a tarde de ontem sobre a tarde/noite de anteontem (ou: ainda tambores)

Ainda se ouve o ecoar dos tambores

Grande festa, ímpar e inédita, marcou o reconhecimento do Tambor de Crioula maranhense como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.

por Zema Ribeiro
da Editoria de Cultura

Talvez algum leitor já ande de saco cheio deste jornal tanto falar de Tambor de Crioula, dada sua curta – até aqui – existência [do jornal]. Mas diante da importância de tal acontecimento, seria no mínimo irresponsável ou desonesto trabalharmos a divulgação e não fazermos aqui uma pequena prestação de contas pelo acontecido: festa ímpar e inédita marcou para sempre a vida cultural deste Estado. Também corremos, é verdade, o risco de não conseguir retratar (em texto e/ou nas fotos que ilustram esta matéria) o que aconteceu ali. Como disse um passante: “Se um tambor de crioula já é muita vibração, imagine esse monte de tambores juntos. É energia pura!”.

Perto das 16h de ontem (18), sob o fino chuvisco que São Pedro mandava – certamente apenas em saudação ao colega São Benedito – era grande o número de pessoas que se amontoava em frente à Casa das Minas, onde acontecia a 53ª. reunião do Conselho Consultivo do IPHAN, que reconheceria oficialmente o Tambor de Crioula do Maranhão como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.

A Rua de São Pantaleão transformou-se em belíssima passarela, enfeitada com retratos de personalidades da manifestação maranhense. Uma placa no começo da rua anunciava o nome de mais de 100 grupos. Mais de 50 tocavam, muitos deles simultaneamente, no espaço compreendido entre a Casa das Minas e a Fábrica das Artes, onde estão instalados o Museu do Tambor de Crioula e a Capela de São Benedito, para onde sua imagem seguiu, em procissão acompanhada pelo grupo ilustre que participava da reunião, os grupos que tocavam e dançavam, fiéis protegidos pelo santo, populares e a imprensa.

“Acho que nunca vi tanto tambor de crioula junto”, dizia, admirado, um dos milhares de curiosos ali presentes. “Eu tenho certeza”, respondia outra. “É muito tambor, muito fotógrafo, muita polícia”, concluía um terceiro. Era um resumo da festa ao ar livre que estava acontecendo. Saias rodavam, cantorias animavam a tarde daquela segunda-feira toda especial. Comprados em botecos próximos ou sabiamente trazidos dos diversos bairros de onde vinham os grupos, conhaque e cachaça apanhavam ao longo do longo corredor onde era possível ver (e sentir) também (a fumaça das) muitas pequenas fogueiras – para afinar os instrumentos. A turba de jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos de imprensa – a grande maioria dos que estavam ali – perdia esses pequenos grandes detalhes ao tempo em que se posicionava estrategicamente esperando unicamente a saída do Ministro Gilberto Gil, que participava da reunião.

Um foguetório anunciando o fim da reunião e início do cortejo não conseguiu encobrir o batuque. A imagem de São Benedito, em um andor, conduzia a multidão, seguida de perto pelas autoridades, protegidas por um cordão de isolamento policial. A noite se aproximava e aos sons e cores se uniam as luzes. Pela rua e dentro da Fábrica das Artes, incontáveis grupos de Tambor de Crioula seguiam em suas apresentações, enquanto eram anunciadas as falas dos que compunham a mesa da solenidade, rodeadas pela imprensa (de um lado) e mestres do Tambor de Crioula (de outro).

Durante sua fala, o Ministro Gilberto Gil fez agradecimentos aos ancestrais. A dança de raízes africanas, para o reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, percorreu um longo caminho: foram mais de dois anos de pesquisas e inventário, sobre as origens da dança, o número de grupos existentes no Estado, importância e expressividades, que vieram a compor um dossiê que foi analisado nas aproximadamente 3h de reunião, ontem.

Joãozinho Ribeiro, Secretário de Estado da Cultura do Maranhão, frisou a importância do interior do Estado nesse processo. “É das muitas comunidades remanescentes de quilombos existentes no interior do Maranhão que pulsa a nossa verdadeira cultura”, afirmou. Durante a solenidade oficial ocorreu ainda o lançamento de selo e carimbo dos Correios, saudando o agora brasileiro Tambor de Crioula. Desfeita a mesa, já noite, Mestre Felipe saudou os presentes comandando, sobre o palco, uma grande roda de tambor. Em paralelo, dentro da Fábrica das Artes e ao longo da Rua de São Pantaleão ainda era grande o número de grupos que se apresentavam. “Isso tá com cara de que vai amanhecer”, prenunciava um brincante, ao se servir de mais um copo de cerveja.

De acordo com estatísticas da Polícia Militar, mais de 3 mil pessoas participaram da festa. Sem dúvidas, uma grande festa popular. Viva São Benedito! Viva o Tambor de Crioula do Maranhão! Viva o Tambor de Crioula do Brasil!

[a tarde, 19/6/2007; sobre o assunto, fotos, posts abaixo]

Autor: Zema Ribeiro

Homem de vícios antigos, ainda compra livros, discos e jornais. Pai do José Antonio. Apresenta o Balaio Cultural (sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM) e o Radioletra (sábados, às 20h45, na Rádio Universidade FM). Coautor de "Chorografia do Maranhão (Pitomba!, 2018). Antifascista.

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