticos, e revelar a percussividade da a nossa alma criadora e hospitaleira a todos que vierem compartilhar conosco da primeira grande festa popular do ano; e que tudo isso possa também se traduzir em trabalho, tributos, alegria, renda e cumplicidade cultural.

Nas cidades que cultivam estes tradicionais festejos, que a festa seja pública e democrática, sem aproveitamento das circunstâncias para beneficiar as conveniências político-eleitorais de quem quer que seja. Pois este é o principal fundamento do Edital Público do Carnaval da Maranhensidade 2008; forma legal e legítima de celebração de convênios com os Municípios de todo o Estado, visando o repasse de recursos para apoio às suas respectivas programações.

Este ano, com a novidade da introdução de dois requisitos básicos para habilitação dos proponentes para inscrição no Edital:

a) Eleição de uma Comissão Organizadora do Carnaval, por cada município, com um máximo de 12 componentes, escolhidos entre os representantes das agremiações carnavalescas e personalidades da cultura local, devidamente registrada em cartório;

b) Destinação dos recursos repassados pela SECMA, única e exclusivamente, para a contratação de bandas, blocos, brincadeiras e artistas maranhenses.

Além destes requisitos, uma expressa recomendação para a inclusão na programação de segmentos merecedores de especial atenção: crianças, idosos, portadores de deficiência. No detalhamento do Plano de Trabalho, integrante do Formulário de Inscrição, a exigência de uma discriminação minuciosa dos nomes de todas as brincadeiras e artistas contratados e os valores dos seus respectivos cachês.

Com este elenco de medidas, a parceria dos municípios e a fiscalização da sociedade, através das respectivas Comissões Organizadoras do Carnaval (além dos atentos olhares do Ministério Público), tenho certeza que estaremos dando acertados passos para a transformação destas nossas grandes festas populares em momentos propiciadores de geração de trabalho, renda e alegria para a nossa população; ao invés do patrocínio a um dantesco espetáculo de evasão de recursos públicos e o desprezo pela nossa produção cultural, portadora da maior diversidade do Brasil.

Confirmando a tese exposta neste artigo, gostaria de finalizá-lo com uma reflexão do colega e atual Secretário de Cultura do Estado da Bahia, Márcio Meirelles, que em 2007 iniciou uma duríssima campanha para acabar com a hegemonia da “cultura do espetáculo” do carnaval baiano e com a desvalorização da cultura dos municípios:

É uma situação viciada. É complicado mudar a cultura da Cultura. Já existe a cultura de dependência e sabemos que existem blocos que não têm representatividade, que apenas vêm atrás dessa pequena verba, assim como existem outros sérios que trabalham o ano inteiro. Vamos incentivar cada município que tenha carnaval tradicional para que a festa não caia nessa homogeneização”.

P. S.: Registro aqui, com sincera satisfação, as elogiosas palavras do cantor Gargamel (ex-Banda Ilha) aos critérios adotados para a contratação de artistas; mais ainda, por me revelar, em breve conversa no Aeroporto Cunha Machado (dia 10/01), que já se encontra com a agenda para o Carnaval 2008 totalmente preenchida, fato que confirma o acerto da atual política do Governo do Estado do Maranhão. Oxalá, um dia possamos ter depoimentos semelhantes do maior número de segmentos culturais espalhados por todos os municípios do nosso querido Maranhão.

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acima, o texto de joãozinho ribeiro, no jornal pequeno de hoje; abaixo, o texto cujos créditos ele nos dá, publicado em sua coluna de segunda-feira passada, no mesmo jp.

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Nossa singela homenagem aos serelepes

por Zema Ribeiro

Sanfoneiros são alegres
Tocam Mahler, Mozart, Liszt
Wagner, Schubert, Weber e Verdi
Brahms, Strauss, tocam Tchaikovsky

Músicas de faroeste
Tocam sax fazem chiste
Verás casos apliques teste
Sanfoneiros se divertem
Só poetas seguem tristes

Levantam o pó no Nordeste
Desfilam todos os hits
No balet, no baile os foles
Rasgam mambo, blues, maxixes

Dominguinhos manda um rap
Já Sivuca Stravinsky
Oswaldinho vai de rock
O Hermeto de suíte
E a máxima persiste
Sanfoneiros serelepes
Só poetas seguem tristes

A letra acima, de “Sanfoneiros Serelepes”, parceria de Ná Ozzetti com o genial Itamar Assumpção, é nossa singela homenagem ao grande José Nunes de Sousa, o Nunes do Acordeom, que subiu para tocar no forró de Januário, Luiz Gonzaga, Sivuca e tantos outros mestres.

Certeira a letra, a ida do sanfoneiro desta para outra, deixa triste este poeta e, certamente, todos aqueles que lhe conheceram. Mas seguimos.

Ná e Itamar já citam um lote de gênios na composição, aos quais juntamos uns poucos outros neste texto feito de tinta e lágrimas, cometido com a dor da surpresa desagradável para um começo de ano que queremos melhor do que o passado.

Preferíamos que a notícia de um acidente de trânsito na última página do Jornal Pequeno dominical fosse uma ficção de Valêncio Xavier – que fez de crimes e de suas respectivas coberturas jornalísticas, literatura da melhor qualidade.

Antes, um pesadelo, do qual acordaríamos a qualquer hora, que a realidade nua e crua a nos esbofetear: conduzindo sua Kombi, retornando de sua Pirapemas natal à São Luís que o acolheu, Nunes do Acordeom, por volta do meio-dia de sábado, foi ver “Lua”.

Sua querida figura era facilmente vista em debates culturais diversos – seminários, fóruns, conferências etc. Foi Nunes do Acordeom um dos que levou o poeta-músico Zé Maria Medeiros a iniciar o hoje mais que consolidado movimento cultural conhecido de todos nós batizado “A vida é uma festa!”.

“Zé, por que não te apresentas?”, foi a pergunta-intimação do sanfoneiro que, reza a lenda, serviu de pontapé inicial para a festança semanal que caminha, em 2008, para seis anos de existência ininterrupta, sempre às quintas-feiras, na Praia Grande.

Por tudo isso, e apesar do vasto leque de assuntos que temos por tratar – sempre, presto esta, como já disse, singela homenagem a Nunes do Acordeom, que certamente merece muito mais.

Hora dessas, depois de saudar e tocar com velhos e grandes mestres, Nunes do Acordeom empunha sua sanfona e manda ver um belo “Parabéns a você” para o parceiro Gerô, certamente acompanhado por um coro angelical. Estivesse por aqui, nosso querido “língua-afiada” teria completado mais um ano de vida, ontem. A ele, também, nossas sinceras e singelas homenagens.

mestre


[não, este não é o marcelo montenegro. é o mário quintana em foto “pescada” do orfanato portátil, o blogue]

buquê de presságios

de tudo, talvez, permaneça
o que significa. o que
não interessa. de tudo,
quem sabe, fique aquilo
que passa. um gerânio
de aflição. um gosto
de obturação na boca.
você de cabelo molhado
saindo do banho.
uma piada. um provérbio.
um buquê de presságios.
sons de gotas na torneira da pia.
tranqueiras líricas
na velha caixa de sapato.
de tudo, talvez, restem
bêbadas anotações
no guardanapo.
e aquela música linda
que nunca toca no rádio.

marcelo montenegro (in orfanato portátil)

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desde outubro do ano passado, quando re-estreou (para o chato aqui, uma estréia) na blogosfera, fiquei de re-visitar o (livro) orfanato portátil de marcelo montenegro (que autografou meu exemplar) e escrever algo sobre, recomendando, além do blogue, a leitura do livro, hoje raro. sorte a de vocês e, dentre vocês, sorte a de quem se interessar (corram, pois vale muitíssimo a pena): bactéria comprou 20 exemplares do livro e está re-vendendo. já comprei no sebo do moço e garanto o bom estado de conservação do material, além da atenção toda especial que ele dá aos clientes, por e-mail, msn e/ou telefone, a gosto do freguês.

marcelo montenegro tem sido ótima companhia quase diária. ótimo para a mente, o espírito e o coração. péssimo para o bolso, mas não reclamo: hoje, via estante virtual, comprei o “da preguiça como método de trabalho”, após ler isso aqui.

abre parênteses: o título e a imagem deste post foram surrupiados do de hoje do blogue do mestre, termo que lá faz referência ao simpático velhinho da foto, o grande mario quintana; termo que aqui faz referência ao grande marcelo montenegro. fecha parênteses.

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anteontem e ontem temos comentado o péssimo comportamento dos jornais ilhéus. hoje, novamente pelas capas de o estado do maranhão e o imparcial, poderíamos continuar com esta pauta/ladainha/lenga-lenga. mas, creio, nem (o m)eu, nem (o estômago d)os poucos-mas-fiéis leitores deste espaço agüentam mais tanto sangue e barbaridade.

a chuva nas bancas de revista me enche de tristeza e preguiça. quem lê tanta desgraça? quem quiser ver: as edições de hoje trazem (as mesmas) foto(s) de toda uma família chacinada em zé doca/ma.